Friday, July 10, 2009

Da Pequena Sala em Aradas

DA PEQUENA SALA EM ARADAS*


ASSEMBLEIA DE DEUS EM AVEIRO, 50º ANIVERSÁRIO
1959-2009

João Tomaz Parreira

“Numa localidade chamada Aradas, apareceu uma pequena sala e ali foram feitas as primeiras reuniões”, escreveria em notas manuscritas para a sua família, quase cinquenta anos depois no seu derradeiro ano de vida, em 2007, a cristã Adriana Pereira, viúva do fundador do trabalho da Assembleia de Deus em Aveiro.

Partindo do locus histórico que foi essa pequena sala, estrutura-se este pequeno livro. O mesmo não abordará toda a extensão da história destes 50 anos de existência da Assembleia de Deus em Aveiro, para esse desiderato existe já o livro «40 Anos Assembleia de Deus Aveiro», editado em 1999, e que reproduz todo o percurso, pastorado a pastorado, do que aconteceu em termos históricos na nossa comunidade assembleiana.

Tal livro teve todas as virtualidades, desde logo a de 40 anos objectiva e realmente transcorridos, e também fotografias que guardaram para a posteridade membros e oficiais do Ministério da igreja que já descansam com o Senhor.

Este pequeno livro agora, ao cabo de meio século, pretende ser apenas uma história não de 50 anos, mas como estes se iniciaram na nossa história desde 1959.

*Pequeno livro em preparo, para ser apresentado em Outubro.


Thursday, July 02, 2009

A Visitação

Chegas todos os dias na prata
do ar, por tua causa os jardins
movimentam-se de abelhas
o estame das flores
vai tecer raízes em novos lugares

Chegas e fazes saltar os pássaros
das linhas da noite
És poderoso e todavia
mesmo a mão de uma criança
te fecha

As transparências são a tua água
navegável ainda pelo mais fundo
a que os olhos chegam
Chegas todas as manhãs e fecundas
na palidez dos frutos a tua cor
E cada fruto acorda sem precisar de espelhos

Chegas e endireitas o arco
das nossas costas e a nossa alma
foge para ti

Saturday, June 27, 2009

Expressionismo, profecia da barbárie do séc.XX

Emil Nolde, Metrópole


«Quando Gregor Samsa acordou uma manhã, depois de um sonho agitado, achou-se transformado num gigantesco insecto.» ( para começar com um parágrafo definitivo de Kafka), foi o início de um pesadelo que representa uma alegoria. O escritor checo usou-a na novela A Metamorfose (1912) para explicar o absurdo da humanidade tão cheia de lógica, a dar os seus primeiros passos no idealismo do super-homem para as filosofias existenciais, mas que vê-se repentinamente transformada em qualquer coisa de mal, nos acontecimentos mundiais que a história europeia conhece desse tempo.

Nas primeiras duas décadas do Século XX, a angústia, a inquietude e a morbidez apoderaram-se da humanidade. E foi o Expressionismo Alemão que revelou esse estado de espírito, «profetizando» o mal que se iria abater sobre a Europa em particular e o Mundo de um modo geral.
Nas artes plásticas, como reacção à fase derradeira do Impressionismo (chamaram-lhe pós-Impressionismo), ergue-se na Alemanha uma ponte (Die Brucke) que liga aquele às novas correntes estéticas, mas que ao atingir o outro lado dessa ponte - o Expressionismo- corta quaisquer veleidades de um regresso. O novo movimento seria a arte do instinto, substituiria a impressão do momento causada de fora pelo sentimento nascido no interior, expressando-se patética, trágica e sombriamente, com uma técnica violenta.
Os quadros que foram sendo criados revelavam, na crueza das cores vibrantes e resplandecentes, nas deformidades das figuras, nos desequilíbrios da época, que estavam a preparar-se as hecatombes das primeiras décadas de um século de barbárie, o caos generalizado na economia das nações e nos povos das pátrias.
A tela mais impressionante que antecipava esse período, pela angústia que demonstra, é, sem dúvida, O Grito (1906) do norueguês Edvard Munch. A violência profética do que haveria de ser o grito lancinante da Europa dos guetos e dos campos de concentração e extermínio nazis, dos bombardeamentos em massa, e - não o esqueçamos- dos Gulag estalinistas. Sobretudo, impossível de englobar em um só grito e de olvidar pela História, o trágico Holocausto, que aplicou a dizimação de milhões de judeus da Europa e explorou antes sua mão-de-obra escrava. O trabalho forçado que, financeira e capitalisticamente, rendeu ao Estado Nazi, só do campo de concentração de Buchenwald, durante Março de 1944 - faz agora 60 anos-, 3.465.745,85 de reichsmark.
Mas, de um ponto de vista profético, o Expressionismo influenciou muito mais a poesia. Como sinal dessa identificação, havia sobretudo a crueza do verso, do verso militante que não procurava sustentar-se no lirismo, mas no descarnamento da realidade, uma poesia até ao osso.
Como nas obras de arte, o aspecto da deformação da realidade e a angústia existêncial do homem moderno estão patentes na poesia expressionista.
Poetas como Gottfried Benn, August Stramm, Georg Trakl, e uma poetisa Else Lasker-Schuler, para só citar os mais conhecidos, descreveram o caos de uma forma nua e crua, as palavras carregaram-se de angústia e no lugar das emoções expressaram as tensões e os tumultos da alma humana. Foram, de certa maneira, como alguém lhes chamou, «os poetas do grotesco».
Mas um dos poemas ardentemente radicais e proféticos, extravassando o desespero perante os indícios da realidade, que viria a chamar-se barbárie, veio de um poeta não tão notável quanto aqueles; Albert Ehrenstein -« Conservadas pelo frio, amontoam-se à volta do charco,\ Do lago do mundo dos mortos, \ As torres de cadáveres.». Nestes versos, o campo semântico remete para a guerra e prepara com a metáfora da mitografia da Barca de Caronte (o barco que transporta os mortos), o ambiente da catástrofe que seria a II Guerra Mundial e todo o horror dos campos de extermínio nazi. Este mesmo poeta descreveria, porventura sem nenhuma ligação ao quadro de Munch, o grito do Homem em versos como «Nós, os amordaçados, estamos envolvidos \ Por demónios, e brutalmente oprimidos», dum poema intitulado «Grito humano».
Todavia os grandes poetas desse movimento chamado Expressionismo, fariam associações mais grotescas da realidade com a metáfora, abrindo o tom lírico do verso à sensação selvagem, para que o verso sangrasse e provocasse até à dor.
Um excerto de um poema premonitório, «Berlim», pobre de metáforas, mas tão irónico como só Gottfried Been poderia escrever, é exemplar: «Quando arcos, pontes, erguidos,\ forem da estepe engolidos \ e o burgo areia escura \ e as casas desabitadas \ e as hordas e as armadas \ pisem nossa sepultura... \ hão-de as ruinas falar \ da grandeza do Ocidente ».
O futuro iria reservar à Europa uma reacção nova sobre a morte, a banalização da mesma. E assim o mesmo poeta, com uma morbidez irónica, anteciparia o que as SS e a Gestapo fariam perante a morte dos outros, ironizariam e comparariam seres humanos com piolhos. Um breve excerto do poema «Bela Infância» bastará: « A boca de uma rapariga que passara muito tempo no canavial estava tão roída.\ Quando lhe abriram o peito, o esófago estava todo esburacado \ Finalmente...\ encontrou-se um ninho de ratinhos. \ (...) \ Mas depressa tiveram também uma bela morte: \ Deitaram-nos todos à água. \ Ah, como os pequenos focinhos chiavam.»
O chamado «apocalipse alegre » da Europa de Strauss e Wagner, de Goethe e Heidegger, da primeira década, e da segunda e depois da terceira, foi vaticinado por outros poetas, como Georg Trakl, que não assistiu à «revelação» dos seus poemas sobre o desvario niilista do mundo, a hecatombe e a morte ( cometeria suicídio em 1914). «Vi-me num sonho de estrelas caindo,\ De preces chorosas num olhar ferido, \ De um sorriso que vinha ecoando - \ Mas não sabia entender-lhe o sentido. » Ou «Vi cidades pelo fogo consumidas \ E o cortejo de horrores pelo tempo fora, \ E muitos povos a pó ser reduzidos, \ Perder-se tudo nos fundos da memória » (do poema «Três sonhos»).
Tremendo entre estrelas e violinos, a nossa Europa das primeiras quatros décadas, foi-se afundando numa noite escura, que só o Julgamento de Nuremberga procurou, apenas com êxito judiciário, explicar.

Tuesday, June 23, 2009

As ovelhas ofendidas

"Não sou ingénuo ao ponto de acreditar que a transformação do celibato obrigatório em facultativo, defendido já por muitas vozes altamente qualificadas da igreja romana, seja o suficiente para resolver este tipo de problemas. Mas que ajudaria muito não tenhamos dúvidas. E sobretudo possibilitar-se-ia aos sacerdotes católicos a hipótese de viverem a sua humanidade de forma muito mais livre, autêntica e coerente.
Afinal, Jesus Cristo nunca fez voto celibatário nem o exigiu aos seus discípulos."

-Afirma AQUI o dr.Brissos Lino, no Setúbal na Rede

Sunday, June 21, 2009

Crianças que olham os dragões


Meninos do Saurimo. Foto tirada pelo autor em Angola, em 1969, na Guerra Colonial.

