Wednesday, November 11, 2009

Claude Lévi-Strauss-Antropólogo da Alma

Morreu em 30 de Outubro o homem que devolveu a alma aos indígenas das Grandes Antilhas e aos brancos Espanhóis, após a descoberta da América. Uns enviavam comissões para se saber se os índios tinham alma, e outros afogavam os descobridores europeus para verificarem se os cadáveres entravam em putrefacção.

Morreu o homem que deu rostos humanos à densidade fechada da Amazónia, e restaurou para o pensamento teológico da Europa a inocência da nudez do primeiro Éden do primeiro homem e da primeira mulher, entre as tribus dos Nambikwara e dos Tupi-Kawahib.

Morreu o homem que afirmou que «existem muito mais culturas humanas do que raças humanas» e que repentinamente espaço e tempo se confundem.
O seu estruturalismo edificou no inefável dos arcanos das raças esquecidas um espaço imaterial
para a alma humana, que era negada pelas raças ditas superiores.

Foi o antropólogo, dos homens e das suas linguagens, dos morfemas e dos fonemas da linguagem humana perdida nos meandros das selvas, que odiou as viagens e os exploradores, mas viajou nas décadas de 30 e 40 sobretudo, para trazer à dita civilização europeia, civilizações alegadamente perdidas.
Por isso foi como linguista também que transformou os tabus sobre o desconhecido em antropologia, em homens e mulheres sobretudo.

Percebi isso quando há 35 anos li Raça e História. E entrei no coração dos trópicos, na alma devolvida aos indígenas, quando li, mais tarde, Tristes Trópicos.
E para os dias de hoje foi um profeta, anteviu na década de 50 o nosso rosto ocidental em transformação na Ásia, a mesma que estava e está a antecipar o nosso futuro, e já isto nos seus tempos de vigor o assustava.

Morreu aos 100 anos em plena globalização daquele seu medo - descrito nos Tristes Trópicos - «o que me assusta na Ásia é a imagem do nosso futuro por ela antecipada».

Monday, November 09, 2009

Morreu-me um Amigo Poeta e missionário


A última crónica que o Florentino Lavrador escreveu no seu Allahu Akbar!, em Abidjan, Costa do Marfim.


"Gostaria de viver à "tripa-forra" como qualquer pessoa no mundo, mas não vivo, e nem isso me dá pena. Li num livro muito interessante que "uns confiam em carros e outros em cavalos, mas nós faremos menção do Senhor dos Exércitos". Foi por esta regra que quis pautar a minha vida sem sempre o conseguir...realizado? de modo nenhum. Enquanto existirem crentes chiques sentados nas igrejas e homens miseráveis sem haver ninguém que lhes fale do evangelho não estarei, repito, de modo nenhum, realizado!»


Morreu ontem, com um tumor cerebral fulminante. Até já, Poeta.

Outra crónica, de 13 de Maio:

«Depois de alguns dias de chuva intensa acalmou-se o céu e o calor imenso tornou ao seu lugar. As ruas parecem-me agora mais lavadas e simpáticas e até as pessoas aparentam um ar mais feliz. Saímos para evangelizar como habitualmente e foi-me mister apanhar um transporte público. Depois de muito esperar alguém tomou o meu lugar no « woroworo » amarelo. Não me apeteceu reclamar mas o meu companheiro não hesitou em fazê-lo. Pedi-lhe por favor para se acalmar pois decidi desde algum tempo não tecer juízos de valor. Ele olhou-me espantado tentando compreender a minha “loucura”. Não sei se estou a ficar mais maduro ou mais paciente mas sei que estou a ficar mais velho. Deve ser isso, a idade a fazer das suas!»

Cd Tiago Guillul IV ou o rock protestante

«Ouço chamar o meu nome três vezes durante a noite / Três vezes durante a noite / Ou o anjo me vem saudar / Ou ministrar-me um açoite». Um começo para o rock-punk protestante.
Este também: «Lou Reed queria ser preto/Eu quero ser Lou Reed/ Anão quer ser Golias/ Golias quer ser David».


Eu já tinha entrado no rock evangélico, nesta década, através de bandas como Éden, da AD Ovar, nunca havia entrado fundo no punk-rock evangélico, ou melhor no bom rock protestante. Chegou às minhas mãos, pelo meu filho João que frequenta a Igreja Baptista de Benfica, o trabalho já nacionalmente reconhecido do pastor Tiago Cavaco (dito Guillul).

Este Cd é muito mais do que um rompimento de preconceitos. É uma mensagem, o meio é a mensagem.

Thursday, November 05, 2009

Conto com estrutura de novela


Auto-Retrato, ou uma ficção literária sobre uma mulher doente há 12 anos.

Florbela Ribeiro, experimentada no conto de raíz bíblica e evangélica curto, abalançou-se agora naquela que poderá ser uma novela pequena, na sua extensão e estrutura. Aqui, no Portal Evangélico.


"Jéssica repousava a excessiva magreza do seu corpo cansado e doente. Na cama adornava a silhueta esguia com uma nobre e delicada colcha de linho, bordada à mão. Mas permitiu que o seu olhar baço pela dor se ausentasse dali.
Através da janela entreaberta, entrava uma brisa fresca, que fazia esvoaçar com subtil leveza a brancura da cortina de organdi.
Havia um sinal de que o calor intenso que se fizera sentir ao longo de quase todo o dia, começava finalmente a dar tréguas.
Em frente, e por cima da cómoda de carvalho maciço, o auto-retrato, pintado por um conceituado artista israelita, observava-a atentamente, parecia perceber quais os caminhos por onde vagueava o pensamento."

Saturday, October 31, 2009

África

Sem sapatos, os pés na terra
descalça, sem camisa
sem a negrura
dos problemas da alma

Com o coração forte
como a corrida do antílope
com uma casa de vento
capim e barro

Sentada à porta fumando
a fogueira foge
para o rotundo silêncio
no seu mover lento

Aos seus pés insectos mortos
descem até ser pó
e a atmosfera cheira
mudando de lugar

e nas tuas mãos
a terra gretada, os teus dedos
adormecem os cabelos
dos teus filhos.

24/10/2009

Wednesday, October 28, 2009

Socalcos da memória

Foram-se os anos
e o vigor da juventude.
As encostas transportam as marcas
que o tempo cavou.
Por entre vincos e socalcos,
surge um lampejar enevoado.
Cerram-se as portas atrás das sebes.
Tenta-se olvidar a ausência de quem parte,
sem chorar de abandono.
Abrem-se as janelas da memória,
entram as alegrias de outrora,
e a solidão relê, uma e outra vez,
a mesma história.

Florbela Ribeiro

Saturday, October 24, 2009

Ecce Poiema




"Mas como não acreditaste no que te disse, vais ficar mudo, sem poder falar, até ao dia em que isso acontecer, pois tudo se realizará no tempo devido.”

