Saturday, December 18, 2010

Haikai

Sob as palmeiras
vejo o rumo do vento,
que amacia as folhas.

Miami Beach, 19-12-2010

Sunday, December 12, 2010

"O Grito da Semente", do dr.Brissos Lino, Apresentação


Decorreu no Hotel Real Palácio, Lisboa, ontem dia 11, a apresentação do livro "O Grito da Semente", da autoria do prof. dr. Brissos Lino. A apresentação da obra, segue aqui:



Dadas as características deste conjunto de textos, poderíamos afirmar que estamos perante a obra de vários autores concentrados num só, dada a variedade de temas que fluem em socalcos de pensamento.
Mas este livro, que tenho a honra de poder apresentar, sendo como é uma colecção de assuntos, acaba por ser aquele rio da antiguidade, o rio de Heraclito, no qual não se mergulha duas vezes na mesma água.

Está patente nesta antologia de textos, diria nesta série de artigos, uma inter-discursividade que passa por alterações do ritmo dos textos, mais fluídos uns, mais pesados de doutrina outros, a intimidade dos mesmos é também diversa, em todo o caso a semântica teológica deste caudal de rio, parte como os 4 rios bíblicos do Genésis, da criatividade e do profundo conhecimento do autor sobre a Bíblia e sobre os homens.

Sabe-se que os japoneses, no século VII, tiveram uma ideia para a utilização das vozes múltiplas que se interligam num género de literatura, o poema, com a criação da renga (poesia de colaboração), que é um exercício de escrita colectiva, num só poema ou conjunto de poemas colectivo.
Entendem o que eu quero dizer, e por que razão trago aqui a Arte Poética. Talvez por uma razão do inconsciente, ou, se este vocábulo for inatingível, por uma razão do coração.

A verdade é que neste «Grito da Semente», salvaguardadas as devidas proporções do género e dos conteúdos, sinto essa diversidade unívoca ao ler todo o conjunto.

Não há neste livro nenhuma peça que esteja a mais, como diria sobre as leis Montesquieu, Brissos Lino sabe há muitos anos que um texto inútil num conjunto enfraquece os textos necessários.

Todos os 37 capítulos, digamos assim, são elos como veias onde corre o mesmo sangue lusitano do nosso autor, que mais uma vez irá beneficiar a não muito abundante portugalidade, genuína, da escrita evangélica. Quase toda ela escrita, agora, em “estrangeiro” e muito mal traduzida em alguns casos, via algumas casas editoras que se dedicam à importação e a aumentar o déficit da nossa balança de pagamentos cultural com o Exterior.

Na sua forma, todos os textos podem parecer iguais, uns mais iguais do que outros, mas a torrente das suas águas teológicas, renova-se de artigo para artigo, de crónica para crónica, de estudo para estudo. Tudo isto com um nome, que me apetece dar-lhe: os diários do pensamento do escritor Brissos Lino.

Saul Bellow, escritor norte-americano e Nobel em 1976, chamou aos diários de um autor “transacções íntimas”. O criador de Herzog ou de Na Corda Bamba, disse isso porque houve um tempo em que as pessoas tinham o hábito de se dirigir a si próprias.

O escritor e poeta evangélico Brissos Lino, fugiu a esse ritual em desuso e estes seus diários de um pensamento, sendo um trading íntimo entre o autor e a sua responsabilidade perante Deus, dirigem-se de si para os outros. Possuem um sentido universal. São uma forma de Missão em toda a trajectória deste novo livro.

«O Grito da Semente», sendo o seu autor um poeta, é um título criativo, «fisga o leitor» (aprende-se isto na Escrita Criativa), é poético, já porque traduz um tropo de linguagem, uma metáfora, ao mesmo tempo um oxímoro, já porque também é uma belíssima impossibilidade que só a poesia logra alcançar. E, no entanto, quão realizável é, quando passa da poiética para o domínio do fazer teologia.

Esta obra, que tenho a honra de apresentar, do Doutor e Pastor Evangélico Brissos Lino, é sobretudo teológica.

Escreve o autor na sua introdução ao livro, que tem uma «ênfase de ministério», que «é a do ensino da Palavra», por isso - escreveu - «me interesso pelos estudos bíblicos e teológicos», e por essa razão também « me arrepio com tantos abusos, desvios e aberrações ensinadas e praticadas em nome de Deus e da Sua Palavra.»- afirmou o escritor.

É com esta consciência que lhe conheço há mais de três décadas, que trata a Teologia, e diria aqui com uma expressão pessoal e de posse, a nossa Teologia, seja esta a Sistemática, a de Brancroft, de Myer Pearlman ou a de Karl Barth.

Sabemos do que trata a Teologia, permitam-me dizê-lo assim, trata da vocalidade nos dois sentidos: do discurso do Homem sobre Deus, que é tout court a Teologia, e do discurso de Deus sobre o Ser Humano, que é Palavra Divina nas Sagradas Escrituras. “O Grito da Semente” vai beber a esta Fonte a sua fresca cristalinidade.

E o que reúne, é de primeira água. Um conjunto de textos de transversalidades, que estabelecem pontes a partir da teologia com temáticas variadas, a cultura e história clássica literárias, a psicologia, a psicoterapia pastoral, o fait-divers da sociedade global seja esta religiosa, eclesial ou secular, a divulgação para o Conhecimento e a Sabedoria, em contexto bíblico que indica o caminho não para se compreender mais, mas compreender melhor.

A verdade é que estamos e estará o leitor perante uma obra teológica, com efeito, mas pensada e estruturada literariamente na concentração, dir-se-ia, da crónica, do texto de carácter jornalístico, do artigo de fundo cristão e bíblico, profundos e ricos como existem poucos nesta área.

Mergulhamos nela como num mar transparente, de peixes exóticos, sem abismos, sem correntes que perturbem a beleza do mergulho no cristal, mesmo sem a beleza aparente dos corais que podem ferir os meios de que dispomos para poder nadar ou caminhar sobre a transparência das águas.

A Teologia aqui, neste livro, não é o grande tubarão simbólico a que as rémoras parasitas de alguns pseudo-teologistas (não teólogos sérios) se agarram para navegar em proveitos próprios.
É Teologia, sim, mas de serviço público, que primeiro nos faz pensar em Deus e depois no Homem.

Vem, de resto, na linha do pensamento de Soren Kierkegaard, cuja argumentação no que concerne à existência de Deus e à nossa mente , se pode resumir a « «Se» Deus existe - e a minha fé não me permite pressupor outra coisa -, como deve o meu intelecto pensá-Lo?»

É uma Teologia prática que prova Deus, isto é, que Ele existe. Que pensa Deus. Páginas como «Discurso sobre Deus» ou «Onde estão os teólogos?», abrem caminho ao que o autor proclama ter de ser feito, no desafio da Teologia, «aplicar o pensamento de Deus e sobre Deus ao mundo e ao tempo em que as sociedades se encontram em cada momento da história dos homens.»
Na literatura cristã, designadamente de inspiração e formação evangélica, o discorrer sobre Teologia, como práxis, pode dispôr de vários meios.

Brissos Lino usa aqui aquele a que chamaria de crónica teológica, que, pelos meios utilizados na sociedade de informação e globalização actuais - sobretudo a web, com os blogues e as redes sociais - atinge ao mesmo tempo um elevado número de leitores.

O tratamento dado a essas crónicas estará na mesma linha, por exemplo, da epistolografia cujos conteúdos versam a teologia, ou não estão nada longe da mesma, no quadro dos valores ético-morais. Pensemos nas cartas trocadas entre o pastor Oskar Pfister e Sigmund Freud, ou esse memorial de angústia lúcida, respaldada pela esperança, que se chama «Resistência e Submissão», as cartas do teólogo Dietrich Bonhoeffer enquanto prisioneiro do regime Nazi.

E estas referências que à primeira vista se nos afiguram tão díspares, conduzem-me a referir uma crónica culta, invulgar nos meios religiosos menos letrados: denomina-se «O Profeta Vergílio». E o autor cumpre assim também o desiderato alcançado de ensinar, de transmitir conhecimento. À pergunta «haverá profecia messiânica nas «Bucólicas» de Vergílio? O próprio autor responde com um texto de pura divulgação cultural-literária, do domínio da história da literatura latina, para culminar, uma vez mais, com a teologia, desta feita concernente à teologia messiânica, aquela que profeticamente Isaías nos traz, puramente cristocêntrica.

Diametral e teologicamente oposto, aparece-nos outro texto, num feliz conúbio entre as críticas teológica e dos costumes rotineiros, religiosos, perante a Bíblia Sagrada, e a pedagogia do como deve ser nosso olhar sobe a Bíblia. E a fórmula inicial que o escritor utiliza, é o aspecto relacional do leitor com a sua Bíblia. Escreve o pastor e pedagogo Brissos Lino:

« Para o cristão comprometido com Deus, a sua Bíblia é quase como uma pessoa. Vamo-nos relacionando com ela ao longo dos anos e desenvolvendo até uma espécie de afectividade com o Livro, tantas são as realidades humanas e espirituais para que ele nos alerta e sensibiliza, e os momentos importantes em que nos acompanha.»

As leituras que o autor faz de diversíssimos assuntos, são leituras da contemporâneidade, mesmo de temáticas enraízadas no tempo mais remoto, para o homem do século XXI, contextualizadas na forma ora pedagógica, ora ensaística, ora teologizante, ora simplesmente literário-jornalística no modo de crónica, com as quais nos presenteia.

Por exemplo, quando escreve a págs. 21 sobre as más hermenêuticas, afirmando que « a descontextualização é um dos maiores crimes que se cometem na interpretação dos textos bíblicos. Não podemos ler textos milenares com a mentalidade e o enquadramento civilizacional do homem do século XXI, pois isso é desvirtuar, à partida, o seu sentido intrínseco.»

Ou sobre os oráculos proféticos, a que muitos pretendem reduzir a Bíblia Sagrada, atribuindo-lhe a baixeza dos chamados poderes mágicos, que Palavra divina não possui. E cito dois brevíssimos parágrafos:
« Um dos erros de utilização mais tremendos é atribuir ao Livro poderes quase mágicos, fazendo dele oráculo profético.
Por exemplo, há quem feche os olhos e aponte o dedo, de forma aleatória, em busca de um versículo que lhe dê resposta ao seu problema do momento.»

