Tuesday, December 29, 2009

Os Antinómicos "Ser-para-Morte" e "Ser-para-os-Outros"

Duas propostas sobre o Ser que contendem na natureza humana, e cujas perspectivas apreciadas por dois pensadores do século XX, um existencialista ateu e outro cristão radical, apontam caminhos diversos dentro das mesmas realidades a que o humano não pode fugir, a Morte e a Vida.
O « ser-para-morte» de Heidegger e o «ser-para-os-outros», de Bonhoeffer. São frases, mais conhecida a primeira que a segunda, construídas sobre uma estrutura da evidência da condição humana, que é, não obstante os defeitos, a condição humana do Ser.
A ausência mútua de Heidegger e Bonhoeffer um perante o outro no campo das Ideias, até no seu diferente modo de estar perante o nazismo, e a mesma ausência de ambos no meio evangélico, como pensadores, é um fenómeno de como ainda rejeitamos pensar o Ser Humano a não ser em moldes pré-concebidos, se não mesmo preconceituosos e baseados em maniqueísmos como bom, mau, preto, branco, crente, descrente.
Assim como, de uma forma errada -dizem os seus exegetas -,Heidegger pensava que a filosofia só poderia ser escrita em duas línguas: grego e alemão, muitos de nós julgam que o Ser Humano só pode ser pensado de um lado, o interior animado que precisa de uma salvação. Um homem abstracto diante de Deus, quando o que Deus mais quer é Homens concretos, assim como nos colocou diante de Um Filho concreto, o Verbo concreto que se fez carne.
Sabemos que no Éden o Criador não fez um ser simbólico, mas um Ser com espírito, alma e corpo. Mas por causa do pecado que produziu o que é designado como Queda, essa triunidade do Ser passou a estar sujeita à morte.

Martin Heidegger- dizia que a angústia ou o sentimento de aborrecimento – que chamava de profundo, não o aborrecimento trivial, circunstancial - no homem advém do facto da sua natureza temporal.
É a morte que termina a nossa constituição, segundo o filósofo. A nossa constituição terrena, a nossa estrutura corpórea, de acordo com a Bíblia Sagrada.
Ele partiu desta consideração, do Tempo, do limite temporal do Ser, para a consideração final do ser-para-morte.
Sobre a dificuldade que sempre parece ter aureolado esta frase, puramente existencialista, um aluno atento de Heidegger em 1955, o filósofo espanhol Julián Marías, logrou torná-la mais clara, ao escrever:
« Há uma frase famosíssima, citada mil vezes, segundo a qual, diz Heidegger, que o homem é sein zum Tod, que se traduz invariavelmente como "ser para a morte". O único problema é que isto não quer dizer no alemão "ser para a morte"; porque a palavra sein, que quer dizer certamente "ser", significa também outras coisas como "estar"; os alemães não dizem "estar" porque não têm o verbo "estar".»
O homem, segundo a teologia paulina, desde os alvores do Cristianismo «está» à morte, ou melhor «está na morte».
Como? Paulo revela aos efésios o percurso ontológico do homem e a mudança operada, ao acentuar que os crentes, vivificados agora, estiveram ( usa um particípio ) «mortos em ofensas e pecados», e sublinha não um estado momentâneo, mas o estado do Ser.
Embora este desde os primeiros dias distantes da Queda, após a Criação, seja ser para a morte, a partir do divino «certamente morrerás». Afirmação, com certeza, incompreensível ao homem por não saber o que era a Morte.
Não creio hoje que os primeiros Pais não a tenham ouvido sem experimentar angústia. A angústia desta frase acentuou-se em Adão e Eva e sucubiram perante o lôgro de Lucífer, como se a desobediencia desarmasse a proibição e o veredicto divinos.
A morte passou a ser – e Heidegger definiu-a não ignorando a teologia, porém em linguagem filosófica- como uma ameaça contínua, «ameaça por causa da sua constante presença». O ser para morte é essencialmente angústia, diz H. em O Ser e o Tempo.
Este existencialismo produziu um Ser sem esperança. Álvaro de Campos cultivando a perspectiva do nada, conferindo-lhe a substância da sua vontade de nada, na poesia “Lisbon Revisited” escreveu «A única conclusão é morrer.»
Se do ponto de vista da nossa compreensão e experiência da morte, esta seja sempre «a morte do outro», centrâmo-la em nós, será um dia a nossa. Enquanto isso, um teólogo do Discipulado veio trazer-nos uma outra dimensão do Ser, o Ser-para-os-Outros.

Dietrich Bonhoeffer- afirmou com a sua vida, perdida às mãos do regime nazi, este princípio mais do que cristão. Originalmente evangélico. «Ser-para-os-Outros».
Na perspectiva da afirmação de Jesus Cristo ( «o Filho do Homem também não veio para ser servido, mas para servir»), é anterior ao Cristianismo enquanto nome dado aos primitivos cristãos, é completa e genuinamente evangélico.
Pensou na morte? Obviamente, mas no sentido contrário ao de Heidegger.
Na sua conhecida obra da prisão hitleriana, antes de ser enforcado, escreveu: «Nos últimos anos, pensar na morte tornou-se cada vez mais familiar para nós.»
Era um pensamento não alimentado pela desesperança, mas estruturado com a serenidade porque cada novo dia de vida era um milagre. O seu testemunho di-lo, de uma forma corajosa: «Ficamos admirados com a serenidade com que recebemos as notícias da morte de companheiros com a nossa idade».
Neste contexto, o cristão deveria pensar mais no morrer do que na Morte, porque esta foi vencida por Cristo. «Tragada foi a morte na vitória»-clamava o apóstolo Paulo. Sabia que o último inimigo que há-de ser aniquilado é a morte. Porque Jesus Cristo sujeitou todas as coisas debaixo dos seus pés.
Mas toda a reflexão de Dietrich Bonhoeffer a partir da obra da sua vida, Ética, até à derradeira Resistência e Submissão, foi direccionada para o discipulado, a ética cristã e o serviço a Deus e aos homens.
Escreveu naquela obra que «toda a reflexão ética tem, então, por fito que eu seja bom e o que o mundo (através do meu fazer) se torne bom.» A realidade última desse serviço, defendia Bonhoeffer, não pertence à imagem profana do mundo sobre Deus, pertence ao crente no seu autotestemunho de Deus.
«O próprio Deus deixa-se servir por nós no humano»- escrevia nas Cartas da Prisão de Tegel ao seu amigo Eberhard Bethge.
Nesta obra há um diálogo teológico, sendo o tema central quem é Jesus Cristo hoje para nós? E nessa pergunta há as suas experiências contra a igreja oficial e a conspiração política necessária para que a igreja se não humilhasse ao regime hitleriano, submetendo a compreensão vital de Cristo aos jogos do poder, numa sociedade religiosa que tinha sobre si uma religião de Estado totalitário e criminoso.
O testemunho, a reflexão e a existência de Bonhoeffer, que resumia no «seu testemunho perante o mundo» foi nesse sentido de serviço aos outros. A nossa relação com Deus transforma-nos em «ser-para-os-outros» na comunhão de vida com Jesus Cristo.
Entendia o teólogo que Jesus Cristo não estava em rota de colisão com o espaço mundo,
porque contrariaria a noção de seviço ao próximo. A consequência prática de ser cristão.



Monday, December 28, 2009

Um poema sem pretéritos imperfeitos

Aqui um poema (Abriste-me a porta da vida) de Florbela Ribeiro sobre uma composição de arte fotográfica

Os romances do "DB" português

Via A Ovelha Perdida, temos aqui a análise erudita da pretensa ficção de conhecimento de um conhecido jornalista e pivot ( longe de ser anchorman) da nossa Televisão.

Wednesday, December 23, 2009

Palavra Profética, uma exegese poética

“Mas diante da igreja, antes quero dizer cinco palavras tiradas da minha cabeça, mas que os outros possam aproveitar, do que milhares de palavras em línguas desconhecidas.”1 Cor 14,19 (versão A Bíblia para todos p. 2246)

Há um baú de tesouro
repleto e palpitante de mistérios
inefáveis depositados por Deus,
como a terra úbere de minérios,

os próprios anjos dele se surpreendem
reclinados na indagação
de novo vento que lhes enfune as asas
e nos lábios lhes cante nova canção

não é de madeira preciosa
nem engastado de diamante
é dotado de riso e choro
de canto doce e troante

esse tesouro é a mente
incendiada e tenra do profeta
apurada para a interpretação de Deus
trasladada em voz de pastor, rei ou poeta

desse tesouro não retira o profeta
um gemido em estado bruto inexprimível
em língua celeste inaudita
mas palavra de homem inteligível

ao tempo e ao entendimento da assembleia
conforto coragem leme e lema para o povo
assim dita e pronunciada é como na árvore
nascente a pujança de um renovo

20/12/09

Rui Miguel Duarte

Tuesday, December 22, 2009

Ceias de Natal, nas vésperas


Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; e o principado está sobre os seus ombros; e o seu nome será Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz.
Isaías 9:6

***

Jacinto Lourenço

"Hoje de manhã, ao preparar-me para sair de casa, veio à minha mente este versículo bíblico. Como habitualmente faço, ouvia as primeiras notícias do dia na Antena 1 e, com elas, a de que os dois maiores partidos portugueses tinham realizado os seus jantares de natal, no mesmo dia, na mesma noite, a de ontem. Ora, como sou uma pessoa adulta, resolvida e medianamente inteligente, não estava à espera naturalmente que os dois líderes partidários se tivessem dedicado, mutuamente, poemas ou canções de natal, ou mesmo uma simples mensagem de boas festas. Mas também não esperava que o Natal, ou um simples jantar de natal, à volta do qual as pessoas normalmente se reunem para comer, beber e falar de tudo menos daquilo que é o Natal, viesse a servir de mote para que os líderes partidários, pessoas de quem devíamos esperar atitudes minimamente positivas por esta altura, se dirigissem mensagens, sim, mas de ataque pessoal e político, transmitindo desta forma, a ideia de que aquilo que conta não é o país ou as pessoas mas as suas intrigas político-palacianas, contrariando até o espírito deste natal “humanista” com que somos brindados pela sociedade mercantilista . Claro que não sou ingénuo, mas caramba, pelo menos que, nessa noite, em que juntam as suas hostes para um suposto jantar de natal, se coibissem de se degladiar e agredir e passar dessa forma mensagens negativas para a nação." Ler na íntegra Aqui

Saturday, December 19, 2009

A Estrebaria


a estrebaria fechou as portas
no aprisco não há ovelhas
os anjos já se calaram
e as estrelas nada anunciam
só resta a lembrança do menino
mas os homens enlouquecidos
já venderam até o seu nome
(Poema de Manuel Adriano Rodrigues, AQUI )

Friday, December 18, 2009

"Gaysamento"

"Mas porque tem o governo tanta pressa em aprovar esta lei quando sabe que está em curso uma petição, para obrigar à realização de um referendo, promovida pela Plataforma Casamento e Cidadania? Logo no início de Janeiro a petição será entregue na Assembleia da República, a solicitar a convocação de um referendo, e já dispõe de um número de signatários que torna obrigatória a sua apreciação pelo Parlamento. Ora, sendo o governo minoritário e havendo partidos da oposição que discordam desta lei, já se vê que as coisas não poderão ficar assim.Então, em nome de quê corre o governo este risco político de vir a sofrer uma derrota pesada, quer por via do Tribunal Constitucional, do PR e de um referendo que já antecipa vir a perder? Porque razão corre contra um património cultural tão importante e a sensibilidade da generalidade dos cidadãos?"

