Thursday, September 17, 2009

O lado bíblico da História

A Exposição aos Hebreus tem pouquíssimas marcas do seu tempo, contextualizações e referências contemporâneas(quase todas nos últimos sete versículos) e no entanto tem um capítulo que é uma espécie de sumário do Velho Testamento, uma historiografia da Fé.

Não mostra nome de autor, por evidências internas no texto (5,12-13; 13,23) a garantia de ter sido escrita pelo apóstolo Paulo não é definitiva, nem tão pouco por Pedro (11,7; 13,20), não obstante o que poderia parecer evidente. Também não por Apolo, embora Lutero lançasse por muito tempo hipóteses. Apenas para citar termos empregues que estão na linha de pensamento e expressão, ou referências históricas pessoais daqueles dois apóstolos e autores bíblicos, atentos à estrutura estilística de algumas frases.

Tão-pouco se dirige a alguma igreja territorialmente implantada. Quando se refere a uma, no sentido de assembleia, fá-lo de uma forma universal e, digamos assim, cósmica e espiritual: a universal assembleia dos santos, a paneguris ekklésia.

No entanto, é uma epístola que pode ser designada como historiográfica porque também trata de História, a história do povo hebreu, na perspectiva mosaica, e a referência dos factos da fé dos patriarcas antes da história.

Se o povo judaico tem como livros históricos alguns Livros da Bíblia, logo Sagrados, o cristianismo é uma religião de historiadores, no dizer de um dos fundadores da Escola dos Annales, o historiador francês Marc Bloch, fuzilado em 1944 pela Gestapo.

A História constitui-se por aquele conceito que o seu designado Pai, o grego Heródoto, definiu como tentativa do homem sistematizar o conhecimento das suas acções ao longo do tempo. O que para Heródoto eram sobretudo Pesquisas, e assim as significou. Fossem as acções da intervenção de Deus na humanidade, fossem as dos homens, nas diversas Histórias das civilizações e do Homem.

A intervenção histórica de Deus no mundo, na história dos homens, através da Palavra, dos elementos comunicacionais voz-lógos, está bem reflectida neste prólogo da Epístola:
«Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho.»
Aqui se evidenciam os ecos do passado de uma Lei em confronto com os cânticos alvissareiros do futuro do Evangelho, centrado numa Pessoa, a pessoa divina do Filho.

O que principalmente é feito, é para mostrar como foi importante no passado o sistema Mosaico, que não seria bom ao Cristianismo primitivo na Palestina desprezar, porque do seu valor se sobrevalorizavam as palavras de Jesus Cristo no presente, tornando todo o Evangelho e, digamos, o sistema da Graça melhor, uma palavra especial (adjectivo comparativo, no grego) em toda a epístola, exprimindo a ideia de mais forte e, consequentemente, mais capaz.

Hoje, a Exposição aos Hebreus, apesar do seu anonimato, é lida à luz da Graça divina, como antigamente o foi, por exemplo através dos olhos de alguns dos chamados Pais da Igreja, no período anterior à Patrística. O olhar de Clemente Romano foi um desses, ao escrever a sua epístola não canónica aos Coríntios, tomou de empréstimo frases e inúmeras citações da Carta aos Hebreus.

A História estabelece um diálogo do passado com o presente, a dicotomia do «antigamente» e «últimos dias» reforça o interesse de Deus pela humanidade desde os primórdios do tempo até aos dias da derradeira dispensação, a da Graça, que estamos a viver.

A História desenvolve-se no binómio espaço-tempo, a História Divina traz ao tempo e ao limite do espaço a eternidade, na grande salvação que Jesus Cristo proporcionou aos homens.

A Carta aos Hebreus, numa boa parte de si própria, é essa História da intervenção do Divino no regaço histórico de uma nação, Israel, e de um povo, o judeu, e de uma cultura civilizacional judaico-cristã.
«É na duração da história que se desenrola o grande drama do Pecado e da Redenção, eixo central de toda a meditação cristã» - escreve aquele já referido e incontornável historiador francês.

À história desse grande drama que foi a Queda do Homem, caberia como grandioso e único recurso salvífico, o que a epístola aos Hebreus considera «grande salvação».
«Como escaparemos nós, se não atentarmos para uma tão grande salvação »- proclama o autor da epístola, do ponto de vista do significado (da Teologia) e dos factos( da História). Salvação do pecado e do inferno, é chamada de «grande» porque é grande o Seu Autor.

«O sentido é que não há outro caminho de salvação, e o abandono desta será seguida de destruição. Razão pela qual o apóstolo mostra que este plano foi proclamado em primeiro lugar pelo Senhor mesmo, e depois confirmado por milagres.»
Escreveu estas palavras, em seus comentários o dr. Albert Barnes – que o The New York Times no dia do seu funeral, em 1870, chamou de eminente clérigo – que foi mais o pai do presbiterianismo nos Estados Unidos.

A historicidade da Carta, mormente no cap.11, é argumento que consolida e que sustenta a Fé, como sendo esta o que é, um veículo que conduz à aceitação da Salvação. É, outrossim, um meio para manter acesa a chama da nossa atenção. Para escapar de factos que decorrem da Queda humana, do Pecado e da consequente inimizade com Deus, «como escaparemos?» desse facto da história da humanidade, senão pela reconciliação com Deus, através da Salvação anunciada e concluída pelo Senhor?

Por fim, o próprio versículo-chave que define a Fé (11,1) não será ele um modo de colocar a mesma Fé no caminho da História dos homens, designadamente da história daqueles que crêem, povos ou homens individuais? Não será uma janela que nos transporta a outra dimensão, que questiona a própria História no seu futuro? Não tanto um texto de Meta-História, a História por trás da História, mas o que está adiante de nós na nossa história pela Fé. O que já se alcançou, ainda não alcançando.

Saturday, September 12, 2009

Moleskine: (6) O falso rio?

«Banias», a fonte principal do Rio Jordão. Postal antigo.
Rio Jordão. Um falso rio ?
A metáfora do que começa no Orvalho, na altitude da vida espiritual, e morre da morte do Mar Morto. A vida espiritual do tumulto até ao estiolamento. Muito típico dos pós-avivalismos modernos.
Ou o rio que vive até ao mar?

Wednesday, September 09, 2009

Haiku Bíblicos

HAIKU nº 1 e 2 (Na Transfiguração)

A nuvem desceu-
veio relembrar aos homens
que eram humanos


#

A nuvem desceu
para aliviar os olhos
de olharem o Sol

Monday, September 07, 2009

Moleskine: (5)


Na mesma folha:
¨¨O Apóstolo Paulo nunca se deixou assumir como um produto cultural das opiniões do seu tempo. Pelo contrário, Paulo foi um líder de opinião.
¨¨Soteriologia. Parece-me que há releituras desadequadas desta Doutrina, no que concerne ao pós Salvação: deixar de ter medo de Deus, passar a ter medo do Diabo. (editei no Facebook e motivou uma discussão teológico-filosófica)

Saturday, September 05, 2009

Moleskine: (4) Campanha eleitoral

Entre dois parêntesis, escreve sobre a campanha eleitoral, qualquer campanha eleitoral. Imagina quatro (ou cinco) num estúdio, fechados à volta da mesa, sem janelas, sem grelhas, os quatro. Diz cada um: «O inferno são os outros». ( «Pas besoin de gril: l'enfer, c'est les Autres.»

Thursday, September 03, 2009

Haikus Cristianos

Como uma árvore
o justo tem as raízes
na torrente azul

(Salmo, I, 3)

Publicado in Haikus Cristianos, site de Miguel de Luis Espinosa

Wednesday, September 02, 2009

René Padilla: Mordomia da Criação

«Um dos maiores teólogos da América Latina, na actualidade, René Padilla, também presidente internacional do Tearfund, discorre sobre a crise ambiental, as mudanças climáticas e a mordomia, a propósito da reunião da Rede Miqueias, em Julho passado, no Quénia. Na ocasião foi produzido um importante documento estratégico, a "Declaração sobre Mordomia da Criação e Mudanças Climáticas", de que o Desafio Miqueias fez eco em Portugal.»

Tuesday, September 01, 2009

Poema de um cultor de livros

inédito do poeta, e amigo, Brissos Lino

No pó dos velhos livros
por entre as folhas numeradas
do conhecimento
nas dobras de todas as ciências
e saberes
no miolo das austeras capas de couro
já ninguém consegue encontrar hoje
a Sabedoria
alguém a viu fugir
há muito
voou por uma janela aberta
escapou em direcção às pessoas
de carne e osso.

1/9/09


Monday, August 31, 2009

Moleskine: (3) - "Equívocos denominacionais"


“Todos têm o direito de crer, valorizar e defender pontos de vista estruturantes da sua denominação, e de defender um património histórico, desde que isso não os cegue para a evidência de que o Corpo de Cristo não se esgota nesses estritos limites.” - é, do meu ponto de vista, a síntese de todo o bom e útil artigo do Brissos Lino.

