Tuesday, December 31, 2013

O FILHO MORTO



Ninguém sabe como os olhos
Do Pai penosamente
Fugiam pela Casa
A esperar o Filho morto, esperar assim
Com o Amor em sangue
A tempestade no Céu, a voar no cântico dos anjos
Os prantos cheios das dores do Filho
E o Pai com mão imponderável
Aparta da cruz os seus olhos de silêncio
E da palidez do Filho
E espera que a Aurora se levante e traga o dia
O terceiro dia verdadeiro.

31-12-2013
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Saturday, December 07, 2013

ISRAEL


 
Israel não te esqueças de pedir a memória
Nas tuas lamentações sagradas
Israel não adormeças no museu
Das tuas pedras, Israel
Não esqueças o mundo
Israel quando é que enviarás
Todas as semanas corações
Para lerem o Apocalipse?
Israel tu conheces a lei
Dos artigos de Maimónides, tens o costume
De ler Moisés e ficar preocupado
Com todos os cordeiros do país
Israel tu repousas em citações
E costumas nutrir por Jeremias
A ternura das tuas lágrimas
Israel tu detestas Isaías
Por isso o encerras no vidro da universidade
Israel pensa naqueles que voaram
Como pombas e andaram apalpando
Pela noite as suas janelas
Que esconderam a vergonha dos seus olhos
Em pequenas ruas, ao comprarem leite
E sal para as suas feridas
Israel quando te tornarás um menino
Um bando de pombas a olhar o vento
Que descansa nas figueiras
Israel levanta em redor os teus olhos
Para o mundo ver que estão cheios de lágrimas
Como no ano 132, quando te tornaste sionista
E vestiste Bar-Cochba de messias
Israel acorda todos os sonhos dos lábios
Israel as sinagogas são tarde demais.

1/1986
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Wednesday, December 04, 2013

ESTE SALMO 23 DO SUL



Para a minha Mãe ( Sousel, 3/12/1922 -  )

Mesmo aqui na imensa fragrância da cor
amarelo-laranja

O Senhor é o meu pastor, rodeia-me
de  felizes papoilas e do odor

A estrume fresco, e só o assobio do vento
sobre as águas cálidas já me dessedenta

Transbordam-me dos olhos as distâncias
enche-me da sua presença

 O arco das minhas costas, levíssimo
com o seu olhar sobre mim

Não me persegue a surpresa da morte
durmo sob a minha sombra, num alto monte.

3/12/2013
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Sunday, December 01, 2013

O ÚLTIMO VERSO DO SALMO 23


“E habitarei na casa do Senhor por longos dias” , 23,6


Este verso, ao contrário do que pode parecer, não remete exclusivamente para a eternidade, ou o post mortem do crente, revela-se e amplifica-se no seu sentido maior, que cada momento da nossa vida será preenchido com  as mais ricas bençãos de Deus.
Os versos da poesia bíblica, designadamente nos Salmos, não têm que ter apenas uma leitura submetida a uma única contextualização e uma aplicação literal fechada, tão pouco uma leitura exclusivamente alegórica, neles existe história ( a história de Israel e a do homem como criatura de Deus) como existe teologia, louvor e adoração; por vezes até o Eu poético, num registo intimista, amargurado e arrependido diante do Senhor ( vd o 51).
Particularmente o último verso do Salmo do Pastor, podemos lê-lo de dois modos e dar-lhe a dimensão da eternidade a partir do tempo. Podemos ler o que está lá e o que não está, numa metalinguagem divina. De um modo ou de outro, lê-lo é também um exercício semântico que não dispensa a leitura contextual do verso anterior (vs 5).
O parágrafo que separa ambos os versos 5 e 6, como uma divisão apenas tipográfica que une duas frases num texto, completa todo o sentido de um lugar habitável em que o anfitrião prepara a mesa, proporciona abundância de bens metaforizada no “cálice que transborda”, dá hospitalidade e unge segundo as normas orientais. E nessa habitação não há lugar para os inimigos dos convidados.
Nestes dois versos temos a figura da casa, como habitação onde somos hóspedes de Deus, e sobretudo a narrativa poética da comunhão com Deus na graça e na bondade divinas todos os dias.  A partir deste ponto, podemos ler com uma perspectiva mais alargada, o derradeiro verso com que o salmo termina.
Dividindo assim o verso em elementos, do ponto de vista linguístico observamos o que a frase nos transmite.


“E habitarei” - é em si mesma, literalmente, uma expressão que fala de permanência. No grego da Septuaginta ( a Versão dos 70), no Salmo 23 encontramos o termo katoikein, que significa “lugar onde se vive” e contêm o substantivo “casa” ( oikos).


“na casa do Senhor” - A casa do Senhor poderia ser exclusivamente uma metáfora do Céu, mas parece-nos que o contexto não é isso que nos diz, razão pela qual alguns comentaristas tendem a estender o significado. Mas stricto sensu quer significar quase sempre, como sabemos, o Templo e não o Céu.
A verdade é que tanto no Velho como no Novo Testamento, no grego, quando os autores sagrados  falam do Céu ou Céus, fazem-no de um modo literal para falar de firmamento ou da habitação de Deus.
Os termos usados em dois salmos significativos são comuns e idênticos na tradução grega do Velho Testamento já citado. Salmos 8, 3 e 73,25.
Neles a palavra  “Ouranos”  é também metáfora perceptiva para falar do divino, da divindade do lugar. No grego da literatura clássica tinha também um significado merecedor de nota, era “aquilo que é apropriado para um deus”, isto é, um lugar divino.
Deste modo e seguindo a linguagem poética salmódica, o que o autor sagrado (David ou o autor desconhecido de um dos Cânticos dos Degraus, no Salmo 122 ) quer dizer qundo escreve “casa do Senhor”, é perceptível como sendo o lugar onde Deus está eclesialmente, o templo,  a casa de oração, o lugar onde os crentes se reunem para louvar, adorar e aprender as Escrituras Sagradas, onde estiverem “dois ou três reunidos em meu nome” – disse Jesus Cristo.
Com efeito, na linguagem grega esta figura perceptiva é clara: “oikõ kuriou”.