Questão oportuna que o dr.Brissos Lino, Poeta e Pastor Evangélico, levanta Aqui, para ler na íntegra.

Thursday, December 17, 2009

Afluentes sem vida

No final da Conferência de Copenhague sobre a saúde do Planeta, os poetas lembram a crise das almas tristes.
Nas lágrimas desse olhar
Leio emoções sufocadas
Sonhos desmentidos
Ilusões apagadas
Numa realidade cruel
Mas a vida segue
E prossegue
Estagnada pela dureza
Das amarras
Que te impedem de sorrir

(Florbela Ribeiro)

Friday, December 11, 2009

Poesia de Natal

Marc Chagall



Os anjos fariam um colar
de palavras do seu cântico

Se tivessem as ferramentas
dos homens e o fogo
fosforescente da forja
seriam as palavras anéis
de prata enfileiradas

Anjos tangendo os lábios
no mais puro hino branco
seus sorrisos soltando-se
das estrelas e nas pedras
os anjos caminhariam
sobre asas.

11-12-09

Wednesday, December 09, 2009

Última Hora: Bíblia Dake (Fake) vai ser recolhida

BÍBLIA DAKE SERÁ RECOLHIDA

Acompanhar a notícia Aqui

"No tempo em que não havia Pai Natal"

"Não vou falar do Natal, mas das coisas que acontecem à volta do Natal. Acho que, de todas as épocas, esta será a mais consensual no mundo cristão, seja qual for a confissão, embora nem sempre pelas mesmas razões, ou pelas melhores razões, para todos. Tenho, confessadamente, um problema com a forma como se celebra actualmente o natal; um problema que entronca na minha memória de infância sobre a época. Já o disse noutras ocasiões e circunstâncias, mas volto a repetir: estou divorciado do natal, deste natal feérico, de exposição mediática e intrusão mercantilista. Deste frenesi consumista fora e dentro de casa. Talvez por isso, já tenha alguma dificuldade em ouvir as músicas de natal que ecoam por tudo o que é sítio ao ritmo de papel de embrulho e laçarotes a metro. Ouço pessoas a desejarem-se constantemente "bom natal" ou "feliz natal" e lembro-me de como em criança eu gritava para dentro de poços secos de água para ouvir o retorno da minha voz devolvida pelo vazio do profundo."

Artigo up to date de Jacinto Lourenço, para ler na íntegra Aqui

Saturday, December 05, 2009

Nota de Falecimento: Poeta Joanyr de Oliveira

Inesperadamente, como chegam sempre as notícias por e-mail, veio, pela mão da secretária do escritor, a nota da morte do meu Amigo querido, Mestre e Companheiro na Poesia Evangélica contemporânea, Joanyr de Oliveira. Completaria dia 6, 76 anos.

"Prezados (a),
Tenho a triste missão de comunicar-lhe que o escritor pioneiro de Brasília, Joanyr de Oliveira, faleceu na manhã do dia 05, no Hospital Santa Helena em Brasília e será sepultado, no dia 06 (data em que completaria 76 anos), no Cemitério Campo da Esperança em Brasília.
O corpo será velado na capela nº 3 do referido cemitério, a partir das 14 horas, e sepultamente às 17 h.
Atenciosamente,
Rosângela Trindade"
Um Obituário que pode ser lido aqui

A Semiótica narrativa dos objectos de Gideão

O episódio bíblico-histórico de Gideão já originou um importante movimento evangélico à escala mundial. O paradigma foi, sem dúvida, a selecção tendo em vista uma determinada tarefa. Os Gideões Internacionais, como são conhecidos, seleccionados entre as diversas igrejas, desenvolvem, assim, um ministério nobre de espalhar o Livro de Deus em hotéis, escolas, hospitais, etc.
Mas a proposta fundacional daquela personagem do Velho Testamento aprofunda e desencadeia outros pensamentos e outras hermenêuticas. Porventura uma das mais aliciantes abordagens, será no âmbito da semiologia, digamos assim, dos objectos usados por Gideão.

Um episódio da história
Ao lermos o texto bíblico que narra a preparação da batalha contra os medianitas, cingimo-nos exclusivamente a que se trata de um episódio de passagem, em que Deus pretende que o seu povo de Israel compreenda que só pode ganhar combates confiando, não na sua força, mas na do seu Iavé. Neste âmbito, o livro de Juízes é, de facto, um conjunto de eventos, de repetição de eventos, dando sempre ênfase à estrutura moral e ética da história de uma nação teocrática e na exclusiva dependência do Único Deus.
Não devemos, no entanto, ignorar que existe, designadamente no episódio «Gideão, com trezentos homens, vence os medianitas», uma narratividade literária que estrutura o alcance teológico do ensino de Deus ao seu povo, numa circunstância adversa e de crise. Convém colocar em paralelo em todo texto, o assombro da grande literatura, a imaginação, e uma linguagem. Numa palavra, a língua comunictiva de Iavé, o próprio dizer de Deus à conversa com Gideão.
O filósofo e linguista George Steiner justificou no seu livro «Depois de Babel » a capacidade por parte do homem entender a língua de Deus, no Paraíso, pela existência de uma sintaxe divina, que ao longo da história do relacionamento de Deus com os patriarcas, profetas, sumo-sacerdotes, reis no Velho Testamento, se foi manifestando até à encarnação do Verbo. E assim dos Apóstolos até ao crente mais simples na Igreja de Cristo.


Neste relato bíblico, histórico-literário, com o seu poder de causar assombro como obra literária, a escolha dos homens culminaria depois com a escolha dos objectos e da expressão nominal simples de cada um dos mesmos.
A avaliação dos acontecimentos na estrutura da narração, dá-lhe de facto valor literário; a espiritualidade do texto, o que se pretendeu alcançar - o desígnio divino - confere-lhe o valor inspirado biblicamente, com os três objectos utilizados.

A semiologia espiritual dos cântaros, tochas e trombetas de chifre.
Os objectos apresentados na narração, representavam-se a si mesmos como objectos de uso comum, na vida e na realidade. Tiveram um papel instrumental. Mas eles apresentaram-se como uma metalinguagem também, não apenas como utensílios. Cada objecto caracterizava uma mensagem que se descreve pela semiologia. Cabe, assim, à semiologia descrever cada mensagem contida nesses três diversos tipos de comunicação.
Independentemente de tais objectos haverem tido uma funcionalidade precisa, ilustrando uma espécie de guerra psicológica engendrada pela estratégia de Gideão (in Comentário Bíblico Moody, Vol. II, pág.55 ), podemos apreciá-los pelo seu conteúdo espiritual e pelo que podem, idealmente, representar na vida do crente.

Cântaros de barro
A Bíblia Sagrada apresenta uma metáfora para falar da criatura humana como um vaso de barro nas mãos do Oleiro. Nos livros de Isaías e de Jeremias lemos acerca do homem como barro e obra das mãos de Deus, também no plano colectivo como Deus modelou o povo de Israel, usando o exemplo de uma olaria; na epístola aos Romanos, Paulo escreve sobre nós próprios como vasos de barro para honra ou para desonra, na perspectiva de que o oleiro tem direitos sobre o barro. É mais claro ainda um texto determinante desta verdade, que o mesmo apóstolo Paulo recomendou aos crentes de Tessalónica (4.4), nomeando o corpo como vaso ( no grego,skeuos ). «Que cada um de vós saiba possuir o próprio vaso (ou corpo) em santificação ».
Mas, o vaso de cerâmica(ostrakinos) ou de barro é um continente, vale o que vale o seu conteúdo, metaforicamente. No plano espiritual é um receptáculo, no que concerne ao ego precisa, na perspectiva bíblica, de desvestir-se ou partir-se para que resplandeça a Luz interior, como sucedeu com os cântaros ou jarros para água ( chamados na Septuaginta ydrias, os ydrías kenàs, jarros vazíos) dos homens de Gideão. Muitos séculos depois, já na Igreja Primitiva, Paulo falava de que o conhecimento da glória divina fora entregue, qual tesouro, em vasos de barro ( os tais ostrakinois skeuesin) (2 Co 4.6,7) Esta «declaração surpreendente» de Paulo, explica como Deus para dar ao apóstolo o conhecimento da sua glória, lhe iluminou o coração, das trevas fez resplandecer a luz, lhe entregou um tesouro que é o Evangelho.

Lâmpadas
Iluminar, nos textos bíblicos em paralelo com a experiência histórica, não é apenas fazer claridade na escuridão.
Teologicamente, a iluminação é sobretudo fundadora do reino da Luz contra o reinado das trevas espirituais, assim como no aspecto da vida social e familiar quotidiana desses remotos tempos, a iluminação era conseguida através do fogo,em lâmpadas com azeite.
Na obscuridade, o exército inimigo seria confrontado com luz, o habitual medo do escuro funcionaria nesse episódio dos midianitas versus Gideão ao contrário, a luz repentina das tochas do outro lado iria aterrorizá-los.
Transportando tal experiência para o campo da vivência cristã, dir-se-á que tal episódio também marca a relação do crente com o mundo. Quando Jesus Cristo afirmou «vós sois a luz do mundo», foi mesmo isso que quis dizer, na decorrência da proclamação das Boas Novas que incumbe à mulher e ao homem cristãos. Portanto, o crente não é uma metáfora da luz, ele mesmo é portador dessa luz pelo novo nascimento. Paulo escreve aos Tessalonicenses que «sois filhos da Luz e filhos do dia», e, assim, o Dia do Senhor não apanhará o crente de surpresa.