Ou ainda sobre o perigo atemporal e constante do liberalismo. «Querer fazer dela uma colectânea de estórias, mitos ou lendas, é reduzi-la a uma mera realidade literária e cultural, retirando-lhe a sua principal característica – o sobrenatural, dada a sua divina inspiração. (…) A leitura liberal da Bíblia é herética.»

Afirmações desconfortáveis para os nossos dias, porque quebram formas anquilosadas, põem em causa fôrmas recorrentes, e correm o risco de ser observadas como heresias, não porque pronunciem o contrário, apenas porque fazem ver de outro ângulo, e talvez partam mesmo um certo fio do discurso estabelecido como tautologia.

« Há temas que são de desconfortável abordagem para um evangélico. Coisas que sempre se ouviram ensinar da mesma forma e que parece quase heresia questionar.» -reconhece o autor de “O Grito da Semente”.

E mesmo sabendo que poderá haver algum desconforto pessoal, pelo modo como alguns sectores religiosos e/ou denominacionais irão passar os olhos por este seu novo livro, o seu Autor não o recusou escrever, juntando peça a peça, reconstruindo assuntos teológicos com os materiais da realidade, ou do simplesmente quotidiano. Sempre sob o dictum literário, e as declarações de opinião ou crença com autoridade pastoral, o que coloca esta obra, “O Grito da Semente” no patamar dos bons livros evangélicos, escritos em dialecto culto mas simples. O que faz do mesmo um livro de cultura. E do seu autor um bom trabalhador da palavra , que maneja bem todos os recursos.

A eclesiologia não foge à sua pena acurada, e um texto como “A idade ontológica da Igreja” é paradigma disso mesmo. Cita Santo Agostinho, com a proposta arquetípica deste a antecipar no século IV uma contrariedade para o filósofo do Ser do século XX, Martin Heidegger, e que diz-nos
"Quem caminha no sentido oposto ao Ser caminha para o nada." E esse texto é um puro ensaio sobre os vários modos como a Igreja se desenvolveu, a partir do que o autor chama “Idade da Conquista”: «Antes de mais, a Igreja terá experimentado uma Idade da Conquista.
Foi uma época de expansão do Evangelho, que começou com a perseguição de Jerusalém e subsequente diáspora dos cristãos pelas terras dos gentios, levando a boa semente do Evangelho.»

O óculo paulino através do qual podemos ver a Igreja, é como um Corpo, e assim é humanamente antropológica, porque formada por homens e mulheres, e cristológica porque centrada e guiada em e por Cristo. Mas a Igreja não é um ente divino. Daí o nosso autor arriscar, a nosso ver muito bem, com o primeiro parágrafo do artigo “A Igreja”:

«O percurso da Igreja, ao longo destes dois milénios de história, nunca foi linear. Ela procurou sempre, como sujeito da História, sobreviver, nuns casos, resistir noutros, dominar, nalgumas circunstâncias, ou ser minimamente relevante noutras.» «A partir do momento em que a Igreja deixou de se comportar como motor da História no mundo ocidental, limitou-se a reagir aos acontecimentos ou a imitar o sistema do mundo sem Deus.»

Finalmente, o estilo do autor de “O Grito da Semente” é eclético, mas conclusivo. Emocional mas de construção contida entre as margens da razão. A transversalidade dos seus textos acaba por se encontrar num acervo comum de informação, que vai da Saúde física à mental, do comentário a uma encíclica papal ao mito do país católico, aos equívocos denominacionais onde perpassa uma desilusão até aos cristãos pós-modernos, e poderíamos prosseguir entre “a alma humana: essa desconhecida” a “E o poeta se fez triste...”

O escritor Brissos Lino, neste seu novo livro, reconstrói realidades, a algumas retira-lhes mesmo o exclusivismo religioso e torna-as assim de abrangência universal, verbalizando através da teologia e de uma boa escrita literária o seu senso comum diante do nosso mundo, o complexo mundo dos nossos dias. O autor de «O Grito da Semente» sabe ser, neste seu livro que apresentamos, nosso contemporâneo, porque sabe ser e estar simultâneo de todo o nosso tempo.

Termino com uma citação do romancista naturalista e do pensamento natural sobre o Bem e o Mal que foi Herman Melville: « a vida é uma travessia rumo a casa” e nesta viagem -escreveu- «não cessaremos de explorar”. É assim que Brissos Lino leva os seus recursos exploratórios até ao cume desta oportuna obra, «O Grito da Semente». Ouviremos, de boa vontade, e agiremos na multiplicação desse grito.

© João Tomaz Parreira



Thursday, December 09, 2010

"Nada onde pousar o Sonho", Antologia Poética


Desafio Miqueias edita primeiro livro de antologia poética sobre a pobreza. Poemas de Fernando Pessoa, J.T.Parreira, Clélia Mendes, Brissos Lino, Lurdes Saramago Chappell, João de Mancelos, Júlia Lemos, Rui Almeida, Rui Miguel Duarte, Florbela Ribeiro, Helena Branco e João Pedro Martins.

Custo do livro: 5 EUROS em oferta exclusiva no FACEBOOK (até 31 de Dezembro)

Portes GRÁTIS! Na promoção de lançamento do livro de poesia Nada Onde Pousar o Sonho e do CD Natal com Significado na loja online do Desafio Miqueias é oferecido o custo de envio da encomenda. A promoção é temporária e para os fãs do Desafio Miqueias.
O livro pode ser adquirido através de pedido para: desafio.miqueias@gmail.com com indicação do nome e morada para envio.

Wednesday, December 08, 2010

De uma Cruz a outra cruz: a palavra do Perdão

A crucificação de Cristo apresenta-se aos olhos da história como um crime da religião, por isso pode ser integrada numa história universal da infâmia.
A infâmia é, para a cultura filosófica e literária, uma relação entre o mal e os homens, desde o filósofo Michel Foucault ao poeta Jorge Luis Borges, que assim o asseveraram e escreveram sobre ela.
Nesta perspectiva , podemos afirmar sob dado ponto de vista, que certos sectores religiosos judeus foram infames, mais do que os romanos, ao levarem Cristo a julgamento irregular, à condenação e à execução na Cruz, no Monte do Golgota.
Contudo, a frase de Jesus Cristo crucificado, uma das chamadas 7 palavras da cruz, “Pai, perdoa-lhes porque eles não sabem o que fazem”, parece redimir os judeus e os romanos da infâmia (a menos que o Senhor a estivesse a usar apenas para os romanos, que parece ser o caso histórica e hermeneuticamente), é que a inocência não pressupõe infâmia.
O referido poeta JLB, numa entrevista sobre a sua História Universal da Infâmia, disse, citando a frase de Jesus: «Eu julgo que Jesus sentiu isso. Sentiu que os seus carrascos, aqueles que o pregavam na cruz, não eram forçosamente uns canalhas. Eram soldados que deviam obedecer às ordens que recebiam.»

A circunstância da frase de Jesus
O quadro diegético (a narrativa) em que esta petição de Jesus se exerce, está registado apenas no Evangelho de Lucas e parece não oferecer discussão aos chamados Pais da Igreja( de Irineu, Clemente a Eusébio) ainda que não se encontre em todos os manuscritos gregos antigos.
As razões, do ponto de vista da elaboração do texto lucano canónico, estarão no próprio objectivo do Evangelho de Lucas e no mundo civilizacional que pretendeu atingir: os gregos, a cultura grega, numa palavra, os gentios, no sentido paulino. Também porque Lucas é a narrativa mais completa da vida de Jesus Cristo.
Assim, a inclusão daquele pronunciamento do Senhor reveste-se de um sentido teológico e da atitude divina e humana de Cristo para com os homens. O relacionamento sempre com base no Amor divino e no Perdão. “Amai os vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem”(Mat.5,44). E, em contexto de sofrimento e morte próxima, “Pai, perdoa-lhes...”.
Lendo a composição dos factos do Evangelista, médico e escritor, vemos que o tempo cronológico e o psicológico, o espaço ( o local) e as personagens, elementos da narrativa, reportam o início da crucificação e os autores materiais da mesma. Admite-se como certo nos meios da hermenêutica fundamentalista e da história da crucificação que a frase de Cristo possa ter sido dita aquando os soldados O cravavam na cruz.
Quem rodeava o Filho de Deus e agia sobre Ele, de forma violenta pelo acto próprio de uma crucificação, foram os soldados romanos; os judeus entregaram-No e, tal como Pilatos, lavaram também desse facto as suas mãos. A narração de Lucas situa-nos nesses momentos precedentes e posteriores à crucificação.
É factual que a proximidade dos romanos e a sua acção “legal” e administrativa efectuada, tenha levado Jesus Cristo a interceder misericordiosa e amavelmente, com Amor que só é divino, rogando para eles e seu acto, Perdão.
A dificuldade poderia estar na causa do pedido desse perdão: que não sabiam o que estavam a fazer. Os romanos não sabiam, cumpriam a execução de uma pena de morte; os judeus, à distância do Monte do Calvário, mas mais perto psicologicamente, religiosamente, familiarmente (conterrâneos) de Jesus, esses sabiam em consciência o peso da sua conta naquela crucificação. Não foram as suas vozes reunidas perante Pilatos, que gritaram bem alto “ O seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos.”?
Sobrepondo-se a quaisquer análises, quer ao que decorre da diegese usada por Lucas, quer à contextualização dos eventos na história da Paixão e Morte do Salvador, há o aspecto profético, do cumprimento profético das palavras de Jesus, palavras tolerantes, compreensivas da natureza humana e repletas de Amor divino.
Com efeito, o proto-Evangelho em Isaías e a narração profética antecipando a história do dia da crucificação, apresentavam esse quadro na parte final do cap. 53, assim: «...foi contado com os transgressores (os dois malfeitores que O ladeavam); mas ele levou sobre si o pecado de muitos ( a função substitutiva do Redentor), e pelos transgressores intercede (aqueles que o estavam a crucificar, naquela circunstância temporal e, soteriologicamente, em sentido mais profundo universal).