“para todo o sempre” ou “ao longo dos dias”
A versão da chamada Bíblia dos Capuchinhos exara deste modo o  final do salmo: “A minha morada será a casa do Senhor ao longo dos dias.”
No VT as alianças de Deus com o Seu povo referiam-se ao tempo, aos dias (Ecl 12,1), mas dado o carácter da lógica da aliança divina, que não tinha falhas nem fim, dirigiam-se também para a eternidade.
A expressão na Septuaginta é, deste ponto de vista, clara: makroteta émerõn; indica uma longa distância de dias, o que vai no sentido da conhecida frase coloquial “aquela pessoa teve uma longa vida”.             
A longevidade dos dias neste precioso quanto simples salmo, já chamado “canção da fé” e “de beleza tranquila”, alongam-se para a eternidade. No tempo, porém, vai colocando ao dispôr da ovelha ( metáfora perceptiva) um acervo de bençãos. “A maior das bençãos será uma comunhão íntima com Deus através da continua adoração” (1) na vida e na comunidade do crente.
No decurso de milénios, desde a data em que foi composto, este poema bíblico de várias metáforas extensivas, de fácil percepção, que começa com uma metáfora tomada da vida pastoril e bucólica,  tem dado serenidade e confiança ao crente com a presença divina, mesmo no vale da sombra da morte. Porque além desta está a eternidade.
Finalmente, o sentido prático do derradeiro verso do Salmo 23 foi bem interpretado no livro “Formosa Herança” do saudoso pastor e amigo Alfredo R. Machado: “ Estas palavras além de fazerem referência à eterna habitação de Deus, também se aplicam ao nosso desejo de regularmente estarmos presentes nos cultos da Casa de Oração, juntamente com todos os santos”. (2)

___________________________
(1)  Comentário Bíblico Moody, Vol 2, Josué a Cantares,  pág. 377, Pfeiffer e Harrison, IBR
(2)  Pág. 67, CPAD e CAPU, 2006

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Tuesday, November 12, 2013

JONAS


 Eu não sou ninguém. Deixem-me dormir!
(do poema Talvez me chame Jonas)
León Filipe
 






Levanta-te, vai à grande cidade de Nínive, e clama contra ela
dizia Deus, enquanto em Jope os remadores exercitavam
os músculos para o remo
a longa viagem para Társis através dos altos
castelos do mar, deixem que os conquiste
através do sono, deixai-me dormir
homens do mar, deixai-me rasgar o asfalto
das águas nos meus sonhos, aqui
no recanto mais escuro do navio
Mas é no mar que se faz a tempestade
O meu corpo por um barco e sua carga
e os homens, com os olhos sem outra chave
senão o medo para abrir a alma
e foi tudo
até que o grande peixe me fechou
na sua caverna, nas raízes do mundo
Levanta-te, vai à grande cidade de Nínive, e clama contra ela
disse de novo Deus, sentado à minha espera
abrindo os ferrolhos das trevas.

10/11/2013
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Saturday, November 02, 2013

O DISCURSO DE BABEL



Ninguém queria estar só, nem disperso
isto era apenas o começo.

Nenhum ouvido estranhava o que as bocas diziam

em todos os ouvidos
cabia uma língua apenas, todos sabiam de onde
vinham e como ficariam, jamais frágeis
sob o céu em peso.

Seria a sua torre uma estátua inalcansável
nenhuma água em tumulto
poderia subir ao topo da torre
nem afrouxar a firmeza dos seus pés
isto era só o começo, no céu as estrelas
seriam as suas janelas acesas.

31/10/2013
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Tuesday, October 15, 2013

INGENUIDADE

Quando chegamos à nossa nova casa
sem paredes de tijolo e estuque
rodeada de arame onde suspendemos as estrelas
apertando ao peito o frio
ainda acreditamos
que nos dessem o maná
como Jeová no deserto aos nossos pais.

14/10/2013
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Thursday, September 12, 2013

A Pátria Portátil

 
“Quando sonho com o meu regresso para ti,
eu sou como uma harpa a cantar seus cantos.”
Judah Lévy


Os grãos de areia das tuas estradas são mirra
veludo nos meus olhos, as ruínas
em que está meu coração
começam a encontrar a arquitrave...
Poderei
comer o meu pão na mesa
com raízes no teu chão
conduzirei à mão a paciência
dos meus bois, os mansos
olhos das pombas, as asas
dos cântaros até à fonte de Jacob
onde ensobrava antes
o vale nu da morte
tocam os meus olhos uma luz.
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Saturday, August 24, 2013

A PREGAÇÃO DA LOUCURA

O apóstolo Paulo afirmou como uma antítese que “ a loucura de Deus é mais sábia do
que os homens” (I Co 1:25).

Porventura chocou contra o ensino dos pagãos cultos, designadamente em retórica, e até contra os religiosos do judaismo do seu tempo. 
Trata-se da frase mais anti-religiosa que se possa dizer sobre Deus; no século XX nem
Jean-Paul Sartre se atreveria a dizê-la, não a disse de todo em obras como “A Náusea”
ou em “Huis Clos” ( de onde partiu a célebre frase “o inferno são os outros”).
Dir-se- ia hoje que tal afirmação seria contracultura, por conseguinte, marginal. Os homens não podiam alcançar Deus pela sabedoria deste mundo, mas pela loucura da pregação.
Pregação que é permanente na sua eficácia, nos seus efeitos eternos, tal como o seu
Objecto e Tema: a crucificação, “Cristo crucificado” é indestrutível, eficaz e de efeitos
perpétuos.

A Razão dos gregos
Mas os gregos tinham razão, ainda que indirectamente.
Platão andou perto, só que falava em Mito e Mimêsis, coisas fora de qualquer norma ou cânone, coisas da Poética; embora tenha escrito nas Apologias em nome de Sócrates que não faria discursos “enfeitados de locuções e de termos escolhidos”.
A pregação era loucura, porque os olhos dos cultores da sabedoria humana cuidavam ver nela um absurdo. Um deus crucificado não entrava nem na retórica grega nem nos seus estudos filosóficos, muito menos na idealização do que “deveria” ser um deus.
A palavra da sabedoria divina, na sintaxe da linguagem humana, ultrapassava a loucura. A palavra da sabedoria louca era o Evangelho.
O apóstolo Paulo sabia que a “palavra da cruz é loucura”, se aqueles que perecem  apenas a quiserem ouvir como sabedoria dos homens. E esta reverte-se e adjectiva-se,
na acepção escrita do apóstolo, como louca (“Não tornou Deus louca a sabedoria deste
mundo?”- I Co 1, 20 )
Um bom Amigo de longa data, maestro consagrado, a propósito deste artigo escreveu-me e tomo emprestado, que “a loucura de Deus junta o inconciliável, afirma o
contraditório e traz precisão matemática ao ilógico “.

