Monday, August 24, 2009

Mel: Cantos da memória

Mel, de Tonino Guerra, em dialecto romagnolo e italiano.

CANTO NONO (CANTÈDA NÓV)

Terá chovido durante cem dias e a água infiltrada
pelas raízes das ervas
chegou à biblioteca banhando as palavras santas
guardadas no convento.

Quando tornou o bom tempo,
Sajat-Novà o frade mais jovem
levou os livros todos por uma escada até ao telhado
e abriu-os ao sol para que o ar quente
enxugasse o papel molhado.

Um mês de boa estação passou
e o frade de joelhos no claustro
esperava dos livros um sinal de vida.
Uma manhã finalmente as páginas começaram
a ondular ligeiras no sopro do vento
parecia que tinha chegado um enxame aos telhados
e ele chorava porque os livros falavam.


O Mel, de Tonino Guerra, da Assírio & Alvim, Fevereiro de 2004, Trad.Mário Rui de Oliveira.