De uma Cruz a outra cruz
As três cruzes erguidas no alto do Golgota têm cada uma um lugar na narração de Lucas, sendo a do meio protagonista material de relevo. Nela estava cravado o Filho de Deus. O próprio Jesus Cristo referiu-se, por duas vezes, a esse acontecimento, usando em ambas o verbo ser “levantado”, donde se infere a morte de cruz, da qual havia de morrer (Jo 3,14 ; 12,32), do mesmo modo que o termo induz também exaltação.
A cruz é um símbolo antiquíssimo, que acompanha o homem desde remotos tempos, desde o simbolismo telúrico ao religioso. No religião cristã tomou o lugar simbólico do sofrimento e o factual e histórico como objecto usado para condenação à morte do Salvador do Mundo. É o principal símbolo do Cristianismo, segundo a Enciclopédia Britânica.
Na poesia cerebral e culta do poeta argentino Jorge Luís Borges, em que o autor procura inúmeras vezes os arquétipos das coisas, das palavras, da sua cultura enciclopédica, encontramos mais do que uma vez a referência à cruz, no contexto bíblico e referencial do perdão.
Ao usar nos versos seguintes, um conceito ético sobre o perdão, o poeta JLB fez da cruz o veículo pelo qual esse perdão se transmitiu, através do sangue de Jesus e da Sua própria voz de candor, como o poeta lhe chamou:
“ Gracias quiero dar(...) // por las palabras que en un crepúsculo se dijeron / de una cruz a outra cruz”. Tais palavras carregaram a sublimidade do perdão, não apenas ao malfeitor, mas a todos os homens que creram e crêem, na humanidade.
E o mesmo poeta, noutro belíssimo poema, escreve assim, sobre Cristo na cruz (título do poema): “Cristo na cruz. Os pés tocam a terra. // Deixou-nos esplêndidas metáforas / e uma doutrina do perdão que pode / anular o passado.”
De uma cruz a outra cruz a transversalidade universal do perdão para o Mundo.

João Tomaz Parreira

Saturday, November 20, 2010

Salmo nº 1 do poeta velho

Feliz é o poeta velho que não
faz sombra onde se assentam os novos
nem anda segundo o conselho dos que piam
tão pouco ele se assenta na roda
dos críticos da forma, que é apenas
o que sabem
nem pára no caminho daqueles
que nunca respiraram o azul
que é o ar que está dentro do poema.

11/2010

Sunday, November 14, 2010

Psaume 23

O Salmo 23 em hebraico

Musique de la Bible Revélee, ou/ver Aqui,

Via A Ovelha Perdida

Wednesday, November 03, 2010

A Dracma


É pequena, a moeda, mas é uma perda
no abismo, perdida no lixo
é preciso retirá-la à sua condição
de pária, salvá-la do chão
Alguém varreu, estendeu no ar
novelos de pó, mesmo contra o azul
é preciso salvar a pequena moeda.

Wednesday, October 27, 2010

Welcome to Sherwood Forest

Portugal é assim como que um género de Floresta de Sherwood, em que o governo, qual assaltante, arma ciladas em caminhos lúgubres, sem fuga, e faz de Robin Hood, mas ao contrário: tira aos pobres para dar aos ricos! Os "nobres" da oposição, esses, congeminam nos palácios, contam as bestas ( já não há dinheiro para espingardas ) e fingem que estão a favor dos pobres, que habitam na floresta, para conquistarem o seu apoio. Os pobres, esses, trabalham, trabalham, lutam, esforçam-se uma e outra vez; mas quando não é o Robin subvertido, há sempre um xerife que lhes tira o que conseguem com o seu denodado esforço. Sim, porque nos palácios a festa tem que continuar. O rei, esse, só tem para dizer que está triste... Mas para isso, claro, não é preciso haver um rei; qualque súbdito que habite nos confins desta nossa Floresta de Sherwood sabe e pode dizê-lo com muito mais propriedade . Assim vai este Portugal "Sherwoodiano" .
Texto de Jacinto Lourenço in Ab-Integro

Monday, October 25, 2010

São Sócrates


Dinheiro sujo ou as mãos "limpas" (a contrariar a peça de Jean-Paul Sartre).
A crónica de Vasco Pulido Valente através de A Ovelha Perdida .

Thursday, October 21, 2010

A Morte do Homem


Chegamos ao inicio do séc. XXI e quase uma década passada, chegamos ao patamar de um processo civilizacional que tem culminado no triunfo da indiferença, na perda do gosto pela procura das razões últimas do viver e do morrer.
O triunfo da indiferença não é, porém, novo, e podemos bem seguir-lhe as pegadas num exercício de “analogia entis” até ao Século XIX, e a perda do gosto de razões derradeiras de viver bem podem radicar nesta simples conclusão de Sartre, por estranho que pareça, com origem em Nietzche, : “Se Deus morreu, o homem também morreu”.

Teríamos assim uma alegada conclusão, se Deus tivesse morrido, estariam irremediavelmente atacados os fundamentos da Existência do ser humano. A afirmação temática -a morte de Deus- descontextualizada na frase ”Deus está morto” é, deste modo, uma pretensão mais dos seguidores nitzcheanos que do próprio autor, de um tiro na Teologia, quando na verdade acaba por ser também um tiro na antropologia. Embora para o filósofo fosse um facto consumado e, dizem os seus críticos e biógrafos, uma opção tomada na juventude.

O nietzcheísmo fervente conduziu a alterações no pensamento do filósofo, onde havia apenas contradições entre a coerência e o caos, a declaração de uma coisa e o seu contrário.

Houve nas três primeiras décadas do século XX, após a morte do autor de O Anti-Cristo, em 1900, um reconhecimento internacional tardio e o aproveitamento dos nacionalismos exacerbados, do necessário “fauno louro”, do racismo, e o próprio Hitler a aproveitar-se de Nietzche em 1933 quando visitou o seu Museu-Arquivo, e depois o niilismo anti-religioso, proclamando por todo o lado em contexto e fora dele que “Deus Morreu”.

A razão da afirmação de Nietszche não é preciso ir buscá-la muito longe. Basta fazê-lo nas próprias palavras do filósofo e, já agora, do poeta que escreveu “Aqui sentado à espera, sim- de nada”, sendo aqui o tópos em que lhe surge Zaratustra. Mas leia-mo-lo:

Deus está morto! Deus permanece morto! E quem o matou fomos nós! Como haveremos de nos consolar, nós os algozes dos algozes? O que o mundo possuiu, até agora, de mais sagrado e mais poderoso sucumbiu exangue aos golpes das nossas lâminas. Quem nos limpará desse sangue? NIETZSCHE, Friedrich. A Gaia Ciência, §125.

Descontextualizar a frase inicial, é torná-la um axioma para a vida e para a morte. No fundo, o filósofo visualizava o Homem, acusando-O de ter as mãos sujas do sangue da divindade, sendo neste contexto que a mesma faz sentido, para o próprio, até no conjunto das contradições que o autor adoptou, porque iria assim criar o Super-Homem ou o tal “fauno louro” para civilizar a Europa, para fazer as vezes do Deus que o mesmo homem “matou”, no contexto da religião ou das religiões; se bem que a principal visada seja a Cristã.

Do ponto de vista da ética, sabemos que Deus não está morto, porque o homem também não, porque a existência é precedida da essência, e esta reside no Criador, e depois seria até uma impossibilidade para a legítima prossecução da Moral e do Bem, da Ética e da Justiça, da Liberdade no plano dos Direitos e Deveres da Humanidade, se Deus tivesse morrido.

O romancista da alma humana que foi Dostoievski viu bem essa impossibilidade, que conduziria ao Caos, quando escreveu” se Deus não existe então tudo é permitido”. Mas não.
E por quê? Porque a imago Dei - como o lugar mais recôndito da identidade humana na sua incontornável relação com o divino - desde a Criação do Homem está neste ( não o reflexo de uma entidade fantástica, um ser superior criado a partir do nosso ser, como defendia Engels), e nos impele às acções pautadas pela fraternidade e mesmo Amor ao Próximo, solidariedade e convivência humanas.

A imagem, a centelha vital de Deus no centro do ser humano. “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”, não foi o que escreveu Pessoa ortónimo?

Monday, October 11, 2010

A poética da Expulsão (do Paraíso)

NO PARAÍSO

Inédito de Rui Miguel Duarte

“no Paraíso, estive à beira de todas as cores
quando as manhãs acordaram nos meus olhos
J. T. Parreira, “Expulsão do Paraíso”

Percorridos todos os limiares
e arestas negras, as artérias de granito
em vez da ondulação dos teus cabelos
trocadas as tuas carícias por um grito

culpados de todas as traições
de nos acolhermos ao colo de um pai estranho
extraviados da sabedoria de todas as cores
que falavam das manhãs acordadas de antanho

esquecidos das brisas lentas
das conversas sob as árvores ao fundo
da tarde, restou-nos a sombra do teu vulto
projectada como noite sobre o mundo

Mas na tua carne e no teu sangue
rasgaste para sempre a distância a frio
depusemos então as saudades à soleira da porta
reaprendemos então a alegria da Tua voz de rio

7/10/10

Friday, October 01, 2010

Apresentação das "Revelações", na FNAC

“Os fluxos financeiros internacionais privam metade da população mundial de viver com dignidade” - foi dito na Apresentação do livro "Revelações", do dr. João Pedro Martins, ontem na FNAC, Colombo, Lisboa. Ler Aqui (Via A Ovelha Perdida)


Wednesday, September 29, 2010

"Revelações", do dr.João Pedro Martins

Livro necessário (não é de auto-ajuda), não tanto por nos ajudar a ver a sociedade, a política, a hipocrisia da sociedade e a maldade e o maquiavelismo da política como um fim, mas sobretudo
porque nos ajuda a pensar. Isto é, não tanto ver o tal elefante, mas a cogitar por que razão está no meio da sala e quem o deixou entrar. Nós, eles...?

Saturday, September 25, 2010

E então, onde está Deus?

Atrás de mim, ouvi o mesmo homem perguntar:
* - E então, onde está Deus?
* E senti em mim uma voz que lhe respondia:
* - Onde Ele está? Ei-Lo – está aqui, nesta forca.”


