Wednesday, June 28, 2017

CASA DE ORAÇÃO


“Vês estas grandiosas construções? Não deve ser aqui deixada
Pedra sobre pedra que não seja desmoronada”
Marcos, 1, 2


Quando fechares um dia as tuas portas
não será porque a noite
desceu o véu translúcido sobre as coisas

Ou porque te falte o amor
 para acolher os homens e mulheres perdidos
será porque a bagagem estava pronta e Ele veio.

Há sinais que o mundo ignora, o sangue
nas estrelas, a qualquer hora os mares
podem erguer-se do seu profundo leito
e os sismos
que abrem fendas nas nossas arquitraves

Quando fechares as tuas portas
será porque à hora mais inesperada
os relógios deixarão de ter valia
virá  Aquele por quem anseia a nossa alma

A qualquer hora da noite nos levantaremos
a qualquer hora do dia, subiremos de repente
pelo algodão das nuvens
e a casa de oração fechará as suas portas

E quem entrar, porque perdeu a noção da hora
encontrará cadeiras e talvez algumas mãos vazias
quando vier  Aquele que se espera
haverá um silêncio assombrado que passa
nos olhares dos homens
baterão com insistência à tua porta

Mas será o silêncio de Deus que encherá
para sempre os cantos mais recônditos
mesmo os mais iluminados desta casa.

16/6/2017

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Saturday, April 15, 2017

MARIA MADALENA





Germain Filon, (1537-1590) The Ressurrection, no Louvre


Maria Madalena seguiu o rasto do perfume
do seu Amor e chega cedo ao sepulcro
Maria Madalena ouvia
cada sombra do caminho e esperava do fundo
do sepulcro o silêncio matinal, onde queria
entrar docilmente com perfumes
levava nos seus olhos a tristeza
de flores minúsculas à chuva
o seu coração carregava uma dúvida
Mas se a morte existe
é porque depois existe a vida.

15-04-2017

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Wednesday, March 22, 2017

NEGAÇÃO


(The Denial of St.Peter, Rembrandt)



Pedro disse um não, depois disse outro
Sílabas pequenas de pronomes
Disse eu não, disse três vezes e a voz
Vinha de longe,  do instinto de preservação

A sua negação se fosse castigada
Como a mulher de Lot
Daria uma estátua de sal

Nessa noite
As sombras dos vultos à volta da fogueira
Faziam ruídos, para dentro do silêncio
Do discípulo,  um galo cantaria.

21-03-2017

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Monday, March 20, 2017

BATESEBA



(Francesco Hayez)


Vestida de água, lavavam-lhe o corpo
Com dedos cautelosos, deixou de lado
Um vestido azul, estampado com ouro
De flores amarelas
Bateseba lavava no corpo os recantos
Mais puros de ser mulher, alheia aos dardos
De um lampejo nos olhos de David
Uma pomba
Espreguiçava a sombra e o ócio
Num ramo de acácia.

20-03-2017

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Thursday, March 09, 2017

A ESCRITA



Que escrita inefável na terra
Ainda hoje intransponível,  nenhuma
Teologia a contém,  as palavras seriam
Em si mesmas gritos, memórias
Da luz em que se move a eternidade
Formas invisíveis do diálogo com Deus Pai
O chão foi permeável ao segredo. Fechado
O Amor até ao dia em que subiu ao Gólgota.
Caiam as palavras desde o fundo da alma.

09-03-2017

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Thursday, December 15, 2016

AS FAMÍLIAS FELIZES DAQUI E DALI


“As famílias felizes parecem-se todas; as famílias infelizes são-no cada uma à sua maneira.”
Este é o início de “Ana Karenine” (1878) e uma das introduções mais famosas da literatura mundial. É um romance sem materiais plásticos de grande exterioridade, apesar da exuberância do estilo realista “art nouveau” russo.
Obra de arte, realismo literário, o maior romance já escrito, é tudo isso e o mais que a crítica pôde e poderá vir ainda a aduzir. Ana Karenine é, sobretudo, um romance saga onde se começa com um grande amor e uma maior compreensão pela humanidade, evidenciada nas famílias, por parte do autor russo, quiçá por experiência pessoal de um casamento repleto de perturbações e brigas. No entanto, contra-natura do quadro familiar normal, Ana Arkadyevna Karenine, é esposa e amante simultaneamente, esposa de Karenin e amante de Vronsky.
Isto e a hipocrisia determinariam e contaminariam todo o romance, se Leão Tolstoi não alertasse o leitor, desde o incipit do mesmo, para o facto de todas as famílias infelizes, ainda que no meio de uma felicidade aparente, hoje dir-se-á de rede social e revista cor-de-rosa, o serem cada uma à sua maneira. Heidegger disse uma frase que também resume o início de "Ana Karenine":
"Trazer à luz aquilo que na maior parte das vezes se oculta naquilo que se mostra."
Tolstoi disse-o de outro modo, não podendo dourar a pílula. Claro que tudo é aurifulgente neste romance, beleza, riqueza, popularidade, ou mesmo conjugalidade/fidelidade mal resolvida.
Depois deste grande romance, só houve uma antítese na literatura mundial, já no século XX, “As vinhas da Ira”, de John Steinbeck.
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