Acrescento: se divulgamos que Cristo é o centro, não no sentido do Cristocentrismo cósmico teilhardiano, mas no de Paulo ( Gálatas, 3,28), então as denominações (apesar das suas legítimas fundamentações históricas) são por natureza periféricas a esse Centro, Cristológico, e podem correr o risco de se perderem em algum buraco negro da órbita. (Nosso comentário no Facebook)

Ler artigo em A Ovelha Perdida

Saturday, August 29, 2009

Moleskine: (2)

Todo o homem tem, queira o não queira, um problema, ou melhor, O problema com Deus.
É do domínio da ontologia, da epistemologia e da teologia. Mas tudo isto, que são ciências humanas, pesquisas, equações para a resolução de O Problema, está aquém de Deus.
Todo o homem ao ter O problema com Deus, resolve-O a seu modo: uns convertem-se através de Cristo; outros, ignoram-no; outros ainda mais trágicos, suicidam-se. Há os que se justificam e escrevem livros: Saramago desde "O Evangelho..." até agora este novo «Caím», revela o que há muito se sabe, que tem um/O problema com Deus. E procurará sempre até à sua morte, justificar-se. Uma coisa é certa: Saramago não é ateu! Nem matou Deus.

Thursday, August 27, 2009

Moleskine: (1)

(Os) Codex Ephrem da Pós-Modernidade ( marca registada!). Os palimpsestos pós-modernos, as rectificações de doutrinas fundamentais, as releituras enviesadas da Bíblia, os Sartres, os Saramagos, etc. Mas também os autores que eu chamo de «culto» evangélicos, que escrevem sempre para Soli Deo Gloria. Prosas do século 20 e 21. Esboço para artigo/ensaio.
Não sei se vou ter paciência e instrumentos para raspar…

Monday, August 24, 2009

Mel: Cantos da memória

Mel, de Tonino Guerra, em dialecto romagnolo e italiano.

CANTO NONO (CANTÈDA NÓV)

Terá chovido durante cem dias e a água infiltrada
pelas raízes das ervas
chegou à biblioteca banhando as palavras santas
guardadas no convento.

Quando tornou o bom tempo,
Sajat-Novà o frade mais jovem
levou os livros todos por uma escada até ao telhado
e abriu-os ao sol para que o ar quente
enxugasse o papel molhado.

Um mês de boa estação passou
e o frade de joelhos no claustro
esperava dos livros um sinal de vida.
Uma manhã finalmente as páginas começaram
a ondular ligeiras no sopro do vento
parecia que tinha chegado um enxame aos telhados
e ele chorava porque os livros falavam.


O Mel, de Tonino Guerra, da Assírio & Alvim, Fevereiro de 2004, Trad.Mário Rui de Oliveira.

Saturday, August 22, 2009

A morte dos outros

Simone de Beauvoir escreveu um romance capital sobre as revoluções, os que mandam à frente os outros e acabam por sofrer da culpa do sangue que os outros derramam. É o Sangue dos Outros.
Ontem na praia Maria Luisa, foi a morte dos outros que aconteceu. Dentro da nossa capacidade de percepção, dentro da nossa redoma de vida, o que conhecemos da Morte é que Ela é sempre a do outro! É nesta perspectiva que sempre A podemos ver: "Não, não foi aqui. Foi em Albufeira." A Morte é sempre em outro lugar.

Isto vem a propósito da crónica que o meu amigo Jacinto Lourenço escreveu no seu blog. Aqui

Friday, August 21, 2009

O Fim da História e o Início dos Institutos Bíblicos

Em Confeitaria Cristã



Desde 1989, fala-se muito do fim da história. Desde que Francis Fukuyama pegou, política e sociologicamente, nos pedaços de cimento e ferros do Muro de Berlim. Já se disse também que a história não merece confiança absoluta, porque quem a escreve são apenas homens.
É nesta perspectiva que me coloco, entre a história dos princípios das Assembleias de Deus, sobretudo no Brasil, o fim dessa mesma história com o surgimento das ditas igrejas neo-pentecostais, e, passe a redundância, a instituição dos Institutos Bíblicos, nem sempre bem aceites pelo pensamento de alguns intervenientes dessa mesma história. Continuar aqui

Monday, August 17, 2009

"Não creia na Bíblia", mas na palavra do Profeta

Justificar completamenteBíblia de Estudo Batalha Espiritual & Vitória Financeira.
Dr. Morris Cerullo

"A Bíblia de Estudo Batalha Espiritual e Vitória Financeira foi projetada para levá-lo a uma nova posição de poder e vitória em todas as áreas da sua vida, embora o foco esteja em duas áreas: a batalha espiritual e a vitória financeira" - publicidade na Internet
«Assim têm surgido as bíblias disto e daquilo, para todos os gostos. Mas não me refiro a edições como a Bíblia da Mulher, Bíblia Teenager, Bíblia do Ministro, Bíblias de Estudo e outras do género, pois normalmente não são mais do que adequações da apresentação (formato, capa, tamanho de letra, destaques, mapas, tabelas, etc.) co m vista a públicos definidos.
Refiro-me a uma outra coisa, que se reveste de contornos de gravidade, e que entra no campo da manipulação e do abuso da boa fé das pessoas, tendo em conta a sua ignorância. Um dos últimos exemplos disto é a Bíblia da “Batalha espiritual e vitória financeira”, recheada de comentários altamente controversos (para não dizer pior) de Morris Cerullo, cuja propaganda afirma “Creia na palavra do Profeta de Deus”. Assim mesmo. O importante já não é crer na Palavra de Deus, mas na palavra de um homem que se intitula “Profeta de Deus” (com P maiúsculo, sim!). A Palavra de Deus foi substituída pela palavra do homem!…» Ler Aqui

Thursday, August 13, 2009

Jesus Bar-Abbâ

Tinha um rosto que já não temia nada, mesmo existindo poucas pessoas com vontade e heroísmo suficientes para lhe bater.
O seu corpo como um aríete talhado em rija madeira das acácias do Sinai, a sua tez escurecida tanto pelo sol do deserto como pelos luares, quando se escondia nas dobras da noite entre pedras nas estrada de Jericó para Jerusalém, os suas mãos que se meteram pela morte dentro, que a tratavam por tu, dissuadiriam qualquer afoito.

Até a sua voz, cava das profundidades dos pulmões, com o próprio som grave do seu nome. Apesar de induzir laços familiares, pois significava o «filho do pai». Era um nome que se impunha.

Por isso, mais uma sedição, menos uma, a sua reputação estava já estabelecida.
Exercia o terrorismo como uma linguagem de ferro para penetrar na cabeça do império romano, na dureza dos cérebros sob os capacetes dos legionários que ocupavam a Judeia.

Há muitos séculos, um pouco mais de mil- diziam os Livros-, houve os filisteus, mas bastaria um dos cinco seixos polidos e a funda de um pastor; agora eram os romanos, porém todos se acomodaram às armaduras de Roma.

Por tudo, mesmo na prisão, era um rosto que nada tinha a temer. Nem o seu nome temia mais impropérios do que aqueles que se ciciavam no medo, o seu nome não era próprio, era, a bem dizer, um título.
Filho fosse de quem fosse, seria uma pedra no sapato do equilíbrio que Sinédrio e a fortaleza Antónia queriam aparentemente manter.

E nesse meio-dia de sol encravado na aspereza da terra da Palestina, o desequilíbrio estava instalado, o balanço pendia para os lados da injustiça.

-É sempre assim na festa, uma substituição deveria ser o nome da Pessach(Páscoa judaica) - dizia um preso que, à parte o seu aspecto de rosto, corpo e roupas já no fio, parecia ter um pensamento próprio sobre certas coisas.

A troca, a substituição, era isso que se propunha à sanha da multidão acéfala e aos representantes da religião. Um inocente por um culpado.
Não parece que ao longo dos mais de vinte séculos que nos separam desse evento, do ponto de vista da justiça humana, as coisas tenham mudado muito.
Crónica para o Diário de Aveiro

Por que não sou neopentecostal

Aqui

«O neopentecostalismo é uma praga, uma verdadeira pandemia surgida nos meios cristãos, que tem arrastado multidões, enganadas e manipuladas por falsas promessas e doutrinas heréticas. Tem semelhança com o Cristianismo mas nega a sua essência. Essas auto-denominadas igrejas nãopassam de seitas neo-pagãs, de fachada cristã.»

Texto que adianta razões simples, da alma e da razão, da autoria do Pr.Brissos Lino.

Monday, August 10, 2009

O drama de um mito

Há 47 anos, em 5 de Agosto de 1962. Li nos jornais, na Costa da Caparica.