Ler na íntegra Aqui, via Ab-Integro

Friday, September 17, 2010

Agora a Glória de Deus é feita com os Ricos e Milionários?

"Esta semana vi escrito em um outdoor de uma grande e famosa igreja do Rio de Janeiro a frase: “Deus está levantando ricos e milionários para a Sua Glória. (...) Venha ser um deles”, havia também, estampada, a foto do pastor... (Ops!) eu disse pastor? Desculpe! Agora ele foi consagrado a apóstolo...Pois, é!
Não vou discutir a apostolicidade do nosso irmão, mas meu lamento e espanto, semelhante ao do apóstolo Paulo na carta aos Gálatas, quando ele diz: “Admira-me que estejais passando tão depressa daquele que vos chamou na graça de Cristo para outro evangelho..." é perceber como uma grande parcela dos pastores/religiosos hoje estão cedendo à tentação de transformarem as pedras em pães, jogarem-se dos pináculos de seus templos midiáticos e se ajoelharem diante da “grandeza” e da Prosperidade para conquistarem a glória das cidades e reinos deste mundo."




Ler na íntegra Aqui

Saturday, September 11, 2010

Poemas sobre as Crianças do Holocausto

POEMAS SOBRE FOTOS DAS CRIANÇAS DO HOLOCAUSTO,
para ler AQUI


A Libertação

A neve
que caía como as plumas
de um céu assustado
era um toque suave nos cabelos
nos rostos e nas fechadas mãos
ao frio
era a primeira voz de amor
a neve, no silêncio
branco que se ouvia.

Wednesday, September 08, 2010

Pastor protestante ou Cruzado da Idade Média?

Dia 11 de Setembro: Pastor quer queimar Alcorão em público. Ler Aqui, via A Ovelha Perdida, que titula a ligação com: "Nascido fora de tempo".

Saturday, August 28, 2010

Uma estatística para o crescimento da Igreja


«Tudo isso é para o bem de vocês, para que a graça, que está alcançando um número cada vez maior de pessoas, faça que transbordem as acções de graças para a glória de Deus.» 2 Coríntios, 4,15


Este texto da Bíblia de Estudo Nova Versão Internacional, confere ao leitor uma visão bidimensional, no tempo e no espaço, da Igreja a crescer, porque a Graça de Deus estava a alcançar cada vez maior quantidade de pessoas.
Já em 1976, a precursora e similar Good News Bible exarava: “and as God's Grace reaches more and more people” ( e como a Graça de Deus atinge cada vez mais pessoas).

Com efeito, o primeiro instrumento, ainda distante do ramo científico da estatística, com o qual se mediu in arché o crescimento da Igreja Primitiva foi, sem dúvida, a Graça.
A Graça de Deus não foi apenas doutrina, matéria teológica, nem estudo bíblico de reunião no dia do Senhor, teve resultados numa linha de acção que se traduzia no aumento constante do número de pessoas.

A Graça de Deus, na acepção da epistola de Paulo a Tito, traz «salvação a todos os homens», isto é, às pessoas. em consequência faz crescer, em número, a Igreja. E esta Graça, porque é de Deus e não de nenhum sistema denominacional, não se mede apenas pela quantidade, mas pela qualidade dos crentes.

O erro das denominações cristãs modernas e de líderes, quiçá mal preparados, consiste em construir sobre a arquitectura celestial da Graça de Deus os dogmas, os padrões, os preceitos denominacionais, e muito recentemente o trading com Deus. Talvez o protestantismo na sua vertente particular de evangelicalismo não tenha nunca colocado de parte uma certa tendência “judaizante”, sem que este termo induza a um anti-semitismo, que o articulista jamais perfilhou.

A Estatística para o crescimento através das portas
O instrumento de medição estava no coração dos apóstolos, na percepção de que o Evangelho estava a abrir as portas grandes das oportunidades, as portas estavam entre os povos com as suas diversas estruturas sociais, culturais e geográficas, da Palestina à Grécia e Asia Menor e os homens, mulheres e crianças que compunham a Igreja.

Chamavam-se portas do evangelismo pessoal, do evangelismo de massas; portas da necessidade espiritual de um mundo vazio, embora pensante e hesitante por isso mesmo, entre deuses, mitos e filosofias ou sistemas filosóficos; de um ermo de pensamento apesar do gnosticismo; chamavam-se portas da operação de milagres, do Poder de Deus que é, num conceito inteiramente paulino, o Poder de Deus para a Salvação de todo aquele que crêr.

A porta, numa palavra, para o crescimento da Igreja, era uma só: para o judeu e para o grego. Jesus Cristo. Não obstante fosse sendo designada por vários substantivos concernentes à sua utilidade momentânea, no contexto da Igreja Primitiva no Novo Testamento.

O apóstolo Paulo e Lucas utilizam algumas vezes este tropo linguístico, uma metonímia, “portas” para expressar que o Evangelho estava perante um mundo, uma civilização, e até diante de culturas diversas que se abriam para deixar penetrar a Nova Doutrina proveniente de uma cultura tão fechada como a judaica e espalhar a Igreja Cristã.

Uma porta em abstracto que expressava algo concreto como a porta chamada Fé ( Act.14,27 ); a porta da Palavra ( Col.4,3); o próprio Senhor Jesus Cristo ao ditar a João, em Patmos, as 7 Cartas às Igrejas, relaciona uma porta que se chamava Oportunidade, uma “porta aberta” ( Apc.3,8). Uma “porta aberta” que deixava(continua a deixar) entrar e aumentar o número, um número cada vez maior.

Um verbo grego expressivo
Muito interessante é podermos verificar que o próprio verbo utilizado no grego do NT, o verbo perisseuõ, significa não apenas aumentar, mas também intensificar: dar número, mas de igual modo conferir substância, dar força; quantidade, sim, sobretudo qualidade.
A razão de ser do pleno desenvolvimento do Evangelho, através da abertura ampla que os umbrais dessas portas proporcionavam, fez-se com conversões. E estas implicam valores quantitativos, mas, por via do Novo Nascimento, valores qualitativos.
O crescimento era a inevitável, como se diz, solução de continuidade. Era vida, e a vitalidade não é estática. O crescimento da Igreja jamais esteve em estado de repouso. E ainda nos nossos dias, hoje, no Século XXI.

28/8/2010

Texto a sair oportunamente no Portal Evangélico da AEP e na revista Novas de Alegria (secção Análise/Perspectiva, do articulista)

Saturday, August 14, 2010

Uma Bela Viagem para Ítaca

Uma bela viagem deu-te Ítaca.
(Kaváfis)



Se pensas regressar a Ítaca
escolhe o amplo mar
não te percas nas esquinas
da tua mente, nos espelhos
que mostram o teu rosto
Vai como estás, tu apenas
és a única equipagem
Se partires um dia rumo a Ítaca
não penses
que o sal e o orvalho das manhãs
impedirão as cãs no teu cabelo


Não há Penélope nem Telémaco
que te esperem
nem cão, porque chegas contra o vento.

(c) 7/8/2010



Tuesday, August 10, 2010

os pastores das igrejas Assembleias de Deus e as eleições de outubro 2010 no Brasil





"No dia 03 de outubro de 2010, serão realizadas eleições para todos os cargos políticos eletivos desta nação, exceto para prefeitos e vereadores. As principais matérias de cunho anticristão, tais como aborto, casamento gay, projeto de lei da homofobia, projeto de direitos autorais da internet e outras, estão estrategicamente escondidas nas gavetas do Congresso esperando o término dessas eleições para voltarem com toda força. No momento, os crentes, que sempre foram considerados o atraso da sociedade brasileira pela grande maioria dos políticos, estão sendo paparicados e adulados.
Creio que isso não é novidade para nenhum dos leitores.
Como também não é novidade a certeza de que muitos políticos descrentes têm de que é muito fácil comprar o voto dos evangélicos a partir de propostas indecentes para seus pastores. Eles sabem que a fé e a moral desses pastores são bem relativas -- com as raras e abençoadas exceções de sempre.
Pois bem, assim que os próximos deputados federais e senadores tomarem posse, em 2011, todos os assuntos antibíblicos engavetados e camuflados voltarão à pauta. E os crentes voltarão a ter o cheiro ruim de fundamentalismo e atraso que eles sempre disseram, depois de eleitos."

Thursday, August 05, 2010

Friday, July 23, 2010

Já não volto a dizer, inédito de Brissos Lino

Já não volto a dizer
“deves”
quem sou eu para empurrar
escada acima
fardos alheios
com palavras doces
penduradas em lojas
de conveniência?

Curvo-me perante todas essas
vidas tremidas
perdidas no templo
que é o mundo
os náufragos da espécie
com seus olhos grandes
e húmidos
à espera que certa manhã acorde
dentro do peito
e a luz suave e fresca da aurora
consiga romper
por detrás de uns olhos
mortiços.

21/7/10

(Brissos Lino)


Monday, July 19, 2010

Lançamento do E-Book: "Na Ilha Chamada Triste"


O antologista e poeta brasileiro, Sammis Reachers, lançou este e-book de poemas AQUI

E escreveu:

«Nos 16 poemas que compõem este opúsculo, iniciado no Recife (Brasil), “defronte do mar”, em Abril de 1995, e concluído em Aveiro (Portugal) pelo mesmo ano, o poeta evangélico lusitano J. T. Parreira enfeixa as vozes de uma Patmos do Exílio e sua companheira sequaz, seu quase duplo que é a Solidão. Ilha (e ilha interior) da pura contemplação do profeta (apóstolo João) e do poeta (JTP) que produzem num a Revelação (Apocalipse), que com seu tesouro de ora literalidade, ora alegoria, nos traz a Advertência e a Esperança; e noutro a poesia que re-conta, re-vive, re-vigora e trans-vigora com a verve de sua voz poética as vivências do Apóstolo em seu exílio insular.»

Friday, July 16, 2010

"Justice and Pentecostals!" (Os Pentecostais e a Justiça!).


A Associação de Teólogos Pentecostais na Europa (EPTA) fez uma importante declaração no passado dia 9 de Julho, no final da conferência "Justice and Pentecostals!" (Os Pentecostais e a Justiça!).