Evangelho de Lucas 1:20 (versão A Bíblia para todos, p. 2'44)

Para mãos que trabalham
sem uma língua treinada
o silêncio pode ser de ouro
ou de chumbo maciço

Porém, esse silêncio ainda fala
ainda está cheio de poemas, cânticos
confessa apreensões ou revela sonhos
da dentro da linfa, das cavidades do osso

Voz que duvida, que fala do que não sabe
que com as mãos se queda a queimar incenso
a vigiar que a chama da menorah perene arda
a oferecer os pães

que escreve febril o que o silêncio apenas sussurr
ao que a voz na laringe emudece

Que te diz e conta, Zacarias, a voz que te secou?
Voz que guarda e
burila a sabedoria
que decanta os segredos
confiados pelo anjo do Senhor
esculpidos no ventre da tua mulher
afinados em outra voz, a que clamará no deserto

Mas quanto melhor
não é,
como numa salva de prata uma maçã de ouro servida
é a voz irrompendo
finalmente instruída e madura
que fala
e canta os altos louvores do Senhor!

22/10/09

Poema de Rui Miguel Duarte

Thursday, October 22, 2009

A piscina de Saramago

«Saramago ao inaugurar a sua nova piscina literária baptizando-a de Caim, anunciou aos nadadores um oceano infinito chamado Bíblia. E ninguém vai querer um patinho de borracha ou uma bóia numa piscina com cloro quando pode pescar e mergulhar num oceano de águas profundas.»

Artigo de João Pedro Martins, em
A Ovelha Perdida

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Hoje, no FACEBOOK

Saramago é um anarquista de Deus - há Deus? Então eu sou contra.
E desenvolveu um novo ateísmo- «Deus não pode existir, não existe mesmo, mas é uma «pessoa que não é de fiar», é «vingativo», etc.
Afinal trocou-se a não existência de Deus pelos juízos éticos e morais sobre o Deus que existe. É melhor ser ateu, apenas.

Wednesday, October 21, 2009

O Muro


Inédito do poeta, meu amigo e companheiro, Brissos Lino:

É o que resta da glória de antanho
pedras sobreviventes
que repousam sobre ricas memórias
salomónicas
que se deixam fecundar por bilhetinhos
de orações a Iavé
que se sentem tão importantes
que os homens se curvam
perante elas
compassadamente
pedras intocadas que resguardam
a tua história, ó Jerusalém
e esperam, tranquilas
o futuro dos profetas.
O muro do Templo
é feito de lágrimas amargas
e esperança de restauração.
19/10/09

Monday, October 19, 2009

O anti-Caim da última Literatura Portuguesa


«Caim interessa-me há muitos muitos anos, é uma coisa que foi crescendo e que, de repente, já não consegui suster, tive que começar a escrever", disse José Saramago.
Escrever em apenas quatro meses 181 páginas de algo que contribuiu para a desarmonia da Humanidade, que leva um remoto tempo inefável a digerir pelos seres humanos, ainda por cima em tom jocoso e irónico, pode ser um bom exercício literário, mas é pouco sério eticamente. Sobretudo se se diz no próprio livro que a história a re-contar é «um atrevimento».

No entanto, quando editorialmente acontece o lançamento de um livro de Saramago, o país e o mundo das letras rejubilam como se se tratasse do último romance da literatura portuguesa. Nada mais parece existir para lá da nebulosa Saramago.

E quando este exprime opiniões sobre o seu Grande problema, os diários trazem à primeira página títulos enormes: «o Novo Saramago põe Deus como autor moral de um crime»(DN). E o próprio autor revela a raiz do seu problema:
«Hay quien me niega el derecho de hablar de Dios, porque no creo. Y yo digo que tengo todo el derecho del mundo. Quiero hablar de Dios porque es un problema que afecta a toda la humanidad».- afirmou o escritor ao El País.

Escreveu um dos meus amigos no Facebook (o maestro Pedro Duarte), entre outros comentaristas, que «Saramago acredita em deus, sim. Ele é deus. Logo Deus não pode fazer parte do mundo de deus. Saramago tenta criar um mundo seu e nessa 'missão' sente necessidade de reinterpretar a realidade à luz do seu mundo tenebroso.»

O prof.dr.Jónatas Machado, também naquela rede social, opinou: «Para quem não acredita em Deus, Saramago sente-se muito incomodado por Ele. Ao negar Deus, Saramago nega a existência de um critério objectivo de justiça. No entanto, ele pretende deter um critério objectivo de justiça com base no qual se arroga julgar e condenar Deus.»

É a partir desse seu mundo fechado e «justiceiro», no sentido da justiça popular, que o autor pretende julgar Deus, com um critério objectivo de pretenso ajuste de contas. Nesse mundo que o escritor inventou, que é o locus da sua última obra- o jardim do Edén, uma caverna no deserto após a expulsão da família adâmica- , pretende aí reinterpretar não os actos divinos, mas o que ele afirma serem os seus efeitos.
Assim, temos um Caim que é, no entender e na expressão saramaguiana, um «efeito» de Deus. Um «erro» moral.

Os primeiros parágrafos do livro conduzem-nos diante de um deus irado, errático na sua obra, que é responsável por tudo quanto vem a seguir, no entendimento do autor.

« Quando o senhor, também conhecido como deus, se apercebeu de que a adão e eva, perfeitos em tudo o que apresentavam à vista, não lhes saía uma palavra da boca nem emitiam ao menos um simples som primário que fosse, teve de ficar irritado consigo mesmo, uma vez que não havia mais ninguém no jardim do éden a quem pudesse responsabilizar pela gravíssima falta, quando os outros animais, produtos, todos eles, tal como os dois humanos, do faça-se divino, uns por meio de rugidos e mugidos, outros por roncos, chilreios, assobios e cacarejos, desfrutavam já de voz própria. Num acesso de ira, surpreendente em quem tudo poderia ter solucionado com outro rápido fiat, correu para o casal e, um após outro, sem contemplações, sem meias-medidas, enfiou-lhes a língua pela garganta abaixo» (primeiros parágrafos do romance)

Ao iniciar a leitura de ficção, romance , novela ou conto, com objectivo crítico-literário, gosto de parar no primeiro parágrafo, aí pode-se ou não definir o curso do rio onde fluirá o enredo e a intriga e como se manifesta, no sentido de uma epifania, a personagem ao mundo.
Dou um exemplo de leitura recente, Philip Roth em «A Conspiração contra a América»;o autor começa com a chegada à Casa Branca do presidente eleito em 1940, o aviador Charles Lindeberg, e inicia uma metáfora sobre o anti-semitismo; como se vê, é uma metáfora e uma ficção da memória, uma falsa memória.

No romance «Caim», José Saramago inicia também a sua obra ficcional com uma falsa memória, começa com um preconceito que passa a falsidade e vai por aí fora de deturpação em deturpação.

