Sunday, October 04, 2009

História: Poder para conquistar o Mundo


Vastíssimos estudos sobre o derramamento do Espírito Santo no início do Século XX em Topeka, no Kansas, e na Rua Azuza, em Los Angeles, revelam que a plena experiência pentecostal moveu a Igreja no sentido ascencional, deu-lhe latitude e longitude, e levou-a para o movimento missionário. O Pentecostes – escrevia na Primavera de 1995 a “World Pentecost”- «deu poderes para conquistar o mundo».

Dois números situados nos extremos de quase meio século, apenas como simples paradigma, indicam que os crentes pentecostais em todo o mundo eram em 1993, 429,523,000; e que em 1949 apenas eram uns 3,000,000.
Pelo menos é este o número que os autores da reportagem da Grande Convenção Mundial em Paris, nos dias 21 a 29 de Maio de 1949, escreveram nas páginas de «Novas de Alegria» (1)
Com chamada à primeira página, aquela revista publicava uma fotografia a toda a largura (duas colunas) do «grupo de delegados à Grande Conferência de Paris». A peça intitulada «Notas de Viagem» –como era costume à época em NA - começava por informar que essa «grande Convenção estava representada por 33 países das cinco partes do Globo, num total de 157 Delegações oficiais e 360 Delegados observadores que representavam uns 3 milhões de crentes do Movimento Pentecostal.»
Na segunda fila, não obstante a dificuldade visual, julgamos entrever os dois delegados portugueses a esse magno evento, considerado então como «aquele Rio do qual o profeta diz que só se podia atravessar a nado, aleluia!»(2) Tratava-se dos pastores Alfredo Machado e Rogério Pereira.

“NOTAS DE VIAGEM”
A peça de reportagem é hoje a todos os títulos histórica, até pelas referências que faz a algumas das colunas do Movimento Pentecostal mundial.
«Foi importante o estudo do irmão Donald Gee sobre os dons do Espírito Santo, e do irmão Salter(3) sobre a disciplina da igreja, bem como o irmão Perkin(4) sobre o Ministério da mesma. Todos sentimos que Deus nos falava e guiava para o mesmo ponto: a unidade espiritual e mais profunda de todos os crentes pentecostais; bênçãos que desfrutamos já naqueles dias no meio de irmãos de muitas línguas, raças e posições diferentes.»

A memória histórica do Movimento Pentecostal face aos neo-pentecostalismos matizados hoje de várias cores excessivas, convém que seja feita pelas consequências positivas. As suas bases estarão sempre no Cenáculo de Jerusalém, aquando do derramamento do Espírito Santo sobre a Igreja apostólica descrito em Actos 2; mas ao longo da história da Igreja estruturada em Cristo e na Doutrina dos Apóstolos, serão também reconhecidas nas primeiras Convenções Pentecostais consituidas tendo em vista a evangelização, as missões e o poder do Pentecostes na vida dos povos.

Com efeito, a 2ª Conferência realizada em Paris e a 3ª em Londres, três anos depois, vieram acentuar esse pendor missionário e do poder para conquistar o mundo, reafirmando «a visão do mundo perdido e de milhões sentados nas trevas esperando que o Evangelho lhes dê vida»(5).
«A unidade espiritual e mais profunda de todos os crentes pentecostais», apreciada a uma só voz, ainda que no plano pessoal por cada um dos dois delegados portugueses à Conferência em Paris, também o final da conturbada e dramática década de 40 em que tal unidade necessária se sublinhou, foram sem dúvida as raízes e os desafios, e.g. das Assembleias de Deus e doutras Igrejas de origem pentecostal. E logo neste tempo em que a propósito de tudo e de nada se fala muito em mudanças de paradigma. No Pentecostalismo sério, o paradigma começou e estabeleceu-se no início da primeira década dos anos 1900 e manter-se-á assim.
A liberdade para diferentes formas de governo eclesiástico não pôs em causa a unidade.

Todavia não foi sem sobressalto e perante uma Europa sobressaltada que os Congressistas pentecostais se ergueram nesse ano de 1949. No dizer dos pastores-relatores, que assinaram no NA essa peça histórica, «reconhecia-se a gravidade da hora actual e a necessidade de mostrar perante o mundo uma comunhão mais perfeita e uma mais profunda unidade espiritual, o que levou os vários delegados a apresentarem seus pontos de vistas e a ser aprovado pelo Comité um manifesto» de 10 cláusulas e 17 alíneas que, como instrumento de um histórico trabalho, expunha as preocupações e a visão unanime do Movimento Pentecostal àquela época. Com efeito, em síntese, três preocupações: Chamada à consagração e a oração; Chamada à reafirmação da fidelidade a Jesus Cristo, Senhor e Salvador; Chamada à aceitação incondicional da integralidade das Escrituras Sagradas. Do ponto de vista prático e da orgânica das futuras Convenções Mundiais, ressaltou a orientação que ainda é seguida pelos Comités que têm presidido às mesmas até hoje.
UM CLÁSSICO PENTECOSTAL
Por que razão as Igrejas pentecostais crescem? Já se perguntava há cerca de 50 anos, em Paris ou em Londres. Harold Hórton e o seu clássico «The Gifts of the Spirit», de 1934, dava a resposta e ao mesmo tempo desafiava. Com certeza terá desafiado muitos dos delegados à Convenção Pentecostal de 1949, porque ao que parece o seu livro terá circulado em Paris, em tradução francesa.
Repleto da linguagem paulina sobre os dons espirituais, «Les Dons de L’Esprit» -traduzido do inglês pela irmã N.Demole (6) -, é o primeiro comentário completo sobre os capítulos 12,13 e 14 da primeira carta aos Coríntios, segundo o próprio autor.
Esta tradução francesa de 179 páginas, considerada hoje raríssima( a edição é de 1947) no catálogo de alguns alfarrabistas on line, vale muito mais para além do último preço que encontramos( 20,00€), para um «usado». Indubitavelmente, o seu valor ronda os arcanos de toda uma memória histórica.
Do ponto de vista teológico, trata-se de obra de conteúdo que em primeiro lugar desafiou o próprio autor, durante cerca de 40 anos pregador metodista na Inglaterra. Familiarizado com os dogmas e doutrinas do Movimento Pentecostal, abriu de vez o seu coração e a sua visão à pureza-como ele mesmo escreve- dos dons do Espírito. No que concerne ao ensino pedagógico, este livro rendeu cedo a sua valia em escolas e seminários Pentecostais, como livro de texto, ao redor do mundo. E continua a ser um clássico, mundialmente lido.
Ora um exemplar desta obra foi oferecido a um dos delegados portugueses àquela Convenção de 49. O pr. Rogério Ramos Pereira. O livro está na biblioteca do autor destas linhas (seu genro) e tem a particularidade de estar autografado pela tradutora em dedicatória ao «cher Frére Pereira un souvenir da Conference de Paris, Mai 1949, N.Demoule»

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(1)-Novas de Alegria, nº79, Julho de 1949
(2)-Ez 47,5
(3)-James Salter(1890-1972)Pioneiro Pentecostal no Congo Evangelistic Mission
(4)-Noel Perkin, missionário que operou como piloto depois da II GM na Divisão de Missões Estrangeiras das Assembleias de Deus, USA. Um dos chamados Embaixadores de Cristo.
(5)- World Pentecost, Nr.44, Spring 1995, pág.22
(6)- Noémi Demoule, Vevey, Suiça