Marilyn Monroe

"made your lips more real with lipstick"
Allen Ginsberg

Tornas os teus lábios mais reais
Com baton, os teus lábios
Vermelhos
Engolem uma plateia
Cheia de olhos.

16/1/2008

Wednesday, August 05, 2009

A religião do socioeconómico

Por muito que procurem evidenciar o contrário na estrutura religiosa e popular do seu discurso, existem hoje «igrejas» que ao designarem-se como centros de ajuda espiritual, querem governar Deus. -«Vamos buscar esse Deus- proclamam-, preparem o copo de água».
Nos seus conceitos ditos cristãos, nem Deus, nem Jesus Cristo estão no centro da Revelação, a importância revelacional vai toda para o que é socioeconómico, para não falar de ícones periféricos ( isto é, copos de água, fogueiras santas, monte de Sinai, cruz de fogo, etc.), como transferências do profano para o sagrado ou a necessidade de uma presença «sagrada» visível e palpável, no dizer de Roger Caillois.

O que se tenta fazer, numa homilética manipuladora de massas normalmente carentes, umas, e outras ambiciosas, é a compatibilização do incompatível, teologia e ciência económica, cristianismo e mercado, espírito e matéria, Deus e Mamom.

Alguns desses líderes da ajuda espiritual contribuem, irreflectida e inconscientemente, para o pensamento do século XIX, de Ludwig Feuerbach, segundo o qual todos os conceitos de Deus são invenções humanas, sejam eles cristãos ou não, e se projectam das esperanças ou dos temores humanos.

O homem após ter-se perdido de Deus, «reencontrou-se» em si próprio, é o resultado em palavras simples a que a crítica religiosa de Feuerbach chega. O homem convencido da sua incapacidade de realizar, pelos próprios meios, a verdade, o bem, o amor, projecta esses atributos humanos para fora de si e cria um ser superior a que chama Deus. Assim, conclui o filósofo, esse Deus prejudica a boa vontade do homem.

Entre outras incursões, Feuerbach levou seu pensamento para o materialismo. E com este foi levado à crítica religiosa, e no entanto escreveu a sua obra máxima que foi A Essência do Cristianismo. Mas atenção, como se sabe, esta obra é uma crítica ao Cristianismo, com ela conseguiu fazer que Marx reformulasse o seu idealismo hegeliano e se mudasse para o trono do materialismo. A tal ponto que Engels, o amigo de Marx, saudou assim esse novo materialismo: «fora da natureza e dos homens nada há, e os seres superiores criados pela nossa imaginação religiosa não são mais do que o reflexo fantástico do nosso próprio ser.»
Esta essência do cristianismo não propunha Cristo nem uma teologia, propunha uma antropologia e o Homem no lugar da divindade. O ser humano projectando Deus.

Mesmo agora, uma ideia de Deus começa a tomar forma em vocábulos como «triunfar», «alcançar objectivos», «projectos» e «fé», como palavra mágica. Estes termos fazem parte do discurso, numa dicção suavemente carregada de sotaque das Américas. E pretendem que o Senhor fique às ordens de bispos, pastores, obreiros, que o tratam no mesmo tom de voz, como um Deus que se demove por dicções de pseudo-psicologistas, pelas palavras com lágrimas dentro, e não no sacrossanto Nome do Seu Filho Jesus Cristo.

Salvaguardadas as devidas proporções, porque longe de mim guindar tais centros religiosos à categoria de dotados intelectualmente, existem no entanto auto-designadas «igrejas» que logram criar um deus governável pelos líderes, um deus a quem se manda fazer, determinando já o homem a vitória.
Tais «organizações», evito agora chamar-lhes igrejas, parece que pretendem notabilizar a ideia filosófica segundo a qual Deus é a projecção exterior dos desejos do homem, não já como Feuerbach defendia, do desejo de perfeição do homem, mas de algo que o hedonismo económico e o anseio de prosperidade trouxeram nos últimos 30 anos do século XX, acentuando-se neste início do XXI de uma forma pouco normal.

Tuesday, August 04, 2009

apócrifo

para os companheiros j.t. parreira e brissos lino, com respeito

além da ambição de construir e espalhar prédios cada vez mais altos, fulano de tal gastou os anos tentando demolir o mito chamado jesus. estava às vésperas dos 90 anos e não tinha certeza de atingir seus objetivos, apesar da fortuna acumulada, das concorridas conferências mundo afora, dos artigos disputados pela imprensa. apesar, suspirou com um débil sorriso, contemplando o resultado de um trabalho que consumiu seus últimos 20 anos: estava em sua graphica - carinho com que distinguia sua tipografia -, e dava os últimos retoques na capa em couro de um evangelho apócrifo, em hebraico. de repente, não sabia se houve uma queda de energia ou sua visão falhara. mas o coração rugindo/miando/rugindo/miando no peito deu-lhe a certeza: estava morrendo. teve apenas o tempo de murmurarar um débil "jesus!".

samuca santos

Publicado no Recanto das Letras em 03/08/2009

Monday, August 03, 2009

A Visita

Trazia o corpo
arrastado nos sapatos
gastos, com uma história
de buracos negros sucessivos

Os seus silêncios
eram de incenso, o cheiro divino
do lume
e as suas mãos tinham dedos infrangíveis
para tocar as notas da chuva
que bate nos vidros

Trazia os olhos naturais
neles não havia fundo, vogavam
apenas como se espalhassem um perfume.

9/2/2009

Friday, July 31, 2009

Sibila - Revista de Poesia e Cultura


A poesia e o ensaio de um autor evangélico, no mundo da cultura dita secular. Em S.Paulo.
Um ensaio sobre a X de Álvaro de Campos e Mário de Andrade e 6 poemas Aqui.

Thursday, July 30, 2009

Pausa! Feridos em nome de Deus?

Da minha amiga jornalista Ana Ramalho:
Estou a ler um livro que está a gerar muita polémica no Brasil... trata da questão do "abuso espiritual", isto é, da manipulação e controlo "em nome de Deus".O título da Mundo Cristão é sugestivo "Feridos em nome de Deus"... a autora é Marília de Camargo César, uma jornalista brasileira, cujo excelente currículo se revê no modo claro e certeiro como escreve.
A realidade brasileira talvez seja mais diversificada e numericamente mais relevante que a portuguesa... mas o ser humano é igual... em todas as épocas, em todos os cantos do mundo. A ânsia por poder e domínio está-nos cravada na nossa velha natureza, pronta a ser estimulada e a crescer, se não for controlada pelo Espírito de Deus em nós.Pessoalmente, esta leitura está a fazer "desenterrar" muitos fantasmas. Está a fazer vir à tona muitos episódios... e fez-me pensar seriamente se alguma vez irei conseguir desconstruir e arrumar plenamente a influência de um pensamento controlador e fechado, que impede a graça de Deus de ser visível através da operação interior do Seu Espírito na minha vida, e na vidas daqueles que me rodeiam.

Continuar Aqui

Sunday, July 26, 2009

Poema do Pão

Pan,
com harina,
agua
y fuego
te levantas.

Pablo Neruda


Um pão redondo
sua tarefa
foi iluminar a mesa
conjugar grão e labareda
dar um objecto à luz dos olhos
ventre prenhe da terra
oração de cada dia
nos lábios de Deus

Quantos o trouxeram para o centro
da nossa luta
de classes?

Quem transformou o pão
em nosso inimigo?

Um pão redondo
com gotas de sal.

25/7/2009


Friday, July 24, 2009

A insustentável leveza da culpa

"Os Nossos Elfos", ou ter a quem apontar o dedo, inteligente e oportuno texto AQUI

Wednesday, July 22, 2009

Filmes: Gran Torino (1972)

Moral: já não se fazem vizinhos assim


&&&&&&&&&
A Velha Tatuagem, poema de Brissos Lino, Aqui

Friday, July 17, 2009

Antologia de Poesia Evangélica


Nova Antologia da Poesia Evangélica, aqui, coordenada por Sammis Reachers.


"Amados irmãos e leitores, é com imenso prazer que trago até vocês mais uma antologia poética. ÁGUAS VIVAS é um e-book gratuito, uma antologia reunindo textos de 10 poetas evangélicos contemporâneos, apresentando autores relativamente pouco conhecidos ao lado de outros já consagrados, como o Pr. Israel Belo de Azevedo, Pr. Josué Ebenézer e o Prof. Noélio Duarte, membros Academia Evangélica de Letras do Brasil (AELB), e o bardo português João Tomaz Parreira, entre outros."