A questão de Paulo com a linguagem
Paulo reflecte essa preocupação ao dirigir-se à sociedade judaica e grega (At 18,4), em
primeiro lugar, e depois aos crentes da igreja em Corinto.
Não usaria a linguagem dos retóricos, que nesta se apresentavam a si próprios, os  Cíceros e os Sénecas; a linguagem de Paulo apresentava Cristo. No contexto do que
escreveu, relembrando aos crentes coríntios a sua posição perante o Evangelho de Deus,
Paulo era um arauto de Outro. “Mas nós pregamos a Cristo crucificado” - escreveu ( I Co
1:23 )
Se o que pensamos nos pode moldar, a linguagem que Paulo usava como arauto de  Jesus Cristo estava plena do Filho de Deus.
Mas a sua pregação parecia contraditória aos olhos dos religiosos, porque o seu conteúdo parecia ser de um drama, falava de um Cristo crucificado e , assim aos olhos humanos, talhado para o desaparecimento, para a tragédia sem retorno, a morte. E aqui estava o que parecia Loucura.Uma outra linguagem teve o Apóstolo dos Gentios que nos permite identificar a diferença de Saulo para Paulo. A fala de Saulo então não dissimularia ódio, a sua fala verbal não escondia a visão que tinha do fariseísmo. O historiador sagrado Lucas narra que “Saulo respirando ainda ameaças e morte contra os discípulos do Senhor, dirigiu-se ao sumo-sacerdote e pediu cartas para as sinagogas de Damasco”. Saulo assolava a igreja, entrava pelas casas, arrestava teres e haveres, prendia homens e mulheres suspeitos de pertencerem à seita do Nazareno.  Deveria deter poder suficiente e influência decisiva no movimento de perseguição aos  crentes em Cristo, porquanto lemos acerca do gesto de depositarem aos seus pés as
vestes do proto-mártir cristão Estevão.
Não lemos nenhuma fala de Saulo neste período de actividade persecutória que Lucas
narra. O que nos é dado pelo evangelista é algo como uma “actividade contada”, de que
se desconhece a fala do personagem, o que na circunstâcia Saulo disse. “E também
Saulo consentiu na morte de Estevão” ( 8,1).
No silêncio, porém, podemos imaginar ouvir uma voz de ódio , de intolerância com  certeza juntando zelo religioso e honestidade intelectual, mas ódio e intransigência contra
os seguidores do Caminho. Saulo respirava ainda ameaças e mortes contra os discípulos
do Senhor ( 9,1)- escreve Lucas.
As falas do jovem fariseu Saulo estão nas entrelinhas da diegese dos Actos os Apóstolos, ao referirem que Saulo pediu cartas para ir a Damasco. A linguagem de Saulo, para entendermos a mudança, a crise de que foi protagonista, começa no cap. 9 e com a frase – que ouvimos bem, na estrada de Damasco - “ Quem és Senhor?”
Esta pergunta agónica dá início a um novo discurso daquele que seria Apóstolo Paulo,  um discurso em que toda a linguagem estruturante passará a ser a do Amor divino.
Paulo, como um novo Jacob que não consegue lutar e cai por terra, aparece-nos desde a rua chamada Direita e traz uma linguagem nova para a expressão da fé. Cristo crucificado, a grande loucura serena e sábia.
 
© João Tomaz Parreira

Friday, July 26, 2013

Junto aos rios da Babilónia...






E disseram: « Cantem um hino de Sião»
como o vento nas cordas verdes das harpas

Como as abraçaremos, e aos hinos

do nosso coração silenciado?

Às harpas não voltará a alegria, notas de tristeza
com esta terra estranha vão melhor

Mas disseram: « Alegrem-nos
com as nossas coisas, são vossas agora»

as águas dos rios, as lágrimas
que inundam as margens, «cantem

como o vento» disseram, «nas cordas verdes
dos salgueiros a melodia de Sião»

24/7/2013
©

Tuesday, July 16, 2013

Pequeno Salmo CXIX, 11




Ninguém penetra tão fundo nas minhas veias
como Tu, Senhor, na minha corrente sanguínea,
embora por dentro do barro
que me mantém de pé,
ninguém sabe
marcar, mesmo nos glóbulos brancos
o Nome, como Tu, preciso
esconder a claridade da Tua palavra
para os dias mais negros
dentro das minhas veias.

16/7/2013
©

Wednesday, July 10, 2013

Construção Obrigatória de uma Estrela


(Bairro judeu de Varsóvia, 1938)

“Emblemas para os judeus no distrito de Varsóvia, Decreto de 1/12/1939”

É uma estrela que balança nos braços
dos judeus, andar sem ela
não representa um escape, a altura
está quase ao nível do chão,
é uma estrela num fundo branco,
o azul é só para disfarçar
a dureza das pontas, do decreto
que diz que o fundo há-de ser
grande para que tenha a estrela
de David, de ponta a ponta
oito centímetros como lâmina afiada.

10/7/2013
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Wednesday, July 03, 2013

Modo de ver algumas coisas


 
 

“A máquina de escrever é sagrada/ o poema é sagrado”
Allen Gisnsberg


O naipe de instrumentos do Salmo 150 é sagrado
A distância que vai da minha alma
ao céu é sagrada, O pó da terra
que David levantou diante da Arca a dançar
é sagrado, A dança é sagrada
Os cordeiros que deram os seus últimos
balidos no Egipto são sagrados
As águas do Jordão são sagradas, O mar
da Galileia que suportou o peso do Eterno
é sagrado, tudo o que foi criado
todas as formas da criação são sagradas
até as portas da morte
do Salmo nove são sagradas.

1/7/2013
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Tuesday, June 25, 2013

Um Salmo 122





 
(para o meu Amigo Alfredo Rosendo Machado - 1914-2013)
 
Basta-me ouvir o seu nome, a minha alma nutre-se
de beleza, quando chega o dia, o meu espírito
alimenta-se, basta-me ouvir o seu nome
o nome do templo do Senhor, os meus olhos
fogem-me e já vão lá longe, adiante
dos meus pés, com sandálias
de marfim.

