Tuesday, March 10, 2009

A dúvida de Godot

A revista Newsweek, em 14/11/1988, exactamente há vinte anos, fazia a recensão crítica da peça À Espera de Godot, então levada à cena na Broadway e protagonizada por dois geniais actores, Robin Williams e Steve Martin.

Não sendo a Newsweek uma revista literária, nem do pensamento filosófico, não foi porém surpresa ler que o texto de Samuel Beckett era a mais famosa peça do século.
Designadamente pelas alegadas interpretações sob o prisma da Bíblia, de Freud, de Jung ou do Existencialismo. Sobretudo deste, segundo o qual há questões com as quais todos temos que lidar, como o significado da vida, a morte, e o lugar de Deus na existência humana.

Talvez tenha sido surpreendente, sim, ler os questionamentos que o articulista e crítico teatral colocava sobre o significado da personagem, uma espécie de deus ex-machina que nunca aparece em cena, Godot.

Perante a espera do misterioso Godot, perguntava-se se seria Deus? A Morte? A oferta de emprego?

Tendo chocado audiências no início da década de 50, inquiria-se se não seria outro o significado, se Godot não era um conceito, uma «espécie de Ocidente», que perante as ruinas da 2ª Guerra Mundial e dos escombros éticos e morais que o nazismo deixara, não seria um retrato moral da humanidade em crise e, aparentemente, sem respostas? Seria hoje a espera do fim da crise, que, como todas as demais grandes crises, incuba uma plêiade de gurus, sacerdotes da economia, da política, com litanias próprias?

Supostamente, a peça apresentava ao mundo ocidental, que este estava estruturado no desconcerto de uma máxima beckettiana: «Não há nada no mundo mais cómico do que a infelicidade», ou mesmo na frase inicial da peça «Nada a fazer», que exprime o começo da desistência da personagem Estragon.

De tudo o que se pode tirar dessa peça teatral chamada «À Espera de Godot», do fôlego inoperante das suas duas personagens principais, de todas as propostas e teorias, passíveis de serem apropriadas pela nossa ética judaico-cristã, católica e protestante, temos muito mais a dúvida de uma procura, que está disfarçada de «espera».

Nesta peça do absurdo, considerada a mais significativa de Samuel Beckett, não se espera, como tudo leva a crer, mas, sim, procura-se.

As personagens procuram conhecer quem é ou o que é esse Godot, o qual esperam, numa repetição dos dias, inúteis e sem sentido ou sem esperança como no trabalho de Sísifo. Uma tarefa que a literatura dita ateísta não descarta e assume como unhope, palavra significativamente utilizada pelo poeta Thomas Hardy, que escreveu um poema (In Tenebris ) sobre a desesperança:

Negra é a noite de enfrentar; / mas a morte não vai desconcertar / aquele que, sem a menor dúvida, / espera na desesperança.


Esperar sem esperança é, na sua essencialidade, esses dois dias consecutivos nos quais um par de homens patéticos afirmam pelas palavras e pela mímica esperar um ausente, que se chama Godot. Do mesmo modo que hoje, a Europa, a América, a Ásia, esperam alguma coisa no meio da Crise Económica e Social.

(Crónica para o Diário de Aveiro)