A conferência teve lugar no Mattersey Hall College and Graduate School, em Inglaterra, e o orador principal foi o reverendo Joel Edwards, teólogo pentecostal e o actual Director Internacional do Desafio MIQUEIAS.
A Declaração de Mattersey representa um forte apoio do movimento pentecostal à campanha internacional do Desafio MIQUEIAS depois do comunicado da Aliança Evangélica Mundial a encorajar cristãos de todo o mundo a participar no maior movimento de oração da história da igreja, com uma estimativa de 100 milhões de cristãos a orar pelos pobres no dia 10 de Outubro de 2010.

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Declaração de Mattersey
Concordamos que nossa herança como pentecostais demonstra uma profunda preocupação pelas obras de misericórdia, justiça e compaixão pelos pobres e que o Evangelho completo que temos historicamente proclamado aborda toda a gama de necessidades humanas, seja espiritual, física ou social.
No entanto, reconhecemos que redescobrimos tardiamente as implicações do que isso significa em termos da nossa missão holística no mundo.

Perspectivas históricas
Embora os trabalhos de compaixão tenham representado uma parte vital das actividades do movimento Pentecostal, historicamente, não temos feito a melhor abordagem das questões da justiça para os oprimidos e raramente temos defendido a causa dos marginalizados, além de dar-lhes socorro e assistência imediata. Nós somos incentivados pela leitura do início da história Pentecostal para abraçar a missão global da Igreja, na qual a evangelização e obras de justiça são indissociáveis.

Fundamentos Bíblicos
Reconhecemos que a Bíblia nos mostra que Deus se preocupa com o bem-estar da humanidade e que colocou sobre o seu povo a responsabilidade de agir com justiça, amar a misericórdia, e andar humildemente com Deus (Miquéias 6:8). Além disso, vemos que Deus nos obriga a defender a causa em nome daqueles que não têm voz e a "defender os direitos dos pobres e necessitados" (Provérbios 31:8 9). Vemos a expressão suprema desta preocupação de Deus na proclamação de Jesus no início de seu ministério, quando ele declarou: "O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para pregar boas novas aos pobres. Ele me enviou a proclamar a liberdade aos cativos e restauração da vista aos cegos, libertar os oprimidos, a proclamar o ano da graça de Deus. "(Lc 4,18-19).
A igreja primitiva continua essa preocupação quando responde à chamada para cuidar dos pobres (Gl 2:10, 6:10), das viúvas (Atos 6:01 ss.) dos órfãos (Tiago1:27).

Considerações Teológicas
É da própria natureza de Deus ser compassivo e justo. Portanto, como seres humanos criados à semelhança de Deus, também temos a capacidade de mostrar misericórdia e defender a causa dos desfavorecidos. Na vida de Jesus, esta atitude é exemplificada na sua missão para com os pobres, os doentes, os abandonados e marginalizados de sua época. O Espírito Santo capacita a Igreja para realizar esta comissão em palavras e actos, transformando pessoas e comunidades a viver com a visão do indivisível Reino de Deus e a não se conformar com os padrões deste mundo.


(ver Aqui)

Wednesday, July 14, 2010

Os Desencontros da Aculturação

Uma nota do contista e poeta João de Mancelos:

O "encontro" entre os europeus e os ameríndios permitiu-lhes perderem vidas, línguas, mitos, territórios, tradições, modos de vida. Hoje as estatísticas indicam que o alcoolismo, o suicídio, o desemprego e a violência doméstica, tanto entre os ameríndios a viverem nas cidades como os das reservas são mais altos do que em qualquer outro grupo étnico. Não foi um encontro muito feliz, como Joy Harjo, Sherman Alexie, Roberta Hill Whitman e tantos outros escritores afirmam, e dezenas de milhares sentem na pele. O "encontro de culturas" é uma treta made in historiadores europeus e euro-americanos desejosos de lavarem a cara da história.

Um excerto de uma história de Joy Harjo (poeta ameríndia):

"(...)
Num banco de jardim vemos uma avó Athabascan, dobrada sobre si, cheirando a duzentos anos de mijo e sangue, os olhos fechados para uma escuridão desimaginada, onde ela está sepultada em dor e já nada faz sentido.

(...)
E penso na prisão da sexta avenida, em Los Angeles, onde homens negros e índios cumprem pena, onde o Henry foi atingido oito vezes à porta de uma loja de bebidas, e quando o carro se afastou, viu, surpreendido, que ainda vivia, sem buracos de balas, apenas oito cápsulas espalhadas em seu redor, no passeio. Todos nos rimos da impossibilidade disto, mas também da verdade. Porque nunca ninguém acreditaria na fantástica e terrível história daqueles que não era suposto terem sobrevivido."

(Trad. J. Mancelos)

Material extraído, com permissão do autor, do Facebook

Thursday, July 08, 2010

Quando David compôs um Aleluia

Quando David compôs um Aleluia
Bate-Seba iluminou, fora do leito
o seu joelho, reacendeu
a água pequenas pérolas na torrente
tranquila, quando o intento
de David compôs na lira
um Aleluia, a alegria
ondulou nos pastos verdejantes
com passos de silêncio.

21/6/2010

Tuesday, June 29, 2010

"LAVRE - Uma Família do Alentejo" - prefácio de José Saramago


De como José Saramago escreveu um prefácio como acto de justiça, ler Aqui

« Nasci em Lisboa, mas cheguei à pequena vila de Lavre, no Alto Alentejo, pelos meus seis anos de idade. Era a terra de origem duma parte da minha família materna. Não era o caso dos meus avós maternos, que eram ribatejanos, de Canha e Santana do Mato, mas foi ali, em Lavre, que sedearam cedo a sua vida. Lavre era por essa altura uma pequena vila sem nenhuma importância no mapa sociológico do Alentejo a não ser a que localmente lhe era emprestada pelo bulício próprio do regresso do trabalho, de homens e mulheres, ao sábado, no final da tarde, após uma semana dura a que a agricultura e os campos se tinham encarregue de sublinhar a rudeza com que tinham que ganhar um salário que não dava para ir além de um "avio" semanal, feito nas escassas lojas do comércio, onde as dores da labuta e da vida se inscreviam em colunas de contas a débito de suor e lágrimas de quem se desgastava, a ferozes golpes de desumanidade, numa terra que não era sua.» (...)

( Jacinto Lourenço)

Saturday, June 19, 2010

A Questão Saramago


José Saramago, coerente como era entre escrita e pensamento anti-religioso, hoje diria «já não Sou», diante das reportagens em directo: «José Saramago vem», «a coroa de flores que acompanhava José Saramago», etc.etc..
«Já não sou», «Não ressuscitei, nem regresso». Diria, se fosse possível ao Homem falar depois do derradeiro Problema que terá de enfrentar.
Como escreveu um dia Camus, a propósito de alguém que colocou uma brevíssima nota de suicídio na porta do seu quarto: «Entrem, estou enforcado»- e já não «estava», nem «era» -, o Nobel da Literatura português já não É.
Do ponto de vista do Ser, está para lá do espaço-tempo kantiano.
É mais exacto dizer-se: o corpo de José Saramago, «os restos mortais» de José Saramago, é mais exacto para a polissemia das imagens mentais ou gráficas da Morte.
E isso vem colocar a Questão ( da Morte), independentemente de qualquer posição, crente ou ateia, religiosa ou anti-religiosa, pró-eclesial ou anti-clerical.
O escritor, agora desaparecido, afirmou, consubstanciando mais a Morte do que Deus, no seu típico modo de se expressar, que "A morte é a inventora de Deus".
É um pensamento, diria melhor uma frase de entrevista que, retirada do contexto, funciona como um axioma; mas não é, é tão-só a contextualização da desculpa da fragilidade humana, da mortalidade, uma constatação ateísta de um facto se fossemos imortais, alegadamente não precisaríamos de Deus, por essa razão universal, segundo Saramago, a Morte é a inventora do Divino. «Se fossemos imortais não teríamos nenhum motivo para inventar um Deus.»-foi deste modo que concluiu.
Sendo assim a Morte tão poderosa, segundo Saramago, ao inventar uma Entidade como Deus, coloca-se a questão com Q maiúsculo: E Agora?
A Questão de Deus, respondida por Deus ao Escritor, poderemos interpretá-la na Bíblia; a resposta de José Saramago, essa, jamais; poderemos construí-la ficcionalmente, em literatura, como ele fez, não mais do que isso.

Tuesday, June 15, 2010

Uma Habitação no Exílio


Sentados sobre mais de um milhão de metros
cúbicos de lágrimas
vendo passar Babilónia reflectida
uma ilusão nas águas
passavam largas horas com a memória
em Sião
com a saudade em risco de se perder
largas horas olhando o silêncio
pendurado nos salgueiros
Ouviam a solidão dos que pediam
que entoassem as canções
do Senhor em terra estranha
como uma água sem fonte
e desolada.

Monday, June 07, 2010

Experimento ver-me com os olhos



para Maria Joaquina Parreira

Experimento ver-me com os olhos
de minha mãe, ela pode amamentar-me
pode medir-me e ver que não cresceu
o meu corpo, pode censurar
meus olhos mineiros
a procurarem poesia
e dizer - filho, os teus olhos
estão mais magros -
Tento ver-me com os olhos
de minha mãe, podem chorar
com as minhas lágrimas
Mas eu não me alcanço
como ela faz todos os dias.

3/06/2010

Saturday, June 05, 2010

Os Protestantes


Brissos Lino

“Com os protestantes, por exemplo. Eles reuniam-se numa pequena casa no cimo da vila, por detrás do quartel. Não tínhamos nada contra eles, sabíamos vagamente que eram diferentes e não resistíamos à tentação de os provocar. Mas um dia o meu pai soube e bateu-me. Foi das poucas vezes que o fez. Quem não respeita os outros não se respeita a si mesmo, disse. E estava muito zangado.”
(Manuel Alegre, Alma, p.114, ed. Leya, Lisboa, 2008)


Neste romance de Manuel Alegre (“Alma”), publicado pela primeira vez em 2001, o escritor português recupera memórias de infância à volta do ambiente social e político da sua terra, Águeda, aqui representada por uma pequena cidade de província denominada Alma.