Trombetas de chifre
O toque das trombetas não foi um som de beleza, um sinal estético, foi um toque por impulso da urgência.A prática do povo com as trombetas de chifre era uma experiência de vitória. Foi um paradigma que não deveria ser mudado. O objecto de osso de carneiro lembrava este com substituto no sacrifício de Isaac.
Shofar, do hebraico, é um instrumento de sopro antiquíssimo, não produz sons delicados. Não é usado por prazer ou divertimento. Gideão usou as trombetas como uma sinalização, para marcar uma presença inesperada no campo da noite. O som poderia ter uma leitura semiótica, do nosso ponto de vista menos do que a leitura do significado do objecto.
Na obscuridade da acção o inimigo seria confrontado com um som e com a representatividade de uma nação, já que a trombeta era um objecto nacional dos israelitas.
A trombeta (shofar) não tem função em serviços religiosos nos dias de hoje. Contudo, na sua transposição metafórica para a Igreja, digamos que tem um substituto, do ponto de vista do que pode simbolizar. Como experiência no campo espiritual para os cristãos, a trombeta insere-se no plano do testemunho pessoal do crente, da sua nacionalidade e cidadania dos céus, da proclamação do Evangelho e da notícia que Jesus Cristo é Redentor. Noutro plano, se quisermos escatológico, o crente é um arauto da mensagem da Parousia, que assinala a próxima Segunda Vinda do Senhor, como anuncia o rapto da Igreja. #

Saturday, November 28, 2009

Lutero: Sem Sonhos, Nem visões...

Sem Sonhos, Nem visões...
Imperdível, pelo menos esta nota inicial do texto, tão necessário hoje no que concerne a uma revisão ou reforma (?) de métodos, dando lugar exclusivo à Bíblia Sagrada.

"Infelizmente parte da Igreja evangélica não tem sido guiada exclusivamente pela Palavra de Deus. Em algumas denominações percebe-se nitidamente que a tradição religiosa, as experiências místicas, além de técnicas terapêuticas e estratégias de marketing, servem como bússola e orientação àqueles que se denominam cristãos."

In Púlpito Cristão, via Ab-Integro, de Jacinto Lourenço

Saturday, November 21, 2009

As virgens das lâmpadas


Estão paradas a segurar
a sua sombra
até que o sol seja um lento
traço fino no horizonte

Estão paradas e olham para as mãos
há no desenho das chamas
uma forma quase de estrelas
brilham, tremem as mãos
iluminadas nas candeias

Esperam o baixar
e o subir do sangue
ao coração
Esperam paradas, encostadas
ao seu sono

Enquanto a língua do lume
lambe as feridas da noite.

21-11-2009

Tuesday, November 17, 2009

O Dante da Poesia Bíblica



Há uma observância das normas da poética no livro bíblico do profeta Isaías.
Com efeito, existem provas incontáveis de como a melhor poesia pode prescindir do metro. No estudo de uma poética ocidental, não foi por mera referência editorial que se escreveu sobre a grande poesia que pode dispensar a metrificação, e que tal se estende até ao livro bíblico de Isaías.
Uma referência do nosso tempo, o crítico literário Harold Bloom já havia escrito, que, face à realidade social em que se vive, o homem actual é exortado a encontrar “em Platão ou em Isaías a origem da nossa moralidade.” (O Canone Ocidental, pág.39)

O estilo deste profeta integra uma unidade que a crítica não pôde desintegrar, embora desde o século XVIII o tentasse fazer. Como é do domínio dos estudiosos, essa crítica colocava em questão a identidade do autor, sugerindo a hipótese de várias identidades autorais do Livro bíblico profético.
O prof. Adriano Moreira afirmou, a este propósito, que, contrariamente às hesitações da tal crítica, o Livro de Isaías mantém a continuidade da voz e da mensagem, da voz de Isaías e da sua Profecia, nas Escrituras Sagradas.(Isaías, Três Sinais Editores, Apresentação de AM)

É, com certeza, no âmbito do Fundamentalismo evangélico, um estilo literário, assim considerado há muito, com estudos fundamentalistas desde o princípio do século passado. «O estilo de Isaías difere amplamente de qualquer outro profeta do Antigo Testamento»- escreve o prof.George Robinson na colectânea Fundamentos (Edição de R.A.Torrey, Hagnos, pág.93)

O filho de Amós estabelece desde o início o paradigma do seu Livro ao declarar que o mesmo será resultado de uma Visão. E di-lo de uma forma linear, comparativamente ao princípio de Ezequiel, que o faz de um modo prosaico e muito histórico-literário, também. O termo hebraico châzôn (sonho, revelação, oráculo), compara-se ao grego orasis, o que equivale à coisa que se torna visível. E a poesia torna as ideias visíveis nas palavras. Gostaria também de usar aqui o termo «poesis», que significa «fazer», referindo-o como uma forma de arte, de criatividade visual.

Com efeito, a poesia existente no Livro de Isaías permite-nos que «vejamos» o que o profeta escreve e vaticina, as suas imagens, as suas metáforas.
Por exemplo, do entrecho poético: “Como são belos sobre os montes os pés do mensageiro que anuncia a paz, que traz a boa nova, que apregoa a vitória, que diz a Sião: “Já reina o teu Deus”( Is 52,7). Os “pés do mensageiro” com feridas, sujos da poeira da estrada, são “belos” na poética do profeta. A razão é a qualidade da mensagem, a sua totalidade mensageiro / mensagem, a boa nova que é ela própria um som de paz. Forma e conteúdo da mensagem são a mesma coisa: uma voz pacífica perante a visão dos atalaias que já distinguem o retorno do Senhor a Sião.

Outro entrecho do Livro, o cap.53 é paradigmático. Sendo profecia, traduz porém o acontecimento numa linguagem estruturada em símiles e metáforas. A antevisão da paixão e crucificação do Messias é notavelmente de poética.

Poderíamos dizer que na poética do profeta bíblico existe o paradigma de uma antecipação do estilo modernista, 2.600 anos antes, obedecendo no entanto ao rigor das normas hebraicas, mas com apontamentos da área dos tropos da linguagem. Como alguém considerou, é fácil descobrir que o Livro de Isaías contém mais vocabulário do que qualquer outro livro da Bíblia e artifícios de linguagem.

Antes de movermo-nos para outro ponto sobre a poeticidade do escrito Isaías e sobre este como poeta, deixem-me exemplificar: ele usou um esquema que hoje conhecemos como quiasmo. Esta figura literária de repetição pode ser pensada como a do paralelismo hebraico.
Assim esquematizado: ABCDDCBA ou ABBA Vejam-se dois exemplos: A-Efraim B-não invejará a Judá B- e Judá A-não oprimirá a Efraim. ( 11,13) e 55:8: A-Porque os meus pensamentos B-não são os vossos pensamentos, B-nem os vossos caminhos A-os meus caminhos, diz o Senhor.

A observância da poética em Isaías é um problema da cultura, problema do qual faz parte a solução para o entendimento da linguagem da poesia de uma boa parte do livro do profeta bíblico.Tanto na forma como conteúdo.
Citando, comparativamente, o teólogo Richard Niebuhr, «Paulo foi um conservador cultural» e não rejeitamos de modo algum que tenha incluído no seu discurso em Atenas a referência a dois poetas pagãos da cultura greco-romana: Aratus e Cleantes.

A Cultura é um meio que deve dar expressão à Fé, e não um fim em si mesma. O profeta Isaías, no seu tempo antes de Cristo, não citou poetas, ele próprio foi poeta, exprimiu a sua Visão e a sua Fé no Servo Sofredor através da sua cultura poética. Isaías é um autor bíblico que explica tudo.
O próprio uso do termo «Senhor dos Exércitos», que é uma forma universal no escrito inspirado de Isaías trata do senhorio de Deus sobre anjos e estrelas, isto é, o Criador do Universo inteiro, porquanto na linguagem bíblica os «exércitos» divinos são os anjos e as estrelas.

Outro termo utilizado é o peculiar «o Santo de Israel» que é uma particularidade que identifica o Senhor da Nação, e marca esta como constituída por um Povo peculiar e separado para corresponder ética, moral e espiritualmente à santidade.
Nesse tempo já havia termos que definiam e caracterizavam, nas literaturas clássica de antes do Velho Testamento, soberanias e autoridades, designadamente «o pastor de povos», que se referia aos reis e é designado na Ilíada e na Odisseia de Homero – os poimèn laôn.
Tratava-se aqui de uma metáfora, uma símile literária que o profeta Isaías cristalizou no seu Livro, no contexto de Israel, ao falar do que vira na sua visão mística, «o Rei, o Senhor dos exércitos», o Criador do universo inteiro. Isaías tem sido definido, pelos estudiosos do seu Livro bíblico, desde 1775 como o «Dante da poesia hebraica».

Porquê Dante? Por este ser um admirador da arte dos Salmos? E da Roma cristã? Pelo estilo da escrita, das imagens, pela potência inventiva das frases, ou pela sua estrutura visionária da sua obra-prima? A Divina Comédia? Sobre Dante escreveu-se que ele vê e sente por imagens. Cada episódio é um reflexo variado de tudo aquilo que agita a alma de Dante.
Ele sente-se como vidente e profeta investido de uma missão divina.
Dante sofre perante tais imagens dessa visão dantesca, a que já se chamou a «danteide» desde o Paraíso ao Inferno. «Dante sofre por aqueles factos e aquelas impressões, e quer transmitir esse sofrimento; doutro modo não poderia dar a entender aquilo que deve ou quer, ou seja o aspecto e os perigos do Inferno»

Isaías sofreu perante a visão do Servo Sofredor, de Cristo na figura da ovelha muda perante os tosquiadores, sem beleza alguma para que fosse desejado. Isaías cujo nome tem parecenças no sentido do de Jesus, «o Senhor salva», é talvez por essa razão considerado o «Dante da poesia bíblica».
Sendo considerado o primeiro dos evangelistas, viu o Amor de Deus a entrar solene com corpo no mundo antigo, a estabelecer a era da Graça. Estabeleceu na sua profecia uma moralidade transmitida por palavras poéticas e uma ética na sua narrativa que apontava os erros e o futuro de Israel e retratou quase um milénio antes o percurso evangélico de Jesus Cristo, do Advento à Cruz, com uma poética da Graça divina.