A mão de Saramago sobre o texto bíblico é como a mão talibã sobre a arte dos budas de pedra.

A «lógica impecável» que o autor atribui ao desenvolvimento da sua proposta, o humor pela segunda vez usado (a primeira na Viagem do Elefante) e a alegada profundidade da história que se propõe recontar – disse-o ao suplemento Babelia do El Pais –, não se objectiva apenas por razões de estética ou criação literária, sobretudo o que pretende Saramago, é afirmar que o Caim bíblico faz parte de uma «história mal contada».

E, assim, o escritor de Lanzarote quer «repôr» o que se terá passado. «Abel e Caim, desde a mais tenra idade pareciam os melhores amigos», foi o alcance do «fumo» dos holocaustos que começou por ditar a discórdia. O de Abel subia ao infinito, o do irmão não passava do solo. Abel provocava o irmão com esse facto, o que terá levado Caim à ira.
Os valores éticos de Saramago invertem-se sempre, os bons passam a maus, estes são vítimas das circunstâncias; para o escritor «o erro divino».

Esse evento da primeira morte, segundo a teogonia antropológica do autor tornará Deus culpado do sangue de Abel. É a perfeita idiotice da inversão de valores. É a não lograda destruição da Ética divina. É a mais descabida proposta, requentada e pseudo-filosófica, de Deus como autor do Mal.

De uma forma mais simples, trata-se da introdução na obra ficcional daquilo que o escritor insiste em chamar desde o ano 2001 o «factor Deus», que afecta a humanidade.

No que concerne ao Catolicismo ofendido, nome geral com que o autor quer tocar no Cristianismo e na Bíblia, tudo é mal contado, daí ter proposto em 1992 uma absurda figuração de um Messias humano no controverso romance «O Evangelho Segundo Jesus Cristo». Quis humanizar Jesus Cristo, agora quer «humanizar» Caim.

Caim leva-nos biblicamente à teologia da necessiadade de adoração correcta a Deus, do perigo da aproximação do homem de Deus de modo incorrecto, sem a remissão pelo sangue expiador, leva-nos aos resultados do pecado, da Queda, da Morte que começou a ter o braço executor no ser humano.

Caim é ser humano, logo não há, neste contexto, que o humanizar. Será, no entanto, querer ser compreensivo para com o seu acto fratricida? Bondade saramaguiana.

No que concerne à morte, que acaba por ser protagonista ou um deus ex-machina no romance, o autor atribui-lhe a ela a invenção de Deus. «Sinceramente creio que a morte é a inventora de Deus».diz o escritor, para falar dos objectivos da religião.

Com certeza ciente da gravidade das suas proposições em forma literária, Saramago chama ao que escreveu «as minhas fantasias». Estas são levadas ao paroxismo central do romance, do meu ponto de vista. O assassinato de Abel.

A morte de Abel tem uma atenuante justificação, é o crime contra a pessoa errada. Percebe-se logo entre as págs. 35-38. A grande questão que o pretenso ateísmo do escritor quer colocar é, sobretudo, a frase do diálogo central entre deus e Caim. Este diz que «matou Abel por não poder matar deus». Está tudo dito. Embora o livro termine com a incontornável discussão deste tema sempre em aberto.

Sunday, October 18, 2009

Ferida, poema de Rui Miguel Duarte

“Espera-O uma coroa de espinhos
para secar o sangue sobre a fronte, espera-o
a fome de um chicote
que as costas lhe há-de devorar”

J. T. Parreira, “No Jardim do Gêtsemani”


A fome batia uma litania
vai e vem sobre o dorso como tambor
O látego batia em sintonia
com a contagem ritmada
da voz do decurião
uma, duas, três, até quarenta
e com os gritos
de dor do condenado

E latejava as nossas cabeças
dentro de cada dentada das fauces
do chicote estampido vai e vem

Acirrámos os dentes
em aprovação do castigo
e dos gritos do condenado
as costas devoradas
as gotas de sangue salientes
eram o nosso prazer e satírico canto

Mas não deixávamos de pensar
que a obra do carrasco
devia ficar na discrição
recôndita duma caserna romana
longe da vista e do coração
e ensaiámos apartar o olhar
desviá-lo do esbatimento do seu rosto
em busca da geometria da dança
de um bando de pássaros que por ali voasse
ou admirar as coríntias colunatas do pátio
onde decorria o evento

Mais tarde esperava-o uma coroa
sobre a cabeça de espinhos
para o sangue na fronte lhe secar

E escorria das nossas cabeças

E depois ainda
esperava-o ser fixado na cruz
poucos de nós ficaram para ver
preferimos meter-nos pelas cruzes das ruas
pés apressados para o recolhimento e a piedade
pois esperava-nos a Peschah em casa
ao lume do assado do cordeiro,
o único a quem hoje se devia secar o sangue

Mas o vai e vem do flagelo batia em nós
e a voz de comando do decurião e os gritos de dor
o sangue porfiava em correr de nós
como mulheres nos dias da impureza
os panos não o estancavam
banhámo-nos mas a água
solidária tingia-se de escarlate

O chicote a coroa a voz do decurião e o sangue éramos nós
o que tínhamos nós com esse contumaz blasfemo
de rosto deformado condenado?

Caímos no chão

Éramos nós os condenados
de costas devoradas e frontes sangradas
à beira do vale onde a morte se dissimula de sombra

Por fim acordámos

Esse sangue
penetrava-nos até ao coração
e corria agora neles
lavados

17/10/09

Rui Miguel Duarte

Friday, October 16, 2009

A «bíblia» Dake


Não terá por sido por ignorância doutrinária que a CPAD editou e divulga esta «bíblia» herética, dando assim indirectamente respaldo a, pelo menos, uma doutrina : a da Prosperidade, a do chamado «toque de Midas» e outras aberrações teológicas. Sendo talvez a maior, a imagem descrita pelo comentador acerca de Deus.

Exempli gratia: «Ele tem um corpo espiritual pessoal; forma; forma; imagem e semelhança de um homem. Ele tem partes do corpo, tais como, peças de volta, coração, mãos e dedos, boca, lábios e língua, pés, olhos, orelhas, cabelo, cabeça , cara, braços, quadris e outras partes do corpo.» Anotado (Dake de Referência Bíblia, Finis Jennings Dake, publicado pela Dake Bible Sales, Inc., Atlanta, Geórgia, Novo Testamento, pp. 96-97).