24/6/2013
©
 


Thursday, June 13, 2013

A CORDA (Conto)



Ainda tentou erguer os olhos acima da sua cabeça, mas a luz apagou-se. 
Debaixo do céu onde principiavam a pairar os corvos, que o homem já não poderia ver, porque cortara todos os laços com esse céu, o corpo não passava agora de um peso no laço da corda.
Um outro tipo de peso, denso como uma nuvem negra, tinha-se formado antes na sua consciência.
-Traí o sangue inocente - dissera ele. Ainda não pesava o ter cometido suicídio, uma proibição entre as 613 leis da Torah. Por isso, aquele suicídio seria embaraçoso, não deixava de ter uma ligação com os sacerdotes principais de Jerusalém, mais tarde até um evangelista iria levar o caso para o cristianismo.
O homem, mesmo antes do resultado final, ao saber que Jesus tinha sido condenado a morrer, resolveu o assunto.
-É verdade, é verdade, não posso alterar a história – disse com voz trémula, mas cava. E acrescentou - Se pudesse ia falar com Pilatos, dizer-lhe que o dinheiro não é tudo agora.
E foi ao fundo da memória lembrar-se da viúva que lançou a sua última moeda na caixa das esmolas do templo.
-Isso é contigo – tornaram os chefes judaicos.
-Digo-o, porque é verdade, era isso que gostaria de fazer. E atirou aos pés dos religiosos as moedas de prata.
-Ele, apesar do que lhe fiz, falou-me – ainda disse o homem, mais para si próprio do que para os dirigentes do tribunal.
-O que Ele te disse, não nos interessa agora- e fecharam-lhe a porta à conversa.
Nos seus ouvidos ressoavam como pedradas as palavras que ouvira, embora tivessem o peso do algodão que se aplica numa ferida: - Amigo, faz o que tens a fazer – dissera-lhe Ele após o beijo.
Depois desse momento, há quem garanta que o viu a chorar, mas não se pode confirmar esse acontecimento. As lágrimas são, por natureza, gotas de água suave que saem duma fonte trágica que se acorda e que ninguém sabe onde fica. As suas seriam no entanto chicotadas nas faces . O homem não podia parar de pensar nisso.
Nos últimos três anos de vida, enquanto acompanhara aquele a quem um dia chamou Mestre, o seu trabalho tinha sido tesoureiro e acumulador de decepções acerca da missão desse Mestre. Agora não seria nem tinha mais nada.
- O corpo, é a única coisa que tenho – disse para si, enquanto escolhia uma árvore adequada.
Tinha cerca de quarenta anos, evidenciava amargura, a barba crescida tornava-o escuro,
tinha um olhar aguçado nuns olhos que pareciam sempre escondidos entre duas fendas, as suas mãos eram belas, dedos compridos, quem procurasse o seu trabalho anterior não era pelas mãos que o descobriria. Era de Queriote e não havia lá a tradição da pesca, o mar estava morto.
Enforcou-se, a seguir. Teve medo de viver com a sua traição. O ter devolvido as trinta moedas não foi suficiente para tirar o vil metal da sua alma, nem os ruídos das moedas lançadas à lage de mármore se sobrepuseram aos remorsos. O coração parou, enfim, a excitação.
O local, com as suas figueiras, e o vento a espreitar por entre as folhas, era sossegado.
Pendurado debaixo da figueira cuja copa e as folhas impediam que a luz solar lhe deramasse pelo chão o desenho do seu corpo, o homem era uma sombra dentro da sombra.
O corpo já não lhe importava, seriam agora livres de se servirem dele, o que Judas I estava a enforcar era a sua alma. A pequena morte nas carótidas a apertar a maçã de Adão era o menos.

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Monday, June 03, 2013

RUTE



Cobre-me com o veludo do teu manto. A noite está fria.
Conduz-me debaixo do teu braço direito. Constroi ao meu redor a

muralha e redime-me, compra-me e guarda-me na tua cama de
linho e seda.
A tua mão me afaste o cabelo dos olhos para que veja a manhã que

se aproxima
Dá-me o teu nome para que saibam quem sou
Debaixo do teu manto e do teu braço. Redime-me na seda e linho do

meu vestido de noiva
e conduz-me á muralha da tua cama porque a noite está fria.
Desaperta-me a sandália e faz meus pés tocarem no veludo da

tenda onde me guardas.

Maio 2013
Clelia Mendes

Tuesday, May 21, 2013

Salmo bucólico nº 23



Conto as sombras das minhas ovelhas
estão todas, o meu rebanho
fez mover a brancura das colinas

não falta nenhum cordeiro, nenhum
desliga os balidos dos ouvidos maternos
e as ovelhas acendem seus olhos
contra os lobos
as flautas encobrem o silêncio
enquanto não chega a manhã, acendo o fogo
contra os lobos, a manhã vai apagar
a cinza das vigílias da noite.

©

Sunday, May 19, 2013

PENTECOSTES





que esperássemos
na escadaria dos céus
por uma ave que nos abraçasse
de poder, em tua honra
fomos queimando incenso
de brilho tenso escorreito
ao teu olfacto
queimámos, e tu trasladaste
o teu brilho em línguas escorreitas
ao sonho e à visão


entretanto fomos traduzidos
no rumor de um vento
surdo como um terramoto
e as nossas cabeças feitas pequemos sóis
a esperança foi contada
em inúmeras línguas
as línguas em que os anjos
compõem sonhos e visões aos homens


19/05/13

Rui Miguel Duarte

Tuesday, May 07, 2013

A Delicadeza de Deus



Dos ramos do vento, caiu uma folha
bateu-me
nos cílios. De modo diferente

achei grande a delicadeza
de Deus.

2/5/2013
©

Monday, May 06, 2013

THE TREE OF LIFE, Filme

 
 
 
 
Ensaio sobre a Árvore da Vida, do prof.doutor João de Mancelos, meu particular Amigo.
The Tree of Life, escrito e dirigido por Terence Malick, para o Festival de Cinema de Cannes, em 2011.

AQUI

 

Wednesday, May 01, 2013

PRIMEIRO DE MAIO

“este despedazado anfiteatro
de las nostalgias de una burguesía”
Jaime Gil de Biedma

 
Em nome de hoje, Primeiro
de Maio, com as ruas a derramar
as nuvens escuras do futuro, os olhos
dos que já ergueram bandeiras e hoje
têm fome, e assim mesmo

cantam
e aqueles que indicam na sua voz
o tempo inteiro
e justo que é preciso retomar
Em nome de hoje, Primeiro
de Maio, com pássaros também
a latir nos corações e o sol das noites
que aquecia os pobres
só por um instante, as palavras
devem pertencer ao dia
porém como o caudal dos rios
vencendo as margens.

1/5/2013
©

Friday, April 19, 2013

A Pedra Inelutável




Uma pedra no meio da tempestade.
Não é uma pedra nos bolsos, dessas
que levaram Virginia
Woolf ao fundo do rio.
É uma pedra no meio da tempestade
um raio a ilumina, dá-me a visão
o fogo a incendiar a chuva.
Uma pedra insolúvel
na tempestade, as águas rugem
mas com suas mãos minerais a pedra
ergue-me e posso mesmo adormecer
tranquilo, alguém
além da tempestade, pôs a pedra
que é uma ordem no caos
no meu caminho.