As tensões monárquicos-republicanos, num primeiro momento, e depois Estado Novo-reviralho, traçam a história das gentes da terra, a partir do seu imaginário infantil, numa narrativa ao estilo da dinâmica autobiográfica.

Sem querer, o autor acaba por traçar um retrato simples mas profundo de uma nova realidade à época, o surgimento de pequenas comunidades de fé protestante no interior do território luso, apenas num pequeno parágrafo.

Sobretudo, interpreta com mestria um misto de estranheza, algum receio da diferença e antagonismo embrulhados nalguma desconfiança, uma caldeirada de sentimentos populares que então os protestantes despertavam no povo, independentemente da sua condição social.

Desde logo pelo facto de se reunirem em casas comuns e não templos construídos de raiz, devido às dificuldades da lei, que não permitia outros espaços dedicados ao culto religioso com fachada directamente para a rua, a não ser templos católicos, mas também pelas óbvias dificuldades económicas de quem não podia contar com nenhuma ajuda das entidades públicas e estava limitado pelas leis e pela governação quanto a possíveis acções públicas de promoção e divulgação da sua fé.

Depois porque, não se podendo dar a conhecer abertamente, eram vítimas da desconfiança geral de um regime que não era tolerante e de uma sociedade que não era democrática.
Acontece que esta situação foi muitas vezes agravada pela animosidade dos sacerdotes que, em muito lugares, tudo fizeram para virar o povo contra esses tais “protestantes”, acusando-os, de forma injusta e patética, de serem “comunistas”, “maçons” ou antipatriotas”. Para já não falar das estórias mirabolantes que se inventavam sobre os seus actos de culto.

“Não tínhamos nada contra eles”, afirma o protagonista da estória, “mas sabíamos vagamente que eram diferentes”. E por isso mesmo “não resistíamos à tentação de os provocar”, adianta. Embora isto se passe com crianças e se trate de literatura de ficção, não deixa de ser uma marca de intolerância, de falta de aceitação da diferença, de falta de respeito pelo Outro que caracterizavam a sociedade portuguesa da primeira metade do século vinte.

O que vale é que o pai do menino Duarte Faria era um homem de princípios e lhe deu uma grande lição de vida, porque percebeu que o petiz necessitava de aprender a respeitar-se a si mesmo. E a melhor forma de o fazer era através dos outros. Por isso fez questão de lhe explicar bem a ideia, através de palavras, mas sem prescindir ainda de uma preciosa ajuda pedagógica: chegando-lhe a roupa ao pêlo…

Wednesday, May 26, 2010

Getsêmani



Poema Inédito Especial do poeta Rui Miguel Duarte
Colaborador


Tenho a alma amortalhada,
Sequinha, dentro de mim”
Mário de Sá-Carneiro, “Dispersão”

Tenho a alma amortalhada
oculta dentro de mim
e imbricada na penumbra deste jardim
a minha alma é a pedra
e a mão que a lança
a funda e a testa do gigante
a alma seca sangrada
do cutelo dos verdugos
e ainda sempre
tão em carne viva
a minha alma dispersa
pelos ramos destas árvores
e amigada às folhas caídas
que os meus pés pisam
alma casada com os espinhos
dentro de mim todo
moeda de compra preciosa
exposta na mortalha
26/05/10
(Rui Miguel Duarte)

Monday, May 24, 2010

Crise

A boa mesa.

Eles tinham uma. Seria a última

coisa a ser vendida.

24/5/2010

Monday, May 17, 2010

Nota para um perito chamado padre Ratzinger

Fé e Cultura é, sem dúvida, uma communio ( comunhão) para Joseph Ratzinger.
Não é pois por mera necessidade de usar o seu nome que a revista “Communio” o teve como colaborador no seguimento lógico dos documentos do Concílio Vaticano II.
Ratzinger vem de uma tradição, como perito do Concílio aberto por João XXIII, de agitar as águas e colocar questões difíceis de digerir pela Hierarquia.
A escassos mêses da sua eleição, o futuro Papa Bento XVI dá uma entrevista ao diário italiano La Repubblica, e afirma o que os Evangélicos há muito denunciam, que «Deus está marginalizado, na vida política parece quase indecente falar de Deus. (...) Uma sociedade em que Deus está totalmente ausente se auto-destrói».
Deixou a sua marca de teólogo inconformista durante o próprio Concílio em várias matérias que hoje levariam o título de fracturantes. A questão da não obrigação do celibato.

O mês era o de Outubro de 1963 e discutia-se «casamento ou celibato dos diáconos?»
Tratava-se, sobretudo, de a Igreja Católica Romana restaurar a função do diácono na pastoral, podendo o mesmo substituir por ausência os sacerdotes em certos sacramentos como assistir a casamentos, ensinar, presidir à oração, etc, e não apenas na distribuição da eucaristia. Havia o exemplo da Igreja do Oriente já possuir diáconos e padres casados, desde a sua origem.
O Cardeal Ottaviani, que viria a ser primeiro Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, dirigia os trabalhos com mão férrea já disposta para o renovar da Inquisição com outro nome mas idêntica substância, adaptada aos tempos modernos, acolheu contudo todas as posições, mesmo as que reclamavam a possibilidade de os diáconos deverem ou não ser «ligados pela lei do celibato».

No fim do debate, diz a história (1), ainda que «por caminhos ínvios» à propositura aduzida às discussões conciliares, veio perguntar se «antes que restabelecer um diaconato permanente, não seria melhor conferir a certos homens casados a ordem menor do acolitado», podendo de facto «administrar certos sacramentos unicamente em caso de necessidade e na ausência de padres».
Estava assim desmontada em 30 de Outubro a proposta «revolucionária» de certos peritos teólogos, três apenas no entanto, que fizeram circular textos entre os bispos pedindo-lhes para votarem a «favor de um diaconato sem obrigação do celibato».
O Cardeal Ottaviani afirmou, na circunstâcia, que«os bispos não devem depender dos peritos nessa matéria e estes últimos saíram fora da sua missão». (2)

Todos se perguntaram quem eram os três peritos visados pelo Cardeal. Os textos traziam as assinaturas dos mesmos, sendo dois deles mais tarde reconhecidos como grandes teólogos da Igreja Católica Romana: Karl Rahner e Joseph Ratzinger, o último poderoso Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

Naquele início da década de 60, Ratzinger propugnava, como padre conciliar, perito e consultor teológico no Concílio, por algumas reformas. A colegialidade dos bispos, o envolvimento positivo de todos, hierárquia, institutos missionários e fiéis, nas Missões, e até o tal princípio do Não ao celibato obrigatório dos padres. Todavia um artigo no Paris-Match de 5-11-1963 reproduzia sensacionalmente as palavras de um bispo francês: «Padres casados, no Ocidente, é assunto para o Concílio Vaticano III»
(1) A Igreja do Presente e do Futuro- História do Concílio Vaticano II, 3 Volumes
(2)Ibidem, Vol. 1, págs 296/300


Tuesday, May 11, 2010

A Morte que mata o Ser

Uma nota de suicídio na porta do quarto de Chatov (nome meramente literário), dizia: «Entrem, estou enforcado». Mas ele já não «está», ele já não «é».
A morte traz a ausência do Ser e com ela a não prestabilidade do corpo. Fernando Pessoa viu bem esta relação Ser, corpo e utilidade no poema «O menino da sua mãe»: «Está inteira / e boa a cigarreira. / Ele é que já não serve».

A Primeira Vez
A primeira vez que a palavra morte se verbalizou através da conjugação de um verbo, como uma acção contra o Ser, foi no jardim do Éden e foi o Criador da Vida que a proferiu (Gn 2,17), como um aviso conducente ao Bem e ao Mal e ao livre-arbítrio do Homem.

Aceitamos que Deus falava de duas mortes, que se viriam a institucionalizar, digamos assim, a morte física e a espiritual. Depois Caim materializou a parte física da morte ao assassinar Abel.
A Morte para matar o Ser estava instituída sobre a Terra.

Caim teve, apesar do seu terrível feito, da sua arqui-construção da ideia e do facto «Morte», consciência disso, ao transpor para a universalidade dos seres humanos o incontornável verbo «morrer», ao percepcionar que qualquer um o poderia «matar».
«E serei fugitivo e errante na terra, e será que todo aquele que me achar me matará»- disse, no livro do Génesis.4,14

Quando se morre, já não se «está». O nosso «Chatov» dispunha de Ser, quando escreveu a sua nota de suicídio «era» ou, para usar uma expressão de Heidegger, o filósofo do Ser, era «Ser-aí» (Dasein -o ser-aí ou o ser-no-mundo), ao perpetrar a sua própria morte deixou de «ser», deixou de «estar».

Por essa razão, o suicídio como resultado a que qualquer desespero conduz, é ampliado para um delicado problema filosófico, mas sobretudo teológico nosso contemporâneo.
Desde o século XX, designadamente, teólogos protestantes célebres têm-se debruçado sobre o suicídio como sendo este uma resposta materialista ao divino, Paul Tillich e Karl Barth. Também o olhar e pensar filosóficos, por exemplo, de Albert Camus, foram nesse sentido.

Não é mero axioma o início do celebrado «Mito de Sísifo», de Camus, quando escreve que «só há um problema filosófico verdadeiramente sério: é o suicídio». Claro que o evidencia como resultado do seu pensamento, não existencialista que não foi, mas de filósofo e romancista perante o absurdo que ele considerava na existência humana. Por essa razão, prossegue ao qualificar a importância do problema, que é o suicídio, como uma resposta ao julgamento de se «a vida merece ou não ser vivida».
Se não merece, então está justificado o suicídio, a morte voluntária, como alguns sociólogos já lhe chamaram.

Aquele romancista-filósofo escreveu, ainda naquele ensaio, que nunca viu ninguém morrer pelo argumento ontológico, pelo princípio do Ser e pela sua finalidade eterna, em contrapartida disse que viu que morrem muitas pessoas por considerarem que a vida não merece ser vivida.
Mas desde o Éden, desde os primeiros capítulos da humanidade iniciada em Adão e em Eva, que a morte e o morrer começaram por ser ontológicos e se passaram para o plano meramente físico, a essencialidade jamais deixou de estar no Ser.

Os crentes, os Cristãos pelo menos, para não falar dos Judeus ou dos Islamitas, sabem que no Ser humano vem em primeiro lugar a essência e depois a existência, porque o homem é criação divina.