Monday, July 13, 2009

Anatomia da Angústia no «Grito» de Munch

O quadro de Munch não é uma história gráfica da angústia à maneira de Franz Kafka, mas uma coisa leva a outra.
Josef K. no romance O Processo poderia gritar assim. Ou qualquer outra realidade angustiante dos dias de hoje- a crise no meio da ponte-, poderia fazer exprimir assim a ansiedade e a angústia.
Por exemplo, um elevador detém-se automaticamente com um solavanco. As portas deslizam e abrem-se, mas em vez da saída, o passageiro enfrenta apenas uma parede em branco. Seus dedos apunhalam os botões: nada acontece. Finalmente, ele aperta o sinal de alarme. Uma voz brusca, ouve-se: "Qual é o problema?"
O passageiro, com a sua voz dentro de uma caixa de ossos e adrenalina, explica que quer sair no 25º andar.
"Não há 25º andar neste prédio", diz a voz do altifalante. O passageiro argumenta que é um absurdo, ele trabalha aqui há anos. Ele diz o seu nome. "Nunca ouvi falar de você", diz o altifalante.
"Isto não me está a acontecer", murmura ele. "Eles estão apenas a tentar assustar-me." A situação agora torna-se uma situação de angústia.

Durante séculos de civilização cristã (e não cristã), o homem assumiu a sua culpa e daí a ansiedade, ambas fazem parte da sua natureza, como um ser finito e caído dão-lhe a dimensão da culpa.
Os remédios foram e continuam a ser apenas a Graça e a Fé. Quando a Idade da Razão, como suposta primavera pretendeu vir revogar o outono da Queda, o impulso do homem foi voltar a si próprio com uma falsa segurança, e, por um tempo, essa Razão parecia ser um substituto adequado para as certezas da Fé.

O homem colocava-se na posição que Dostoesvsky no seu romance «Os Possessos», faz dizer à personagem Alexis Kirilov: «Se não houver Deus, então eu sou deus.»
Mas não é, daí a angústia, porque na anatomia do homem há um buraco que é a forma do grito.
Para o existencialista, o grito do homem provém do alegado silêncio de Deus. Kierkegaard, que foi um existencialista cristão, contrapunha que era preciso saber distinguir a voz divina, como Abraão o fez, porque Deus fala.

O silêncio que parece rodear os ouvidos do homem, do qual presume que está no nada caótico do princípio da Criação, ou pior, que Deus está ausente, não é assim um drama – é nesse silêncio que melhor se escuta a Voz do Divino. É o ambiente melhor e mais adequado para se fazer distinguir a Voz original dos ecos, como diria o poeta espanhol Antonio Machado. ( A distinguir me paro las voces de los ecos, / y escucho solamente, entre las voces, una.)

O pensador Miguel de Unamuno, ao pensar também sobre este tema, tem um capítulo (En el fondo del abismo) no seu livro fundamental ao pensamento religioso e filosófico ocidental, «Del sentimiento trágico de la vida», em que a dado passo afirma: «Por desesperação se afirma, por desesperação se nega, e por ela se abstém alguém de afirmar e de negar.
Observai os nossos ateus, e vereis que o são por raiva, por raiva de não poder crer que haja Deus. São inimigos pessoais de Deus. Têm substantivado e personalizado o Nada, e seu não-Deus é um anti-Deus.»
E escreve também sobre o anelo vital de imortalidade do ser humano, ora este anelo vital não existe sem Deus e sem que a Sua voz, mesmo através de canais da natureza, como o nosso semelhante, o bébé que chora como um primeiro sinal de mais uma voz no mundo, o universo regulado pela imensa Mão, se faça ouvir no mais recôndito silêncio da nossa alma. E assim da Sua Voz no Mundo por Ele criado podemos passar à Sua Palavra.
É o reconhecimento da voz querida que nos leva a anelar as suas palavras, o seu verbo no esconderijo da nossa capacidade da amar, que só a centelha do Espírito divino dispôs em cada um de nós.

Aveiro, 12-7-2009
Extraído do Portal Evangélico

Friday, July 10, 2009

Da Pequena Sala em Aradas

DA PEQUENA SALA EM ARADAS*


ASSEMBLEIA DE DEUS EM AVEIRO, 50º ANIVERSÁRIO
1959-2009

João Tomaz Parreira

“Numa localidade chamada Aradas, apareceu uma pequena sala e ali foram feitas as primeiras reuniões”, escreveria em notas manuscritas para a sua família, quase cinquenta anos depois no seu derradeiro ano de vida, em 2007, a cristã Adriana Pereira, viúva do fundador do trabalho da Assembleia de Deus em Aveiro.

Partindo do locus histórico que foi essa pequena sala, estrutura-se este pequeno livro. O mesmo não abordará toda a extensão da história destes 50 anos de existência da Assembleia de Deus em Aveiro, para esse desiderato existe já o livro «40 Anos Assembleia de Deus Aveiro», editado em 1999, e que reproduz todo o percurso, pastorado a pastorado, do que aconteceu em termos históricos na nossa comunidade assembleiana.

Tal livro teve todas as virtualidades, desde logo a de 40 anos objectiva e realmente transcorridos, e também fotografias que guardaram para a posteridade membros e oficiais do Ministério da igreja que já descansam com o Senhor.

Este pequeno livro agora, ao cabo de meio século, pretende ser apenas uma história não de 50 anos, mas como estes se iniciaram na nossa história desde 1959.

*Pequeno livro em preparo, para ser apresentado em Outubro.


Thursday, July 02, 2009

A Visitação

Chegas todos os dias na prata
do ar, por tua causa os jardins
movimentam-se de abelhas
o estame das flores
vai tecer raízes em novos lugares

Chegas e fazes saltar os pássaros
das linhas da noite
És poderoso e todavia
mesmo a mão de uma criança
te fecha

As transparências são a tua água
navegável ainda pelo mais fundo
a que os olhos chegam
Chegas todas as manhãs e fecundas
na palidez dos frutos a tua cor
E cada fruto acorda sem precisar de espelhos

Chegas e endireitas o arco
das nossas costas e a nossa alma
foge para ti

Saturday, June 27, 2009

Expressionismo, profecia da barbárie do séc.XX

Emil Nolde, Metrópole


«Quando Gregor Samsa acordou uma manhã, depois de um sonho agitado, achou-se transformado num gigantesco insecto.» ( para começar com um parágrafo definitivo de Kafka), foi o início de um pesadelo que representa uma alegoria. O escritor checo usou-a na novela A Metamorfose (1912) para explicar o absurdo da humanidade tão cheia de lógica, a dar os seus primeiros passos no idealismo do super-homem para as filosofias existenciais, mas que vê-se repentinamente transformada em qualquer coisa de mal, nos acontecimentos mundiais que a história europeia conhece desse tempo.

