Saturday, April 22, 2006

A metáfora do «Deserto»

Joseph Ratzinger deu início com uma metáfora ao chamado exercício espiritual da Quaresma na última Páscoa.
O referente que usou para incorporar essa metáfora, foi o lexema «deserto». E afirmou que «il deserto è un percorso interiore di liberazione».
O diário L'Osservatore Romano do passado 6 de Março, ilustrava o período dos 40 dias com um título em que o «deserto» se assumia como palavra recorrente. No corpo do artigo, observava-se ainda que as palavras do Papa exortavam todos os católicos, em princípio, a uma «semana de silencioso e suplicante recolhimento», convidando-os a transformarem sua oração em silêncio, e cada dia a dirigirem seus passos para esse longo «deserto».
Compreendemos o sentido da figura, porque o deserto foi, desde o Velho Testamento, o lugar de passagem da provação e das privações para a alegria e a abundância, foi também o lugar do reassumir forças físicas e espirituais para desenvolver um ministério de renovação de carácter nacional, no caso de Elias refugiado numa caverna, no deserto, lugar onde também Jesus Cristo fez a passagem ritual da tentação para o ministério, para prosseguir a Sua Obra redentora.
Embora no deserto não existam atalhos nem obstáculos, como bem referiu Ratzinger, nem rumores de fundo que impeçam escutar uma voz límpida e que preencha todas as amplidões, sabemos da miragem que os ecos podem ser e que tais ecos não são a Voz de Deus. Esta, no plaino rural ou na efeverscência artificial da urbanidade, só pode ser ouvida através da própria Palavra de Deus, da Bíblia Sagrada, onde o Espírito Santo fala connosco.
O crente deve estar precavido para saber distinguir «las vozes de los ecos», como ensinava o poeta espanhol Antonio Machado. O silêncio, certos silêncios, são por vezes tão confusos e enganadores como os ecos.
Na verdade, na Quaresma procura-se eliminar os ecos e ficar-se pelo silêncio, trata-se segundo o conceito romanista de «uma ocasião de conversão e do mais corajoso impulso para a santidade» pelo silencioso e suplicante recolhimento.
A conversão, segundo esse conceito quaresmal do catolicismo romano, já não vem assim através da confissão dos pecados, o que implica falar, expor-se, abrir a boca e o coração para Cristo, como o apóstolo Paulo ensina aos Romanos, pelo contrário, vem antes pelo silêncio.