Friday, February 06, 2009

A profecia de Norman Mailer


Não há como a História para pregar partidas. Mesmo sem o recurso à perspectiva poética, aforística e tautológica do poeta T.S.Eliot sobre os ciclos do Tempo:

«O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro,
E o tempo futuro contido no tempo passado».


Em 1967, a América tinha uma ferida exposta à luz mediática, essa ferida chamava-se Vietname. E escritores negros como James Baldwin, ou brancos e formalistas como o poeta Robert Lowell, ou o rebelde da Nova Esquerda americana Norman Mailer, em conjunto marchavam contra essa ferida.
Sem desodorizantes, até os hippies se manifestavam contra o que se dizia ser o odor da carne queimada no Vietname. Até nós, no Portugal cinzento, antes da filmografia sobre essa guerra, chegava vagamente esse odor.

Na década de 60, os jovens da minha geração ( de 47) lembrar-se-ão, mesmo dentro dos filtros do salazarismo-marcelismo, das notícias que davam conta em português da Grande Marcha sobre o Pentágono, em Washington, brandindo um Não à guerra americana no Sueste Asiático.

Hoje, existem vários documentos literários sobre esse tempo de protestos, que a juventude e os intelectuais, negros e brancos iniciaram ainda em 1963, mas que só quatro anos depois teve a sua máxima expressão, visando o tripé presidente Johnson, MCnamara e Rusk, a quem chamaram «os maiores criminosos de guerra do país».

Norman Mailer veio para a rua com os seus exércitos da noite e atacou. Com uma propensão histriónica em tudo que escrevia, «atacou» o Pentágono e o «dinheiro que fez o Pentágono». Escreveu um livro-documento denominado Os Exércitos da Noite( D.Quixote, 1997), segundo a crítica norte-americana e os Prémios, o Pulitzer e National Book Award, uma obra vigorosa depois de Os Nus e os Mortos (Portugália,1972).

No decurso de uma Manifestação contra a Guerra do Vietname é preso e depois elabora esse livro-documento em que se entrelaça o novo jornalismo e a ficção, e a história vem narrar todos os passos e palavras e sentimentos da história norte-americana dos anos finais da década de 60.

Há até poetas nessa Manifestação, foram valorizá-la e deram ao livro de Mailler uma dimensão de Epopeia. E profecias também.

Um dos poetas mais notado nessa época, o citado Robert Lowell, que já havia composto For the Union Dead, como «coisa pública», comparece por isso em Washington para se fazer ouvir. Lê à mole humana um extenso poema Despertar Cedo ao Domingo de Manhã, como um despertador de consciências, política, social e culturalmente falando.

A profecia, essa viria - lemos em Os Exércitos da Noite- com um discurso futurista, ainda que montado com vocábulos desse tempo ou que começavam a fazer caminho nesse tempo: Poder Negro, brancos, negros, Nova Esquerda, etc.

Descreve o discurso da irmã do conhecido Malcom X, Ella L.Collins, que foi para o lider da Nação do Islão, «a primeira mulher negra com verdadeiro orgulho» falecida em 1996. No entanto, segundo o romancista, Ella falava ainda aos Brancos como se se pudesse conceber uma sociedade onde eles marchassem pela mesma rua, mas muitos dos Negros nesta secção reservada tinham passado para o futuro, para aquele negro do século XXI, quando o Poder Negro tivesse conseguido fazer o Branco invisível para o Negro.»

Claro que o movimento Black Power esgotou-se enquanto tal nos anos 70, o presidente Obama é o negro do século XXI, e o afro-americano já não é invisível, obviamente o branco também não.