Wednesday, November 11, 2009

Claude Lévi-Strauss-Antropólogo da Alma

Morreu em 30 de Outubro o homem que devolveu a alma aos indígenas das Grandes Antilhas e aos brancos Espanhóis, após a descoberta da América. Uns enviavam comissões para se saber se os índios tinham alma, e outros afogavam os descobridores europeus para verificarem se os cadáveres entravam em putrefacção.

Morreu o homem que deu rostos humanos à densidade fechada da Amazónia, e restaurou para o pensamento teológico da Europa a inocência da nudez do primeiro Éden do primeiro homem e da primeira mulher, entre as tribus dos Nambikwara e dos Tupi-Kawahib.

Morreu o homem que afirmou que «existem muito mais culturas humanas do que raças humanas» e que repentinamente espaço e tempo se confundem.
O seu estruturalismo edificou no inefável dos arcanos das raças esquecidas um espaço imaterial
para a alma humana, que era negada pelas raças ditas superiores.

Foi o antropólogo, dos homens e das suas linguagens, dos morfemas e dos fonemas da linguagem humana perdida nos meandros das selvas, que odiou as viagens e os exploradores, mas viajou nas décadas de 30 e 40 sobretudo, para trazer à dita civilização europeia, civilizações alegadamente perdidas.
Por isso foi como linguista também que transformou os tabus sobre o desconhecido em antropologia, em homens e mulheres sobretudo.

Percebi isso quando há 35 anos li Raça e História. E entrei no coração dos trópicos, na alma devolvida aos indígenas, quando li, mais tarde, Tristes Trópicos.
E para os dias de hoje foi um profeta, anteviu na década de 50 o nosso rosto ocidental em transformação na Ásia, a mesma que estava e está a antecipar o nosso futuro, e já isto nos seus tempos de vigor o assustava.

Morreu aos 100 anos em plena globalização daquele seu medo - descrito nos Tristes Trópicos - «o que me assusta na Ásia é a imagem do nosso futuro por ela antecipada».

Monday, November 09, 2009

Morreu-me um Amigo Poeta e missionário


A última crónica que o Florentino Lavrador escreveu no seu Allahu Akbar!, em Abidjan, Costa do Marfim.


"Gostaria de viver à "tripa-forra" como qualquer pessoa no mundo, mas não vivo, e nem isso me dá pena. Li num livro muito interessante que "uns confiam em carros e outros em cavalos, mas nós faremos menção do Senhor dos Exércitos". Foi por esta regra que quis pautar a minha vida sem sempre o conseguir...realizado? de modo nenhum. Enquanto existirem crentes chiques sentados nas igrejas e homens miseráveis sem haver ninguém que lhes fale do evangelho não estarei, repito, de modo nenhum, realizado!»


Morreu ontem, com um tumor cerebral fulminante. Até já, Poeta.

Outra crónica, de 13 de Maio:

«Depois de alguns dias de chuva intensa acalmou-se o céu e o calor imenso tornou ao seu lugar. As ruas parecem-me agora mais lavadas e simpáticas e até as pessoas aparentam um ar mais feliz. Saímos para evangelizar como habitualmente e foi-me mister apanhar um transporte público. Depois de muito esperar alguém tomou o meu lugar no « woroworo » amarelo. Não me apeteceu reclamar mas o meu companheiro não hesitou em fazê-lo. Pedi-lhe por favor para se acalmar pois decidi desde algum tempo não tecer juízos de valor. Ele olhou-me espantado tentando compreender a minha “loucura”. Não sei se estou a ficar mais maduro ou mais paciente mas sei que estou a ficar mais velho. Deve ser isso, a idade a fazer das suas!»

Cd Tiago Guillul IV ou o rock protestante

«Ouço chamar o meu nome três vezes durante a noite / Três vezes durante a noite / Ou o anjo me vem saudar / Ou ministrar-me um açoite». Um começo para o rock-punk protestante.
Este também: «Lou Reed queria ser preto/Eu quero ser Lou Reed/ Anão quer ser Golias/ Golias quer ser David».


Eu já tinha entrado no rock evangélico, nesta década, através de bandas como Éden, da AD Ovar, nunca havia entrado fundo no punk-rock evangélico, ou melhor no bom rock protestante. Chegou às minhas mãos, pelo meu filho João que frequenta a Igreja Baptista de Benfica, o trabalho já nacionalmente reconhecido do pastor Tiago Cavaco (dito Guillul).

Este Cd é muito mais do que um rompimento de preconceitos. É uma mensagem, o meio é a mensagem.

Thursday, November 05, 2009

Conto com estrutura de novela


Auto-Retrato, ou uma ficção literária sobre uma mulher doente há 12 anos.

Florbela Ribeiro, experimentada no conto de raíz bíblica e evangélica curto, abalançou-se agora naquela que poderá ser uma novela pequena, na sua extensão e estrutura. Aqui, no Portal Evangélico.


"Jéssica repousava a excessiva magreza do seu corpo cansado e doente. Na cama adornava a silhueta esguia com uma nobre e delicada colcha de linho, bordada à mão. Mas permitiu que o seu olhar baço pela dor se ausentasse dali.
Através da janela entreaberta, entrava uma brisa fresca, que fazia esvoaçar com subtil leveza a brancura da cortina de organdi.
Havia um sinal de que o calor intenso que se fizera sentir ao longo de quase todo o dia, começava finalmente a dar tréguas.
Em frente, e por cima da cómoda de carvalho maciço, o auto-retrato, pintado por um conceituado artista israelita, observava-a atentamente, parecia perceber quais os caminhos por onde vagueava o pensamento."

Saturday, October 31, 2009

África

Sem sapatos, os pés na terra
descalça, sem camisa
sem a negrura
dos problemas da alma

Com o coração forte
como a corrida do antílope
com uma casa de vento
capim e barro

Sentada à porta fumando
a fogueira foge
para o rotundo silêncio
no seu mover lento

Aos seus pés insectos mortos
descem até ser pó
e a atmosfera cheira
mudando de lugar

e nas tuas mãos
a terra gretada, os teus dedos
adormecem os cabelos
dos teus filhos.

24/10/2009

Wednesday, October 28, 2009

Socalcos da memória

Foram-se os anos
e o vigor da juventude.
As encostas transportam as marcas
que o tempo cavou.
Por entre vincos e socalcos,
surge um lampejar enevoado.
Cerram-se as portas atrás das sebes.
Tenta-se olvidar a ausência de quem parte,
sem chorar de abandono.
Abrem-se as janelas da memória,
entram as alegrias de outrora,
e a solidão relê, uma e outra vez,
a mesma história.

Florbela Ribeiro

Saturday, October 24, 2009

Ecce Poiema




"Mas como não acreditaste no que te disse, vais ficar mudo, sem poder falar, até ao dia em que isso acontecer, pois tudo se realizará no tempo devido.”

Evangelho de Lucas 1:20 (versão A Bíblia para todos, p. 2'44)

Para mãos que trabalham
sem uma língua treinada
o silêncio pode ser de ouro
ou de chumbo maciço

Porém, esse silêncio ainda fala
ainda está cheio de poemas, cânticos
confessa apreensões ou revela sonhos
da dentro da linfa, das cavidades do osso

Voz que duvida, que fala do que não sabe
que com as mãos se queda a queimar incenso
a vigiar que a chama da menorah perene arda
a oferecer os pães

que escreve febril o que o silêncio apenas sussurr
ao que a voz na laringe emudece

Que te diz e conta, Zacarias, a voz que te secou?
Voz que guarda e
burila a sabedoria
que decanta os segredos
confiados pelo anjo do Senhor
esculpidos no ventre da tua mulher
afinados em outra voz, a que clamará no deserto

Mas quanto melhor
não é,
como numa salva de prata uma maçã de ouro servida
é a voz irrompendo
finalmente instruída e madura
que fala
e canta os altos louvores do Senhor!

22/10/09

Poema de Rui Miguel Duarte

Thursday, October 22, 2009

A piscina de Saramago

«Saramago ao inaugurar a sua nova piscina literária baptizando-a de Caim, anunciou aos nadadores um oceano infinito chamado Bíblia. E ninguém vai querer um patinho de borracha ou uma bóia numa piscina com cloro quando pode pescar e mergulhar num oceano de águas profundas.»

Artigo de João Pedro Martins, em
A Ovelha Perdida

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Hoje, no FACEBOOK

Saramago é um anarquista de Deus - há Deus? Então eu sou contra.
E desenvolveu um novo ateísmo- «Deus não pode existir, não existe mesmo, mas é uma «pessoa que não é de fiar», é «vingativo», etc.
Afinal trocou-se a não existência de Deus pelos juízos éticos e morais sobre o Deus que existe. É melhor ser ateu, apenas.

Wednesday, October 21, 2009

O Muro


Inédito do poeta, meu amigo e companheiro, Brissos Lino:

É o que resta da glória de antanho
pedras sobreviventes
que repousam sobre ricas memórias
salomónicas
que se deixam fecundar por bilhetinhos
de orações a Iavé
que se sentem tão importantes
que os homens se curvam
perante elas
compassadamente
pedras intocadas que resguardam
a tua história, ó Jerusalém
e esperam, tranquilas
o futuro dos profetas.
O muro do Templo
é feito de lágrimas amargas
e esperança de restauração.
19/10/09

Monday, October 19, 2009

O anti-Caim da última Literatura Portuguesa


«Caim interessa-me há muitos muitos anos, é uma coisa que foi crescendo e que, de repente, já não consegui suster, tive que começar a escrever", disse José Saramago.
Escrever em apenas quatro meses 181 páginas de algo que contribuiu para a desarmonia da Humanidade, que leva um remoto tempo inefável a digerir pelos seres humanos, ainda por cima em tom jocoso e irónico, pode ser um bom exercício literário, mas é pouco sério eticamente. Sobretudo se se diz no próprio livro que a história a re-contar é «um atrevimento».

No entanto, quando editorialmente acontece o lançamento de um livro de Saramago, o país e o mundo das letras rejubilam como se se tratasse do último romance da literatura portuguesa. Nada mais parece existir para lá da nebulosa Saramago.