Faça-se, porém, a justiça de dizer que circula um texto a divulgar a posição dos editores, o seguinte:
«Assim, de acordo com o Pr. Silas Daniel, editor chefe da Casa, a CPAD se comprometeu em publica-la na seguinte condição: liberdade editorial de supressão de desvios e ideais contraditórios com a doutrina e teologia adotada pelas ADs no Brasil. Autorizados a fazer a supressão dos desvios de Dake pelos editores que detêm os direitos de publicação, foi mantido os principais recursos, notas e estudos que estejam em harmonia com a ortodoxia bíblica, doutrinária e teologica. De acordo com o Pr. Silas Daniel “...os erros doutrinários já eram conhecidos e foram devidamente retirados. "

Se eram conhecidos os erros, por que razão a BD foi editada e divulgada ao mais alto nível?

Thursday, October 15, 2009

A imortalidade do Nada

A breve imortalidade do Nada em Álvaro de Campos, breve texto suscitado por Ed René Kivitz

Aqui no AB-INTEGRO

Tuesday, October 13, 2009

O Prado

Os nossos olhos dão o alarme
seria útil ter no bolso
a quarta dimensão
para ouvir tudo o que dizem
através dos séculos
as estátuas e os quadros

as Meninas fechadas
por Velázquez, em vão
esperamos a forquilha
do vento na carroça de feno
de Hieronymus

alheios a nós próprios
isso passa reflectido nos espelhos
e enterramo-nos no Museu
até à sonolência
que desce às nossas pernas.

Friday, October 09, 2009

Re-edição de O Homem Que Ninguém Via

Os analistas políticos no que concerne à eleição de Barack Obama não puderam sair da tautologia. Os seus textos, desde o primeiro dia (4 de Novembro), entre o The Washington Post e a Time, fizeram um arco, um segmento de círculo para depois o completar, voltando depois ao inevitável: «Obama Makes History».
De facto, desde a eleição de JFK, em 1960, que a narrativa das eleições presidenciais nos Estados Unidos não construia um arco do triunfo de um homem e suas ideias. Sublinhe-se, esse homem é o primeiro presidente negro dos Estados Unidos.
Em Outubro de 2006, a mesma revista Time colocava a questão quase numa necessidade de mudança, e afirmava como matéria de capa «Por que Barack Obama Pode Ser o Próximo Presidente». E aconteceu.
O paradigma mudou. O sinal transformador desta eleição, que corre o risco de ser racial, trancendeu a própria raça.

À primeira vista parece que agora a face da nova América é negra, mas teremos que aprender, de uma vez por todas, que se assim fosse, continuaríamos a laborar no racismo.
E o sinal que todos desejamos seja transformador, de facto, é que a vitória de Obama, a sua eleição e tomada de posse este mês, anuncie uma nova geração de líderes e uma América que esteja a tomar uma nova forma- segundo asseveram os analistas políticos, tendo em conta sobretudo a crise na economia mundial.

Contudo, não se pode esconder que existiu uma mudança filosófica, que foi muito conduzida também pelo coração, isto é, pelo sonho.
O sonho de Martin Luther King completou-se mais cedo que muitos imaginaram - escreveu um dos articulistas do semanário Time. Para relatar o testemunho de um cidadão-votante, de Kansas City, que relembrou a história dos negros norte-americanos, ainda da segunda metade do século XX:
-«Eu andava no autocarro quando os negros tinham que se sentar nos bancos de trás; bebi água de fontenários onde estava escrito: para gente de cor; você não podia comer em restaurantes, se fosse negro; tinha de adquirir as suas refeições num saco castanho através da porta das traseiras.»
É o caso em que o sonho contribuiu para a História, onde a poesia tem a sua quota parte. O poeta negro Langston Hughes escreveu, há alguns anos:
«Oh sim, / Eu que o diga com clareza, / a América nunca foi América para mim, / e, não obstante, prometo sob juramento- / A América vai ser!»(Trad.JTP) (1)
A magnitude da vitória do presidente Obama contribui para a história como para «um dia de transfomação», esta é a frase que o diário The Washington Post utiliza em subtítulo, para depois escrever em pequena paragona que «A História da América abre caminho para o futuro». E o passado?

Simão, de Cirene
Sem recurso a pseudo-antropologias para justificar o modo como desde os tempos da escravatura os negros foram tratados, por razões mais economicistas do que teológicas a partir de hermenêuticas enviezadas da maldição noética sobre o filho Cão, poderemos apreciar um simples acontecimento do dia da crucificação de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Relatam os Evangelhos sinópticos (2) que os soldados romanos obrigaram um certo homem de Cirene (na actual Líbia) a carregar a cruz , um peregrino-prosélito, um judeu da sinagoga de Cirene de Jerusalém ? Fosse o que fosse, era sem dúvida um homem africano.
Diante da multidão que seguia a dramática pompa do caminho dos condenados à crucificação, os responsáveis romanos do cortejo, humanitariamente foram obrigar um colored. Um homem que a sociedade judaica da altura e os conceitos sociais aferidores e dominantes daqueles dias gostariam de manter invisível. Mas os evangelistas o eternizaram, por razões que estão para lá da circunstância legal da prestação obrigatória de um serviço.

O Homem que ninguém via
A pigmentação, os traços, a discriminação racial, tornavam os negros da América invisíveis. As dificuldades sociais do negro resultavam daí e são o fundo de um célebre romance, alegadamente sociológico, da década de 50. O mesmo não quis, porém, ser mais do que uma viagem sobre a condição humana, retratada em quanto viu e sentiu, na pele, um jovem negro a viajar pelos estados sulistas nos recuados anos 20. Escrito por Ralph Ellison, conheceu a fama literária até na nossa língua sob outro título: O Homem Invisível. (3)
A personagem afirma, auto-biograficamente, a razão por que era assim: «Sou um homem verdadeiro, de carne e osso, de músculos e de sangue - Sou invisível apenas porque, compreenda-se, os outros se recusam a ver-me.»
A busca da identidade baseava-se na doutrinação do homem negro para aceitar os valores da sociedade branca. Mas afinal a cor da pele foi apenas um pretexto
para falar de algo que é sempre contemporâneo, o lugar do homem, de cada classe social e tipo racial que o incorpora na sociedade.

Milagres em negro
No romance de Ellison há uma passagem de um despejo no Harlem, um casal de velhos vê-se espoliado das suas coisas e casa por uma execução hipotecária. «Para onde vamos agora, sem um vaso»- perguntavam. Ainda quiseram estar na sala vazia, com a Bíblia na mão e, no soalho nu, «quinze minutos com Jesus». «Que nos diz a isto, senhor representante da lei? Temos ou não direito aos nossos quinze minutos com Jesus? Têm o mundo na mão, e nós? Não temos direito ao nosso Jesus?» (4)
Esta deveria ser a questão que havia de cruzar toda a sociedade. Para Deus não há homens invisíveis. A sociedade pode recusar ver-nos, por qualquer razão social ou racial, mas Jesus Cristo não se recusa a olhar para nós.