Nas primeiras duas décadas do Século XX, a angústia, a inquietude e a morbidez apoderaram-se da humanidade. E foi o Expressionismo Alemão que revelou esse estado de espírito, «profetizando» o mal que se iria abater sobre a Europa em particular e o Mundo de um modo geral.
Nas artes plásticas, como reacção à fase derradeira do Impressionismo (chamaram-lhe pós-Impressionismo), ergue-se na Alemanha uma ponte (Die Brucke) que liga aquele às novas correntes estéticas, mas que ao atingir o outro lado dessa ponte - o Expressionismo- corta quaisquer veleidades de um regresso. O novo movimento seria a arte do instinto, substituiria a impressão do momento causada de fora pelo sentimento nascido no interior, expressando-se patética, trágica e sombriamente, com uma técnica violenta.
Os quadros que foram sendo criados revelavam, na crueza das cores vibrantes e resplandecentes, nas deformidades das figuras, nos desequilíbrios da época, que estavam a preparar-se as hecatombes das primeiras décadas de um século de barbárie, o caos generalizado na economia das nações e nos povos das pátrias.
A tela mais impressionante que antecipava esse período, pela angústia que demonstra, é, sem dúvida, O Grito (1906) do norueguês Edvard Munch. A violência profética do que haveria de ser o grito lancinante da Europa dos guetos e dos campos de concentração e extermínio nazis, dos bombardeamentos em massa, e - não o esqueçamos- dos Gulag estalinistas. Sobretudo, impossível de englobar em um só grito e de olvidar pela História, o trágico Holocausto, que aplicou a dizimação de milhões de judeus da Europa e explorou antes sua mão-de-obra escrava. O trabalho forçado que, financeira e capitalisticamente, rendeu ao Estado Nazi, só do campo de concentração de Buchenwald, durante Março de 1944 - faz agora 60 anos-, 3.465.745,85 de reichsmark.
Mas, de um ponto de vista profético, o Expressionismo influenciou muito mais a poesia. Como sinal dessa identificação, havia sobretudo a crueza do verso, do verso militante que não procurava sustentar-se no lirismo, mas no descarnamento da realidade, uma poesia até ao osso.
Como nas obras de arte, o aspecto da deformação da realidade e a angústia existêncial do homem moderno estão patentes na poesia expressionista.
Poetas como Gottfried Benn, August Stramm, Georg Trakl, e uma poetisa Else Lasker-Schuler, para só citar os mais conhecidos, descreveram o caos de uma forma nua e crua, as palavras carregaram-se de angústia e no lugar das emoções expressaram as tensões e os tumultos da alma humana. Foram, de certa maneira, como alguém lhes chamou, «os poetas do grotesco».
Mas um dos poemas ardentemente radicais e proféticos, extravassando o desespero perante os indícios da realidade, que viria a chamar-se barbárie, veio de um poeta não tão notável quanto aqueles; Albert Ehrenstein -« Conservadas pelo frio, amontoam-se à volta do charco,\ Do lago do mundo dos mortos, \ As torres de cadáveres.». Nestes versos, o campo semântico remete para a guerra e prepara com a metáfora da mitografia da Barca de Caronte (o barco que transporta os mortos), o ambiente da catástrofe que seria a II Guerra Mundial e todo o horror dos campos de extermínio nazi. Este mesmo poeta descreveria, porventura sem nenhuma ligação ao quadro de Munch, o grito do Homem em versos como «Nós, os amordaçados, estamos envolvidos \ Por demónios, e brutalmente oprimidos», dum poema intitulado «Grito humano».
Todavia os grandes poetas desse movimento chamado Expressionismo, fariam associações mais grotescas da realidade com a metáfora, abrindo o tom lírico do verso à sensação selvagem, para que o verso sangrasse e provocasse até à dor.
Um excerto de um poema premonitório, «Berlim», pobre de metáforas, mas tão irónico como só Gottfried Been poderia escrever, é exemplar: «Quando arcos, pontes, erguidos,\ forem da estepe engolidos \ e o burgo areia escura \ e as casas desabitadas \ e as hordas e as armadas \ pisem nossa sepultura... \ hão-de as ruinas falar \ da grandeza do Ocidente ».
O futuro iria reservar à Europa uma reacção nova sobre a morte, a banalização da mesma. E assim o mesmo poeta, com uma morbidez irónica, anteciparia o que as SS e a Gestapo fariam perante a morte dos outros, ironizariam e comparariam seres humanos com piolhos. Um breve excerto do poema «Bela Infância» bastará: « A boca de uma rapariga que passara muito tempo no canavial estava tão roída.\ Quando lhe abriram o peito, o esófago estava todo esburacado \ Finalmente...\ encontrou-se um ninho de ratinhos. \ (...) \ Mas depressa tiveram também uma bela morte: \ Deitaram-nos todos à água. \ Ah, como os pequenos focinhos chiavam.»
O chamado «apocalipse alegre » da Europa de Strauss e Wagner, de Goethe e Heidegger, da primeira década, e da segunda e depois da terceira, foi vaticinado por outros poetas, como Georg Trakl, que não assistiu à «revelação» dos seus poemas sobre o desvario niilista do mundo, a hecatombe e a morte ( cometeria suicídio em 1914). «Vi-me num sonho de estrelas caindo,\ De preces chorosas num olhar ferido, \ De um sorriso que vinha ecoando - \ Mas não sabia entender-lhe o sentido. » Ou «Vi cidades pelo fogo consumidas \ E o cortejo de horrores pelo tempo fora, \ E muitos povos a pó ser reduzidos, \ Perder-se tudo nos fundos da memória » (do poema «Três sonhos»).
Tremendo entre estrelas e violinos, a nossa Europa das primeiras quatros décadas, foi-se afundando numa noite escura, que só o Julgamento de Nuremberga procurou, apenas com êxito judiciário, explicar.

Tuesday, June 23, 2009

As ovelhas ofendidas

"Não sou ingénuo ao ponto de acreditar que a transformação do celibato obrigatório em facultativo, defendido já por muitas vozes altamente qualificadas da igreja romana, seja o suficiente para resolver este tipo de problemas. Mas que ajudaria muito não tenhamos dúvidas. E sobretudo possibilitar-se-ia aos sacerdotes católicos a hipótese de viverem a sua humanidade de forma muito mais livre, autêntica e coerente.
Afinal, Jesus Cristo nunca fez voto celibatário nem o exigiu aos seus discípulos."

-Afirma AQUI o dr.Brissos Lino, no Setúbal na Rede

Sunday, June 21, 2009

Crianças que olham os dragões


Meninos do Saurimo. Foto tirada pelo autor em Angola, em 1969, na Guerra Colonial.

Como as crianças que olham os dragões
os meus olhos ainda se espantam
quando as nuvens passam
num retrato de família as cores umas às outras
e são algodão
doce e carrosséis

como as crianças que olham para os dragões
ainda me surpreendo com nenúfares
que põem a mesa
nos rios

Como as crianças que olham
os dragões, os meus olhos
prendem-se aos gestos
das netas e dos netos, e o tenso coração
é uma sombra do que foi
até isso me admira
por causa das Tuas maravilhas.

Monday, June 15, 2009

A Fé (e não só Poesia) Depois de Auschwitz (II)

Implicações Teológicas
A chamada «nova História de Israel» (4) na sua essência e exposição não só evidencia a falta de Fé nas Escrituras, como parece desvirtuar a história do Holocausto. Os novos historiadores israelitas afirmam «reconhecer» que os judeus expoliaram os palestinianos da terra destes e que a Shoah diz antes que Israel abandonou as vítimas do extermínio nazi para usar os sobreviventes «como arma política para construir um Estado». Todavia o profeta Zacarias realiza nas suas palavras declarativas, da parte de Deus, uma visão de um Israel e de uma Jerusalém atractivos de todos os povos, os quais «pegarão, sim, na orla da veste de um judeu, e lhe dirão: Iremos convosco, porque temos ouvido que Deus está convosco» (Zc 8,23) Na obstante a centralidade de Israel nos planos divinos, na dispensação milenial, o «pathos» teológico que recaiu e impende ainda sobre o povo judeu está, sem dúvida, nas suas próprias palavras pronunciadas uma tarde, na emotividade inapropriada da voz popular: «Caia sobre nós o seu sangue( de Cristo), e sobre nossos filhos!» (Mt 27,25) E estas figuras simbólicas judaicas têm o peso eterno que têm e a que se não pode fugir.

Não à Poesia depois de Auschwitz
O que possa representar um impedimento psicológico ao trabalho estético de escrever um poema, de uma forma geral o que possa ser um entrave à Literatura, os acontecimentos terríveis que tiveram lugar em Auschwitz, foi sem dúvida o célebre pronunciamento de Theodor W. Adorno que o gerou. Ele afirmou que “escrever um poema após Auschwitz é um acto bárbaro, e isso corrói até mesmo o conhecimento de porque se tornou impossível escrever poemas.” ( 5 ) O genocídio dos milhões de judeus em Auschwitz, segundo Adorno, corrompeu a humanidade, podendo até detectar-se na sua frase que é terrível também outra coisa - o esquecimento – se este ocorrer- da razão pela qual a Poesia «ficou» interdita. É óbvio que não se pode ir tão longe nesta espécie de pessimismo nihilista quanto ao lugar da Arte Poética no Século XX após-campos de extermínio nazi e neste Século XXI. Em defesa da Poesia após-Auschwitz, quer dizer como arte profunda também da memória, a poética servirá como a arte de não esquecer o Holocausto. Uma relação dramática com esta triste catástrofe ( que o hebraico chama Shoah), está justamente na grande poesia de Paul Celan, filho de judeus-alemães exterminados naquele Campo de Morte, no poema Fuga da Morte, onde se lê estes pungentes versos: E grita toquem mais doce a música da morte a morte é um mestre que veio da Alemanha grita arraquem tons mais escuros dos violinos depois feitos fumos subireis aos céus e tereis um túmulo nas nuvens aí não ficamos apertados.(6 ) Celan sabia disso, assim como a grande poeta Nobel da Literatura Nelly Sachs, também judia, que escreveu em 1946 estes versos carregados de um pathos comovedor : Oh as chaminés sobre as moradas da morte engenhosamente inventadas, quando o corpo de Israel desfeito em fumo partiu pelo ar – como limpa-chaminés uma estrela o recebeu. (7) Primo Levi, outro grandíssimo poeta judeu italiano, perguntava no seu hebraico Shemà, Considerate se questo è un uomo Considerate se questa è una donna Senza capelli e senza nome (8). Este poeta a par do filósofo Adorno foi dos escritores mais pessimistas e sem esperança no homem, no que concerne à memória do extermínio nazi, pois escreveu no início do poema A Estrela Negra «Nenhum canto mais de amor nem de guerra.» A memória do Holocausto, do extermínio de 6 milhões de judeus na década de 40, continuará a caminhar descalça, silenciosa mas ininterruptamente, sem sapatos, sem a areia do Sinai, que foi espalhada quando tiveram que se erguer nus perante a morte.