E quando este exprime opiniões sobre o seu Grande problema, os diários trazem à primeira página títulos enormes: «o Novo Saramago põe Deus como autor moral de um crime»(DN). E o próprio autor revela a raiz do seu problema:
«Hay quien me niega el derecho de hablar de Dios, porque no creo. Y yo digo que tengo todo el derecho del mundo. Quiero hablar de Dios porque es un problema que afecta a toda la humanidad».- afirmou o escritor ao El País.

Escreveu um dos meus amigos no Facebook (o maestro Pedro Duarte), entre outros comentaristas, que «Saramago acredita em deus, sim. Ele é deus. Logo Deus não pode fazer parte do mundo de deus. Saramago tenta criar um mundo seu e nessa 'missão' sente necessidade de reinterpretar a realidade à luz do seu mundo tenebroso.»

O prof.dr.Jónatas Machado, também naquela rede social, opinou: «Para quem não acredita em Deus, Saramago sente-se muito incomodado por Ele. Ao negar Deus, Saramago nega a existência de um critério objectivo de justiça. No entanto, ele pretende deter um critério objectivo de justiça com base no qual se arroga julgar e condenar Deus.»

É a partir desse seu mundo fechado e «justiceiro», no sentido da justiça popular, que o autor pretende julgar Deus, com um critério objectivo de pretenso ajuste de contas. Nesse mundo que o escritor inventou, que é o locus da sua última obra- o jardim do Edén, uma caverna no deserto após a expulsão da família adâmica- , pretende aí reinterpretar não os actos divinos, mas o que ele afirma serem os seus efeitos.
Assim, temos um Caim que é, no entender e na expressão saramaguiana, um «efeito» de Deus. Um «erro» moral.

Os primeiros parágrafos do livro conduzem-nos diante de um deus irado, errático na sua obra, que é responsável por tudo quanto vem a seguir, no entendimento do autor.

« Quando o senhor, também conhecido como deus, se apercebeu de que a adão e eva, perfeitos em tudo o que apresentavam à vista, não lhes saía uma palavra da boca nem emitiam ao menos um simples som primário que fosse, teve de ficar irritado consigo mesmo, uma vez que não havia mais ninguém no jardim do éden a quem pudesse responsabilizar pela gravíssima falta, quando os outros animais, produtos, todos eles, tal como os dois humanos, do faça-se divino, uns por meio de rugidos e mugidos, outros por roncos, chilreios, assobios e cacarejos, desfrutavam já de voz própria. Num acesso de ira, surpreendente em quem tudo poderia ter solucionado com outro rápido fiat, correu para o casal e, um após outro, sem contemplações, sem meias-medidas, enfiou-lhes a língua pela garganta abaixo» (primeiros parágrafos do romance)

Ao iniciar a leitura de ficção, romance , novela ou conto, com objectivo crítico-literário, gosto de parar no primeiro parágrafo, aí pode-se ou não definir o curso do rio onde fluirá o enredo e a intriga e como se manifesta, no sentido de uma epifania, a personagem ao mundo.
Dou um exemplo de leitura recente, Philip Roth em «A Conspiração contra a América»;o autor começa com a chegada à Casa Branca do presidente eleito em 1940, o aviador Charles Lindeberg, e inicia uma metáfora sobre o anti-semitismo; como se vê, é uma metáfora e uma ficção da memória, uma falsa memória.

No romance «Caim», José Saramago inicia também a sua obra ficcional com uma falsa memória, começa com um preconceito que passa a falsidade e vai por aí fora de deturpação em deturpação.

A mão de Saramago sobre o texto bíblico é como a mão talibã sobre a arte dos budas de pedra.

A «lógica impecável» que o autor atribui ao desenvolvimento da sua proposta, o humor pela segunda vez usado (a primeira na Viagem do Elefante) e a alegada profundidade da história que se propõe recontar – disse-o ao suplemento Babelia do El Pais –, não se objectiva apenas por razões de estética ou criação literária, sobretudo o que pretende Saramago, é afirmar que o Caim bíblico faz parte de uma «história mal contada».

E, assim, o escritor de Lanzarote quer «repôr» o que se terá passado. «Abel e Caim, desde a mais tenra idade pareciam os melhores amigos», foi o alcance do «fumo» dos holocaustos que começou por ditar a discórdia. O de Abel subia ao infinito, o do irmão não passava do solo. Abel provocava o irmão com esse facto, o que terá levado Caim à ira.
Os valores éticos de Saramago invertem-se sempre, os bons passam a maus, estes são vítimas das circunstâncias; para o escritor «o erro divino».

Esse evento da primeira morte, segundo a teogonia antropológica do autor tornará Deus culpado do sangue de Abel. É a perfeita idiotice da inversão de valores. É a não lograda destruição da Ética divina. É a mais descabida proposta, requentada e pseudo-filosófica, de Deus como autor do Mal.

De uma forma mais simples, trata-se da introdução na obra ficcional daquilo que o escritor insiste em chamar desde o ano 2001 o «factor Deus», que afecta a humanidade.

No que concerne ao Catolicismo ofendido, nome geral com que o autor quer tocar no Cristianismo e na Bíblia, tudo é mal contado, daí ter proposto em 1992 uma absurda figuração de um Messias humano no controverso romance «O Evangelho Segundo Jesus Cristo». Quis humanizar Jesus Cristo, agora quer «humanizar» Caim.

Caim leva-nos biblicamente à teologia da necessiadade de adoração correcta a Deus, do perigo da aproximação do homem de Deus de modo incorrecto, sem a remissão pelo sangue expiador, leva-nos aos resultados do pecado, da Queda, da Morte que começou a ter o braço executor no ser humano.

Caim é ser humano, logo não há, neste contexto, que o humanizar. Será, no entanto, querer ser compreensivo para com o seu acto fratricida? Bondade saramaguiana.

No que concerne à morte, que acaba por ser protagonista ou um deus ex-machina no romance, o autor atribui-lhe a ela a invenção de Deus. «Sinceramente creio que a morte é a inventora de Deus».diz o escritor, para falar dos objectivos da religião.

Com certeza ciente da gravidade das suas proposições em forma literária, Saramago chama ao que escreveu «as minhas fantasias». Estas são levadas ao paroxismo central do romance, do meu ponto de vista. O assassinato de Abel.

A morte de Abel tem uma atenuante justificação, é o crime contra a pessoa errada. Percebe-se logo entre as págs. 35-38. A grande questão que o pretenso ateísmo do escritor quer colocar é, sobretudo, a frase do diálogo central entre deus e Caim. Este diz que «matou Abel por não poder matar deus». Está tudo dito. Embora o livro termine com a incontornável discussão deste tema sempre em aberto.

Sunday, October 18, 2009

Ferida, poema de Rui Miguel Duarte

“Espera-O uma coroa de espinhos
para secar o sangue sobre a fronte, espera-o
a fome de um chicote
que as costas lhe há-de devorar”

J. T. Parreira, “No Jardim do Gêtsemani”


A fome batia uma litania
vai e vem sobre o dorso como tambor
O látego batia em sintonia
com a contagem ritmada
da voz do decurião
uma, duas, três, até quarenta
e com os gritos
de dor do condenado

E latejava as nossas cabeças
dentro de cada dentada das fauces
do chicote estampido vai e vem

Acirrámos os dentes
em aprovação do castigo
e dos gritos do condenado
as costas devoradas
as gotas de sangue salientes
eram o nosso prazer e satírico canto

Mas não deixávamos de pensar
que a obra do carrasco
devia ficar na discrição
recôndita duma caserna romana
longe da vista e do coração
e ensaiámos apartar o olhar
desviá-lo do esbatimento do seu rosto
em busca da geometria da dança
de um bando de pássaros que por ali voasse
ou admirar as coríntias colunatas do pátio
onde decorria o evento

Mais tarde esperava-o uma coroa
sobre a cabeça de espinhos
para o sangue na fronte lhe secar

E escorria das nossas cabeças

E depois ainda
esperava-o ser fixado na cruz
poucos de nós ficaram para ver
preferimos meter-nos pelas cruzes das ruas
pés apressados para o recolhimento e a piedade
pois esperava-nos a Peschah em casa
ao lume do assado do cordeiro,
o único a quem hoje se devia secar o sangue

Mas o vai e vem do flagelo batia em nós
e a voz de comando do decurião e os gritos de dor
o sangue porfiava em correr de nós
como mulheres nos dias da impureza
os panos não o estancavam
banhámo-nos mas a água
solidária tingia-se de escarlate

O chicote a coroa a voz do decurião e o sangue éramos nós
o que tínhamos nós com esse contumaz blasfemo
de rosto deformado condenado?

Caímos no chão

Éramos nós os condenados
de costas devoradas e frontes sangradas
à beira do vale onde a morte se dissimula de sombra

Por fim acordámos

Esse sangue
penetrava-nos até ao coração
e corria agora neles
lavados

17/10/09

Rui Miguel Duarte

Friday, October 16, 2009

A «bíblia» Dake


Não terá por sido por ignorância doutrinária que a CPAD editou e divulga esta «bíblia» herética, dando assim indirectamente respaldo a, pelo menos, uma doutrina : a da Prosperidade, a do chamado «toque de Midas» e outras aberrações teológicas. Sendo talvez a maior, a imagem descrita pelo comentador acerca de Deus.

Exempli gratia: «Ele tem um corpo espiritual pessoal; forma; forma; imagem e semelhança de um homem. Ele tem partes do corpo, tais como, peças de volta, coração, mãos e dedos, boca, lábios e língua, pés, olhos, orelhas, cabelo, cabeça , cara, braços, quadris e outras partes do corpo.» Anotado (Dake de Referência Bíblia, Finis Jennings Dake, publicado pela Dake Bible Sales, Inc., Atlanta, Geórgia, Novo Testamento, pp. 96-97).

Faça-se, porém, a justiça de dizer que circula um texto a divulgar a posição dos editores, o seguinte:
«Assim, de acordo com o Pr. Silas Daniel, editor chefe da Casa, a CPAD se comprometeu em publica-la na seguinte condição: liberdade editorial de supressão de desvios e ideais contraditórios com a doutrina e teologia adotada pelas ADs no Brasil. Autorizados a fazer a supressão dos desvios de Dake pelos editores que detêm os direitos de publicação, foi mantido os principais recursos, notas e estudos que estejam em harmonia com a ortodoxia bíblica, doutrinária e teologica. De acordo com o Pr. Silas Daniel “...os erros doutrinários já eram conhecidos e foram devidamente retirados. "

Se eram conhecidos os erros, por que razão a BD foi editada e divulgada ao mais alto nível?