Morrer o Ser
Matar-se é, em certo sentido, confessar, proposta camusiana que tende a contribuir subjectivamente para o existencialismo, mas só na medida em que o romancista referido diz que é «confessar que se foi ultrapassado pela vida».
Esta é uma perspectiva de um agnóstico que estruturou o seu pensamento no problema da ausência de Deus, nunca afirmando a Sua não existência. Disse-o, com compreensão pelos crentes, desta forma: «ninguém pode desencorajar o apetite da divindade no coração do homem».
Isto dito por um homem sem fé, é marcante. «A existência humana é um perfeito absurdo para quem não tem fé na imortalidade»

A auto-negação da vida, a implícita negação da imortalidade da alma e do espírito da criatura humana na acepção bíblica, é uma forma de atentar, lograda ou não, contra a centelha do divino no coração do homem.
A teologia evangélica contemporânea, pela voz dos seus teólogos mais proeminentes do século XX, asseverou, com toda a colaboração bíblica, que a resposta ao suicídio, não é que o homem deva viver, mas que possa viver.
O suicídio é excluído pela graça de Deus, pela cruz e pela ressurreição de Jesus Cristo, na qual o pecado de rebelião contra a graça de Deus é expiado e abolido- escreveu de modo definitivo o teólogo Bernard Ramm.

Deus disse sim ao Homem, na Cruz através de Jesus Cristo, o suicídio quando ocorre é o homem a dizer não a Deus. É uma revolta contra o Amor divino ao Ser. Porque o Ser foi gerado pelo sopro divino nas narinas de Adão.

Monday, May 10, 2010

Fátima: uma mentira


Ratzinger sabe que eu sei, que ele sabe...... Aqui


Um excerto: «O Papa Ratzinger, na qualidade de grande teólogo, como o apelidam os vaticanistas, saberá certamente daquilo que falo. Ele sabe, que eu sei, que ele sabe que Fátima é mais do que uma mentira: é um logro, um embuste religioso e sociológico !
Sabendo isto, Ratzinger devia naturalmente recusar-se ( se fora um cristão ) a vir a Fátima para alimentar a crendice popular. Ratzinger deveria imediatamente denunciar esta mariolatria doentia e pecaminosa. Acabar com este espectáculo e folclore degradantes. Pugnar pela pureza do evangelho de verdade e por anunciar que só existe um advogado para com Deus: Jesus Cristo!
Mas Ratzinger não só não o irá fazer como se prepara para contribuir, com a sua presença, para alimentar e sustentar o embuste. É bom que saiba que Deus não se deixa escarnecer.»


Via Ab-Integro, Jacinto Lourenço

Thursday, May 06, 2010

Saraiva Martins prefere atirar lama a assumir o escândalo

O cardeal Saraiva Martins já nos habituou a declarações patéticas, e apresenta-se invariavelmente como “mais papista que o papa”. Em entrevista recente ao jornal “I”, Saraiva Martins, sobre o tema da pedofilia entre os sacerdotes católicos, na sua ânsia de tapar o sol com a peneira, dispara em todas as direcções. Afirma ele: “noutras religiões em que não há celibato, há mais pedófilos”, querendo afastar o celibato da pedofilia, e acrescenta: “e isso é a prova evidente de que não existe qualquer relação.”Primeiro, Saraiva Martins não tem elementos sobre as outras religiões para afirmar que há lá mais pedofilia, deixando claro que estará apenas a sacudir a água do capote. Segundo, não há uma vaga de notícias do tema e um escândalo global nas outras religiões como na católica. Terceiro, não consta que casos isolados noutros contextos religiosos tenham sido sistematicamente abafados como na igreja católica. Quarto, as outras religiões não estão organizadas em sistema de pirâmide, como a católica, nem têm um Vaticano, por isso a responsabilidade de eventuais situações será sempre local e não mundial. Por último, ficava melhor a Saraiva Martins assumir o escândalo (como de resto já fez o papa) em vez de atirar lama para cima dos outros…

Via A Ovelha Perdida

Wednesday, May 05, 2010

À beira do abismo



Poema inédito e especial do poeta Rui Miguel Duarte

À beira do abismo
todos tremem os joelhos
e vacilam a voz

À beira do abismo
se a uns
falece a alma no olhar
a outros
desfalecem os membros
e fremem de atracção
que não podem nem querem
refrear, como por uma amante
misteriosa e fatal

Quantos foram traídos
tragados pelas fauces do abismo
de longe os pés laçados
pelo tentáculos do kraken
e os olhos quebrados
na silente profundidade?

outros exigem que os amarrem
ao mastro como Ulisses,
não se vão eles afogar
na perscrutação dos segredos
do canto das sereias

outros ainda que
diante do abismo
elevam as mãos e o coração
aos céus e cantam os corinhos
de louvor à grandeza do Senhor
do culto do último domingo

2/05/10

Monday, May 03, 2010

Apontamentos: Stuart Mill e o conceito de perseguição religiosa

História religiosa, Cristianismo, movimentos da Reforma, verdade e perseguições andam ligadas na filosofia social sobre a liberdade de John Stuart Mill.
O filósofo social do século XIX defendia que a verdade só triunfava das perseguições, se estas afrouxassem. Lemos no seu célebre Ensaio sobre a Liberdade.

A partir do Novo Testamento, designadamente do seu livro de História da Igreja, as perseguições ao Cristianismo, leia-se aos do Caminho ou aos cristãos, iam contra as mulheres e os homens e contra os signos do reconhecimento entre a comunidade dos crentes de então.
Os signos/sinais, remotamente distantes ainda dos estudos de semiologia, serviam de identificação e também de um escudo.

O atributo dos cristãos, o objecto significado na palavra peixe, IKhThUs representava as iniciais das palavras Iesoûs Khristós Theoû Uiós Soter «Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador».
No livro «Chaves para a Semiologia», este sinal dos cristãos é apresentado na sua magnificência histórica como um paradigma: «Foi, pois, graças a um jogo de palavra que o peixe, sumariamente traçado, se tornou o signo de reconhecimento entre os cristãos.» (pág 71, Universidade Moderna, D.Quixote, 1976).

Este signo, entendido apenas pela comunidade dos crentes, escondia-os aos olhos dos perseguidores romanos. Quando o signo aparecia, os utilizadores estariam ausentes. Nas paredes das catacumbas, no grafismo das paredes. Era um sinal da Verdade.
Tal Verdade não foi destruída pelas perseguições, nenhuma fogueira, nem rugido de fera, nem garras dilacerantes nem dentes como punhais de cada leão lançado aos cristãos acabou com a verdade.

A verdade nem sempre triunfa da perseguição?
Stuart Mill escreve que «história abunda em exemplos da verdade emudecida pelas perseguições». Nem sequer ficou incógnita durante séculos, como parece defender o autor. A Verdade, na sua actividade de testemunho, de pregação, de evangelização, pode ter passado por momentos de menor expressão e exuberância histórico-religiosa, mas jamais diminuída ou suprimida na sua essencialidade.
O autor particulariza a sua opinião religiosa e parece ter um preconceito anti-protestante, invocando que depois da Reforma luterana «o protestantismo foi a terra, foi extirpado» em Espanha, na Itália, na Flandres, na Áustria. «Sempre que avançaram na perseguição, esta vingou» - diz Mill.

Na Igreja Primitiva neo-testamentária a perseguição judaica consistiu num estímulo para o crescimento da Igreja. Mas as perseguições irromperam antes do período pós-Saulo. Imediatamente a seguir à Crucificação de Jesus Cristo, no próprio dia antes da Ressurreição e no Domingo da mesma, como se pode classificar o medo dos discípulos?
Senão como resultado de um espírito de perseguição latente por parte, sobretudo, dos componentes judiciários do Sinédrio, dos fariseus, dos príncipes dos sacerdotes? Ou mesmo dos judeus de um modo geral ?

Diríamos mesmo que a perseguição aos seguidores de Jesus começou na noite da prisão
do Senhor. Foi no sentido de obstar a uma perseguição logo ali perpetrada contra os seus seguidores, os discípulos, que Jesus disse aos guardas que «se pois me buscais a mim, deixai ir estes»- narra o Evangelho de João. O evangelista Mateus descreve sem eufemismos a cena, ao narrar que « então, todos os discípulos, deixando-o, fugiram».

Thursday, April 22, 2010

Os vigilantes da noite


inédito especial para os Papéis do poeta Brissos Lino

COMO UM MOCHO

“(…) sou como um mocho nas solidões.”
(Salmo 102:6)



Como vigilante da noite
guardo solidões
embrulho silêncios
desenho sombras com o bico
enquanto aguardo ruídos susceptíveis
rumores próximos da alvorada
voo silenciosamente
entre fios prateados de lua
com penas de seda afago
fantasmas medievais

os meus olhos redondos
desabrigam o terror
dos que se escondem de mim.

21/4/10


(Brissos Lino)

Sunday, April 18, 2010

E o Islão aqui tão perto...


Islamismo versus Protestantismo, em Marrocos, tão perto da História, de Espanha e de Portugal, para ler a notícia aqui, no El Pais:

Rabat expulsa a más de 80 protestantes y a un católico desde marzo acusados de "proselitismo" y de "querer quebrantar la fe musulmana"


Saturday, April 10, 2010

«Será a Bíblia um Livro de maus costumes?»

Palestra e Debate público na Universidade de Aveiro, realização do GBU. Emissão no programa «Luz das Nações», na RTP2, no dia 8 de Abril.

A minha igreja por uma criança


Dirão que está fora do contexto. Porventura não.

Começou a circular uma carta escrita em latim na qual o cardeal Ratzinger, enquanto perfeito da poderosa Congregação para a Doutrina da Fé, se opôs à destituição de um padre norte-americano acusado de práticas pedófilas «para bem da Igreja Universal». Os abusos sexuais sobre crianças são menos importantes que o «bem estar» ( seja isto o que for) da Igreja Católica.

Na parte final do drama Ricardo III de Shakespeare, o rei clama:
- «A horse! a horse! my kingdom for a horse!» O contrário, exactamente, de Ratzinger.
Shakespeare termina a fala de Ricardo III, indicando «exeunt», isto é, que a personagem sai de cena. É um vocábulo próprio na linguagem teatral, o abandono do palco.
Por aqui me fico.