(1)-Arte e Mito, Livros do Brasil, pág.76; (2)-Introdução à História, Europa-America, págs.31/2; (3)- Clássicos Sá da Costa, António Sérgio, págs.98; (4)- Courier Internacional, nº160, 6/2009, págs. 72-84; (5)-Minima Memoralia, Ática,S.Paulo, pág.26; (6)-Sete rosas mais tarde, Cotovia, trad.J.Barrento, pág.17; (7)- Poemas de Nelly Sachs, Portugália, trad.P.Quintela, pág.6; (8)-Antologia della poesia italiana, Tomo Secondo, Tascabili, págs.872/881.

Saturday, June 13, 2009

2 Haiku


1.
Moinhos no céu.
Um Quixote vai partindo
com o vento as nuvens.




2.
A Serra da Estrela
no inverno dorme cedo
sob alvo lençol.




Friday, June 12, 2009

A Fé (e não só a Poesia ) depois de Auschwitz


O regresso judaico do cativeiro da Babilónia, para uma discussão meramente académica de historiadores, foi um evento apenas da sociologia e da política dos antigos impérios, ou quando muito a inclusão desse evento na história relegaria a profecia para plano secundário.

Mas o primeiro retorno a Jerusalém, a partir do acto benévolo de Ciro, foi a materialização da Fé. A consumação do fundamento e prova da fé nas profecia de Ezequiel e Daniel.

Contrariamente ao pensamento hegeliano, eventos cruciais da História do Mundo originaram-se também no cumprimento explícito de profecias conhecidas nas Sagradas Escrituras.
É um facto mais que óbvio a presença de Deus na História. Há mais de trinta anos sublinhei, em Arte e Mito, do prof. Ernesto Grassi, uma verdade que «Deus se manifesta no tempo e empresta à história localizada uma significação eterna» (1 ). E aí está a História do Judaismo, a partir do VT, para o confirmar.

Se esse regresso não tivesse ocorrido, não haveria História Judaica, nem teriam ocorrido as histórias de Cristãos e Árabes, e quem esta tese defende é o filósofo e rabi judeu Emil Fackenheim(1916-2003).

Esse autor explorou os novos horizontes que vieram abrir a relação entre o Holocausto, da primeira metade do século XX, e a Teologia judaica com milénios de existência, não apenas submetendo-a ao juízo do conjunto de Ideias filosóficas, mas também ao escrutínio da Profecia bíblica.
A História também deu o seu contributo, como se compreende, inestimável e incontornável. Os actos da humanidade realizam-se no terreno da contingência histórica e têm inevitavelmente uma narrativa.

A historicidade narrada no VT
Não é apenas a Fé que conclama sobre a história de Israel, sobre o povo judeu de um modo específico, a realidade também. Esta prova que a Fé teve razão, do ponto de vista dos eventos.
Fé e realidade, no âmbito da História. A Fé confirma-se como base do facto profético, a realidade como consequência do cumprimento desse facto.

A primeira deportação para a Babilónia sob o reinado de Nabucodonosor, teve a importância da profecia, infelizmente para os judeus, e teve a importância da própria «visita» do rei babilónico no acto da invasão, o que se reveste da valia da cidade santa independentemente de valorações religiosas. Foi um acto político e social, não um acto meramente tirânico, e tem nos Livros Sagrados de Reis e Crónicas a sua narratividade apropriada.
Esta, porém, assentou também na essência dos factos cometidos pelos próprios judeus, no que concerne ao seu desprezo pelas Palavras de Deus ( II Cr 36,14-16), na forma de «transgressões e abominações» para com o Senhor.

A história profética, portanto, cumpriu-se tanto no cativeiro como na libertação deste. Sabe-se, pela Bíblia e pela História Universal, que a proclamação de Ciro foi o passo fundamental para o regresso de Judá (II Cr 36,22-23). Passo não apenas para consolidar politicamente uma nação e restituí-la ao seu locus original, mas sobretudo para a consolidação do Culto ao Senhor, Deus dos Céus – como proclamou Ciro.
A obsessão das origens, que a tribo dos historiadores possui – como afirma Marc Bloch (2)-, porque precisam vitalmente dos «começos», deveria, no entanto, levar o homem contemporâneo a considerar o Cristianismo como uma religião histórica e Israel com uma História originada e estruturada nos Livros Sagrados.
Os judeus devem a Deus e à História. Compreenderão assim todas as suas vicissitudes e experiências e malogros, genocídios e perseguições, de que a sua História se formou.
A nossa História Próxima com os Judeus
António Sérgio, na sua obra «Breve Interpretação da História de Portugal»(3 ), refere, em particular, a relação dos portugueses com os judeus.
A obsessão pelos hábitos tradicionais de um tratamento repressivo dos judeus não fugiu à regra em Portugal. A figura do judeu era recriada pelo mito em que tudo se misturava, religião, sociedade, economia, ignorância teológica. Mas acima de tudo o interesse económico-financeiro dos «Gentios».
«A situação próspera do Judeu excitava a inveja, o despeito, a cobiça dos Cristãos.»- escreve Sérgio. Com honestidade, tem que se dizer que o Judeu dava às vezes razões de queixa, com procedimentos menos simpáticos. A usura, o açambarcamento de alimentos para alterar o preço de comercialização, diz-se até que ao ponto de promover fomes, são aspectos que a nossa história consigna e que autores como Herculano e Sérgio registam, apenas como factos. «A inimizade anárquica do vulgo»- como considera António Sérgio- terá levado inclusivamente D.João III a insistir com o papado o estabelecimento do Santo Ofício em Portugal, a fim de sustentar pela legalidade o que não era mais que anti-semitismo.
(Continua amanhã...)

Friday, June 05, 2009

Voo 447

Voaram do grande radar dos céus
para os abismos cinzentos
dos corações.
Montavam sobre cavalos de energia,
sob as asas
monólitos de fogo.
Por um momento ainda os risos
das crianças, as blusas e as camisas
coloriram os assentos azuis.
Depois, as almas iriam partir
no sono, filtrar a luz dos sonhos,
iriam acordar para a forma
incandescente do sol,
voavam
sob olhos da noite mas para milhões
de outros olhos de prata
no território de morte e água.

Thursday, June 04, 2009

"Um Relato Literário no Sacrifício de Isaque"

O jornalista e cineasta Rodrigo C.Vargas, de Fortaleza, Brasil, publicou AQUI, no seu blog O Vertical, o artigo Um Relato Literário no Sacrifício de Isaque.

Monday, June 01, 2009

"A Fé (e não só a Poesia) depois de Auschwitz"


AQUI, no Portal da Aliança Evangélica.
História, Profecia e Poesia mantendo e confortando a memória, pela Fé e pela Estética, pela poiesis e pela techne.

Friday, May 29, 2009

"Sófocles ou o Equívoco do Destino"


"Sófocles ou o Equívoco do Destino", editado AQUI em Junho de 2006, o Comentário do meu amigo prof. Rui Miguel Duarte, do Blog Novas Criações, que edito pelas lições que contém:

Feliz reflexão, João Tomaz, sobre como os nossos Helenos olhavam a condição humana e o se confronto com a mensagem do Deus vivo e verdadeiro.Em Eurípides, é ainda mais forte esse entendimento. Como escreves, "Os seres humanos da maior parte das tragédias dos autores atenienses do Século V a.C, não poderiam renunciar a nada que estivesse lavrado nos autos do predeterminismo.", mas precisamente neste autor somos quase induzidos a odiar os deuses tradicionais, ou pelo menos a virar-lhes as costas, ou pelo menos a não os afrontar, pois o seu carácter caprichoso aparece aí mais nítido, e afrontá-los de algum modo, no mínimo que seja desses caprichos faz incorrer reis e heróis em tremenda ira. Cf. As Bacantes. Eurípides, um iconoclasta da religião tradicional, que na tragédia não quebra com ela (pois está no cerne desta), mas que claramente a questiona com olhares já racionais. Ele usou mais do que ninguém esse recurso do "theos ek mechanes", do nume que tem de intervir para desfazer o nó da intriga trágica. Não sei se o abusou dele por falta de arte ou por deliberada inonoclastia de colocar em descrédito essas divindades.Mas essa noção era mais antiga. Está presente em Homero. Pense-se no joguete Ulisses. E Heródoto, o historiador, resumia assim a forma como entendia a ascensão e quedas dos homens: "pfthaneron theion", a divindade inveja os homens que ultrapassam certos limites — de beleza, riqueza, poder, sabedoria, etc., coisas de que só deles achavam ser atributos.O Deus revelado na Bíblia tem outro entendimento. Fez-se pequeno como o mesquinho homem para, retroactivamente, acedermos à sua condição e partilharmos da sua natureza.