Como as crianças que olham os dragões
os meus olhos ainda se espantam
quando as nuvens passam
num retrato de família as cores umas às outras
e são algodão
doce e carrosséis

como as crianças que olham para os dragões
ainda me surpreendo com nenúfares
que põem a mesa
nos rios

Como as crianças que olham
os dragões, os meus olhos
prendem-se aos gestos
das netas e dos netos, e o tenso coração
é uma sombra do que foi
até isso me admira
por causa das Tuas maravilhas.

Monday, June 15, 2009

A Fé (e não só Poesia) Depois de Auschwitz (II)

Implicações Teológicas
A chamada «nova História de Israel» (4) na sua essência e exposição não só evidencia a falta de Fé nas Escrituras, como parece desvirtuar a história do Holocausto. Os novos historiadores israelitas afirmam «reconhecer» que os judeus expoliaram os palestinianos da terra destes e que a Shoah diz antes que Israel abandonou as vítimas do extermínio nazi para usar os sobreviventes «como arma política para construir um Estado». Todavia o profeta Zacarias realiza nas suas palavras declarativas, da parte de Deus, uma visão de um Israel e de uma Jerusalém atractivos de todos os povos, os quais «pegarão, sim, na orla da veste de um judeu, e lhe dirão: Iremos convosco, porque temos ouvido que Deus está convosco» (Zc 8,23) Na obstante a centralidade de Israel nos planos divinos, na dispensação milenial, o «pathos» teológico que recaiu e impende ainda sobre o povo judeu está, sem dúvida, nas suas próprias palavras pronunciadas uma tarde, na emotividade inapropriada da voz popular: «Caia sobre nós o seu sangue( de Cristo), e sobre nossos filhos!» (Mt 27,25) E estas figuras simbólicas judaicas têm o peso eterno que têm e a que se não pode fugir.

Não à Poesia depois de Auschwitz
O que possa representar um impedimento psicológico ao trabalho estético de escrever um poema, de uma forma geral o que possa ser um entrave à Literatura, os acontecimentos terríveis que tiveram lugar em Auschwitz, foi sem dúvida o célebre pronunciamento de Theodor W. Adorno que o gerou. Ele afirmou que “escrever um poema após Auschwitz é um acto bárbaro, e isso corrói até mesmo o conhecimento de porque se tornou impossível escrever poemas.” ( 5 ) O genocídio dos milhões de judeus em Auschwitz, segundo Adorno, corrompeu a humanidade, podendo até detectar-se na sua frase que é terrível também outra coisa - o esquecimento – se este ocorrer- da razão pela qual a Poesia «ficou» interdita. É óbvio que não se pode ir tão longe nesta espécie de pessimismo nihilista quanto ao lugar da Arte Poética no Século XX após-campos de extermínio nazi e neste Século XXI. Em defesa da Poesia após-Auschwitz, quer dizer como arte profunda também da memória, a poética servirá como a arte de não esquecer o Holocausto. Uma relação dramática com esta triste catástrofe ( que o hebraico chama Shoah), está justamente na grande poesia de Paul Celan, filho de judeus-alemães exterminados naquele Campo de Morte, no poema Fuga da Morte, onde se lê estes pungentes versos: E grita toquem mais doce a música da morte a morte é um mestre que veio da Alemanha grita arraquem tons mais escuros dos violinos depois feitos fumos subireis aos céus e tereis um túmulo nas nuvens aí não ficamos apertados.(6 ) Celan sabia disso, assim como a grande poeta Nobel da Literatura Nelly Sachs, também judia, que escreveu em 1946 estes versos carregados de um pathos comovedor : Oh as chaminés sobre as moradas da morte engenhosamente inventadas, quando o corpo de Israel desfeito em fumo partiu pelo ar – como limpa-chaminés uma estrela o recebeu. (7) Primo Levi, outro grandíssimo poeta judeu italiano, perguntava no seu hebraico Shemà, Considerate se questo è un uomo Considerate se questa è una donna Senza capelli e senza nome (8). Este poeta a par do filósofo Adorno foi dos escritores mais pessimistas e sem esperança no homem, no que concerne à memória do extermínio nazi, pois escreveu no início do poema A Estrela Negra «Nenhum canto mais de amor nem de guerra.» A memória do Holocausto, do extermínio de 6 milhões de judeus na década de 40, continuará a caminhar descalça, silenciosa mas ininterruptamente, sem sapatos, sem a areia do Sinai, que foi espalhada quando tiveram que se erguer nus perante a morte.

(1)-Arte e Mito, Livros do Brasil, pág.76; (2)-Introdução à História, Europa-America, págs.31/2; (3)- Clássicos Sá da Costa, António Sérgio, págs.98; (4)- Courier Internacional, nº160, 6/2009, págs. 72-84; (5)-Minima Memoralia, Ática,S.Paulo, pág.26; (6)-Sete rosas mais tarde, Cotovia, trad.J.Barrento, pág.17; (7)- Poemas de Nelly Sachs, Portugália, trad.P.Quintela, pág.6; (8)-Antologia della poesia italiana, Tomo Secondo, Tascabili, págs.872/881.

Saturday, June 13, 2009

2 Haiku


1.
Moinhos no céu.
Um Quixote vai partindo
com o vento as nuvens.




2.
A Serra da Estrela
no inverno dorme cedo
sob alvo lençol.




Friday, June 12, 2009

A Fé (e não só a Poesia ) depois de Auschwitz


O regresso judaico do cativeiro da Babilónia, para uma discussão meramente académica de historiadores, foi um evento apenas da sociologia e da política dos antigos impérios, ou quando muito a inclusão desse evento na história relegaria a profecia para plano secundário.

Mas o primeiro retorno a Jerusalém, a partir do acto benévolo de Ciro, foi a materialização da Fé. A consumação do fundamento e prova da fé nas profecia de Ezequiel e Daniel.

Contrariamente ao pensamento hegeliano, eventos cruciais da História do Mundo originaram-se também no cumprimento explícito de profecias conhecidas nas Sagradas Escrituras.
É um facto mais que óbvio a presença de Deus na História. Há mais de trinta anos sublinhei, em Arte e Mito, do prof. Ernesto Grassi, uma verdade que «Deus se manifesta no tempo e empresta à história localizada uma significação eterna» (1 ). E aí está a História do Judaismo, a partir do VT, para o confirmar.

Se esse regresso não tivesse ocorrido, não haveria História Judaica, nem teriam ocorrido as histórias de Cristãos e Árabes, e quem esta tese defende é o filósofo e rabi judeu Emil Fackenheim(1916-2003).

Esse autor explorou os novos horizontes que vieram abrir a relação entre o Holocausto, da primeira metade do século XX, e a Teologia judaica com milénios de existência, não apenas submetendo-a ao juízo do conjunto de Ideias filosóficas, mas também ao escrutínio da Profecia bíblica.
A História também deu o seu contributo, como se compreende, inestimável e incontornável. Os actos da humanidade realizam-se no terreno da contingência histórica e têm inevitavelmente uma narrativa.

A historicidade narrada no VT
Não é apenas a Fé que conclama sobre a história de Israel, sobre o povo judeu de um modo específico, a realidade também. Esta prova que a Fé teve razão, do ponto de vista dos eventos.
Fé e realidade, no âmbito da História. A Fé confirma-se como base do facto profético, a realidade como consequência do cumprimento desse facto.

A primeira deportação para a Babilónia sob o reinado de Nabucodonosor, teve a importância da profecia, infelizmente para os judeus, e teve a importância da própria «visita» do rei babilónico no acto da invasão, o que se reveste da valia da cidade santa independentemente de valorações religiosas. Foi um acto político e social, não um acto meramente tirânico, e tem nos Livros Sagrados de Reis e Crónicas a sua narratividade apropriada.
Esta, porém, assentou também na essência dos factos cometidos pelos próprios judeus, no que concerne ao seu desprezo pelas Palavras de Deus ( II Cr 36,14-16), na forma de «transgressões e abominações» para com o Senhor.

A história profética, portanto, cumpriu-se tanto no cativeiro como na libertação deste. Sabe-se, pela Bíblia e pela História Universal, que a proclamação de Ciro foi o passo fundamental para o regresso de Judá (II Cr 36,22-23). Passo não apenas para consolidar politicamente uma nação e restituí-la ao seu locus original, mas sobretudo para a consolidação do Culto ao Senhor, Deus dos Céus – como proclamou Ciro.
A obsessão das origens, que a tribo dos historiadores possui – como afirma Marc Bloch (2)-, porque precisam vitalmente dos «começos», deveria, no entanto, levar o homem contemporâneo a considerar o Cristianismo como uma religião histórica e Israel com uma História originada e estruturada nos Livros Sagrados.
Os judeus devem a Deus e à História. Compreenderão assim todas as suas vicissitudes e experiências e malogros, genocídios e perseguições, de que a sua História se formou.
A nossa História Próxima com os Judeus
António Sérgio, na sua obra «Breve Interpretação da História de Portugal»(3 ), refere, em particular, a relação dos portugueses com os judeus.
A obsessão pelos hábitos tradicionais de um tratamento repressivo dos judeus não fugiu à regra em Portugal. A figura do judeu era recriada pelo mito em que tudo se misturava, religião, sociedade, economia, ignorância teológica. Mas acima de tudo o interesse económico-financeiro dos «Gentios».
«A situação próspera do Judeu excitava a inveja, o despeito, a cobiça dos Cristãos.»- escreve Sérgio. Com honestidade, tem que se dizer que o Judeu dava às vezes razões de queixa, com procedimentos menos simpáticos. A usura, o açambarcamento de alimentos para alterar o preço de comercialização, diz-se até que ao ponto de promover fomes, são aspectos que a nossa história consigna e que autores como Herculano e Sérgio registam, apenas como factos. «A inimizade anárquica do vulgo»- como considera António Sérgio- terá levado inclusivamente D.João III a insistir com o papado o estabelecimento do Santo Ofício em Portugal, a fim de sustentar pela legalidade o que não era mais que anti-semitismo.
(Continua amanhã...)