19/4/2013

©

 

Wednesday, April 10, 2013

Conto inédito: "Carta para o Evangelista Marcos"

Nicolas Poussin, (1594-1665), óleo s/tela


Conto inédito, in A Ovelha Perdida, Aqui

"Eu sou Bartimeu, o cego. À beira da estrada viam-me como um marco geodésico, um ponto de referência da proximidade de Jericó.
-Lá está ele – costumavam dizer, quando estavam perto da porta da cidade."

Friday, April 05, 2013

ECLESIASTES, I



Mas o sol também sobe a sua montanha
e desce
sobre o trabalho inútil dos homens
o vento perde-se a si próprio
derrama-se quando encontra uma folha
pelas nervuras, emudece
os rios vão passando a sua geração
diante de nós, a foz nunca envelhece
no mar
tudo cansa os olhos e os ouvidos
por vezes cansam-se de ouvir
Nada há de novo debaixo do solo.

10/2/2013
©

Friday, March 22, 2013

UM LIVRO TRANSVERSAL


  

“ Manuel da Silva Moutinho – Um Padrão da Igreja Bíblica” é, estruturalmente, vários livros sob um mesmo padrão: salvar para a memória histórica, sobretudo, a obra escrita do pastor evangélico irmão Moutinho, como era tratado nas diversas comunidades evangélicas onde desenvolveu o seu ministério de meio século. É um livro de memó...rias, que se espalham por 442 páginas, desde o texto propriamente dito às referências. É um livro de vida, da vida lida e da vida pregada.

Esta obra generosa, porque oriunda da generosidade do autor José Manuel Martins, não encomendada por ninguém, nem pela família do falecido, nem pelas Convenções e Comissões Pastorais a que pertenceu, nem sequer pelas igrejas onde serviu, é uma obra generosamente autónoma que se reparte por vários aspectos e facetas do trabalho cinquentenário do pr. Manuel Moutinho.
 

Reparte-se pela biografia escrita a dois tons, um prefacial narrativo, sem laudatório mas deixando correr o factor tempo que se encarrega de estabelecer os valores do que uma vida plena como a do pastor foi executando, o factor tempo e o modo como a acção pastoral foi sendo apreciada por terceiros. Não é tanto uma biografia ( “Não temos nesta obra, a pretensão de escrever a biografia de Manuel da Silva Moutinho”, pág.50 ), é um discorrer do tempo, como uma crónica subliminar e sem a secura das datas. Só a passagem da vida.

Pormenores que compõem os valores de uma vida na história até da família e que passam a ser, simplesmente, documentos. 
 

( “O vizinho bêbado ( o pai do futuro pastor), que batia na mulher e nos filhos...agora ia com eles ao culto( pág.17) )   

O outro tom, também no registo biográfico, com observações interpretativas do autor, é o do desenvolvimento do contributo do legado doutrinário do pastor Moutinho, com o qual se inicia o capítulo I da obra.
 

Tal contributo inicia-se de um modo invulgar, porquanto o início do narrado pelo autor JMM dá-nos uma nota da humildade. “ O pastor Manuel da Silva Moutinho assumiu não pertencer ao grupo dos obreiros melhor preparados em teologia, homilético ou cultura universal “ (pág. 57)

É assim que os grandes homens se ultrapassam a si próprios.
Do ponto de vista da editora “Letras d'Ouro”, que prossegue natural e legitimamente recuperar o investimento, e do autor que deseja ser lido, este livro é, para além de tudo isso, uma obra de gratidão e de bondade.

©

Saturday, March 16, 2013

FRANCISCO





Um homem da Argentina, que andava de autocarro
não disse nada a ninguém
chegou a Roma
e escolheu o nome Francisco, disse

depois “Boa noite”, quando começou
próximo de todos os olhos molhados
na Piazza di San Pietro
fez tirar as estrelas do manto, o branco
seria o melhor ouro.

14/3/2013
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Tuesday, March 12, 2013

O QUE RESTA






Um capote número 42 pequeno para a morte
que a guerra poupou, agora
semi fechado agasalha o silêncio

um capote que um corpo já não pesa
a manga como a corda que se lança
do convés para um braço triste
as mãos intocáveis do soldado só sonhadas
misturam-se com raízes em qualquer lugar
há um buraco ainda quente, vazio
num boné em que o filho há-de crescer.