Monday, May 25, 2009

Jesus Cristo na Literatura

“Damo-nos conta de que o Jesus amado pelos cristãos é uma personagem literária inventada em grande medida pelo autor do Evangelho de Marcos.” Harold Bloom considera esta descoberta como um choque ao abordar todas as literaturas no seu O Cânone Ocidental. O que retemos desta observação do conhecido crítico norte-americano, é dizer que o Evangelho de Marcos é assim considerado uma obra literária. Sem choque, sabemos que a grande literatura ilumina a realidade histórica da figura de Jesus Cristo, olhando-O inevitavelmente através de outro Cânone, o do Novo Testamento. O que para os escritores que escolhemos foi uma luta interior irrecusável.

Contudo, convém começar por uma referência de distanciamento, por exemplo num autor clássico- Virgílio. «Este menino» que verá surgir a idade de ouro, « ao Céu erguido e governando a Terra / em paz». Com o advento do Cristianismo esta passagem da 4ª Écloga, tornou-se nos meios proto-cristãos uma profecia.

Referências de esperança por contraste com a desesperança (a unhope ) estão nas Literaturas até hoje. Jean-Paul Sartre descreve isto muito bem. Intui o mistério cristão, o início ligado ao nascimento de um menino. “Um Deus-Homem, um Deus feito da nossa carne humilde, um Deus que aceitaria conhecer este gosto de sal que existe no fundo das nossas bocas quando o mundo inteiro nos abandona.» Sabe-se que Sartre jamais escreveu assim acerca de Deus. (Peça de teatro “Barjonas, ou o filho do trovão”, um Auto de Natal de 1940 .)

Não obstante as causas pagãs que levaram à criação de Alberto Caeiro terem sido «a pura e inesperada inspiração», sem nenhum intuito bucólico, apesar do panteísmo por princípio, o facto é que o «Menino Jesus», «a Eterna Criança», «a Criança Nova », impressionaram o poeta Fernando Pessoa num certo sentido iconoclasta e anti-clerical.

Houve, depois, José Régio que, sendo crítico irreversível do filósofo Nietzche pelas suas afirmações sobre Jesus, disse que só o grotesco e gigantesco ciúme daquele «poderia querer ver neste Jesus (Jesus Nazareno) um Deus de escravos. Jesus é, pelo contrário, um Deus de heróis.» Finalmente, sem nenhuma tónica pessimista, os poetas Jorge Luís Borges e Miguel de Unamuno marcam a fronteira do perdão em Cristo, na Cruz: «Cristo na cruz. Os pés tocam na terra. / Deixou-nos esplêndidas metáforas / e uma doutrina do perdão que pode / anular o passado.» ou na afirmação de Unamuno, «Que eres, Cristo, el único / Hombre que sucumbió de pleno grado, / triunfador de la muerte»

(Texto publicado em moldura na revista Novas de Alegria)




Sunday, May 24, 2009

Fórum Sobre a Bíblia

Ontem na Igreja Baptista de Moscavide, com uma «maratona» de leitura da Bíblia Sagrada.

Thursday, May 21, 2009

A Identidade do Altar


A Identidade do Altar
No monte Carmelo, os profetas de Baal, ao pretenderem responder ao desafio de Elias, por assim dizer, forjaram um «avivamento». Eles clamavam em altas vozes, eles saltavam, eles profetizavam. No entanto, até os críticos modernos do Movimento Pentecostal admitem que eles não falaram em línguas estranhas e que, apesar de todo o barulho, o seu movimento «espiritual» era falso.
Ler na íntegra aqui

Saturday, May 16, 2009

O Transtorno do Pânico no profeta Elias

O perfil da personalidade de Elias traçado desde o seu primeiro aparecimento na história, no 1º Livro de Reis, é o de um homem tornado rijo pela natureza.

A intervenção de Elias na história de Israel, confrontando a idolatria, o sincretismo religioso, o relativismo ético, a apostasia e as ruínas da moral, havia sido verbalizada por Deus quando lhe ordenou: «Retira-te daqui, vai para a banda do oriente, e esconde-te junto à torrente de Queribe, fronteira ao Jordão»
Na perspectiva profética, todo o ministério de Elias iria iniciar-se numa estruturação da dependência de Deus, fortalecendo-se no rigor da vida «monástica», solitário, integrado na natureza agreste. Habitaria no deserto e construiria sua tenda junto ao Jordão, segundo escreveu S.Jerónimo na sua Ep.58 ad Paulinum. Viveria Elias dos cuidados divinos ao lado do ribeiro de Carit, na Transjordânia, actual reino Hachemita da Jordânia. Os corvos providenciar-lhe-iam os alimentos, pão e carne pela manhã e ao cair da noite. Beberia água da torrente. Elias, segundo uma tradição religiosa remota, seria não o fundador em sentido estricto da vida monástica, mas pelo menos o seu precursor.

Se pretendessemos adpatar a sua vida à futura poesia árabe, com alguma liberdade poética díriamos que a relação de Elias com a natureza seria como a da ave chamada Garça (cujo nome em árabe é masculino e significa «Soberano Melancólico»), e cujo poema reza assim: «Minha miséria prefere a vazia linha do mar entre as lagunas, onde ninguém ouve o meu canto. Triste, melancólico, fico à beira do mar salgado, pensativamente; o coração sangrando de desejo pela água».
No entanto, Elias foi um homem de acção. Na rigidez do seu enfrentamento com a sociedade e a adulterada estrutura religiosa do Reino de Israel, isto é, no seu confronto com a rainha Jezabel e os 450 profetas de Baal e os 400 de Azera, na sua missão de levar o povo à adoração genuína ao único Deus, Elias exerceu do poder espiritual que o Senhor lhe conferiu tudo para além das funções normais de um sumo-sacerdote e de um profeta, exerceu-o sem margens e in limite. Exerceu nas suas funções o Poder de Deus, no próprio plano do sobrenatural.
«Eis que está aí Elias» é uma afirmação do próprio, consciente da missão para a qual fora investido por Deus, fazendo uso da relação espiritual de poder que seu nome já possuía com Jeová, uma vez que Elias significa «Javé é Deus». O profeta das vestes de pele de camelo, dotado de um temperamento impetuoso, romântico e ardente, afirmava Deus em si mesmo.
Mas o vigor do profeta Elias, o seu trabalho institucional, por um lado conservador, revivalista por outro, conducente a um Avivamento espiritual em Israel, não faria supor uma quebra na sua dinâmica de fortaleza física e psicológica.
O profeta Elias tinha superado a instituição da idolatria, do sincretismo religioso, havia mantido intacta a Adoração a Iavé, a sua Fé no Deus Altíssimo superara todas as circunstâncias.
Trabalhara com a matéria, digamos com os materiais do sobrenatural (as pedras do altar, a lenha, o rego em volta do altar, a água, o novilho para o holocausto) e tudo isso levou pela Fé ao alto patamar do milagre que lemos no Livro I de Reis, 18,37,38.
Conhecemos o seu contributo para a Galeria dos Hérois da Fé da Carta aos Hebreus, «homens dos quais o mundo não era digno, errantes pelos desertos, pelos montes, pelas covas, pelos antros da terra».
Mas agora parecia não poder superar-se a si próprio e aos seus temores.
O Transtorno do Pânico
O início da narrativa de I Reis 19, abre sobre a situação física e psicológica do profeta Elias. O texto sagrado não espiritualiza essa fragilidade natural da vida dos homens e dá-nos a real imagem de um Servo de Deus «temendo» a perfídia da rainha Jezabel e que «se levanta», isto é, inicia uma fuga «para salvar a sua vida». Como Deus compreende, mesmo no espírito da Sua Palavra, a sua criatura mais excelente, o Homem!
A longa caminhada que Elias começou não foi no sentido de voltar as costas a Deus, ao contrário, rumou ao monte de Horebe, que o Velho Testamento tem o cuidado de salientar como o monte de Deus.
O refúgio de Elias numa caverna, em Horebe, foi o efeito da conjuntura religiosa e social adversa pelo arrojo do profeta, a sua luta titânica contra os profetas de Baal para preservar a genuinidade e identidade única do Deus de Israel.
As palavras contemporâneas para a sua atitude de fugitivo, quando havia sido um Herói, adjectivariam o profeta como desanimado e deprimido. Na área mais rigorosa da ciência médica, diriam que se trata de uma síndrome, designadamente o chamado Transtorno do Pânico, designação que obviamente Elias desconhecia em absoluto.
Sentiu, no entanto, todos os seus efeitos na alma. A ansiedade, o stress, o desânimo, a hodierna depressão, o desejo de vanishing act - o desaparecer de vista -, ou até o desejo de morrer, mas não de suicídio (I Rs.19,4).
Num registo moderno, Elias seria alegadamente caracterizado como uma pessoa extremamente responsável, grande produtividade a nível profissional, assumindo sempre uma carga excessiva, tomando à sua responsabilidade os outros, exigente consigo mesmo, preocupado em excesso com os problemas quotidianos, perfeccionista e com alto dose de criatividade.
Encurtando palavras que são pela sua própria natureza dos nossos dias, e cingindo-me apenas ao múnus espiritual do profeta, Elias, não obstante haver um rei, foi não apenas o líder do Povo de Israel, naquele momento de problemas e carências nacionais, mas também foi o condutor do Culto Divino que o povo devia praticar.
Na contextualização de todos os factos contidos na narrativa, não é difícil de entender o desmoronamento físico e psicológico do profeta. A sua estatura espiritual e moral, de par com a sua estrutura física construída na dureza, ao contrário do que faria supor, pelo que representavam abalaram Elias precisamente pelo seu zelo, pela sua entrega, pela sua consagração ao Deus de Israel.
Nesta linha de pensamento, tendente a alargá-lo a situações contemporâneas de que temos conhecimento e experiência pessoal, veio à minha memória que li um livro muito a propósito de tudo isso, obra fundamental para o entendimento bíblico e correcto da depressão. Fui à estante buscá-lo. «Depressão e Graça», de Judite Kemp, que a dado passo afirma: «A história contemporanea da igreja também relata o mesmo tipo de sofrimento enfrentado por homens e mulheres de Deus. Veja alguns exemplos: John Bunyan, autor de O Peregrino; Martinho Lutero, líder da Reforma Protestante; Hudson Taylor, o grande missionário que não escondia suas experiências de andar com Deus no escuro; George Mueller, missionário inglês usado por Deus mesmo em meio a crise de depressão.»
Durante o percurso da leitura desta citação, em que a autora referencia também Amy Carmichael, missionária, C.S.Lewis, escritor e Charles Spurgeon, pregador, não é fácil compreender o que o exemplo seguinte nos aporta, que «até mesmo Nosso Senhor Jesus se angustiou: «A minha alma está profundamente triste, numa tristeza mortal», quando contemplou o alto custo da obediência à vontade do Pai» É reconfortante saber isso.
O círculo alarga-se nos nossos dias pelas contextualizações da história, das exigências actuais que implicam um esforço cristão de mais moral, mais ética, mais Verdade contra os relativismos pós-modernos, as pressões que o estado do Mundo exerce sobre o crente, anónimo, e os Servos de Deus, enquanto tal, líderes de comunidades cristãs.
Até ao chamado de transtorno do pânico vai porém um longo caminho in limite. Contudo, seremos nós, crentes, trabalhadores na Igreja, obreiros, pastores, escritores, etc., membros da Comunidade Evangélica, melhores do que Elias?
Somos, todos nós, de alguma forma, vulneráveis, sendo preciso recobrar o ânimo, a consagração, a fortaleza que decorre do que Deus confidenciou ao apóstolo Paulo, e cuja base de aplicação parece decorrer da nossa fragilidade: «A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza.» (2 Co 12, 9)
(Para o meu amigo dr.Brissos Lino)
Gravura: Dieric o Velho, o Profeta Elias no deserto, 1464