Friday, June 05, 2009

Voo 447

Voaram do grande radar dos céus
para os abismos cinzentos
dos corações.
Montavam sobre cavalos de energia,
sob as asas
monólitos de fogo.
Por um momento ainda os risos
das crianças, as blusas e as camisas
coloriram os assentos azuis.
Depois, as almas iriam partir
no sono, filtrar a luz dos sonhos,
iriam acordar para a forma
incandescente do sol,
voavam
sob olhos da noite mas para milhões
de outros olhos de prata
no território de morte e água.

Thursday, June 04, 2009

"Um Relato Literário no Sacrifício de Isaque"

O jornalista e cineasta Rodrigo C.Vargas, de Fortaleza, Brasil, publicou AQUI, no seu blog O Vertical, o artigo Um Relato Literário no Sacrifício de Isaque.

Monday, June 01, 2009

"A Fé (e não só a Poesia) depois de Auschwitz"


AQUI, no Portal da Aliança Evangélica.
História, Profecia e Poesia mantendo e confortando a memória, pela Fé e pela Estética, pela poiesis e pela techne.

Friday, May 29, 2009

"Sófocles ou o Equívoco do Destino"


"Sófocles ou o Equívoco do Destino", editado AQUI em Junho de 2006, o Comentário do meu amigo prof. Rui Miguel Duarte, do Blog Novas Criações, que edito pelas lições que contém:

Feliz reflexão, João Tomaz, sobre como os nossos Helenos olhavam a condição humana e o se confronto com a mensagem do Deus vivo e verdadeiro.Em Eurípides, é ainda mais forte esse entendimento. Como escreves, "Os seres humanos da maior parte das tragédias dos autores atenienses do Século V a.C, não poderiam renunciar a nada que estivesse lavrado nos autos do predeterminismo.", mas precisamente neste autor somos quase induzidos a odiar os deuses tradicionais, ou pelo menos a virar-lhes as costas, ou pelo menos a não os afrontar, pois o seu carácter caprichoso aparece aí mais nítido, e afrontá-los de algum modo, no mínimo que seja desses caprichos faz incorrer reis e heróis em tremenda ira. Cf. As Bacantes. Eurípides, um iconoclasta da religião tradicional, que na tragédia não quebra com ela (pois está no cerne desta), mas que claramente a questiona com olhares já racionais. Ele usou mais do que ninguém esse recurso do "theos ek mechanes", do nume que tem de intervir para desfazer o nó da intriga trágica. Não sei se o abusou dele por falta de arte ou por deliberada inonoclastia de colocar em descrédito essas divindades.Mas essa noção era mais antiga. Está presente em Homero. Pense-se no joguete Ulisses. E Heródoto, o historiador, resumia assim a forma como entendia a ascensão e quedas dos homens: "pfthaneron theion", a divindade inveja os homens que ultrapassam certos limites — de beleza, riqueza, poder, sabedoria, etc., coisas de que só deles achavam ser atributos.O Deus revelado na Bíblia tem outro entendimento. Fez-se pequeno como o mesquinho homem para, retroactivamente, acedermos à sua condição e partilharmos da sua natureza.

Monday, May 25, 2009

Jesus Cristo na Literatura

“Damo-nos conta de que o Jesus amado pelos cristãos é uma personagem literária inventada em grande medida pelo autor do Evangelho de Marcos.” Harold Bloom considera esta descoberta como um choque ao abordar todas as literaturas no seu O Cânone Ocidental. O que retemos desta observação do conhecido crítico norte-americano, é dizer que o Evangelho de Marcos é assim considerado uma obra literária. Sem choque, sabemos que a grande literatura ilumina a realidade histórica da figura de Jesus Cristo, olhando-O inevitavelmente através de outro Cânone, o do Novo Testamento. O que para os escritores que escolhemos foi uma luta interior irrecusável.

Contudo, convém começar por uma referência de distanciamento, por exemplo num autor clássico- Virgílio. «Este menino» que verá surgir a idade de ouro, « ao Céu erguido e governando a Terra / em paz». Com o advento do Cristianismo esta passagem da 4ª Écloga, tornou-se nos meios proto-cristãos uma profecia.

Referências de esperança por contraste com a desesperança (a unhope ) estão nas Literaturas até hoje. Jean-Paul Sartre descreve isto muito bem. Intui o mistério cristão, o início ligado ao nascimento de um menino. “Um Deus-Homem, um Deus feito da nossa carne humilde, um Deus que aceitaria conhecer este gosto de sal que existe no fundo das nossas bocas quando o mundo inteiro nos abandona.» Sabe-se que Sartre jamais escreveu assim acerca de Deus. (Peça de teatro “Barjonas, ou o filho do trovão”, um Auto de Natal de 1940 .)

Não obstante as causas pagãs que levaram à criação de Alberto Caeiro terem sido «a pura e inesperada inspiração», sem nenhum intuito bucólico, apesar do panteísmo por princípio, o facto é que o «Menino Jesus», «a Eterna Criança», «a Criança Nova », impressionaram o poeta Fernando Pessoa num certo sentido iconoclasta e anti-clerical.

Houve, depois, José Régio que, sendo crítico irreversível do filósofo Nietzche pelas suas afirmações sobre Jesus, disse que só o grotesco e gigantesco ciúme daquele «poderia querer ver neste Jesus (Jesus Nazareno) um Deus de escravos. Jesus é, pelo contrário, um Deus de heróis.» Finalmente, sem nenhuma tónica pessimista, os poetas Jorge Luís Borges e Miguel de Unamuno marcam a fronteira do perdão em Cristo, na Cruz: «Cristo na cruz. Os pés tocam na terra. / Deixou-nos esplêndidas metáforas / e uma doutrina do perdão que pode / anular o passado.» ou na afirmação de Unamuno, «Que eres, Cristo, el único / Hombre que sucumbió de pleno grado, / triunfador de la muerte»

(Texto publicado em moldura na revista Novas de Alegria)




Sunday, May 24, 2009

Fórum Sobre a Bíblia

Ontem na Igreja Baptista de Moscavide, com uma «maratona» de leitura da Bíblia Sagrada.

Thursday, May 21, 2009

A Identidade do Altar


A Identidade do Altar
No monte Carmelo, os profetas de Baal, ao pretenderem responder ao desafio de Elias, por assim dizer, forjaram um «avivamento». Eles clamavam em altas vozes, eles saltavam, eles profetizavam. No entanto, até os críticos modernos do Movimento Pentecostal admitem que eles não falaram em línguas estranhas e que, apesar de todo o barulho, o seu movimento «espiritual» era falso.
Ler na íntegra aqui

Saturday, May 16, 2009

O Transtorno do Pânico no profeta Elias

O perfil da personalidade de Elias traçado desde o seu primeiro aparecimento na história, no 1º Livro de Reis, é o de um homem tornado rijo pela natureza.

A intervenção de Elias na história de Israel, confrontando a idolatria, o sincretismo religioso, o relativismo ético, a apostasia e as ruínas da moral, havia sido verbalizada por Deus quando lhe ordenou: «Retira-te daqui, vai para a banda do oriente, e esconde-te junto à torrente de Queribe, fronteira ao Jordão»
Na perspectiva profética, todo o ministério de Elias iria iniciar-se numa estruturação da dependência de Deus, fortalecendo-se no rigor da vida «monástica», solitário, integrado na natureza agreste. Habitaria no deserto e construiria sua tenda junto ao Jordão, segundo escreveu S.Jerónimo na sua Ep.58 ad Paulinum. Viveria Elias dos cuidados divinos ao lado do ribeiro de Carit, na Transjordânia, actual reino Hachemita da Jordânia. Os corvos providenciar-lhe-iam os alimentos, pão e carne pela manhã e ao cair da noite. Beberia água da torrente. Elias, segundo uma tradição religiosa remota, seria não o fundador em sentido estricto da vida monástica, mas pelo menos o seu precursor.