11/3/2013


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Sunday, March 03, 2013

O CORRESPONDENTE: CONTO




Ainda apanhei os homens a tempo. A correria após saber que ia dar-se uma prisão importante, deixara-me sem fôlego. Não queria perder nada do que aquele grupo de gente suspeita iria fazer.
Eu não sabia os motivos e estava decidido a entender o que estava a conduzir aquela grande turba munida de espadas e cacetes, sobretudo os contornos daquela tensão que parecia roer os rostos. Eram os homens e o alegado preso que me interessavam mais.
Assisti um dia à prisão de Barrabás. Ser levada a cabo exclusivamente por judeus, chefes religiosos, levitas e guardiões do templo, populares e uma escassa companhia de legionários romanos, era uma particularidade desta nova detenção.
-Não quero perder instante algum, deste acto justicialista– disse para um homem que ia, também ofegante, ao meu lado. Empreguei, de propósito, este termo por uma convicção inusitada que me assaltara, ao ver no grupo homens armados e com vestes civis. E continuamos a caminhar, na noite, em passo acelerado.
A turbamulta precipitava-se para um ponto preciso. A direcção que tomava, já entre o arvoredo, era o Monte das Oliveiras. O jardim antigo que fica na base do Monte e onde esteve instalado um lagar de azeite.
-Quem estará a esta hora no jardim? – inquiri para o lado, mas ninguém me respondeu.
Tudo aquilo me parecia estranho. O vento, leve mas constante, fazia rodopiar os restos de folhas velhas pelo chão irregular.
-Dizem que era aquele que derrubava o templo – arguiu um homem com pressentida emoção na voz.
-Está quase sempre com discípulos – lembrou outra voz, uns passos à minha frente.
-Lá para o norte, em Cafarnaum, fez andar um paralítico – disse outro, num tom exaltado.
-No Jordão? Ah quando o filho do velho Zacarias chamava raça de víboras e baptizava, lembrei-me agora- perguntou e arguiu outro, enquanto se desviava de um ramo de oliveira a meia altura de um homem.
-Sim, foi baptizado nas nossas águas – responderam-lhe outros.
-Esse, o baptizador, clamava pela ira vindoura até ficar sem cabeça – ironizou alguém.
-Mas este, parece que tinha palavras e actos de caridade – esta voz compreensiva, de um homem de aspecto jovem que ia perto de mim, pareceu-me ter alguma bondade.
-É mais um profeta, é o que é – disse uma voz de alguém que se juntara a tempo. -Ou um rabi – concluiu o mesmo.
-Nunca o vi, mas parece que está connosco quem o conhece bem e nos fará qualquer sinal- disse um homem armado com uma espada para descansar aqueles que não faziam nenhuma ideia sobre quem iam prender. – Lá à frente vai alguém que o conhece bem, terá andado com ele – disse uma voz áspera e esta informação deu-me a ideia de que começava a perceber-se que havia gente informada no grupo.
Percebi que davam grande importância ao pormenor, como saberem quem era o alegado homem a prender. Talvez ninguém se tivesse dado conta, mas foram falando acerca do futuro de um homem que uns conheceriam e outros não conheciam de todo.
Estes diálogos nocturnos suscitavam-me um pensamento, falavam para afastar fantasmas ou inexplicáveis medos e, também, para que o vazio escuro se preenchesse com alguma coisa menos os temores ou as incertezas sobre o que iriam fazer.
Era uma grande turba com paus e lanças. A força estaria do seu lado. As árvores que iam subindo o Monte das Oliveiras escureciam o lugar tanto quanto a noite que caíra no jardim onde se encontrava o outro grupo.
Ao fundo, o Vale de Cedrom esperava a manhã para se abrir em beleza diante dos nossos olhos. Mas aquela espécie de brilho que se atravessava entre os dois bandos, vinha do ribeiro de Cedrom, antes do jardim, que àquela hora da noite espelhava um luar.
A tensão do nosso grupo repercutia-se, como um tropel, no chão, ao aproximar-se do sopé do Monte onde estava o jardim do Getsemani. Com a proximidade do momento, percebia-se que o nervosismo se adensara, a ajuizar pelas bocas que se foram fechando. Parecia que uma rajada de silêncio retirara as vontades de falar aos homens, que agora começavam a refrear os seus passos e a conter a voz. O silêncio tornou-se denso, quando cautelosamente se aproximavam do grupo que parecia já vir ao encontro. De lá, distinguiu-se uma voz calma, sem nenhum transtorno de pânico: “- Levantai-vos, vamos! Eis que o traidor se aproxima.”
As flores do jardim que as sombras tornavam metálicas, sem cor, eram como estrelas apagadas que se distinguiriam na noite, caso isso fosse possível, pelas silhuetas no universo.
Quase belo, o homem com aspecto ainda jovem, que não passaria muito dos trinta anos, com uma túnica suja no lugar dos joelhos, que se salientou tomando a dianteira do grupo que vinha ao nosso encontro, não apresentava nem temor nem espanto. Os seus companheiros moviam-se com o que parecia ser uma fatalidade desorganizada; mas ele não, ele vinha sereno, de braços caídos, mas sereno. Tomei nota de que ele conhecia o traidor.
Ele adiantou-se à sua gente como se o ficar no meio dela pudesse prejudicar a missão que deveria ter, foi o que mais tarde relatei. Aguardava este momento, pareceu-me disse-o para mim mesmo, desde sempre. E a palavra eternidade seria a mais adequada, aquela que eu aprendi a usar melhor.
-É aquele, que foi beijado – disse um rapaz que estava perto e sublinhou a descoberta com um abanar de cabeça. Depois disse qualquer coisa para o lado, que já não pude ouvir. O tumulto começou.

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Publicado inédito Aqui

Wednesday, February 27, 2013

"Farewell, a long farewell, to all my greatness! "

 
"Farewell! a long farewell, to all my greatness!"

A resignação de um Papa, que é eleito para a vida e para a morte, deve ser tarefa difícil, e que todos temos de perceber. Sobretudo quando também a Coragem e a Honestidade religiosa e intelectual determinam essa resignação.
Joseph Ratzinger é, além de grande pensador e teólogo, honesto. Ele sabe que a "Barca de S.Pedro" - como lhe chama - carece de homens quase nús para a faina da pesca, isto é despojados das riquezas materiais, de jogos de poder, de incongruências, de infecções morais, poderia acrescentar mais maldades.
Joseph Ratzinger, um papa que compreendeu tão bem o Jesus de Nazaré, não pode suportar o jugo da Cúria. Seria esta quem deveria resignar ou até a própria Igreja Católica, a das riquezas e a dos escândalos, bem entendido.
O Cardeal Wolsey, na peça Henry VIII, de Shakespeare, despediu-se assim: "Adeus, um longo adeus, para toda a minha grandeza!"

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Friday, February 22, 2013

VEIO O FILHO DO HOMEM




Abraçava os rotos e os sem
abrigo, que tinham apenas o corpo
os leprosos
e os sem luz, a quem limpava dos olhos
o lodo
Dos publicanos encarava a casa
como sua e aceitava
o perfume do bálsamo a voar nos seus cabelos
Escreveu no chão palavras que o silêncio
não consome, de quem ama o que criou
E deu a sua vida pelas ruínas do homem.

22/2/2013

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Friday, February 15, 2013

O raio e o meteoro



Um meteoro nos Urais (ex-União Soviética) e um raio na catedral de São Pedro ( no Vaticano), prova que o Céu não tem favoritos nem predestinados.