Tuesday, May 12, 2009

A Bíblia «protestante» entra em Espanha via Lisboa

«La Bíblia en España. Los Viages, Aventuras y Prisiones de un inglés en su intento de Difundir las Escrituras por la Península Ibérica», tradução do original inglês e, salvo erro, não editado em Portugal, é mais do que um clássico da literatura de viagens com um século e meio de existência. Não obstante esta distância cronológica ainda une Portugal e Espanha no mesmo estigma de países que foram, num passado recente, reaccionários, contra-reformistas, perseguidores de homens e mulheres que professavam a confissão protestante e viajavam pelo país vendendo a Bíblia.

O escritor, livreiro, ateu convertido a Cristo, pescador de almas, George Borrow, que escreveu no prefácio da sua obra « não sou turista nem autor de novelas ou de livros de viagens», descreve todavia essas viagens de finalidade religiosa com uma linguagem empolgante e original. O livro é assim um imenso quadro de itinerários percorridos e uma autobiografia considerada como tal na História da Literatura Inglesa. É a narrativa de uma via dolorosa de tribulações, presídios, testemunhos morais, sobretudo um encontro do autor com a sociedade espanhola da época, tendo por missão levar a Bíblia dita protestante a todo o povo, ciganos, toureiros, foragidos da justiça, contrabandistas, flibusteiros, policias, camponêses.

O autor que em Madrid chegou a ser conhecido popularmente por «El Jorgito Inglés», publicou «The Bible in Spain» em Londres em 1842. Porventura sob a influência notável da Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira, a Inglaterra vitoriana ficou a conhecer primeiro a saga da Bíblia em Espanha. Neste país, o livro de Borrow seria traduzido e publicado muito mais tarde, no princípio da década de 20, colhendo de sectores diferenciados algumas reacções encorajadoras, sublinhando a importância do livro e que «tardou 80 anos a ser oferecido aos leitores espanhóis.» Estas palavras foram pronunciadas por aquele que iria ser o presidente da II República espanhola Manuel Azaña, em 1921, o próprio que por essa data o traduziu e prefaciou.

Muito antes destas palavras, em Outubro de 1835, a Sociedade Bíblica já referida enviara a Lisboa o escritor Borrow, com o propósito de difundir a Bíblia em Portugal. Sabe-se pouco sobre esta estadia no nosso país de George Borrow, a finalidade seria a divulgação da Bíblia, mas pouco ou nada lhe foi autorizado executar. É conhecido dos meios literários que o escritor esteve no cemitério inglês de Lisboa, à Estrela, junto do túmulo de outro escritor, Henry Fielding. Depois voltou a Londres a fim de obter autorizações da Sociedade Bíblica e do governo espanhol para imprimir e distribuir a Bíblia em castelhano. A partir da sua livraria na Rua do Príncipe, em Madrid, traduz e distribui o Evangelho de Lucas na língua caló, dialecto dos ciganos ibéricos, com os quais partilhou grande parte da sua vida em Espanha. Após quatro anos neste país ( 1836-1840), iniciados na Galiza que assume um lugar significativo nas suas memórias de autor, começaram os problemas, Bíblias e outra literatura religiosa protestante são confiscadas da sua livraria, até os seus próprios livros e vai parar ao cárcere em 1838.
A Contra-Reforma ainda fazia os seus estragos e a palavra ecumenismo não fora ainda inventada.

Friday, May 08, 2009

O lado escuro da lua

O lado escuro da lua, dormirá
sem estrelas? Gazes mortais
e descoloridos desfizeram a alegria
de aparecer? A luz? O lado escuro
é o avêsso dos nossos olhos

É impossível o sonho ao frio
no fundo inconcebido
do lado escuro da lua
Estará ainda o lado escuro
no seu lugar, não é apenas a metade
dispersa do infinito, a esfera
que não vemos?

Os mares do lado escuro
da lua são apenas o volume
que não vemos do silêncio?
Como vê-lo, se os olhos sem lua
se perdem sem órbita.


Friday, May 01, 2009

O Salmo 139 na Teologia do XXº Século


UMA PERSPECTIVA DE JOHH A.T.ROBINSON
Mais de vinte e cinco séculos depois da criação literária do Salmo 139, como uma produção do sentimento religioso, da inspiração espiritual e de uma categoria lírico-poética da literatura nacional hebraica, o Saltério, um bispo anglicano do século XX, John Albert Thomas Robinson, afirma que se trata de «uma meditação penetrante sobre a presença de Deus», no mundo que Ele próprio criou.

Seria esta afirmação comum e resultante de uma normal análise de conteúdo do discurso poemático do salmo em questão, sem nenhum pressuposto que não parta, exclusivamente, do teísmo que a religião cristã ou a civilização judaico-cristã revela sobre Deus. Mas não é um pronunciamento trivial.
A verdade é que, não sendo tal apreciação do bispo anglicano contestável, foi-o porém o seu autor, por se tratar de um teólogo controverso e um dos criadores da teologia radical protestante da década de 50 e seguinte. Preocupado defendeu, sustentando-se sobretudo no pensamento teológico de Rodolf Bultmann, que o homem secular já não admite que Deus é real nos nossos dias. E também que as Escrituras estão antiquadas quanto a fazerem compreender o ponto de vista de Deus presente no mundo tanto quanto Deus «lá em cima».
John A.T.Robinson marcou, de facto, o início da década de 60 ao radicalizar a teologia protestante e ao retomar a ideia luterana do Deus Absconditus.
Contudo, a partir do facto de que se trata de uma prova da presença de Deus no mundo, transcendente ao universo, mas imanente à Sua Criação, integra o salmo na sua mais polémica obra, Honest to God, de 1963, a contra-corrente, como a mais perfeita doutrina da omnipotência e da omnisciência de Deus. E entre outras razões, aquela valoriza sobremaneira tão controverso livro da não menos controvertida década de 60.