Não foi só à procura de homens e mulheres, mas também de uma identidade que missionários cristãos e evangélicos chegaram a África no fim do Século XIX e nos alvores do século passado.
Um livro precioso, editado em 1938, «Miracles in Black», de John C.Wengatz (5), trata dessa realidade, de dar visibilidade ao homem negro diante de Deus, através do Evangelho. Desde a mata tropical às ruas do Harlem.
Verificamos que o profundo significado espiritual dos contactos virgens com as tribos africanas para a proclamação do Evangelho não se fizeram em casas de desenho arquitectónico tradicional nem sequer, por vezes, nas cubatas.
No capítulo designado por «Um encontro às 5:30 da manhã», lemos esta descrição: «As pessoas acercaram-se de nós pela madrugada, tremendo de frio sob as rajadas de vento invernal, com os braços cruzados sobre o peito e as suas mãos apertando os ombros, um hábito puramente nativo para se protegerem do frio. Mas, dando as suas costas ao frio do vento uivante, tremendo e batendo os dentes olharam para nós e disseram: “Pastor, diga-nos de novo aquelas boas palavras que nos disse ontem à tarde. Conte-nos acerca do seu Amigo, o Qual nos disse que é nosso Amigo, também. Nós queremos saber acerca dele. Conte-nos mais sobre esse lugar aonde você diz que todas as pessoas boas podem ir. Nós queremos perguntar se o povo branco vai junto com o povo negro para esse lugar?”»(6)
_______________________________________________________
1-Let America Be America
2-Mat 27,32, Mc 15,21, Lc 23,26
3-Ralph Ellison, Casa das Letras,2006
4-Ibidem, Pág.223
5-Missionary Experiences in the Wilds Africa, Fleming H.Revell Company, 1938
6-Ibidem, Pág.54
Publicado na revista Novas de Alegria e no blog Confeitaria Cristã

The 2009 Nobel Peace Prize




Barack Obama
USA
44th President of the United States of America
b. 1961

Thursday, October 08, 2009

Nobel da Literatura: Quem?


Última Hora: O Nobel 2009 foi para a poeta alemã/romena HERTA MÜLLER.
Pela concentração da sua poesia e a franqueza da sua prosa, que retratam a paisagem dos espoliados.


Coming soon on Nobelprize.org:
Announcement of the Nobel Prize in Literature!



Announcement time:Thursday, October 8


01:00 p.m. CET11:00 a.m. GMT



Amos Oz e Philip Roth encabeçam as apostas para o Nobel de Literatura

Wednesday, October 07, 2009

Liturgia: a Luz e as sombras

"A forma religiosamente correcta de cultuar a Deus, simplesmente não existe.
Não é que a liturgia em si mesma seja mais importante do que aquilo em que se crê. Mas pelo menos, é aquilo que se vê...Através dela se deixa transparecer qual é o foco da nossa adoração"
Pág. 45


Aqui em A Ovelha Perdida

"O problema da liturgia (o rito, a ordem do culto) é transdisciplinar. Tem conexões com a cultura, com a sociedade, com a arte, com a História, e com a espiritualidade. Move-se, portanto, na esfera do humano e do divino.Devemos começar por esclarecer que não há uma liturgia bíblica fechada no culto cristão. Apenas estão registados elementos do culto que era praticado na Igreja do primeiro século. Ou seja, sabemos que os serviços religiosos dos cristãos primitivos incluíam cânticos, oração, ensino da Palavra, “o partir do pão”, e a contribuição financeira (Mateus 26:25; Actos 2:42; II Coríntios 8 e 9; Efésios 5:19; Colossenses 3:16)."

Monday, October 05, 2009

Sunday, October 04, 2009

História: Poder para conquistar o Mundo


Vastíssimos estudos sobre o derramamento do Espírito Santo no início do Século XX em Topeka, no Kansas, e na Rua Azuza, em Los Angeles, revelam que a plena experiência pentecostal moveu a Igreja no sentido ascencional, deu-lhe latitude e longitude, e levou-a para o movimento missionário. O Pentecostes – escrevia na Primavera de 1995 a “World Pentecost”- «deu poderes para conquistar o mundo».

Dois números situados nos extremos de quase meio século, apenas como simples paradigma, indicam que os crentes pentecostais em todo o mundo eram em 1993, 429,523,000; e que em 1949 apenas eram uns 3,000,000.
Pelo menos é este o número que os autores da reportagem da Grande Convenção Mundial em Paris, nos dias 21 a 29 de Maio de 1949, escreveram nas páginas de «Novas de Alegria» (1)
Com chamada à primeira página, aquela revista publicava uma fotografia a toda a largura (duas colunas) do «grupo de delegados à Grande Conferência de Paris». A peça intitulada «Notas de Viagem» –como era costume à época em NA - começava por informar que essa «grande Convenção estava representada por 33 países das cinco partes do Globo, num total de 157 Delegações oficiais e 360 Delegados observadores que representavam uns 3 milhões de crentes do Movimento Pentecostal.»
Na segunda fila, não obstante a dificuldade visual, julgamos entrever os dois delegados portugueses a esse magno evento, considerado então como «aquele Rio do qual o profeta diz que só se podia atravessar a nado, aleluia!»(2) Tratava-se dos pastores Alfredo Machado e Rogério Pereira.

“NOTAS DE VIAGEM”
A peça de reportagem é hoje a todos os títulos histórica, até pelas referências que faz a algumas das colunas do Movimento Pentecostal mundial.
«Foi importante o estudo do irmão Donald Gee sobre os dons do Espírito Santo, e do irmão Salter(3) sobre a disciplina da igreja, bem como o irmão Perkin(4) sobre o Ministério da mesma. Todos sentimos que Deus nos falava e guiava para o mesmo ponto: a unidade espiritual e mais profunda de todos os crentes pentecostais; bênçãos que desfrutamos já naqueles dias no meio de irmãos de muitas línguas, raças e posições diferentes.»

A memória histórica do Movimento Pentecostal face aos neo-pentecostalismos matizados hoje de várias cores excessivas, convém que seja feita pelas consequências positivas. As suas bases estarão sempre no Cenáculo de Jerusalém, aquando do derramamento do Espírito Santo sobre a Igreja apostólica descrito em Actos 2; mas ao longo da história da Igreja estruturada em Cristo e na Doutrina dos Apóstolos, serão também reconhecidas nas primeiras Convenções Pentecostais consituidas tendo em vista a evangelização, as missões e o poder do Pentecostes na vida dos povos.

Com efeito, a 2ª Conferência realizada em Paris e a 3ª em Londres, três anos depois, vieram acentuar esse pendor missionário e do poder para conquistar o mundo, reafirmando «a visão do mundo perdido e de milhões sentados nas trevas esperando que o Evangelho lhes dê vida»(5).
«A unidade espiritual e mais profunda de todos os crentes pentecostais», apreciada a uma só voz, ainda que no plano pessoal por cada um dos dois delegados portugueses à Conferência em Paris, também o final da conturbada e dramática década de 40 em que tal unidade necessária se sublinhou, foram sem dúvida as raízes e os desafios, e.g. das Assembleias de Deus e doutras Igrejas de origem pentecostal. E logo neste tempo em que a propósito de tudo e de nada se fala muito em mudanças de paradigma. No Pentecostalismo sério, o paradigma começou e estabeleceu-se no início da primeira década dos anos 1900 e manter-se-á assim.
A liberdade para diferentes formas de governo eclesiástico não pôs em causa a unidade.