Monday, February 11, 2013

Resignação de Joseph Ratzinger, pelo próprio



« Queridísimos hermanos,
Os he convocado a este Consistorio, no sólo para las tres causas de canonización, sino también para comunicaros una decisión de gran importancia para la vida de la Iglesia. Después de haber examinado ante Dios reiteradamente mi conciencia, he llegado a la certeza de que, por la edad avanzada, ya no tengo fuerzas para ejercer adecuadamente el ministerio petrino. Soy muy consciente de que este ministerio, por su naturaleza espiritual, debe ser llevado a cabo no únicamente con obras y palabras, sino también y en no menor grado sufriendo y rezando. Sin embargo, en el mundo de hoy, sujeto a rápidas transformaciones y sacudido por cuestiones de gran relieve para la vida de la fe, para gobernar la barca de san Pedro y anunciar el Evangelio, es necesario también el vigor tanto del cuerpo como del espíritu, vigor que, en los últimos meses, ha disminuido en mí de tal forma que he de reconocer mi incapacidad para ejercer bien el ministerio que me fue encomendado. Por esto, siendo muy consciente de la seriedad de este acto, con plena libertad, declaro que renuncio al ministerio de Obispo de Roma, Sucesor de San Pedro, que me fue confiado por medio de los Cardenales el 19 de abril de 2005, de forma que, desde el 28 de febrero de 2013, a las 20.00 horas, la sede de Roma, la sede de San Pedro, quedará vacante y deberá ser convocado, por medio de quien tiene competencias, el cónclave para la elección del nuevo Sumo Pontífice.
Queridísimos hermanos, os doy las gracias de corazón por todo el amor y el trabajo con que habéis llevado junto a mí el peso de mi ministerio, y pido perdón por todos mis defectos. Ahora, confiamos la Iglesia al cuidado de su Sumo Pastor, Nuestro Señor Jesucristo, y suplicamos a María, su Santa Madre, que asista con su materna bondad a los Padres Cardenales al elegir el nuevo Sumo Pontífice. Por lo que a mi respecta, también en el futuro, quisiera servir de todo corazón a la Santa Iglesia de Dios con una vida dedicada a la plegaria.

Vaticano, 10 de febrero 2013

BENEDICTUS PP. XVI »

in imprensa espanhola ( el diario.es )

Friday, February 08, 2013

LUGAR SANTO



Doce o perfume tecido nas asas dos querubins,
Do candelabro a luz cai nos dedos daquele que adora
e a canção se solta como agua cristalina
derramada na bacia - Reflexo do rosto de Deus;
Entre os panos da tenda o sopro do deserto dança no incensário
Na mesa o cheiro do pão alinhado é promessa.
E eu como, e o sabor da farinha sem fermento
devolve-me palavras de um poema
escrito no principio do mundo .

Jan . 2013

Clélia Mendes

Sunday, February 03, 2013

O MURO

O Muro das Lamentações é uma oração
em comprimento e altura, deitada
nos buracos vazios do silêncio
ao contrário do Buda deitado o Muro
não brilha, o Muro
é devorado pelos olhos dos turistas
o Muro descarga sobre o mundo
toneladas de pedra, e vozes
ouvem-se junto de Deus em papéis.

3/2/2013
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Friday, February 01, 2013

CONTO: ÁRVORE NO FIM DO CAMINHO


 
As folhas verdes foram partindo pelas nervuras. Rangiam os ramos sob o meu peso como um aviso. Eu não tinha nenhum padrão de altura que achasse inacessível, só o facto de ser de pequena estatura. Por isso subi à árvore. Vistos lá de cima, os homens eram todos do mesmo tamanho.

-Que estás a fazer aí em cima? - foi uma voz de baixo, inqualificável, que ouvi, entre risos que mal disfarçavam o escárnio.

Mais tarde recordar-se-ia de tudo isso – disse-me passados muitos anos.

Zaqueu foi sempre um mau amigo e não andava nunca empenhado em auxiliar os outros.
Números apenas que concorriam para a sua riqueza, era o que pensava dos outros. E contribuintes.
Mas nesse dia aventurou-se a sair de casa e a meter-se no meio da multidão. Um publicano não era nobre na sua terra. Era rico. Os seus vestidos, bastante compridos e de bom linho, não estavam preparados para subir às árvores, emaranhavam-se nos ramos e ficavam sujos de pó. Ninguém estava a entender aquela atitude. Era por certo má vontade das pessoas de Jericó acerca de Zaqueu, porque afinal a multidão procurava a mesma coisa.

-É lamentável, subir a uma figueira! - e o murmúrio era quase inaudível. É certo que a multidão estava agitada, mas mesmo assim podia-se escutar as críticas irónicas dos que estavam sob a árvore. - Se ele caísse, era bem feito – isto ouviu-se distintamente.

Tiveram oportunidade para o insultar. Contudo, só lhe disseram que viria aí um profeta ou o messias e que ele era um pecador e um publicano e que se tivesse vergonha nem sequer estaria ali.

Mas Zaqueu não se importava com o que ia ouvindo, mostrava-se, isso sim, afoito. Nem uma vez se desequilibrou, nem sacudiu o pó das roupas. Via-se que era importante para ele estar ali.

-Zaqueu subiu àquela figueira brava e recusa-se terminantemente a descer- foram dizer aos serviços dos impostos e à sua própria casa, à esposa. Esta achou muito estranha a atitude do marido.

O rumor da novidade vinha dos lados da entrada da cidade. Há anos que aquela porta e aquelas pedras não eram cruzadas por alguém importante. Ouviam-se ao longe louvores, falava-se de que houvera um milagre. Um cego conhecido recuperara a visão. Lá para a entrada, ou no caminho, não se sabia ainda muito bem onde, houve um milagre.

Um milagre naqueles dias, de poeira e calor intenso nos caminhos, não importava o tempo que fizesse, fazia aglomerar muita gente. Estava ávida de qualquer coisa sobrenatural que viesse dos céus, essa gente não suportava já as asperezas da terra.

Tenha sido ou não um dos que O acompanhavam, uma dúzia de pessoas, vinte ou o vozeario inconfidente da multidão, a divulgar o nome, nunca se soube. Chamavam-lhe Jesus. Oriundo da Nazaré, era novo, tinha pouco mais de 30 anos, exibia um vigor de quem poderia viver até à velhice; alto e com uma tez escura, os seus olhos tinha a cor da bondade; as vestes estavam a meio caminho entre as de Salomão e a beleza dos lírios.

Os olhos de Zaqueu foram abrindo caminho entre a multidão, e do cimo da árvore não era difícil perceber quem seria Jesus, pois este distinguia-se pela maneira como a gente mais próxima o rodeava.

- Zaqueu – e o seu nome pronunciado por Jesus, desnudou-o, como se estivesse a descrever perante os mais próximos a necessidade de Zaqueu – desce depressa porque convém-me visitar-te hoje”.

-Eu?- pronunciou esse eu com o medo de estar a descobrir uma grande dúvida sobre si próprio. Desceu uns ramos e saltou contente e cheio de vigor para o chão.

Daí a muitos anos, muito tempo depois daquela Páscoa, Zaqueu, que já não poderia subir a nenhuma árvore, lembrava-se desse dia. ©

Saturday, January 26, 2013

DAVID E BATE-SEBA


"Bathsheba", Ivanov Alexander, 1806-1858



Quem sou eu para condenar-te, David?
Não soubeste segurar os teus olhos
e como duas aves em busca da cor
os lançaste? Desceram da tua varanda
ao encontro da nudez
do amor.