Thursday, October 15, 2009

A imortalidade do Nada

A breve imortalidade do Nada em Álvaro de Campos, breve texto suscitado por Ed René Kivitz

Aqui no AB-INTEGRO

Tuesday, October 13, 2009

O Prado

Os nossos olhos dão o alarme
seria útil ter no bolso
a quarta dimensão
para ouvir tudo o que dizem
através dos séculos
as estátuas e os quadros

as Meninas fechadas
por Velázquez, em vão
esperamos a forquilha
do vento na carroça de feno
de Hieronymus

alheios a nós próprios
isso passa reflectido nos espelhos
e enterramo-nos no Museu
até à sonolência
que desce às nossas pernas.

Friday, October 09, 2009

Re-edição de O Homem Que Ninguém Via

Os analistas políticos no que concerne à eleição de Barack Obama não puderam sair da tautologia. Os seus textos, desde o primeiro dia (4 de Novembro), entre o The Washington Post e a Time, fizeram um arco, um segmento de círculo para depois o completar, voltando depois ao inevitável: «Obama Makes History».
De facto, desde a eleição de JFK, em 1960, que a narrativa das eleições presidenciais nos Estados Unidos não construia um arco do triunfo de um homem e suas ideias. Sublinhe-se, esse homem é o primeiro presidente negro dos Estados Unidos.
Em Outubro de 2006, a mesma revista Time colocava a questão quase numa necessidade de mudança, e afirmava como matéria de capa «Por que Barack Obama Pode Ser o Próximo Presidente». E aconteceu.
O paradigma mudou. O sinal transformador desta eleição, que corre o risco de ser racial, trancendeu a própria raça.

À primeira vista parece que agora a face da nova América é negra, mas teremos que aprender, de uma vez por todas, que se assim fosse, continuaríamos a laborar no racismo.
E o sinal que todos desejamos seja transformador, de facto, é que a vitória de Obama, a sua eleição e tomada de posse este mês, anuncie uma nova geração de líderes e uma América que esteja a tomar uma nova forma- segundo asseveram os analistas políticos, tendo em conta sobretudo a crise na economia mundial.

Contudo, não se pode esconder que existiu uma mudança filosófica, que foi muito conduzida também pelo coração, isto é, pelo sonho.
O sonho de Martin Luther King completou-se mais cedo que muitos imaginaram - escreveu um dos articulistas do semanário Time. Para relatar o testemunho de um cidadão-votante, de Kansas City, que relembrou a história dos negros norte-americanos, ainda da segunda metade do século XX:
-«Eu andava no autocarro quando os negros tinham que se sentar nos bancos de trás; bebi água de fontenários onde estava escrito: para gente de cor; você não podia comer em restaurantes, se fosse negro; tinha de adquirir as suas refeições num saco castanho através da porta das traseiras.»
É o caso em que o sonho contribuiu para a História, onde a poesia tem a sua quota parte. O poeta negro Langston Hughes escreveu, há alguns anos:
«Oh sim, / Eu que o diga com clareza, / a América nunca foi América para mim, / e, não obstante, prometo sob juramento- / A América vai ser!»(Trad.JTP) (1)
A magnitude da vitória do presidente Obama contribui para a história como para «um dia de transfomação», esta é a frase que o diário The Washington Post utiliza em subtítulo, para depois escrever em pequena paragona que «A História da América abre caminho para o futuro». E o passado?

Simão, de Cirene
Sem recurso a pseudo-antropologias para justificar o modo como desde os tempos da escravatura os negros foram tratados, por razões mais economicistas do que teológicas a partir de hermenêuticas enviezadas da maldição noética sobre o filho Cão, poderemos apreciar um simples acontecimento do dia da crucificação de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Relatam os Evangelhos sinópticos (2) que os soldados romanos obrigaram um certo homem de Cirene (na actual Líbia) a carregar a cruz , um peregrino-prosélito, um judeu da sinagoga de Cirene de Jerusalém ? Fosse o que fosse, era sem dúvida um homem africano.
Diante da multidão que seguia a dramática pompa do caminho dos condenados à crucificação, os responsáveis romanos do cortejo, humanitariamente foram obrigar um colored. Um homem que a sociedade judaica da altura e os conceitos sociais aferidores e dominantes daqueles dias gostariam de manter invisível. Mas os evangelistas o eternizaram, por razões que estão para lá da circunstância legal da prestação obrigatória de um serviço.

O Homem que ninguém via
A pigmentação, os traços, a discriminação racial, tornavam os negros da América invisíveis. As dificuldades sociais do negro resultavam daí e são o fundo de um célebre romance, alegadamente sociológico, da década de 50. O mesmo não quis, porém, ser mais do que uma viagem sobre a condição humana, retratada em quanto viu e sentiu, na pele, um jovem negro a viajar pelos estados sulistas nos recuados anos 20. Escrito por Ralph Ellison, conheceu a fama literária até na nossa língua sob outro título: O Homem Invisível. (3)
A personagem afirma, auto-biograficamente, a razão por que era assim: «Sou um homem verdadeiro, de carne e osso, de músculos e de sangue - Sou invisível apenas porque, compreenda-se, os outros se recusam a ver-me.»
A busca da identidade baseava-se na doutrinação do homem negro para aceitar os valores da sociedade branca. Mas afinal a cor da pele foi apenas um pretexto
para falar de algo que é sempre contemporâneo, o lugar do homem, de cada classe social e tipo racial que o incorpora na sociedade.

Milagres em negro
No romance de Ellison há uma passagem de um despejo no Harlem, um casal de velhos vê-se espoliado das suas coisas e casa por uma execução hipotecária. «Para onde vamos agora, sem um vaso»- perguntavam. Ainda quiseram estar na sala vazia, com a Bíblia na mão e, no soalho nu, «quinze minutos com Jesus». «Que nos diz a isto, senhor representante da lei? Temos ou não direito aos nossos quinze minutos com Jesus? Têm o mundo na mão, e nós? Não temos direito ao nosso Jesus?» (4)
Esta deveria ser a questão que havia de cruzar toda a sociedade. Para Deus não há homens invisíveis. A sociedade pode recusar ver-nos, por qualquer razão social ou racial, mas Jesus Cristo não se recusa a olhar para nós.

Não foi só à procura de homens e mulheres, mas também de uma identidade que missionários cristãos e evangélicos chegaram a África no fim do Século XIX e nos alvores do século passado.
Um livro precioso, editado em 1938, «Miracles in Black», de John C.Wengatz (5), trata dessa realidade, de dar visibilidade ao homem negro diante de Deus, através do Evangelho. Desde a mata tropical às ruas do Harlem.
Verificamos que o profundo significado espiritual dos contactos virgens com as tribos africanas para a proclamação do Evangelho não se fizeram em casas de desenho arquitectónico tradicional nem sequer, por vezes, nas cubatas.
No capítulo designado por «Um encontro às 5:30 da manhã», lemos esta descrição: «As pessoas acercaram-se de nós pela madrugada, tremendo de frio sob as rajadas de vento invernal, com os braços cruzados sobre o peito e as suas mãos apertando os ombros, um hábito puramente nativo para se protegerem do frio. Mas, dando as suas costas ao frio do vento uivante, tremendo e batendo os dentes olharam para nós e disseram: “Pastor, diga-nos de novo aquelas boas palavras que nos disse ontem à tarde. Conte-nos acerca do seu Amigo, o Qual nos disse que é nosso Amigo, também. Nós queremos saber acerca dele. Conte-nos mais sobre esse lugar aonde você diz que todas as pessoas boas podem ir. Nós queremos perguntar se o povo branco vai junto com o povo negro para esse lugar?”»(6)
_______________________________________________________
1-Let America Be America
2-Mat 27,32, Mc 15,21, Lc 23,26
3-Ralph Ellison, Casa das Letras,2006
4-Ibidem, Pág.223
5-Missionary Experiences in the Wilds Africa, Fleming H.Revell Company, 1938
6-Ibidem, Pág.54
Publicado na revista Novas de Alegria e no blog Confeitaria Cristã

The 2009 Nobel Peace Prize




Barack Obama
USA
44th President of the United States of America
b. 1961

Thursday, October 08, 2009

Nobel da Literatura: Quem?


Última Hora: O Nobel 2009 foi para a poeta alemã/romena HERTA MÜLLER.
Pela concentração da sua poesia e a franqueza da sua prosa, que retratam a paisagem dos espoliados.


Coming soon on Nobelprize.org:
Announcement of the Nobel Prize in Literature!



Announcement time:Thursday, October 8


01:00 p.m. CET11:00 a.m. GMT



Amos Oz e Philip Roth encabeçam as apostas para o Nobel de Literatura

Wednesday, October 07, 2009

Liturgia: a Luz e as sombras

"A forma religiosamente correcta de cultuar a Deus, simplesmente não existe.
Não é que a liturgia em si mesma seja mais importante do que aquilo em que se crê. Mas pelo menos, é aquilo que se vê...Através dela se deixa transparecer qual é o foco da nossa adoração"
Pág. 45


Aqui em A Ovelha Perdida

"O problema da liturgia (o rito, a ordem do culto) é transdisciplinar. Tem conexões com a cultura, com a sociedade, com a arte, com a História, e com a espiritualidade. Move-se, portanto, na esfera do humano e do divino.Devemos começar por esclarecer que não há uma liturgia bíblica fechada no culto cristão. Apenas estão registados elementos do culto que era praticado na Igreja do primeiro século. Ou seja, sabemos que os serviços religiosos dos cristãos primitivos incluíam cânticos, oração, ensino da Palavra, “o partir do pão”, e a contribuição financeira (Mateus 26:25; Actos 2:42; II Coríntios 8 e 9; Efésios 5:19; Colossenses 3:16)."

Sunday, October 04, 2009

História: Poder para conquistar o Mundo


Vastíssimos estudos sobre o derramamento do Espírito Santo no início do Século XX em Topeka, no Kansas, e na Rua Azuza, em Los Angeles, revelam que a plena experiência pentecostal moveu a Igreja no sentido ascencional, deu-lhe latitude e longitude, e levou-a para o movimento missionário. O Pentecostes – escrevia na Primavera de 1995 a “World Pentecost”- «deu poderes para conquistar o mundo».