Se pretendessemos adpatar a sua vida à futura poesia árabe, com alguma liberdade poética díriamos que a relação de Elias com a natureza seria como a da ave chamada Garça (cujo nome em árabe é masculino e significa «Soberano Melancólico»), e cujo poema reza assim: «Minha miséria prefere a vazia linha do mar entre as lagunas, onde ninguém ouve o meu canto. Triste, melancólico, fico à beira do mar salgado, pensativamente; o coração sangrando de desejo pela água».
No entanto, Elias foi um homem de acção. Na rigidez do seu enfrentamento com a sociedade e a adulterada estrutura religiosa do Reino de Israel, isto é, no seu confronto com a rainha Jezabel e os 450 profetas de Baal e os 400 de Azera, na sua missão de levar o povo à adoração genuína ao único Deus, Elias exerceu do poder espiritual que o Senhor lhe conferiu tudo para além das funções normais de um sumo-sacerdote e de um profeta, exerceu-o sem margens e in limite. Exerceu nas suas funções o Poder de Deus, no próprio plano do sobrenatural.
«Eis que está aí Elias» é uma afirmação do próprio, consciente da missão para a qual fora investido por Deus, fazendo uso da relação espiritual de poder que seu nome já possuía com Jeová, uma vez que Elias significa «Javé é Deus». O profeta das vestes de pele de camelo, dotado de um temperamento impetuoso, romântico e ardente, afirmava Deus em si mesmo.
Mas o vigor do profeta Elias, o seu trabalho institucional, por um lado conservador, revivalista por outro, conducente a um Avivamento espiritual em Israel, não faria supor uma quebra na sua dinâmica de fortaleza física e psicológica.
O profeta Elias tinha superado a instituição da idolatria, do sincretismo religioso, havia mantido intacta a Adoração a Iavé, a sua Fé no Deus Altíssimo superara todas as circunstâncias.
Trabalhara com a matéria, digamos com os materiais do sobrenatural (as pedras do altar, a lenha, o rego em volta do altar, a água, o novilho para o holocausto) e tudo isso levou pela Fé ao alto patamar do milagre que lemos no Livro I de Reis, 18,37,38.
Conhecemos o seu contributo para a Galeria dos Hérois da Fé da Carta aos Hebreus, «homens dos quais o mundo não era digno, errantes pelos desertos, pelos montes, pelas covas, pelos antros da terra».
Mas agora parecia não poder superar-se a si próprio e aos seus temores.
O Transtorno do Pânico
O início da narrativa de I Reis 19, abre sobre a situação física e psicológica do profeta Elias. O texto sagrado não espiritualiza essa fragilidade natural da vida dos homens e dá-nos a real imagem de um Servo de Deus «temendo» a perfídia da rainha Jezabel e que «se levanta», isto é, inicia uma fuga «para salvar a sua vida». Como Deus compreende, mesmo no espírito da Sua Palavra, a sua criatura mais excelente, o Homem!
A longa caminhada que Elias começou não foi no sentido de voltar as costas a Deus, ao contrário, rumou ao monte de Horebe, que o Velho Testamento tem o cuidado de salientar como o monte de Deus.
O refúgio de Elias numa caverna, em Horebe, foi o efeito da conjuntura religiosa e social adversa pelo arrojo do profeta, a sua luta titânica contra os profetas de Baal para preservar a genuinidade e identidade única do Deus de Israel.
As palavras contemporâneas para a sua atitude de fugitivo, quando havia sido um Herói, adjectivariam o profeta como desanimado e deprimido. Na área mais rigorosa da ciência médica, diriam que se trata de uma síndrome, designadamente o chamado Transtorno do Pânico, designação que obviamente Elias desconhecia em absoluto.
Sentiu, no entanto, todos os seus efeitos na alma. A ansiedade, o stress, o desânimo, a hodierna depressão, o desejo de vanishing act - o desaparecer de vista -, ou até o desejo de morrer, mas não de suicídio (I Rs.19,4).
Num registo moderno, Elias seria alegadamente caracterizado como uma pessoa extremamente responsável, grande produtividade a nível profissional, assumindo sempre uma carga excessiva, tomando à sua responsabilidade os outros, exigente consigo mesmo, preocupado em excesso com os problemas quotidianos, perfeccionista e com alto dose de criatividade.
Encurtando palavras que são pela sua própria natureza dos nossos dias, e cingindo-me apenas ao múnus espiritual do profeta, Elias, não obstante haver um rei, foi não apenas o líder do Povo de Israel, naquele momento de problemas e carências nacionais, mas também foi o condutor do Culto Divino que o povo devia praticar.
Na contextualização de todos os factos contidos na narrativa, não é difícil de entender o desmoronamento físico e psicológico do profeta. A sua estatura espiritual e moral, de par com a sua estrutura física construída na dureza, ao contrário do que faria supor, pelo que representavam abalaram Elias precisamente pelo seu zelo, pela sua entrega, pela sua consagração ao Deus de Israel.
Nesta linha de pensamento, tendente a alargá-lo a situações contemporâneas de que temos conhecimento e experiência pessoal, veio à minha memória que li um livro muito a propósito de tudo isso, obra fundamental para o entendimento bíblico e correcto da depressão. Fui à estante buscá-lo. «Depressão e Graça», de Judite Kemp, que a dado passo afirma: «A história contemporanea da igreja também relata o mesmo tipo de sofrimento enfrentado por homens e mulheres de Deus. Veja alguns exemplos: John Bunyan, autor de O Peregrino; Martinho Lutero, líder da Reforma Protestante; Hudson Taylor, o grande missionário que não escondia suas experiências de andar com Deus no escuro; George Mueller, missionário inglês usado por Deus mesmo em meio a crise de depressão.»
Durante o percurso da leitura desta citação, em que a autora referencia também Amy Carmichael, missionária, C.S.Lewis, escritor e Charles Spurgeon, pregador, não é fácil compreender o que o exemplo seguinte nos aporta, que «até mesmo Nosso Senhor Jesus se angustiou: «A minha alma está profundamente triste, numa tristeza mortal», quando contemplou o alto custo da obediência à vontade do Pai» É reconfortante saber isso.
O círculo alarga-se nos nossos dias pelas contextualizações da história, das exigências actuais que implicam um esforço cristão de mais moral, mais ética, mais Verdade contra os relativismos pós-modernos, as pressões que o estado do Mundo exerce sobre o crente, anónimo, e os Servos de Deus, enquanto tal, líderes de comunidades cristãs.
Até ao chamado de transtorno do pânico vai porém um longo caminho in limite. Contudo, seremos nós, crentes, trabalhadores na Igreja, obreiros, pastores, escritores, etc., membros da Comunidade Evangélica, melhores do que Elias?
Somos, todos nós, de alguma forma, vulneráveis, sendo preciso recobrar o ânimo, a consagração, a fortaleza que decorre do que Deus confidenciou ao apóstolo Paulo, e cuja base de aplicação parece decorrer da nossa fragilidade: «A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza.» (2 Co 12, 9)
(Para o meu amigo dr.Brissos Lino)
Gravura: Dieric o Velho, o Profeta Elias no deserto, 1464

Tuesday, May 12, 2009

A Bíblia «protestante» entra em Espanha via Lisboa

«La Bíblia en España. Los Viages, Aventuras y Prisiones de un inglés en su intento de Difundir las Escrituras por la Península Ibérica», tradução do original inglês e, salvo erro, não editado em Portugal, é mais do que um clássico da literatura de viagens com um século e meio de existência. Não obstante esta distância cronológica ainda une Portugal e Espanha no mesmo estigma de países que foram, num passado recente, reaccionários, contra-reformistas, perseguidores de homens e mulheres que professavam a confissão protestante e viajavam pelo país vendendo a Bíblia.

O escritor, livreiro, ateu convertido a Cristo, pescador de almas, George Borrow, que escreveu no prefácio da sua obra « não sou turista nem autor de novelas ou de livros de viagens», descreve todavia essas viagens de finalidade religiosa com uma linguagem empolgante e original. O livro é assim um imenso quadro de itinerários percorridos e uma autobiografia considerada como tal na História da Literatura Inglesa. É a narrativa de uma via dolorosa de tribulações, presídios, testemunhos morais, sobretudo um encontro do autor com a sociedade espanhola da época, tendo por missão levar a Bíblia dita protestante a todo o povo, ciganos, toureiros, foragidos da justiça, contrabandistas, flibusteiros, policias, camponêses.

O autor que em Madrid chegou a ser conhecido popularmente por «El Jorgito Inglés», publicou «The Bible in Spain» em Londres em 1842. Porventura sob a influência notável da Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira, a Inglaterra vitoriana ficou a conhecer primeiro a saga da Bíblia em Espanha. Neste país, o livro de Borrow seria traduzido e publicado muito mais tarde, no princípio da década de 20, colhendo de sectores diferenciados algumas reacções encorajadoras, sublinhando a importância do livro e que «tardou 80 anos a ser oferecido aos leitores espanhóis.» Estas palavras foram pronunciadas por aquele que iria ser o presidente da II República espanhola Manuel Azaña, em 1921, o próprio que por essa data o traduziu e prefaciou.

Muito antes destas palavras, em Outubro de 1835, a Sociedade Bíblica já referida enviara a Lisboa o escritor Borrow, com o propósito de difundir a Bíblia em Portugal. Sabe-se pouco sobre esta estadia no nosso país de George Borrow, a finalidade seria a divulgação da Bíblia, mas pouco ou nada lhe foi autorizado executar. É conhecido dos meios literários que o escritor esteve no cemitério inglês de Lisboa, à Estrela, junto do túmulo de outro escritor, Henry Fielding. Depois voltou a Londres a fim de obter autorizações da Sociedade Bíblica e do governo espanhol para imprimir e distribuir a Bíblia em castelhano. A partir da sua livraria na Rua do Príncipe, em Madrid, traduz e distribui o Evangelho de Lucas na língua caló, dialecto dos ciganos ibéricos, com os quais partilhou grande parte da sua vida em Espanha. Após quatro anos neste país ( 1836-1840), iniciados na Galiza que assume um lugar significativo nas suas memórias de autor, começaram os problemas, Bíblias e outra literatura religiosa protestante são confiscadas da sua livraria, até os seus próprios livros e vai parar ao cárcere em 1838.
A Contra-Reforma ainda fazia os seus estragos e a palavra ecumenismo não fora ainda inventada.

Friday, May 08, 2009

O lado escuro da lua

O lado escuro da lua, dormirá
sem estrelas? Gazes mortais
e descoloridos desfizeram a alegria
de aparecer? A luz? O lado escuro
é o avêsso dos nossos olhos

É impossível o sonho ao frio
no fundo inconcebido
do lado escuro da lua
Estará ainda o lado escuro
no seu lugar, não é apenas a metade
dispersa do infinito, a esfera
que não vemos?

Os mares do lado escuro
da lua são apenas o volume
que não vemos do silêncio?
Como vê-lo, se os olhos sem lua
se perdem sem órbita.