26/1/2013
 

Sunday, January 20, 2013

PSEUDÓNIMOS E HETERÓNIMOS

São vocábulos que não entram na linguagem bíblica. Porque em termos estrictos de crítica literária são márcaras. Personae, diza Ezra Pound.

Mas do ponto de vista bíblico-teológico, da inspiração divina, os escritores dos Livros da Bíblia, antes de serem autores, são homens identificados, tiveram existência própria e sob os seus nomes próprios se apresentaram.

Não são escritores imaginados “ que apresentariam diferentes concepções de vida (…) nem diferentes visões do mundo”

Segundo a inspiração da Palavra de Deus, o Senhor foi revelando na História as suas Palavras através dos vários níveis das frases humanas, níveis fonético, gramatical, contextual, desses autores-homens que manuscreveram o Sagrado, mostrando-se de rosto sem máscaras.

O nosso pensador Eduardo Lourenço, numa das sua obras, sugere que a máscara existiu antes do rosto. Com certeza que não na narrativa bíblica, mas se quisermos concordar, aduzimos que no Jardim do Éden houve uma primeira e arquetípica máscara: a de Satã. A máscara exterior e interior da Serpente.

20/1/2013

 

Friday, January 18, 2013

O VASO QUEBRADO


“Hay veces en que el alma / se quiebra como un vaso”
Francisco Brines

Há vezes em que as mãos do oleiro
também quebram com a dor
para segurar o vaso antes que quebre
e cada caco seja inapelável
e se olvide do lugar
com que enchia a sua redondez
há vezes em que o oleiro
do vaso quebrado, enche-o da forma
e do vigor da água.

16/1/2013

Wednesday, January 16, 2013

O SUBSTITUTO

CONTO
inédito publicado Aqui, em A Ovelha Perdida


Quando abriram a porta da cela, restos do seu nome ainda entraram, uma luz alimentada a azeite num facho e a mão temerosa do legionário romano. O nome tornara-se popular naquela manhã. Mas como nada sabia do que se passava lá fora, estranhou o que lhe pareceu ser o seu nome gritado – Bar…rra…abaas – e o que o soldado lhe atirou à cara:
-Barrabás, vais ser libertado- grunhiu o romano.

Entre a ocupação romana da Judeia e a resistência, com actos terroristas, Barrabás significava medo, rudeza, ideal que não olhava ao sangue derramado, quando o nome se pronunciava. Para os judeus era uma espécie de herói. Quem não o conhecia, só lhe conhecendo o nome, imaginava-o um homem de rosto agreste, barba emaranhada e comprida, olhos de fogo.
Mas Barrabás, era belo. A sua tez morena, as linhas judias do seu rosto, o nariz adunco, os seus olhos
esverdeados.

A sua voz, como a voz de um agitador político, estava afeita às esquinas, dava sons às sombras furtivas, ouvia-se Barrabás e ficava-se com a fortaleza das suas convicções.
- Os romanos para fora da nossa nação! – eram palavras educadas, mas lia-se a violência que era capaz de cometer para que a frase tivesse sentido. Além disso, falava como toda a gente que tinha certezas ao cabo de uma luta de anos.

Quando olhava para as mulheres, evidenciava uma grande timidez, que contrastava com o seu porte. Baixava os olhos em sinal de respeito e falava contidamente. Não se sabia se casara algum dia ou não. Não era velho. Como qualquer revolucionário preferia viver a solidão.

A revolução era a sua vida. Gostava dos essénios, da sua brancura, apesar de serem religiosos; partilhava mais com os zelotas. Dizia-se que era um homem próximo de quem liderava esse movimento político. Mas não gostava de fariseus, tolerava os saduceus, porque faziam política. Os actos revolucionários, os actos extremos até ao terrorismo não se compadeciam com pensamentos
sobre outra vida que não a presente, não cria na ressurreição. Cria na acção.

-A vós não vos falta nada – dizia aos romanos. – Nós, os judeus, é que estamos à míngua, só
apalpamos a terra, e a terra é nossa.

Estas palavras não eram bem entendidas pelos legionários, mas percebiam a rigidez do rosto e a força dos lábios a triturar as palavras de Barrabás. Com eles não era acanhado.

Barrabás lembrou-se de tudo isto, quando vieram abrir-lhe a porta da cela. Nem ouviu o ranger dos ferros que lhe levavam os alimentos. Não teve nenhuma reacção. Só nos corredores do Pretório o sangue começou a ebulir. Começou a entender o vozeario, inesperado àquela hora tão matutina. Já nas ruas de Jerusalém, quando se afastava da Torre António, e de todo aquele tumulto, percebeu a manipulação da multidão e deu-se conta de que os seus crimes tinham sido pagos por alguém. Por um substituto.
Da última vez que se ouviu falar de Barrabás, tinha voltado para Cafarnaum.
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Friday, January 11, 2013

O ÚLTIMO SALMO

Não iria demorar-se muito
o silêncio
nos cantos dos lábios

as palavras como o som

de uma fonte alegre

o fôlego nas trombetas

e os dedos
límpidos nas liras, será hoje
uma respiração diferente.


10/12/2012

Monday, January 07, 2013

"A MENSAGEM", de Eugene H. Petersen





Ele ( Jesus Cristo) respondeu: "Minha querida Marta, você está fazendo tempestade em copo d'água. está se preocupando à toa. Só uma coisa importa e Maria a escolheu. É o prato principal. Não vou tirar isso dela".
(Lucas 10:38-42 - paráfrase "A mensagem", Eugene H. Peterson, Editora Vida)

Não discuto o valor das paráfrases desta mensagem, da Bíblia com uma linguagem do quotidiano, procuro apenas uma contextualização semântica e semiológica e não consigo encontrá-la; que me perdoem os cultores e apreciadores, mas na linguagem aramaica em uso por Jesus, a expressão "tempestade em copo d'água" não existiria porque não fazia sentido, linguisticamente.

Ao ler "A Mensagem", sinto-me como um leitor de uma tradução em paráfrases dos textos originais de Shakespeare.
Possuindo o louvável desejo de modernizar e clarificar a Mensagem, torna-se a mesma difusa, porque não há contextualizações que lhe resistam.

Este tipo de traduções, geralmente para "português" do Brasil, de originalidades pseudo-literárias norte-americanas, sobretudo não têm em conta o que Mikhail Bakhtin ensinou sobre dialogia e harmonia intrínseca no texto dos diálogos. Jesus Cristo nunca dialogaria daquela forma sugerida, nem de outra próxima de um "jargão" inconcebível, porque desconhecido na época, e sem dignidade.