Dois números situados nos extremos de quase meio século, apenas como simples paradigma, indicam que os crentes pentecostais em todo o mundo eram em 1993, 429,523,000; e que em 1949 apenas eram uns 3,000,000.
Pelo menos é este o número que os autores da reportagem da Grande Convenção Mundial em Paris, nos dias 21 a 29 de Maio de 1949, escreveram nas páginas de «Novas de Alegria» (1)
Com chamada à primeira página, aquela revista publicava uma fotografia a toda a largura (duas colunas) do «grupo de delegados à Grande Conferência de Paris». A peça intitulada «Notas de Viagem» –como era costume à época em NA - começava por informar que essa «grande Convenção estava representada por 33 países das cinco partes do Globo, num total de 157 Delegações oficiais e 360 Delegados observadores que representavam uns 3 milhões de crentes do Movimento Pentecostal.»
Na segunda fila, não obstante a dificuldade visual, julgamos entrever os dois delegados portugueses a esse magno evento, considerado então como «aquele Rio do qual o profeta diz que só se podia atravessar a nado, aleluia!»(2) Tratava-se dos pastores Alfredo Machado e Rogério Pereira.

“NOTAS DE VIAGEM”
A peça de reportagem é hoje a todos os títulos histórica, até pelas referências que faz a algumas das colunas do Movimento Pentecostal mundial.
«Foi importante o estudo do irmão Donald Gee sobre os dons do Espírito Santo, e do irmão Salter(3) sobre a disciplina da igreja, bem como o irmão Perkin(4) sobre o Ministério da mesma. Todos sentimos que Deus nos falava e guiava para o mesmo ponto: a unidade espiritual e mais profunda de todos os crentes pentecostais; bênçãos que desfrutamos já naqueles dias no meio de irmãos de muitas línguas, raças e posições diferentes.»

A memória histórica do Movimento Pentecostal face aos neo-pentecostalismos matizados hoje de várias cores excessivas, convém que seja feita pelas consequências positivas. As suas bases estarão sempre no Cenáculo de Jerusalém, aquando do derramamento do Espírito Santo sobre a Igreja apostólica descrito em Actos 2; mas ao longo da história da Igreja estruturada em Cristo e na Doutrina dos Apóstolos, serão também reconhecidas nas primeiras Convenções Pentecostais consituidas tendo em vista a evangelização, as missões e o poder do Pentecostes na vida dos povos.

Com efeito, a 2ª Conferência realizada em Paris e a 3ª em Londres, três anos depois, vieram acentuar esse pendor missionário e do poder para conquistar o mundo, reafirmando «a visão do mundo perdido e de milhões sentados nas trevas esperando que o Evangelho lhes dê vida»(5).
«A unidade espiritual e mais profunda de todos os crentes pentecostais», apreciada a uma só voz, ainda que no plano pessoal por cada um dos dois delegados portugueses à Conferência em Paris, também o final da conturbada e dramática década de 40 em que tal unidade necessária se sublinhou, foram sem dúvida as raízes e os desafios, e.g. das Assembleias de Deus e doutras Igrejas de origem pentecostal. E logo neste tempo em que a propósito de tudo e de nada se fala muito em mudanças de paradigma. No Pentecostalismo sério, o paradigma começou e estabeleceu-se no início da primeira década dos anos 1900 e manter-se-á assim.
A liberdade para diferentes formas de governo eclesiástico não pôs em causa a unidade.

Todavia não foi sem sobressalto e perante uma Europa sobressaltada que os Congressistas pentecostais se ergueram nesse ano de 1949. No dizer dos pastores-relatores, que assinaram no NA essa peça histórica, «reconhecia-se a gravidade da hora actual e a necessidade de mostrar perante o mundo uma comunhão mais perfeita e uma mais profunda unidade espiritual, o que levou os vários delegados a apresentarem seus pontos de vistas e a ser aprovado pelo Comité um manifesto» de 10 cláusulas e 17 alíneas que, como instrumento de um histórico trabalho, expunha as preocupações e a visão unanime do Movimento Pentecostal àquela época. Com efeito, em síntese, três preocupações: Chamada à consagração e a oração; Chamada à reafirmação da fidelidade a Jesus Cristo, Senhor e Salvador; Chamada à aceitação incondicional da integralidade das Escrituras Sagradas. Do ponto de vista prático e da orgânica das futuras Convenções Mundiais, ressaltou a orientação que ainda é seguida pelos Comités que têm presidido às mesmas até hoje.
UM CLÁSSICO PENTECOSTAL
Por que razão as Igrejas pentecostais crescem? Já se perguntava há cerca de 50 anos, em Paris ou em Londres. Harold Hórton e o seu clássico «The Gifts of the Spirit», de 1934, dava a resposta e ao mesmo tempo desafiava. Com certeza terá desafiado muitos dos delegados à Convenção Pentecostal de 1949, porque ao que parece o seu livro terá circulado em Paris, em tradução francesa.
Repleto da linguagem paulina sobre os dons espirituais, «Les Dons de L’Esprit» -traduzido do inglês pela irmã N.Demole (6) -, é o primeiro comentário completo sobre os capítulos 12,13 e 14 da primeira carta aos Coríntios, segundo o próprio autor.
Esta tradução francesa de 179 páginas, considerada hoje raríssima( a edição é de 1947) no catálogo de alguns alfarrabistas on line, vale muito mais para além do último preço que encontramos( 20,00€), para um «usado». Indubitavelmente, o seu valor ronda os arcanos de toda uma memória histórica.
Do ponto de vista teológico, trata-se de obra de conteúdo que em primeiro lugar desafiou o próprio autor, durante cerca de 40 anos pregador metodista na Inglaterra. Familiarizado com os dogmas e doutrinas do Movimento Pentecostal, abriu de vez o seu coração e a sua visão à pureza-como ele mesmo escreve- dos dons do Espírito. No que concerne ao ensino pedagógico, este livro rendeu cedo a sua valia em escolas e seminários Pentecostais, como livro de texto, ao redor do mundo. E continua a ser um clássico, mundialmente lido.
Ora um exemplar desta obra foi oferecido a um dos delegados portugueses àquela Convenção de 49. O pr. Rogério Ramos Pereira. O livro está na biblioteca do autor destas linhas (seu genro) e tem a particularidade de estar autografado pela tradutora em dedicatória ao «cher Frére Pereira un souvenir da Conference de Paris, Mai 1949, N.Demoule»

_________________________________________
(1)-Novas de Alegria, nº79, Julho de 1949
(2)-Ez 47,5
(3)-James Salter(1890-1972)Pioneiro Pentecostal no Congo Evangelistic Mission
(4)-Noel Perkin, missionário que operou como piloto depois da II GM na Divisão de Missões Estrangeiras das Assembleias de Deus, USA. Um dos chamados Embaixadores de Cristo.
(5)- World Pentecost, Nr.44, Spring 1995, pág.22
(6)- Noémi Demoule, Vevey, Suiça

Friday, October 02, 2009

Call Center / Burocracia espiritual

Resposta:
"Obrigado por chamar os céus! Se é um Apóstolo, digite1; se é um Pastor, digite 2; se é um Líder de um Grupo Caseiro, digite 3...

de Pavablog, via Ab-Integro

Thursday, October 01, 2009

(Os) Codex Ephrem da Pós-Modernidade

Considerando que a Bíblia Sagrada é o Livro mais vendido, 5-6 biliões de cópias, e por conseguinte o mais lido, é natural que seja objecto de multiplas e díspares releituras, mesmo até por crentes e, com certeza, por ateus. E tais releituras são normalmente efectudas a dois níveis: ao teológico e ao antropológico; Deus e o Homem.
Os crentes procuram na Palavra divina o Pai; os ateus, os não-crentes, demandam quase de um modo edipiano contradizê-Lo e mesmo eliminá-Lo.
No século XVIII, sob uma particular visão socialista, Proudhon já relia certamente o apóstolo Paulo, alegando que as suas formas de ideal (quereria dizer doutrina ética e social, moral e espiritual, etc.)eram bem definidas, mas caducas.

Friday, September 25, 2009

A Cor da Rua Azuza, 312

A chama do Pentecostalismo, que deflagrou na Rua Azuza nº 312, e que a revista Life classificou assim como o 68º acontecimento do Século XX entre 100, foi um dom cristológico. Novamente a dunamis do Espírito Santo com idênticas características fundamentais das relatadas nos Actos dos Apóstolos.

Contudo, não deixou de ser também um fenómeno sociológico. Conduzindo a um avivamento espiritual, carismático, levou os crentes a quebrarem as barreiras rígidas da segregação racial.Se tivéssemos que estruturar uma sociologia da cor para o Movimento Pentecostal que (re)começou há precisamente um século (14-4-1906) naquela rua dos subúrbios de Los Angeles, do ponto de vista histórico, diríamos que o mesmo se mostrou a duas cores. O branco e o negro. Os reverendos Charles Fox Parham, metodista e reitor do Bethel Bible College, e William S.Seymour, respectivamente.

Os elementos afro-ariano-semita, forjados na ainda jovem mistura americana estavam a fazer a primeira explosão religiosa pentecostal e a criar um movimento clássico, com um sinal estatístico bem definido e claro, o da multiplicação.

A verdade foi que «pessoas de cor e uma pequena quantidade de brancos formaram essa congregação do nº 312 de a Rua Azuza» , podia ler-se há 100 anos no chamado Times de Los Angeles, na costa Leste também a notícia chegou e o The New York American, de 3 de Dezembro do mesmo ano 1906, escrevia que «um novo movimento religioso, formado por negros e brancos, estava a começar. A tradição metodista estava sendo misturada à religiosidade popular dos negros ».

O facto de os jornais locais, com especial mediatização no Los Angeles Daily Times, de 18 de Abril, chamarem a atenção para essa mistura racial colorida, levava mais longe a verdadeira natureza do fenómeno espiritual da chamada glossolalia, e, assim, não tiveram outras parangonas jornalísticas para usar senão «Weird Babel of Tongues» (Estranha Babel de Línguas).
Para a sociedade do início do século XX o que estava a acontecer, resumia-se a tal. Porém, não foi em vão que mulheres, homens e crianças de raças e culturas diferentes estavam a comungar da mesma Fé e dos mesmos charismas espirituais e o baptismo com o Espírito Santo, sendo evidente o sinal dos crentes falarem línguas estranhas.

