Monday, October 19, 2009

O anti-Caim da última Literatura Portuguesa


«Caim interessa-me há muitos muitos anos, é uma coisa que foi crescendo e que, de repente, já não consegui suster, tive que começar a escrever", disse José Saramago.
Escrever em apenas quatro meses 181 páginas de algo que contribuiu para a desarmonia da Humanidade, que leva um remoto tempo inefável a digerir pelos seres humanos, ainda por cima em tom jocoso e irónico, pode ser um bom exercício literário, mas é pouco sério eticamente. Sobretudo se se diz no próprio livro que a história a re-contar é «um atrevimento».

No entanto, quando editorialmente acontece o lançamento de um livro de Saramago, o país e o mundo das letras rejubilam como se se tratasse do último romance da literatura portuguesa. Nada mais parece existir para lá da nebulosa Saramago.

E quando este exprime opiniões sobre o seu Grande problema, os diários trazem à primeira página títulos enormes: «o Novo Saramago põe Deus como autor moral de um crime»(DN). E o próprio autor revela a raiz do seu problema:
«Hay quien me niega el derecho de hablar de Dios, porque no creo. Y yo digo que tengo todo el derecho del mundo. Quiero hablar de Dios porque es un problema que afecta a toda la humanidad».- afirmou o escritor ao El País.

Escreveu um dos meus amigos no Facebook (o maestro Pedro Duarte), entre outros comentaristas, que «Saramago acredita em deus, sim. Ele é deus. Logo Deus não pode fazer parte do mundo de deus. Saramago tenta criar um mundo seu e nessa 'missão' sente necessidade de reinterpretar a realidade à luz do seu mundo tenebroso.»

O prof.dr.Jónatas Machado, também naquela rede social, opinou: «Para quem não acredita em Deus, Saramago sente-se muito incomodado por Ele. Ao negar Deus, Saramago nega a existência de um critério objectivo de justiça. No entanto, ele pretende deter um critério objectivo de justiça com base no qual se arroga julgar e condenar Deus.»

É a partir desse seu mundo fechado e «justiceiro», no sentido da justiça popular, que o autor pretende julgar Deus, com um critério objectivo de pretenso ajuste de contas. Nesse mundo que o escritor inventou, que é o locus da sua última obra- o jardim do Edén, uma caverna no deserto após a expulsão da família adâmica- , pretende aí reinterpretar não os actos divinos, mas o que ele afirma serem os seus efeitos.
Assim, temos um Caim que é, no entender e na expressão saramaguiana, um «efeito» de Deus. Um «erro» moral.

Os primeiros parágrafos do livro conduzem-nos diante de um deus irado, errático na sua obra, que é responsável por tudo quanto vem a seguir, no entendimento do autor.

« Quando o senhor, também conhecido como deus, se apercebeu de que a adão e eva, perfeitos em tudo o que apresentavam à vista, não lhes saía uma palavra da boca nem emitiam ao menos um simples som primário que fosse, teve de ficar irritado consigo mesmo, uma vez que não havia mais ninguém no jardim do éden a quem pudesse responsabilizar pela gravíssima falta, quando os outros animais, produtos, todos eles, tal como os dois humanos, do faça-se divino, uns por meio de rugidos e mugidos, outros por roncos, chilreios, assobios e cacarejos, desfrutavam já de voz própria. Num acesso de ira, surpreendente em quem tudo poderia ter solucionado com outro rápido fiat, correu para o casal e, um após outro, sem contemplações, sem meias-medidas, enfiou-lhes a língua pela garganta abaixo» (primeiros parágrafos do romance)

Ao iniciar a leitura de ficção, romance , novela ou conto, com objectivo crítico-literário, gosto de parar no primeiro parágrafo, aí pode-se ou não definir o curso do rio onde fluirá o enredo e a intriga e como se manifesta, no sentido de uma epifania, a personagem ao mundo.
Dou um exemplo de leitura recente, Philip Roth em «A Conspiração contra a América»;o autor começa com a chegada à Casa Branca do presidente eleito em 1940, o aviador Charles Lindeberg, e inicia uma metáfora sobre o anti-semitismo; como se vê, é uma metáfora e uma ficção da memória, uma falsa memória.

No romance «Caim», José Saramago inicia também a sua obra ficcional com uma falsa memória, começa com um preconceito que passa a falsidade e vai por aí fora de deturpação em deturpação.

A mão de Saramago sobre o texto bíblico é como a mão talibã sobre a arte dos budas de pedra.

A «lógica impecável» que o autor atribui ao desenvolvimento da sua proposta, o humor pela segunda vez usado (a primeira na Viagem do Elefante) e a alegada profundidade da história que se propõe recontar – disse-o ao suplemento Babelia do El Pais –, não se objectiva apenas por razões de estética ou criação literária, sobretudo o que pretende Saramago, é afirmar que o Caim bíblico faz parte de uma «história mal contada».

E, assim, o escritor de Lanzarote quer «repôr» o que se terá passado. «Abel e Caim, desde a mais tenra idade pareciam os melhores amigos», foi o alcance do «fumo» dos holocaustos que começou por ditar a discórdia. O de Abel subia ao infinito, o do irmão não passava do solo. Abel provocava o irmão com esse facto, o que terá levado Caim à ira.
Os valores éticos de Saramago invertem-se sempre, os bons passam a maus, estes são vítimas das circunstâncias; para o escritor «o erro divino».

Esse evento da primeira morte, segundo a teogonia antropológica do autor tornará Deus culpado do sangue de Abel. É a perfeita idiotice da inversão de valores. É a não lograda destruição da Ética divina. É a mais descabida proposta, requentada e pseudo-filosófica, de Deus como autor do Mal.

De uma forma mais simples, trata-se da introdução na obra ficcional daquilo que o escritor insiste em chamar desde o ano 2001 o «factor Deus», que afecta a humanidade.

No que concerne ao Catolicismo ofendido, nome geral com que o autor quer tocar no Cristianismo e na Bíblia, tudo é mal contado, daí ter proposto em 1992 uma absurda figuração de um Messias humano no controverso romance «O Evangelho Segundo Jesus Cristo». Quis humanizar Jesus Cristo, agora quer «humanizar» Caim.

Caim leva-nos biblicamente à teologia da necessiadade de adoração correcta a Deus, do perigo da aproximação do homem de Deus de modo incorrecto, sem a remissão pelo sangue expiador, leva-nos aos resultados do pecado, da Queda, da Morte que começou a ter o braço executor no ser humano.

Caim é ser humano, logo não há, neste contexto, que o humanizar. Será, no entanto, querer ser compreensivo para com o seu acto fratricida? Bondade saramaguiana.

No que concerne à morte, que acaba por ser protagonista ou um deus ex-machina no romance, o autor atribui-lhe a ela a invenção de Deus. «Sinceramente creio que a morte é a inventora de Deus».diz o escritor, para falar dos objectivos da religião.

Com certeza ciente da gravidade das suas proposições em forma literária, Saramago chama ao que escreveu «as minhas fantasias». Estas são levadas ao paroxismo central do romance, do meu ponto de vista. O assassinato de Abel.

A morte de Abel tem uma atenuante justificação, é o crime contra a pessoa errada. Percebe-se logo entre as págs. 35-38. A grande questão que o pretenso ateísmo do escritor quer colocar é, sobretudo, a frase do diálogo central entre deus e Caim. Este diz que «matou Abel por não poder matar deus». Está tudo dito. Embora o livro termine com a incontornável discussão deste tema sempre em aberto.