Friday, May 01, 2009

O Salmo 139 na Teologia do XXº Século


UMA PERSPECTIVA DE JOHH A.T.ROBINSON
Mais de vinte e cinco séculos depois da criação literária do Salmo 139, como uma produção do sentimento religioso, da inspiração espiritual e de uma categoria lírico-poética da literatura nacional hebraica, o Saltério, um bispo anglicano do século XX, John Albert Thomas Robinson, afirma que se trata de «uma meditação penetrante sobre a presença de Deus», no mundo que Ele próprio criou.

Seria esta afirmação comum e resultante de uma normal análise de conteúdo do discurso poemático do salmo em questão, sem nenhum pressuposto que não parta, exclusivamente, do teísmo que a religião cristã ou a civilização judaico-cristã revela sobre Deus. Mas não é um pronunciamento trivial.
A verdade é que, não sendo tal apreciação do bispo anglicano contestável, foi-o porém o seu autor, por se tratar de um teólogo controverso e um dos criadores da teologia radical protestante da década de 50 e seguinte. Preocupado defendeu, sustentando-se sobretudo no pensamento teológico de Rodolf Bultmann, que o homem secular já não admite que Deus é real nos nossos dias. E também que as Escrituras estão antiquadas quanto a fazerem compreender o ponto de vista de Deus presente no mundo tanto quanto Deus «lá em cima».
John A.T.Robinson marcou, de facto, o início da década de 60 ao radicalizar a teologia protestante e ao retomar a ideia luterana do Deus Absconditus.
Contudo, a partir do facto de que se trata de uma prova da presença de Deus no mundo, transcendente ao universo, mas imanente à Sua Criação, integra o salmo na sua mais polémica obra, Honest to God, de 1963, a contra-corrente, como a mais perfeita doutrina da omnipotência e da omnisciência de Deus. E entre outras razões, aquela valoriza sobremaneira tão controverso livro da não menos controvertida década de 60.


Monday, April 27, 2009

Cristianismo e Paulo: Cultura de Rotura

O património da Europa ao fundar-se em valores do respeito pela dignidade humana, da liberdade, da democracia, funda-se fundamentalmente sobre valores religiosos e estes valores são matéria do Cristianismo.

A fundação da Cultura do Cristianismo pelo apóstolo Paulo não está, porém, cativa de um passado remoto. Na segunda metade do Primeiro Século – a partir do ano 50 a.D - já essa Cultura, essa Nova Luz, a Idade do Ouro que até Virgílio, o poeta latino, vaticinou (Bucólica Quarta), se preparava para ser coluna no futuro.
Tolerada ou sentida com temor pelas instâncias do poder romano(Actos 24,25) e «reconhecida» nos seus fundamentos pela curiosidade do espírito cultural grego (Actos 17 ), ajudaria a conduzir da Patrística à Reforma o Pensamento dos cristãos, e a despeito de muita dialética materialista no século XX, um autor como Harold Bloom teria que colocar Paulo como um autor bíblico fundacional a par de Dante e Shakespeare. Para o autor do Cânone Ocidental, Paulo esteve também na base da ontologia do Ser.
Obviamente sabemos de que novo ser humano Paulo falava, o apóstolo escreveu aos Coríntios sobre aqueles que, se estão em Cristo, são novas criaturas. É a experiência da redenção, que torna o crente nova criatura em Cristo, que também é a base da Cultura do Cristianismo. Esta ergueu-se bastante, em relação aos outros apóstolos de Jesus, sobretudo globalmente, em torno da obra e da vida do apóstolo Paulo.
Este começou por estruturar essa Cultura dentro das balizas da cultura do judaismo. Na referência biográfica que faz de si próprio nas epístolas aos Coríntios e aos Filipenses, não enjeita suas origens, as quais eram motivo de orgulho no tempo anterior ao Caminho de Damasco. Na perspectiva estritamente hebreia, Paul perdeu o seu presente, enquanto descendente da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus, fariseu, etc., mas ganhou o futuro, pela influência que exerceu na amplíssima comunidade cristã do seu tempo, e a eternidade do ponto de vista do Cânone Sagrado e da Teologia.
Assim, imensamente por causa do trabalho missionário de Paulo, que abarcou o Oriente e o Ocidente, a remota Ásia Menor e a Europa, a Cultura do Cristianismo foi uma cultura de rotura. Tal cultura, porém, não agiu autonomamente, só numa divulgação do pensamento cristão desligado de um organismo, por exemplo como acontecia com o gnosticismo, essa cultura estava intimamente ligada à Igreja Primitiva, às igrejas que Paulo foi fundando de Roma a Antioquia.

A cultura de rotura com os valores, com a amoralidade e a imoralidade, do secularismo, começou a ser veiculada pelas Comunidades dos cristãos, pela Igreja. E sem excepção, as Epístolas de Paulo, não excluindo como é óbvio as cartas dos demais apóstolos, contribuiram para tal cultura de rompimento. Paulo confirmou doutrinariamente toda a historicidade do relato de Lucas nos Actos, Paulo tornaria o Cristianismo num Facto histórico, resgatando-o da ideia da época de ser uma seita do judaismo. Desde um ponto de vista histórico o cristianismo supõe o principal aportamento do povo hebreu e uma das mais importantes influências semíticas junto com o alfabeto – no âmbito geo-cultural ocidental. Já se escreveu que «a religião cristã foi um factor primordial na hora de formar o sentido da identidade europeia.»
Esta identidade europeia, que é laica obviamente, mas estruturada nos valores judaico-cristãos, assenta de resto numa vasta e fundacional Literatura, predominando o Novo Testamento.

Evangelhos canónicos e apócrifos, as Cartas de Paulo e os Actos dos Apóstolos, de Lucas. Tais obras foram escritas –na sua maioria- entre finais do século I e os começos do século II d.C. Actualmente, textos como o Papiro Egerton (S. II d. C.) e outros seus contemporâneos como P1 e o P2, o Manuscrito de Nag Hammadi (S. IV d.C.),o Manuscrito Sinaítico (S. IV d.C.), o Códice Vaticano (S. IV d.C.), o Códice Benzae Cantabrigensis (S. V d.C.), o Códice Alexandrino (S. V d.C.), o Códice Washingtoniano (S. V d.C.), o Códice Ephraemi Rescriptus ( S. V d.C.), são os testemunhos directos mais antigos que se conservam como referência a Jesus Cristo e ao Cristianismo. A Igreja bíblica está fundada sobre a Doutrina dos Apóstolos, a Europa subtraída às hostes da barbárie tem nas suas fundações os veios auríficos dos valores imbatíveis dessa Doutrina.

Assim o Cristianismo não pode ser visto apenas como a Religião, é também a Identidade.

Thursday, April 23, 2009

Mar da Galileia


Chegou às tuas águas calma
mar de tranquilidade
os pequenos montes impetuosos
baixaram
à simples linha de água

Chegou ao meio de tuas águas cor
num espelho do céu
Chegou às tuas águas luz
e não do raio
que vem do invisível nada

Regressou às tuas águas prata
quando as nuvens abriram as janelas
Chegou ao tumulto o sono
quando a noite descansou nos
braços de Jesus.

Thursday, April 16, 2009

Os Meninos da sua Mãe


Tão jovem! Que jovem era!
(agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino da sua mãe.»
Fernando Pessoa

E quando chegou perto da porta da cidade, eis que levavam um defunto, filho único de sua mãe, que era viúva.
Lucas, 7, 12


De acordo com um documento publicado por CHRISTIAN APOLOGETICS & RESEARCH MINISTRY, o resultado da cosmovisão secular pode ser vista ao nosso redor. “A televisão tem se degenerado tornando-se um "bordel" de violência, pornografia "leve", seriados que destroem a família, comerciais que apelam para a gratificação imediata dos prazeres, e desenhos animados que são cheios de violência, ocultismo, e desobediência aos pais. Eles frequentemente retratam pastores como psicóticos, padres como "pedófilos", e pessoas religiosas como ignorantes, inseguras e fanáticas”

Diferente é a cosmovisão de origem cristã sobre a morte e como considerá-la que o evangelista Lucas e o poeta Fernando Pessoa possuíam.
O interessante da cosmovisão cristã reside no fato dela ser simples, como disse C. S Lewis, dito assim poderíamos aceitar que tanto Pessoa como o autor bíblico Lucas, lendo os seus textos acima, observaram a morte sob esse ponto de vista da cosmovisão cristã. Mas Lucas era um cristão, Fernando Pessoa era-o noutro sentido, era um crístico.
Mas ambos - um como narrador bíblico, outro como sujeito lírico - escreveram sobre uma morte desajustada da cronologia, imprópria, diríamos por se tratar da morte de um jovem. Ambos nos apresentam uma morte desumana.
A desumanização da morte
Há pelo menos dois ou três períodos, distanciados uns dos outros, na história da humanidade do Século XX em que o homem desumaniza a morte do outro.
A Grande Guerra da qual fotografias mostram a ruína da carne humana de par com os escombros.
A Guerra Civil Espanhola que foi a primeira guerra a ser testemunhada (coberta) pelos noticiários, relacionando bombardeamentos por parte dos nacionalistas de Franco como o de Guernica com o castigo pela «rebeldia» democrática dos republicanos.
A IIª Guerra Mundial em que os campos de extermínio nazi só por inadvertência histórica e excesso de vanglória dos carrascos deixaram para a posteridade fotografias de escombros do que foram homens, mulheres e crianças, desumanizando-os na imagem como o haviam feito as teorias racistas, nas virulentas ideias anti-semitas de Hitler ou Julius Streicher.
As bombas de Hiroxima e Nagasaqui que revelaram como o brilho de mil sóis pode não apenas matar, mas reduzir as vítimas a sombras.
E a moderna guerra de bombardeamentos e desflorações que a América travou no Vietname, entre corpos estropiados e queimados sob o napalm e os outros corpos desumanizados, como conteúdo impessoal dentro dos famosos sacos de lona preta?