Todavia não foi sem sobressalto e perante uma Europa sobressaltada que os Congressistas pentecostais se ergueram nesse ano de 1949. No dizer dos pastores-relatores, que assinaram no NA essa peça histórica, «reconhecia-se a gravidade da hora actual e a necessidade de mostrar perante o mundo uma comunhão mais perfeita e uma mais profunda unidade espiritual, o que levou os vários delegados a apresentarem seus pontos de vistas e a ser aprovado pelo Comité um manifesto» de 10 cláusulas e 17 alíneas que, como instrumento de um histórico trabalho, expunha as preocupações e a visão unanime do Movimento Pentecostal àquela época. Com efeito, em síntese, três preocupações: Chamada à consagração e a oração; Chamada à reafirmação da fidelidade a Jesus Cristo, Senhor e Salvador; Chamada à aceitação incondicional da integralidade das Escrituras Sagradas. Do ponto de vista prático e da orgânica das futuras Convenções Mundiais, ressaltou a orientação que ainda é seguida pelos Comités que têm presidido às mesmas até hoje.
UM CLÁSSICO PENTECOSTAL
Por que razão as Igrejas pentecostais crescem? Já se perguntava há cerca de 50 anos, em Paris ou em Londres. Harold Hórton e o seu clássico «The Gifts of the Spirit», de 1934, dava a resposta e ao mesmo tempo desafiava. Com certeza terá desafiado muitos dos delegados à Convenção Pentecostal de 1949, porque ao que parece o seu livro terá circulado em Paris, em tradução francesa.
Repleto da linguagem paulina sobre os dons espirituais, «Les Dons de L’Esprit» -traduzido do inglês pela irmã N.Demole (6) -, é o primeiro comentário completo sobre os capítulos 12,13 e 14 da primeira carta aos Coríntios, segundo o próprio autor.
Esta tradução francesa de 179 páginas, considerada hoje raríssima( a edição é de 1947) no catálogo de alguns alfarrabistas on line, vale muito mais para além do último preço que encontramos( 20,00€), para um «usado». Indubitavelmente, o seu valor ronda os arcanos de toda uma memória histórica.
Do ponto de vista teológico, trata-se de obra de conteúdo que em primeiro lugar desafiou o próprio autor, durante cerca de 40 anos pregador metodista na Inglaterra. Familiarizado com os dogmas e doutrinas do Movimento Pentecostal, abriu de vez o seu coração e a sua visão à pureza-como ele mesmo escreve- dos dons do Espírito. No que concerne ao ensino pedagógico, este livro rendeu cedo a sua valia em escolas e seminários Pentecostais, como livro de texto, ao redor do mundo. E continua a ser um clássico, mundialmente lido.
Ora um exemplar desta obra foi oferecido a um dos delegados portugueses àquela Convenção de 49. O pr. Rogério Ramos Pereira. O livro está na biblioteca do autor destas linhas (seu genro) e tem a particularidade de estar autografado pela tradutora em dedicatória ao «cher Frére Pereira un souvenir da Conference de Paris, Mai 1949, N.Demoule»

_________________________________________
(1)-Novas de Alegria, nº79, Julho de 1949
(2)-Ez 47,5
(3)-James Salter(1890-1972)Pioneiro Pentecostal no Congo Evangelistic Mission
(4)-Noel Perkin, missionário que operou como piloto depois da II GM na Divisão de Missões Estrangeiras das Assembleias de Deus, USA. Um dos chamados Embaixadores de Cristo.
(5)- World Pentecost, Nr.44, Spring 1995, pág.22
(6)- Noémi Demoule, Vevey, Suiça

Friday, October 02, 2009

Call Center / Burocracia espiritual

Resposta:
"Obrigado por chamar os céus! Se é um Apóstolo, digite1; se é um Pastor, digite 2; se é um Líder de um Grupo Caseiro, digite 3...

de Pavablog, via Ab-Integro

Thursday, October 01, 2009

(Os) Codex Ephrem da Pós-Modernidade

Considerando que a Bíblia Sagrada é o Livro mais vendido, 5-6 biliões de cópias, e por conseguinte o mais lido, é natural que seja objecto de multiplas e díspares releituras, mesmo até por crentes e, com certeza, por ateus. E tais releituras são normalmente efectudas a dois níveis: ao teológico e ao antropológico; Deus e o Homem.
Os crentes procuram na Palavra divina o Pai; os ateus, os não-crentes, demandam quase de um modo edipiano contradizê-Lo e mesmo eliminá-Lo.
No século XVIII, sob uma particular visão socialista, Proudhon já relia certamente o apóstolo Paulo, alegando que as suas formas de ideal (quereria dizer doutrina ética e social, moral e espiritual, etc.)eram bem definidas, mas caducas.

Friday, September 25, 2009

A Cor da Rua Azuza, 312

A chama do Pentecostalismo, que deflagrou na Rua Azuza nº 312, e que a revista Life classificou assim como o 68º acontecimento do Século XX entre 100, foi um dom cristológico. Novamente a dunamis do Espírito Santo com idênticas características fundamentais das relatadas nos Actos dos Apóstolos.

Contudo, não deixou de ser também um fenómeno sociológico. Conduzindo a um avivamento espiritual, carismático, levou os crentes a quebrarem as barreiras rígidas da segregação racial.Se tivéssemos que estruturar uma sociologia da cor para o Movimento Pentecostal que (re)começou há precisamente um século (14-4-1906) naquela rua dos subúrbios de Los Angeles, do ponto de vista histórico, diríamos que o mesmo se mostrou a duas cores. O branco e o negro. Os reverendos Charles Fox Parham, metodista e reitor do Bethel Bible College, e William S.Seymour, respectivamente.

Os elementos afro-ariano-semita, forjados na ainda jovem mistura americana estavam a fazer a primeira explosão religiosa pentecostal e a criar um movimento clássico, com um sinal estatístico bem definido e claro, o da multiplicação.

A verdade foi que «pessoas de cor e uma pequena quantidade de brancos formaram essa congregação do nº 312 de a Rua Azuza» , podia ler-se há 100 anos no chamado Times de Los Angeles, na costa Leste também a notícia chegou e o The New York American, de 3 de Dezembro do mesmo ano 1906, escrevia que «um novo movimento religioso, formado por negros e brancos, estava a começar. A tradição metodista estava sendo misturada à religiosidade popular dos negros ».