O que alguns teólogos anglo-saxónicos, posteriormente, se referiram como «A Terceira Força do Cristianismo» (Christianity’s Third Force ), começou por ser, sob o poder de Deus, a entrega religiosa colaborativa de negros e brancos mais importante do século. Esta colaboração vinda de todos os lugares para aqueles três dias e três noites na 312 Azuza Street, fez mais pelo Mundo do que qualquer concílio mundial de igrejas ou movimento ecuménico.

O aspecto da não-discriminação racial é importante, sem dúvida, para caracterizarmos e estruturarmos o enorme crescimento do Pentecostalismo, que alguém já classificou como «a religião do coração».

Com efeito, mesmo referindo-se com algum criticismo «à mescla de brancos e negros em frenesim religioso», os jornais locais não puderam ignorar algo maravilhoso e fundacional, a comunhão interclassista e inter-racial dos primeiros cultos do movimento pentecostal.«As pessoas respeitáveis - como lhes chamava o Times da cidade de Los Angeles- que se tinham misturado com os negros vociferantes», reafirmaram no início do século o que Paulo havia escrito nos anos 50 A.D., com alcance universal, transcultural e multi-étnico, aos crentes da Galacia: «Dessarte, não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.» (3,28).

Os excessos religiosos sobrevieram depois, em ambas as comunidades brancas e negras. Bater com os pés no chão, tremer, gemer, gritar, rolar pelo soalho.

O escritor Erskine Caldwell relata na biografia do seu pai, Ira Sylvester Caldwell, pastor da Igreja Presbiteriana Reformada, o que foi a mudança dos hábitos calvinistas e fundamentalistas do velho Sul para o sério movimento da glossolalia. Salienta em «Os Mil e Um Sinos do Sul», assim se chama a obra, a intolerância racial segregacionista que impedia ainda que igrejas «construídas para brancos fossem conspurcadas por gente cuja pele não era de um branco indubitável». Mas sublinha, por outro lado, como os costumes religiosos desse tempo - os primeiros vinte anos do Século XX - foram alterados pela adoração informal a Deus, pela simplicidade revestida do Poder divino dos sermões «des-intelectualizados», pelo « murmúrio ininteligível da glossolalia ou da Língua Desconhecida, numa explosão de arrebatadas orações individuais, pronunciadas por toda a congregação », que se espalhavam já pelas igrejas, designadamente Assembleias de Deus, Igreja de Deus, Igreja do Nazareno, Igreja do Pentecostes, etc.etc. e até por algumas denominacionais reformadas.

O percurso do livro citado não refere explicitamente a Rua Azuza, uma vez que se radica à história religiosa protestante do Sul dos Estados Unidos, mas é óbvio que se estrutura no Movimento Pentecostal iniciado na California e que incendiou, no princípio do Século XX, toda a América do Norte e do Sul e a Europa nórdica.
E o que hoje representa o Movimento Pentecostal no mundo, será credor do mesmo juízo que nos idos de 1958 a já citada revista Life escrevia: «é o movimento cristão de mais rápido crescimento no mundo actual, dotado de tanto dinamismo que se ergue, juntamente com o catolicismo e o protestantismo histórico, como a terceira força da cristandade».

Tuesday, September 22, 2009

No prelo: "Da Pequena Sala em Aradas"



Um breve excerto e sinopse:


No jornal brasileiro Mensageiro da Paz, de Outubro de 1966, o Pastor Rogério Ramos Pereira escrevia, a propósito de Aveiro e da necessidade de um verdadeiro Pentecostes e não tanto de um protestantismo, que a cidade era «um campo novo que reclamava uma visitação do Evangelho do Poder de Deus».

«Numa localidade chamada Aradas, apareceu uma pequena sala e ali foram feitas as primeiras reuniões», escreveria em notas manuscritas para a sua família, quase cinquenta anos depois no seu derradeiro ano de vida, em 2007, a cristã Adriana Pereira, viúva daquele pastor e fundador do trabalho da Assembleia de Deus em Aveiro.

Partindo do locus histórico que foi essa pequena sala, estrutura-se este pequeno livro que, ao cabo de meio século, pretende ser apenas uma história não de 50 anos, mas como estes se iniciaram desde 1959.

Monday, September 21, 2009

Moleskine (7)

. 1. Sou uma impressão digital numa janela do último andar do Empire State. Deus vê-me de perto mais do que os homens.

2. A senhora idosa que fala com os gatos, da varanda traseira do nosso prédio, vê-se reconhecida por eles. Percebem a palavra peixe.

Thursday, September 17, 2009

O lado bíblico da História

A Exposição aos Hebreus tem pouquíssimas marcas do seu tempo, contextualizações e referências contemporâneas(quase todas nos últimos sete versículos) e no entanto tem um capítulo que é uma espécie de sumário do Velho Testamento, uma historiografia da Fé.

Não mostra nome de autor, por evidências internas no texto (5,12-13; 13,23) a garantia de ter sido escrita pelo apóstolo Paulo não é definitiva, nem tão pouco por Pedro (11,7; 13,20), não obstante o que poderia parecer evidente. Também não por Apolo, embora Lutero lançasse por muito tempo hipóteses. Apenas para citar termos empregues que estão na linha de pensamento e expressão, ou referências históricas pessoais daqueles dois apóstolos e autores bíblicos, atentos à estrutura estilística de algumas frases.

Tão-pouco se dirige a alguma igreja territorialmente implantada. Quando se refere a uma, no sentido de assembleia, fá-lo de uma forma universal e, digamos assim, cósmica e espiritual: a universal assembleia dos santos, a paneguris ekklésia.

No entanto, é uma epístola que pode ser designada como historiográfica porque também trata de História, a história do povo hebreu, na perspectiva mosaica, e a referência dos factos da fé dos patriarcas antes da história.

Se o povo judaico tem como livros históricos alguns Livros da Bíblia, logo Sagrados, o cristianismo é uma religião de historiadores, no dizer de um dos fundadores da Escola dos Annales, o historiador francês Marc Bloch, fuzilado em 1944 pela Gestapo.

A História constitui-se por aquele conceito que o seu designado Pai, o grego Heródoto, definiu como tentativa do homem sistematizar o conhecimento das suas acções ao longo do tempo. O que para Heródoto eram sobretudo Pesquisas, e assim as significou. Fossem as acções da intervenção de Deus na humanidade, fossem as dos homens, nas diversas Histórias das civilizações e do Homem.

A intervenção histórica de Deus no mundo, na história dos homens, através da Palavra, dos elementos comunicacionais voz-lógos, está bem reflectida neste prólogo da Epístola:
«Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho.»
Aqui se evidenciam os ecos do passado de uma Lei em confronto com os cânticos alvissareiros do futuro do Evangelho, centrado numa Pessoa, a pessoa divina do Filho.

O que principalmente é feito, é para mostrar como foi importante no passado o sistema Mosaico, que não seria bom ao Cristianismo primitivo na Palestina desprezar, porque do seu valor se sobrevalorizavam as palavras de Jesus Cristo no presente, tornando todo o Evangelho e, digamos, o sistema da Graça melhor, uma palavra especial (adjectivo comparativo, no grego) em toda a epístola, exprimindo a ideia de mais forte e, consequentemente, mais capaz.

Hoje, a Exposição aos Hebreus, apesar do seu anonimato, é lida à luz da Graça divina, como antigamente o foi, por exemplo através dos olhos de alguns dos chamados Pais da Igreja, no período anterior à Patrística. O olhar de Clemente Romano foi um desses, ao escrever a sua epístola não canónica aos Coríntios, tomou de empréstimo frases e inúmeras citações da Carta aos Hebreus.

A História estabelece um diálogo do passado com o presente, a dicotomia do «antigamente» e «últimos dias» reforça o interesse de Deus pela humanidade desde os primórdios do tempo até aos dias da derradeira dispensação, a da Graça, que estamos a viver.

A História desenvolve-se no binómio espaço-tempo, a História Divina traz ao tempo e ao limite do espaço a eternidade, na grande salvação que Jesus Cristo proporcionou aos homens.

A Carta aos Hebreus, numa boa parte de si própria, é essa História da intervenção do Divino no regaço histórico de uma nação, Israel, e de um povo, o judeu, e de uma cultura civilizacional judaico-cristã.
«É na duração da história que se desenrola o grande drama do Pecado e da Redenção, eixo central de toda a meditação cristã» - escreve aquele já referido e incontornável historiador francês.

À história desse grande drama que foi a Queda do Homem, caberia como grandioso e único recurso salvífico, o que a epístola aos Hebreus considera «grande salvação».
«Como escaparemos nós, se não atentarmos para uma tão grande salvação »- proclama o autor da epístola, do ponto de vista do significado (da Teologia) e dos factos( da História). Salvação do pecado e do inferno, é chamada de «grande» porque é grande o Seu Autor.

«O sentido é que não há outro caminho de salvação, e o abandono desta será seguida de destruição. Razão pela qual o apóstolo mostra que este plano foi proclamado em primeiro lugar pelo Senhor mesmo, e depois confirmado por milagres.»
Escreveu estas palavras, em seus comentários o dr. Albert Barnes – que o The New York Times no dia do seu funeral, em 1870, chamou de eminente clérigo – que foi mais o pai do presbiterianismo nos Estados Unidos.

A historicidade da Carta, mormente no cap.11, é argumento que consolida e que sustenta a Fé, como sendo esta o que é, um veículo que conduz à aceitação da Salvação. É, outrossim, um meio para manter acesa a chama da nossa atenção. Para escapar de factos que decorrem da Queda humana, do Pecado e da consequente inimizade com Deus, «como escaparemos?» desse facto da história da humanidade, senão pela reconciliação com Deus, através da Salvação anunciada e concluída pelo Senhor?

Por fim, o próprio versículo-chave que define a Fé (11,1) não será ele um modo de colocar a mesma Fé no caminho da História dos homens, designadamente da história daqueles que crêem, povos ou homens individuais? Não será uma janela que nos transporta a outra dimensão, que questiona a própria História no seu futuro? Não tanto um texto de Meta-História, a História por trás da História, mas o que está adiante de nós na nossa história pela Fé. O que já se alcançou, ainda não alcançando.