Dir-se-ia que a desumanização da morte funciona diante dos nossos olhos, hoje mais do que nunca nos meios de comunicação, através da fotografia e das imagens.
«Captar uma morte que está a ocorrer e embalsamá-la para todo o sempre é algo que uma câmara pode fazer» escreveu Susan Sontag.
A seu modo e com os instrumentos lexicais que possuíam, o evangelista Lucas e o poeta Pessoa embalsamaram para todo o sempre um momento da morte. No caso do poeta autor da Mensagem, a morte ficou para sempre qualificada como a morte, sem remédio, de um jovem soldado na guerra. No texto bíblico, a narratividade aponta para o milagre da restituição da vida através do prodígio da ressurreição.

Lucas, 7, 12-15
Este Evangelho dirigia-se a Teófilo, de um modo particular, e no sentido universal a leitores cristãos de cultura grega, costuma dizer-se que Lucas era um artista, como se vê pela linguagem usada, pelo cuidado em explicar a geografia e os usos da Palestina, pela omissão de discussões judaicas e pela consideração que tem pelos gentios.
Particularmente no texto em causa, estabelece o encontro da Tristeza com a Alegria. Como corolário estabelece o encontro da Vida com a Morte. Neste sentido a sua narração tem delicadeza e sensibilidade.
É com familiaridade que afirma ser o defunto o filho único de uma viúva.. Nesta linguagem simples do amor materno acerca de uma mulher desamparada agora segundo os costumes judaicos, o evangelista pinta com traços sucintos mas carregados da cor da tristeza toda a mágoa que avassala aquele coração de mãe e de viúva sem amparos. A luz que incidia no rosto da mãe marcava-lhe a cor da tristeza, e quase vemos essa repartição da luz solar da tarde no escuro das roupas e dos corpos. Toda a narrativa assume o tom da tristeza fúnebre. Até certo ponto é um relato cinzento. Parafraseando A.Camus, tudo o que aquele cortejo fúnebre representava, colocava-o «a meio caminho entre a miséria e o sol».
O médico-evangelista sublinha antes do momento de alegria e de vida protagonizado por Jesus Cristo, toda tristeza do evento ao dar uma identidade, a única que se conhece, ao jovem morto: o filho único de sua mãe.

Filho único ou «O menino da sua mãe.»
No que concerne a Fernando Pessoa, o chamado sujeito lírico- o poeta- centra a sua atenção no «menino da sua mãe». Subliminarmente nos sugere um clima de guerra, e por uma razão de experiência sentimental óbvia, e cronológica também, remete-nos para a Grande Guerra (1914-1917). A «terra-de-ninguém» recolhe à superfície do solo «o abandonado» jovem, que jaz morto e arrefece, apesar de «a morna brisa» que o poeta traz ao enredo/ intriga do poema.
O jovem soldado, na primeira estrofe (quintilha) do poema, é identificado com o único nome possível, desumanizado, o «morto» que, como qualquer outro, jaz. A desumanização do jovem morto é mitigada por uma corporização poética: braços estendidos, olhar lânguido e cego, alvo e louro, e uma farda que o integra e reduz à uniformidade, uma roupagem que o seu próprio sangue ilumina. Conta-nos o poeta: «Raia-lhe a farda o sangue».
Quem é este «menino da sua mãe» e o que o identificava como tal, no belo poema pessoano de uma tristeza contida?
Pertencente ao conjunto dos oito poemas que Pessoa(e os heterónimos) dedicaram ao tema da Grande Guerra, «O menino da sua mãe» tem a intensidade própria da temática e existem nele dois elementos sociais identificadores, que atribuem uma humanidade ao morto. Este carregava dois objectos: «a cigarreira» e «um lenço branco» que o identificariam socialmente, que falavam de uma vida familiar e social.
Mas a mais profunda identidade que Fernando Pessoa lhe confere é idêntica à do evangelista Lucas, é «o menino da sua mãe», é, de facto, um nome, e esse nome a mãe o mantivera até à idade adulta do seu jovem filho.

Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino da sua mãe.»
Uma proposição
Adolfo Casais Monteiro, amigo de Pessoa, escreveu um dia que «sabemos da vida de Pessoa menos, muito menos, do que a respeito de muitos outros, e bem mais distantes no tempo.»
Contudo, supondo a realidade das leituras inúmeras e diversificadas do Poeta que abarcavam linguística, estética, poética( e a poesia inglesa da época romântica), filosofia, religião, a Cabala, a Bíblia, terá Fernando Pessoa captado de uma leitura do Evangelho de Lucas a ideia profunda, de intensidade da compaixão, do «menino da sua mãe»? Ou no dizer de Lucas «o filho único de sua mãe»?

Terá, muito pelo contrário, ido buscar a ideia à metáfora das Mães, no poeta alemão Goethe, que ele apreciava, e nos alquimistas e sábios, que a usavam para falar da «matéria primeira», das formas originárias do Ser- a «mãe»? Para os gregos deusas a quem chamavam Mães, as divindades femininas férteis e as estéreis, de Cícero a Plutarco?
Seja como for, «o menino da sua mãe» é tão intenso e comovente no poema como «o filho único de sua mãe» o é no Evangelho.

Wednesday, April 15, 2009

6 perigos da igreja organizada

«Esta é a triste história das denominações cristãs em geral, que se caracteriza por alguns dos seguintes perigos específicos:

Sacrifício dos mais capazes
Cristalização doutrinária
Imobilismo
Afastamento da sociedade
Incompreensão do conceito de fraternidade
Reinterpretação da História


Via A Ovelha Perdida, ler na íntegra aqui:
http://igrejadojubileu.wordpress.com/2009/04/15/os-perigos-da-igreja-organizada/

Sunday, April 12, 2009

A pedra na Ressurreição



No meio do caminho tinha uma pedra
Carlos Drummond de Andrade

Havia um anjo no meio do caminho
tinha uma pedra
a meio do caminho

Havia uma pedra
fechada no meio do caminho
sobre ela se desgastaram
os olhos, enviaram milícias
e as mulheres que sonharam
dar o incenso das suas vigílias

No meu caminho havia uma pedra
e nada há mais duro
que a imaginação sem milagre
no meio do caminho havia uma pedra
o meio de pedra
para manter a cidade calada.

1993

Saturday, April 11, 2009

Declarações de um Púlpito de Igreja "com stress"

Nota do editor:
O texto abaixo está longe de ser um poema( não basta a estrutura formal, nem um hiperbólico conjunto de metáforas, algumas delas boas, outras com a prosódia técnica errada), é, no entanto, uma verdade.

Por mim muitos sonham
Por mim muitos desejam
Por mim muitos esperam
Por mim muitos brigam

Em mim muitos se realizam
Em mim muitos se vangloriam
Em mim muitos se escondem
Em mim muitos esbravejam
Em mim muitos desabafam
Em mim muitos deliram
Em mim muitos enganam

Sem mim muitos se frustram
Sem mim muitos se entristecem
Sem mim muitos se angustiam
Sem mim muitos se deprimem
Sem mim muitos se desesperam
Sem mim muitos se calam

De ouro, prata, bronze, vidro, acrílico, pedra, madeira, não importa.
Investiram-me de um valor simbólico poderoso.

Dou prestígio, status, projeção, e até enriqueço alguns.

Sou um púlpito de igreja estressado,
cansado da mediocridade de muitos que me usam e abusam.

(Altair Germano)

In http://www.poesiaevanglica.blogspot.com/

Wednesday, April 08, 2009

Kaddish por meu filho Absalão

Quem me dera que eu morrera / Por ti, Absalão.
Rei David


Na alta abóbada de uma árvore
o teu cabelo chamou a morte
A tua efémera beleza
emaranhada no lugar dos ramos
como frágil presa
Um corpo sonâmbulo colhido como um fruto
como um pássaro nocturno
onde a morte depositou os dardos
Meu filho, Absalão, meu filho
ai o teu coração sozinho, permeável
ao vento sob a árvore.

Monday, April 06, 2009

O Anúncio

Basicamente é um diálogo. E todos sabem que os diálogos podem ser sinuosos, conter alçapões e esquinas desconhecidas, onde podem aguardar-nos os calafrios.
Várias imagens, como a ironia, a falta de ética, a falácia da solidariedade entre os homens, o incensar a mentira, o egoismo, a crítica aos que aguardam por salvação exterior à sua própria iniciativa, o eterno sebastianismo, etc., etc., nos podem ocorrer perante este:

«Então, que se passa?»
«Sabes lá, dinheiro!»
«Não me digas! »
«Verdade!»
«Não te preocupes. Lembras-te quando fizeste 30 anos? Nesse dia fui ao ...e abri uma conta poupança em teu nome. Todos os mêses depositei religiosamente 25 €. E tens lá um monte de dinheiro à tua espera»
«Estás a dizer-me que foste ao...e depositaste, etc.etc. A sério? Fizeste isso por mim?!»
........................................
«Não! Eu estava a gozar!»

Não havia necessidade de dizer coisas como estas («Triste mesmo…mais triste é o dinheiro que actrizes de renome estão a ganhar com esta publicidade misera e claro: elas é que se estão a rir na nossa cara… finalmente um anúncio à imagem do Bidarra: cínico e pouco solidário», In (www.ptfolio.com/2009/03/05/) que li em comentários sobre este anúncio a um tipo de poupança e de apelo a que devemos pensar em nós. Por quê?