O facto de os jornais locais, com especial mediatização no Los Angeles Daily Times, de 18 de Abril, chamarem a atenção para essa mistura racial colorida, levava mais longe a verdadeira natureza do fenómeno espiritual da chamada glossolalia, e, assim, não tiveram outras parangonas jornalísticas para usar senão «Weird Babel of Tongues» (Estranha Babel de Línguas).
Para a sociedade do início do século XX o que estava a acontecer, resumia-se a tal. Porém, não foi em vão que mulheres, homens e crianças de raças e culturas diferentes estavam a comungar da mesma Fé e dos mesmos charismas espirituais e o baptismo com o Espírito Santo, sendo evidente o sinal dos crentes falarem línguas estranhas.

O que alguns teólogos anglo-saxónicos, posteriormente, se referiram como «A Terceira Força do Cristianismo» (Christianity’s Third Force ), começou por ser, sob o poder de Deus, a entrega religiosa colaborativa de negros e brancos mais importante do século. Esta colaboração vinda de todos os lugares para aqueles três dias e três noites na 312 Azuza Street, fez mais pelo Mundo do que qualquer concílio mundial de igrejas ou movimento ecuménico.

O aspecto da não-discriminação racial é importante, sem dúvida, para caracterizarmos e estruturarmos o enorme crescimento do Pentecostalismo, que alguém já classificou como «a religião do coração».

Com efeito, mesmo referindo-se com algum criticismo «à mescla de brancos e negros em frenesim religioso», os jornais locais não puderam ignorar algo maravilhoso e fundacional, a comunhão interclassista e inter-racial dos primeiros cultos do movimento pentecostal.«As pessoas respeitáveis - como lhes chamava o Times da cidade de Los Angeles- que se tinham misturado com os negros vociferantes», reafirmaram no início do século o que Paulo havia escrito nos anos 50 A.D., com alcance universal, transcultural e multi-étnico, aos crentes da Galacia: «Dessarte, não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.» (3,28).

Os excessos religiosos sobrevieram depois, em ambas as comunidades brancas e negras. Bater com os pés no chão, tremer, gemer, gritar, rolar pelo soalho.

O escritor Erskine Caldwell relata na biografia do seu pai, Ira Sylvester Caldwell, pastor da Igreja Presbiteriana Reformada, o que foi a mudança dos hábitos calvinistas e fundamentalistas do velho Sul para o sério movimento da glossolalia. Salienta em «Os Mil e Um Sinos do Sul», assim se chama a obra, a intolerância racial segregacionista que impedia ainda que igrejas «construídas para brancos fossem conspurcadas por gente cuja pele não era de um branco indubitável». Mas sublinha, por outro lado, como os costumes religiosos desse tempo - os primeiros vinte anos do Século XX - foram alterados pela adoração informal a Deus, pela simplicidade revestida do Poder divino dos sermões «des-intelectualizados», pelo « murmúrio ininteligível da glossolalia ou da Língua Desconhecida, numa explosão de arrebatadas orações individuais, pronunciadas por toda a congregação », que se espalhavam já pelas igrejas, designadamente Assembleias de Deus, Igreja de Deus, Igreja do Nazareno, Igreja do Pentecostes, etc.etc. e até por algumas denominacionais reformadas.

O percurso do livro citado não refere explicitamente a Rua Azuza, uma vez que se radica à história religiosa protestante do Sul dos Estados Unidos, mas é óbvio que se estrutura no Movimento Pentecostal iniciado na California e que incendiou, no princípio do Século XX, toda a América do Norte e do Sul e a Europa nórdica.
E o que hoje representa o Movimento Pentecostal no mundo, será credor do mesmo juízo que nos idos de 1958 a já citada revista Life escrevia: «é o movimento cristão de mais rápido crescimento no mundo actual, dotado de tanto dinamismo que se ergue, juntamente com o catolicismo e o protestantismo histórico, como a terceira força da cristandade».

Tuesday, September 22, 2009

No prelo: "Da Pequena Sala em Aradas"



Um breve excerto e sinopse:


No jornal brasileiro Mensageiro da Paz, de Outubro de 1966, o Pastor Rogério Ramos Pereira escrevia, a propósito de Aveiro e da necessidade de um verdadeiro Pentecostes e não tanto de um protestantismo, que a cidade era «um campo novo que reclamava uma visitação do Evangelho do Poder de Deus».

«Numa localidade chamada Aradas, apareceu uma pequena sala e ali foram feitas as primeiras reuniões», escreveria em notas manuscritas para a sua família, quase cinquenta anos depois no seu derradeiro ano de vida, em 2007, a cristã Adriana Pereira, viúva daquele pastor e fundador do trabalho da Assembleia de Deus em Aveiro.

Partindo do locus histórico que foi essa pequena sala, estrutura-se este pequeno livro que, ao cabo de meio século, pretende ser apenas uma história não de 50 anos, mas como estes se iniciaram desde 1959.

Monday, September 21, 2009

Moleskine (7)

. 1. Sou uma impressão digital numa janela do último andar do Empire State. Deus vê-me de perto mais do que os homens.

2. A senhora idosa que fala com os gatos, da varanda traseira do nosso prédio, vê-se reconhecida por eles. Percebem a palavra peixe.

Thursday, September 17, 2009

O lado bíblico da História

A Exposição aos Hebreus tem pouquíssimas marcas do seu tempo, contextualizações e referências contemporâneas(quase todas nos últimos sete versículos) e no entanto tem um capítulo que é uma espécie de sumário do Velho Testamento, uma historiografia da Fé.

Não mostra nome de autor, por evidências internas no texto (5,12-13; 13,23) a garantia de ter sido escrita pelo apóstolo Paulo não é definitiva, nem tão pouco por Pedro (11,7; 13,20), não obstante o que poderia parecer evidente. Também não por Apolo, embora Lutero lançasse por muito tempo hipóteses. Apenas para citar termos empregues que estão na linha de pensamento e expressão, ou referências históricas pessoais daqueles dois apóstolos e autores bíblicos, atentos à estrutura estilística de algumas frases.

Tão-pouco se dirige a alguma igreja territorialmente implantada. Quando se refere a uma, no sentido de assembleia, fá-lo de uma forma universal e, digamos assim, cósmica e espiritual: a universal assembleia dos santos, a paneguris ekklésia.

No entanto, é uma epístola que pode ser designada como historiográfica porque também trata de História, a história do povo hebreu, na perspectiva mosaica, e a referência dos factos da fé dos patriarcas antes da história.

Se o povo judaico tem como livros históricos alguns Livros da Bíblia, logo Sagrados, o cristianismo é uma religião de historiadores, no dizer de um dos fundadores da Escola dos Annales, o historiador francês Marc Bloch, fuzilado em 1944 pela Gestapo.