Sunday, April 04, 2010

A murmuração dos helenistas contra os hebreus


O evangelista Lucas dedica nos seus Actos dos Apóstolos apenas um parágrafoàquele que foi um grande problema, não tanto pelo seu significado e duração, mas porque foi fundacional para a instituição do diaconato na Comunidade cristã de Jerusalém.
«Ora, naqueles dias, multiplicando-se o número dos discípulos houve murmuração dos helenistas contra os hebreus»- 6, 1

No plano social, as viúvas dos cristãos originários das cidades gregas não eram tratadas com simpatia devida pelos cristãos aborígenes da Palestina, de Jerusalém, da Judeia e da Galileia. Uns e outros eram Judeus. Uns da Dispersão, outros autóctones. Lucas enfatiza com um simples lexema («esquecer»), a causa da problemática questão: essas viúvas estavam a ser desprezadas e esquecidas nas refeições diárias.Este esquecimento está marcado no texto de Lucas com um termo grego (paratheoreo) que induz acção interior e exterior, a negligência dos sentimentos reflectida no descuido do olhar, do olhar por alto, do desprezo.

Aparentemente, parece-nos ser um problema meramente social, com traços de xenofobia, sabendo nós como sabemos que os judeus sempre enraizaram em si uma tendência para a exclusividade, quer religiosa, teológica e, por fim, social. A verdade é que a questão suscitada na Igreja de Jerusalém vai para outro plano. É civilizacional e do âmbito da cultura.
Como divergências de conteúdo transcultural, digamos assim, podem influenciar a Igreja de Deus, temos aqui a prova histórica no relato lucano. Mas tais divergências não foram obra do acaso, nada do que concerne aos Planos divinos na história do homem é por acaso. Contribuíram para o crescimento e expansão da Igreja, foram com a perseguição que a seguir eclodiu a pedra de toque da crise, em sentido teológico e neo-ortodoxo de mudança.
Problemas administrativos
Não apenas pelo facto histórico, mas pelas suas consequências fundacionais, o escritor bíblico regista que o crescimento da obra de Deus começou a ocasionar alguns problemas administrativos, pois o grande número de crentes tornava o governo da Igreja apenas sobre a superintendência dos apóstolos desajustado das realidades.
A expansão numérica era quantitativa, mas era obra do Espírito Santo, o reajustamento a essa realidade teria de ser obra administrativa dos homens dados pelo Senhor à Igreja. O discernimento dos problemas e a aplicação das soluções por parte dos apóstolos foram registados na historiografia da Igreja, tanto por Lucas, autor sacro, como séculos depois por Latourette, na sua extraordinária História da expansão do Cristianismo.
Havia dois grupos nesta queixa, os hebreus e os helenistas, e deste segundo partiu a queixa, pois havia muitas viúvas helenistas que vinham a Jerusalém para encerrar seus dias, e por isso, as vezes enfrentavam dificuldades financeiras grandes, o que fez com que os demais helenistas cobrassem da Igreja o auxílio aos seus pobres – é por norma esta a referência que os vários comentários bíblicos exibem.
A verdade é que tal discriminação poderia ter uma base na acção social condicionada por dificuldades financeiras dos crentes e da respectiva igreja. No entanto, em profundidade observa-se que a capacidade de subsistência financeira e económica da novel igreja em Jerusalém não era desprezível. A Igreja Cristã primitiva não começou com a discussão entre judeus e helenistas sobre a situação de precariedade de algumas mulheres crentes que sofreram o infortúnio de enviuvar, nem começou com a eleição de diáconos; se há uma data da fundação da Igreja, estivesse pessoalmente em Jerusalém ou na Galileia, se existe um início da sua fundação, estão logo após o dia da Ascensão do Senhor Jesus Cristo.
A partir daquele evento, testemunhado pelas esferas celestiais e o mundo dos homens, vemo-la em funcionamento. Actos 1, 8-12, designadamente este último versículo, refere que os «varões galileus» voltaram para a cidade, desde o monte das Oliveiras, e começaram as reuniões cristãs evangélicas, no cenáculo, e iniciaram a perseverança «unanimemente em oração e súplicas, com as mulheres, e Maria, mãe de Jesus, e com seus irmãos.»
A acção social da igreja em Jerusalém seria notada, nos aspectos práticos e espirituais entre os seguidores do Caminho, e sublinhada pelos próprios judeus seguidores de Moisés e da Lei. «Caindo na graça de todo o povo» a igreja crescia.O cronista inspirado, o evangelista Lucas regista os acontecimentos que estruturam a ideia de bem-estar financeiro, de crentes possidentes, com meios de fortuna, propriedades e trabalho fixo, quando nos dá conhecimento do peculiar sistema de «comunismo cristão», exclusivo da igreja em Jerusalém. É verdade que existia um tipo de “comunismo” na igreja de Jerusalém, mas era totalmente diferente do comunismo como o viemos a conhecer historicamente no século XX.Alguém escreveu a propósito da recensão literária ao livro de Johannes G. Vos (1903-1985) com as lições que produziu sobre o Catecismo Maior de Westminster de Janeiro de 1946 a Julho de 1949, in The Westminster Larger Catechism: A Comentary:
«É claro, portanto, que o “comunismo” temporário da igreja em Jerusalém não era uma questão de princípio, mas de contingência em face das condições peculiares àquele tempo e lugar. É extremamente insensato, anti-bíblico e anti-histórico apresentar o estado temporário das ocorrências na igreja de Jerusalém como análogo ao comunismo moderno, ou como um padrão a ser imitado pelos crentes em Cristo de todos os lugares.»

«Todos os que criam estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam suas propriedades e fazendas e repartiam com todos, segundo cada um tinha necessidade» (2,44,45)
Sistema que preponderou em importância, uma vez que Lucas volta a referi-lo em 4.32.34E faz notar uma evidência que retrata as excelentes condições económicas da igreja: «não havia pois entre eles necessitado algum».
O estado financeiro dos primeiros dias da igreja em Jerusalém adaptava-se perfeitamente ao que se escreveu sobre a história de Israel «se os povos se medissem aos palmos e a economia agisse como motor determinante e exclusivo da história mal haveria lugar para Israel na investigação do Próximo Oriente antigo». Diga-se o mesmo da situação financeira dos cristãos judeus e daquela comunidade cristã.
A população eclesial, por assim dizer, exibiria números de uma grandeza extraordinária, conforme lemos no relato do Evangelista médico e companheiro de Paulo. Note-se que os Actos só nos dão dois números precisos, que podem obedecer mais a uma estimativa do que a um «censo» demográfico de rigor: fala em 3 mil no dia de Pentecostes e 5 mil no capítulo 4, após o segundo discurso kerygmático de Pedro.
Problemas de civilização e cultura
O crescimento traz consigo a crise, porque supõe mudanças. A multiplicação de pessoas precipitou a multiplicidade de culturas. O espaço das novas linguagens alargou-se.
A civilização greco-romana tinha mais mundo para lá das fronteiras religiosas fechadas do judaísmo.
Mas o acontecimento da inclusão desses crentes, homens e mulheres, oriundos das cidades gregas, judeus de fala grega, não podia significar que eles aportavam conhecimento contra o Evangelho, queria dizer apenas que possuíam um espírito mais aberto, culturalmente. Os problemas começavam neste ponto. Abertura de espírito, não outro espírito, nem outro evangelho, nem outro Cristo.Contextualizando com os dias actuais, desde a década de 70 do século XX até hoje, a transcorrer uma década do XXI, existe também o problema das inclusões da Cultura, de uma maior participação nas comunidades cristãs evangélicas de jovens e maiores com licenciaturas, doutoramentos, institutos bíblicos, faculdades de teologia, etc.
Ainda hoje, em alguns meios religiosos, designadamente evangélicos, o tema Cultura parece dimanar directamente de um termo grego hamartia, isto é, pecado. Ou se não, uma porta aberta para pecados sendo o mais comum a alegada falta de «humildade», ou a «imodéstia», ou ser «intelectual».Nos dias da Igreja Apostólica de Jerusalém, o problema estava a crescer nessa área da civilização e da cultura antagónicas ao judaísmo.
Problemas de transculturalidade
Ainda se vivia à sombra do Templo. Para serem «momentaneamente tolerados tinham que continuar a exibir uma piedade estilo judaico», escreveu um dos maiores especialistas da contemporaneidade do ministério e percurso do Apóstolo Paulo, o teólogo belga Lucien Cerfaux.O Cristianismo trazia, no entanto, uma ruptura com a instituição Templo, ruptura já iniciada com Jesus quando expulsou os vendilhões do mesmo, num acto anti-cultural, para os judeus da época e porque aquela Casa teria que ser chamada Casa de Oração.As próprias designações que a cultura popular atribuía então ao ainda não conhecido Cristianismo, a seita dos nazarenos, o Caminho, eram já portadores de algo não assimilável, algo novo.
Os apóstolos de Jesus Cristo já não tinham um linguajar rude, o conteúdo do que pronunciavam trazia espírito e vida aos ouvidos do homem comum hebreu.As mulheres, no plano da transcultura, começaram a ter relevância quando comparadas, nas Cartas de Paulo, com os homens, porque «em Cristo» não há homem nem mulher, mas ambos os géneros são Um n’Ele.
Contudo as resistências transculturais entre a mulher e o homem sempre se fizeram sentir. Um pormenor actual da civilização tailandesa exprime bem essa salvaguarda machista de posições. Na Tailândia as mulheres não podem ocupar quartos do 1º andar num hospital e os homens do rés-do-chão; isso significaria a superioridade da mulher em relação ao homem.
Percebemos, com os dados actuais que temos e as contextualizações devidas, que transculturalmente, na Igreja de Jerusalém, as viúvas gregas fossem preteridas pelas judias, pelo factor da mistura cultural; no entanto, a maravilha reside em que seria criado um corpo de servidores – os diáconos –, homens, para servir à mesa e dessa forma servir as mulheres. Era a superioridade do Evangelho.
Via A Ovelha Perdida, que publicou este inédito.