Porque se corre o risco de transformar a peça em algo que navega em águas da filosofia, por causa do cinismo, que pode até não se descolar de um sentimento religioso, por causa da falta de ética perante as circunstâncias actuais. E não merece tanto!

Basta a encenação, as falas, certas expressões, e o recurso ao advérbio de modo «religiosamente», como resquício de uma certa moral religiosa, que é ancestral na hipocrisia com que Portugal vive o seu catolicismo romano, como uma pseudo nota de seriedade, que é incomparavelmente menos séria que a frase «sou ateu, graças a Deus!».

Dizer «Pensa em ti» é basicamente o ponto de partida para o tal diálogo. Como um dos elementos da retórica, o diálogo que Mikhail Bakhtin desenvolveu para o dialogismo, é figura que reproduz em falas diversas as ideias ou sentimentos das personagens.

Sendo o mote para a campanha criativa publicitária «Pensar em Ti» basicamente um diálogo, é natural que, segundo a tais regras da retórica, evidencie a polifonia que todo o discurso dialógico possui.

-De um lado, temos a apreensão perante a crise, a necessidade, o vazio financeiro e a falta de horizontes, a lamúria perante a situação em que o país, a Europa e o mundo estão enterrados;
-tudo centrado, curiosamente, num casa de chá (ou restaurante?) de classe média;
-do outro lado, temos a ironia, a promoção de uma falsa segurança, a frase antagónica, a antítese como a substituição de toda a esperança que na interlocutora acaba por se desmoronar.

No geral, esta peça publicitária basicamente promoverá a «mise-en-scène» dos afectos, o realce da mentira ? O quê, para além do marketing?

Gil Vicente e Shakespeare já trataram assim as relações humanas, com base na ironia, enquanto ingrediente do drama como a sátira, que acaba por ser o resumo eufemístico para dizer desprezo pelo nosso próximo.
(Crónica a sair no Diário de Aveiro)

Saturday, March 28, 2009

Convenções: um nome para a Unidade

1ª Convenção de Obreiros das Assembleias de Deus em Portugal, 1939
Fotografia original do arquivo histórico de JTP


Paulo sabia que a unidade era um vínculo nos alicerces do cristianismo.
O apóstolo queria que as igrejas locais estivessem firmes em um só espírito, como uma só alma(Fl.1,27). Só assim, lutando juntos, o que chamou de «fé evangélica» se edificaria e manteria.
Nas relações humanas, sociais e religiosas entre os crentes, digamos assim, nada estava fora do alcance deles, nada se situava noutro mundo. «Rogo a Evódia, e rogo a Síntique que pensem concordemente, no Senhor»- esta recomendação traz Paulo ao domínio do quotidiano dos crentes em Filipos.(4,2)

Pensar concordemente, pensar o mesmo, orientar a visão para um objectivo comum, fortalece as igrejas locais, é também uma função das Convenções. Têm de igual modo uma função fundadora e, por isso mesmo, impulsionadora.

Nos dias 18 a 22/8 de 1921, em Belém do Pará, realizou-se uma primeira Convenção Regional das Assembleias de Deus nesse Estado. O objectivo prioritariamente missionário dessas AD, já levara por diante o seu escopo ao enviar de Belém para Portugal o pioneiro pr.José de Matos. Já antes o haviam feito, enviando em 4 de Abril de 1913 o primeiro José, o missionário Plácido da Costa- “um português abridor de caminhos para o Evangelho”.
Em Portugal, Lisboa hospedava a sua também primeira Convenção de Obreiros para ajudar a preparar os obreiros existentes vocacionados para expandir a Obra de Deus e o Movimento Pentecostal a partir desse ano de 1939. A mesma incluia aqueles referidos obreiros consagrados do outro lado do Atlântico. E naturalmente os missionários oriundos do norte da Europa, principalmente o casal Ingrid e Tage Stahlberg.
As Convenções de Obreiros ( para se distinguiram das grandes Convenções Anuais de verão que se realizavam ainda na década de 50 em Nyhem, na Suécia) (1), constituiram-se dessa forma como algo oposto aos conclaves fracturantes, onde cada pessoa leva a sua «ideia». Não há moções, como no mundo da política partidária, porque o que é suposto unir, pode também fracturar. Ao invés, deve haver «assuntos de ordem prática e espiritual e de palpitante interesse»- como escrevia há 50 anos o pr.João S.Hipólito, em “Novas de Alegria” de Julho de 1958.
Esta peça jornalística, que a revista NA trouxe a lume naquela data, relatando o que foi a Convenção Pentecostal, realizada em Lisboa, na sede da Assembleia de Deus local, nos dias 7 a 14 de Maio, amplia-nos a visão hoje, passado meio século, sobre a importância que têm as Convenções de Obreiros. E como o Movimento Pentecostal se foi edificando, nas suas estruturas eclesiais - ligando o conjunto de igrejas autónomas locais - e teológicas- preservando as doutrinas bíblicas e o pensamento pentecostal, conforme o Novo Testamento.
A Convenção não mudou paradigmas, ela própria era substantivamente o paradigma da unidade das Assembleias de Deus.
Essa foi, por outras palavras dessa época, no tempo do princípio, a conclamação geral do nosso Movimento apontando o caminho da Unidade. Por isso afirmamos que Convenção é nome da Unidade, do que é multiplo mas tende a afirmar-se único e integro, no contexto do Movimento Pentecostal das Assembleias de Deus – as igrejas locais. Foi para prosseguir o estabelecimento deste princípio e desejando conservá-lo para o futuro, certamente, que saiu um artigo no página Ecos Redactoriais da revista «Novas de Alegria», nº 185, de Maio de 1958, sob o título “A Convenção”.
Alguns parágrafos. Na década de 50 «O verdadeiro Movimento Pentecostal é um vivo protesto contra toda a forma de mundanismo, modernismo, clericalismo.(...) Dentro da “Assembleia de Deus” como commumente é designado o Movimento em Portugal, há uma verdade bíblica de imenso valor: a independência e a integridade da igreja local.» « Não é numa Convenção que se determina o futuro da Obra. Há coisas indispensáveis que necessitamos ventilar, e unidos podemos fazer melhor do que separados, por exemplo no que diz respeito à nossa literatura, missão, etc., mas não é das atribuições da Convenção determinar sobre estas coisas. O alvo da Convenção é mais espiritual, para não dizer absolutamente espiritual.»
Tratou-se de uma peça jornalística vigorosa e inspirada. E à distância de meio século, parece-nos contudo um artigo datado. Se não vejamos, numa análise de conteúdo objectiva.
. Autoria do texto. Surge em bom rigor jornalístico como sendo um redactorial, implicava o director de NA. É um artigo de fundo não assinado. Todavia, pela “ficha técnica”, a direcção espiritual da revista estava a cargo do pr.Tage e a «formal» do pr.Alfredo Machado.
Comparativamente a outros escritos, sobretudo o livro «O Mistério dos Desaparecidos»(2), inclinamo-nos para a autoria de Tage Stáhlberg. Este entendia que designações denominacionais “não eram penhor de preparação para a segunda vinda de Cristo” ( pág. 64). Neste clássico sobre o arrebatamento da Igreja, no contexto desse acontecimento Tage escreveu «Não havia Baptistas, nem Metodistas, Congregacionalistas nem Pentecostais, etc., havia apenas Crentes».
. O corpo do Texto. Num tom de autoridade, o artigo valoriza a igreja local, a sua autonomia desde que implementada num crescimento equilibrado e harmonioso dentro do ensino inspirado pelo Espírio Santo ao apóstolo Paulo. «Qualquer igreja local tem de verificar se a sua actividade está de harmonia com o Novo Testmento».
Considerava-se que o Movimento estava no meio de um Avivamento, como referem as notas do pr.Tage coligidas pelo nosso saudoso amigo pr. Carlos Baptista(3). «Nós temos a ousadia de dizer que o avivamento chegou a Portugal com os primeiros missionários pentecostais» (Pág 67) . Avivamento não anda desligado da harmonia. Para esta harmonia – refere o histórico redactorial-, «que é uma das condições para o progresso espiritual da igreja local», os «chamados Pentecostais» deveriam ter em conta a necessária e concludente realização da «nossa Convenção».
Desta valorização da assembleia de obreiros, pastores, evangelistas, anciãos idóneos, segundo o autor do texto, surge a proeminente razão da escrita do artigo. «Portanto, amigo e irmão pastor ou evangelista: ora ferverosamente pela Convenção, prepara-te como se fosses o único orador e vem, no poder do Espírito Santo, reunir-te connosco na luta contra o mal! Esperamos grandes coisas da parte do Senhor». O redactorial em apreço, estruturou-se numa estratégia espiritual e prática, teve a oportunidade de sair no exacto número de NA coincidente com a realização desse evento.
Curiosamente, diga-se que havia até um carácter «ecuménico», uma vez que as Convenções eram «francas não só para Obreiros das Assembleias de Deus, mas para cada pastor que deseja estudar e penetrar mais na Bíblia».
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História das Assembleias de Deus no Brasil, Emílio Conde, 1960
(1)-“A Visit to Scandinavia”, The Pentecostal Evangel, nº 23, 18/5/1951
(2)-Edição da Assembleia de Deus, Lisboa, (3ª), s/d
(3)-Milagres de Deus em Portugal, Edições NA, 2002

Sunday, March 22, 2009

Nota ao texto "Salmo 121 Uma Superabundância"

Observação do meu amigo dr.Rui Miguel:
«Cumprimento-te e saúdo-te pela análise enriquecedora e múltipla (literária, psicológica, histórica e cultural, um pouco retórica também) do Salmo. Lembro-me de ter lido, embora me não lembre onde, que os montes aos quais o Eu declara erguer os seus olhos poderiam ser alusão a ídolos pagãos erigidos nos altos pelos vizinhos dos Israelitas e Judeus e também por estes (ver livros de Reis e Crónicas), e que de quando em vez um rei temente a Deus mandava destruir. (...)
Que dizes? »

- Rui Miguel Duarte ( http://www.neaktisis.blogspot.com/)
Amigo Rui Miguel, interessante essa tua hipótese de abordagem com contextualização na história da idolatria pós-mosaica e na própria tradição litúrgica dos judeus/congregações judaicas.
A linha de hermenêutica a seguir, na explanação do Salmo 121, não é estanque. Na mente do salmista que criou este cântico, pode bem ter havido também a alusão crítica, diríamos hoje subliminar, aos idolos dos altos, aos ídolos-postes, da idolatria israelita que considero pós-mosaica.

Os montes no ideário teológico e poético dos judeus, segundo o Livro das Orações, o Siddur (que significa ordem), representavam por outro lado, o lugar por onde passa o Amado, que vem chegando (na súplica dessa oração pela ordem sequêncial disposta no livro).

Há também quem ligue hermeneuticamente este salmo à intervenção miraculosa de Deus no campo de batalha que levou os egípcios a fugir, na idade contemporânea, digo década de 60, aquando da célebre Guerra dos 6 dias. Esses inimigos modernos seriam montes a rodear o pequeno espaço de Israel.

Monday, March 16, 2009

Pré-Publicação: Salmo 121 Uma Superabundância (II)


No Salmo 121 há vários diálogos, do autor(viajante/peregrino) consigo próprio, do autor com Deus e, depois, de uma terceira Pessoa que entra no discurso do Salmo, quando deixamos de ler o pronome pessoal eu e passamos para um ele.

Nos versos 1 e 2: Elevo...me...o meu ; depois o verso 3, onde uma segunda pessoa fala da terceira: Não deixará vacilar o teu pé: aquele que te guarda não tosquenejará.
O diálogo, por assim dizer, estabelecer-se-ia assim: o Eu(a 1ª pessoa): -Elevo os meus olhos... De onde me virá o socorro?; o Tu(a 2ª pessoa):- Ele (o Senhor, a 3ª pessoa) não deixará vacilar o teu pé.
Esta voz que o salmo introduz, do ponto de vista da inspiração bíblica, só pode ser a voz do conforto do Espírito Santo a revelar o cuidado do Deus de Israel; testemunhando a verdade de que «O Senhor é quem te guarda».

Uma abordagem psicológica
A história de uma alma, do tipo psicológico da personagem do Salmo, o modo como cruza os olhos físicos pelas problemas e provações e os olhos espirituais, dirigidos a Quem pode ajudá-lo.

Olhar para os montes, donde se pode inferir o olhar para as dificuldades emergentes, em síntese, o olhar para dentro de si próprio, e o olhar para o Senhor. Um dia, lemos que o salmo 121 é o dos olhares. Joseph Ratzinger, já Papa, disse-o doutra forma, paralelamente acerca do 123: «O Salmo, que acabamos de proclamar, encerra -se numa troca de olhares: o fiel eleva seus olhos ao Senhor e aguarda uma reação divina, para colher o gesto de amor, um olhar de benevolência».
Compreendemos que o olhar do salmista(peregrino) seja lançado para as dificuldades, os montes que o esperam, e que terá de passar, caminhos estreitos, precipícios engolidores embora de beleza atraente, até chegar ao Templo em Jerusalém, às festas sagradas.
Ora é aqui perante a história de uma alma que nos colocamos.
Quando olha para os montes, que estavam colocados entre a sua tenda e o Templo, parece titubear, as estradas eram penosas, corria-se o risco de uma quebra da vontade e, até, da solidariedade com os outros irmãos quando juntos subiam a Jerusaém, esse olhar era para fora.

O olhar para dentro da própria alma, o tornar a si na linguagem de Jesus sobre o Filho Pródigo, era o olhar galvanizador. O olhar para dentro de nós próprios vai buscar alento à alma, ao que a alma sabe sobre o nosso Deus e Pai, que o salmista conhece ser o: Senhor que fez o céu e a terra.

Tuesday, March 10, 2009

A dúvida de Godot

A revista Newsweek, em 14/11/1988, exactamente há vinte anos, fazia a recensão crítica da peça À Espera de Godot, então levada à cena na Broadway e protagonizada por dois geniais actores, Robin Williams e Steve Martin.

Não sendo a Newsweek uma revista literária, nem do pensamento filosófico, não foi porém surpresa ler que o texto de Samuel Beckett era a mais famosa peça do século.
Designadamente pelas alegadas interpretações sob o prisma da Bíblia, de Freud, de Jung ou do Existencialismo. Sobretudo deste, segundo o qual há questões com as quais todos temos que lidar, como o significado da vida, a morte, e o lugar de Deus na existência humana.

Talvez tenha sido surpreendente, sim, ler os questionamentos que o articulista e crítico teatral colocava sobre o significado da personagem, uma espécie de deus ex-machina que nunca aparece em cena, Godot.

Perante a espera do misterioso Godot, perguntava-se se seria Deus? A Morte? A oferta de emprego?

Tendo chocado audiências no início da década de 50, inquiria-se se não seria outro o significado, se Godot não era um conceito, uma «espécie de Ocidente», que perante as ruinas da 2ª Guerra Mundial e dos escombros éticos e morais que o nazismo deixara, não seria um retrato moral da humanidade em crise e, aparentemente, sem respostas? Seria hoje a espera do fim da crise, que, como todas as demais grandes crises, incuba uma plêiade de gurus, sacerdotes da economia, da política, com litanias próprias?

Supostamente, a peça apresentava ao mundo ocidental, que este estava estruturado no desconcerto de uma máxima beckettiana: «Não há nada no mundo mais cómico do que a infelicidade», ou mesmo na frase inicial da peça «Nada a fazer», que exprime o começo da desistência da personagem Estragon.

De tudo o que se pode tirar dessa peça teatral chamada «À Espera de Godot», do fôlego inoperante das suas duas personagens principais, de todas as propostas e teorias, passíveis de serem apropriadas pela nossa ética judaico-cristã, católica e protestante, temos muito mais a dúvida de uma procura, que está disfarçada de «espera».

Nesta peça do absurdo, considerada a mais significativa de Samuel Beckett, não se espera, como tudo leva a crer, mas, sim, procura-se.

As personagens procuram conhecer quem é ou o que é esse Godot, o qual esperam, numa repetição dos dias, inúteis e sem sentido ou sem esperança como no trabalho de Sísifo. Uma tarefa que a literatura dita ateísta não descarta e assume como unhope, palavra significativamente utilizada pelo poeta Thomas Hardy, que escreveu um poema (In Tenebris ) sobre a desesperança:

Negra é a noite de enfrentar; / mas a morte não vai desconcertar / aquele que, sem a menor dúvida, / espera na desesperança.


Esperar sem esperança é, na sua essencialidade, esses dois dias consecutivos nos quais um par de homens patéticos afirmam pelas palavras e pela mímica esperar um ausente, que se chama Godot. Do mesmo modo que hoje, a Europa, a América, a Ásia, esperam alguma coisa no meio da Crise Económica e Social.

(Crónica para o Diário de Aveiro)

Saturday, March 07, 2009

Eu pauso


Porque hoje é sábado
eu pauso
e me disponho
para o descanso
sem culpa

amanhã, que é domingo
descansarei nas margens
do rio calmo
na casa do Pai.
(Brissos Lino)

Wednesday, March 04, 2009

Pré-Publicação: Salmo 121 Uma Superabundância

Blockquote

Constatação e dúvida, seriam os dois momentos iniciais deste salmo, se se tratasse apenas de um género composicional, uma criação literária. Mas a superabundância dos elementos que possui, histórico-bíblicos e da poesia hebraica, inspirada, do Saltério, abre-nos algumas janelas sobre uma paisagem de esplendor.

Elevo os meus olhos para os montes:
De onde me virá o socorro?


Porém, enquanto leitores de fé na Bíblia e submissos à mesma, todo o conteúdo do Salmo 121 exclui logo a dúvida, pelas beleza e doçura da presença do Senhor no caminho dos remotos peregrinos. Presença extensível aos cristãos peregrinos da vida de hoje a caminho a Pátria Celestial.
E a razão está no enunciado desse texto poético bíblico, que segundo a ciência da análise e interpretação da obra literária, se chama a anunciação do Eu, no caso bíblico, a anunciação do Eu salvador.

O meu socorro vem do Senhor
Que fez o céu e a terra.

Todos admitimos que é uma «peça lírica»(1) pertencente a um grupo especial dos Salmos, os Cânticos dos Degraus ou de Romagem.
Sabemos, sobretudo, que estes são na estrutura temática canções de celebração ao Senhor e de confiança no Deus de Israel, que acompanhavam os peregrinos na sua romagem à Casa do Senhor, em Jerusalém. Com efeito, são na sua estrutura esquemática uma narrativa cujo discurso é teológico.

O diálogo no Salmo
Ao analisar o seu discurso, temos ao dispor um instrumento chamado dialogia. Estuda o diálogo que existe num texto capaz de dar vida aos argumentos do mesmo. Os criadores desta figura, o dialogismo, Mikail Bakthine e Júlia Kristeva, chamaram a esse recurso a polifonia do texto. A interação de todas as palavras dentro do texto. As diversas vozes que estão no texto do salmo, dão-lhe sentido.

(.../...)