A História constitui-se por aquele conceito que o seu designado Pai, o grego Heródoto, definiu como tentativa do homem sistematizar o conhecimento das suas acções ao longo do tempo. O que para Heródoto eram sobretudo Pesquisas, e assim as significou. Fossem as acções da intervenção de Deus na humanidade, fossem as dos homens, nas diversas Histórias das civilizações e do Homem.

A intervenção histórica de Deus no mundo, na história dos homens, através da Palavra, dos elementos comunicacionais voz-lógos, está bem reflectida neste prólogo da Epístola:
«Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho.»
Aqui se evidenciam os ecos do passado de uma Lei em confronto com os cânticos alvissareiros do futuro do Evangelho, centrado numa Pessoa, a pessoa divina do Filho.

O que principalmente é feito, é para mostrar como foi importante no passado o sistema Mosaico, que não seria bom ao Cristianismo primitivo na Palestina desprezar, porque do seu valor se sobrevalorizavam as palavras de Jesus Cristo no presente, tornando todo o Evangelho e, digamos, o sistema da Graça melhor, uma palavra especial (adjectivo comparativo, no grego) em toda a epístola, exprimindo a ideia de mais forte e, consequentemente, mais capaz.

Hoje, a Exposição aos Hebreus, apesar do seu anonimato, é lida à luz da Graça divina, como antigamente o foi, por exemplo através dos olhos de alguns dos chamados Pais da Igreja, no período anterior à Patrística. O olhar de Clemente Romano foi um desses, ao escrever a sua epístola não canónica aos Coríntios, tomou de empréstimo frases e inúmeras citações da Carta aos Hebreus.

A História estabelece um diálogo do passado com o presente, a dicotomia do «antigamente» e «últimos dias» reforça o interesse de Deus pela humanidade desde os primórdios do tempo até aos dias da derradeira dispensação, a da Graça, que estamos a viver.

A História desenvolve-se no binómio espaço-tempo, a História Divina traz ao tempo e ao limite do espaço a eternidade, na grande salvação que Jesus Cristo proporcionou aos homens.

A Carta aos Hebreus, numa boa parte de si própria, é essa História da intervenção do Divino no regaço histórico de uma nação, Israel, e de um povo, o judeu, e de uma cultura civilizacional judaico-cristã.
«É na duração da história que se desenrola o grande drama do Pecado e da Redenção, eixo central de toda a meditação cristã» - escreve aquele já referido e incontornável historiador francês.

À história desse grande drama que foi a Queda do Homem, caberia como grandioso e único recurso salvífico, o que a epístola aos Hebreus considera «grande salvação».
«Como escaparemos nós, se não atentarmos para uma tão grande salvação »- proclama o autor da epístola, do ponto de vista do significado (da Teologia) e dos factos( da História). Salvação do pecado e do inferno, é chamada de «grande» porque é grande o Seu Autor.

«O sentido é que não há outro caminho de salvação, e o abandono desta será seguida de destruição. Razão pela qual o apóstolo mostra que este plano foi proclamado em primeiro lugar pelo Senhor mesmo, e depois confirmado por milagres.»
Escreveu estas palavras, em seus comentários o dr. Albert Barnes – que o The New York Times no dia do seu funeral, em 1870, chamou de eminente clérigo – que foi mais o pai do presbiterianismo nos Estados Unidos.

A historicidade da Carta, mormente no cap.11, é argumento que consolida e que sustenta a Fé, como sendo esta o que é, um veículo que conduz à aceitação da Salvação. É, outrossim, um meio para manter acesa a chama da nossa atenção. Para escapar de factos que decorrem da Queda humana, do Pecado e da consequente inimizade com Deus, «como escaparemos?» desse facto da história da humanidade, senão pela reconciliação com Deus, através da Salvação anunciada e concluída pelo Senhor?

Por fim, o próprio versículo-chave que define a Fé (11,1) não será ele um modo de colocar a mesma Fé no caminho da História dos homens, designadamente da história daqueles que crêem, povos ou homens individuais? Não será uma janela que nos transporta a outra dimensão, que questiona a própria História no seu futuro? Não tanto um texto de Meta-História, a História por trás da História, mas o que está adiante de nós na nossa história pela Fé. O que já se alcançou, ainda não alcançando.

Saturday, September 12, 2009

Moleskine: (6) O falso rio?

«Banias», a fonte principal do Rio Jordão. Postal antigo.
Rio Jordão. Um falso rio ?
A metáfora do que começa no Orvalho, na altitude da vida espiritual, e morre da morte do Mar Morto. A vida espiritual do tumulto até ao estiolamento. Muito típico dos pós-avivalismos modernos.
Ou o rio que vive até ao mar?

Wednesday, September 09, 2009

Haiku Bíblicos

HAIKU nº 1 e 2 (Na Transfiguração)

A nuvem desceu-
veio relembrar aos homens
que eram humanos


#

A nuvem desceu
para aliviar os olhos
de olharem o Sol

Monday, September 07, 2009

Moleskine: (5)


Na mesma folha:
¨¨O Apóstolo Paulo nunca se deixou assumir como um produto cultural das opiniões do seu tempo. Pelo contrário, Paulo foi um líder de opinião.
¨¨Soteriologia. Parece-me que há releituras desadequadas desta Doutrina, no que concerne ao pós Salvação: deixar de ter medo de Deus, passar a ter medo do Diabo. (editei no Facebook e motivou uma discussão teológico-filosófica)

Saturday, September 05, 2009

Moleskine: (4) Campanha eleitoral

Entre dois parêntesis, escreve sobre a campanha eleitoral, qualquer campanha eleitoral. Imagina quatro (ou cinco) num estúdio, fechados à volta da mesa, sem janelas, sem grelhas, os quatro. Diz cada um: «O inferno são os outros». ( «Pas besoin de gril: l'enfer, c'est les Autres.»

Thursday, September 03, 2009

Haikus Cristianos

Como uma árvore
o justo tem as raízes
na torrente azul

(Salmo, I, 3)

Publicado in Haikus Cristianos, site de Miguel de Luis Espinosa

Wednesday, September 02, 2009

René Padilla: Mordomia da Criação

«Um dos maiores teólogos da América Latina, na actualidade, René Padilla, também presidente internacional do Tearfund, discorre sobre a crise ambiental, as mudanças climáticas e a mordomia, a propósito da reunião da Rede Miqueias, em Julho passado, no Quénia. Na ocasião foi produzido um importante documento estratégico, a "Declaração sobre Mordomia da Criação e Mudanças Climáticas", de que o Desafio Miqueias fez eco em Portugal.»

Tuesday, September 01, 2009

Poema de um cultor de livros

inédito do poeta, e amigo, Brissos Lino

No pó dos velhos livros
por entre as folhas numeradas
do conhecimento
nas dobras de todas as ciências
e saberes
no miolo das austeras capas de couro
já ninguém consegue encontrar hoje
a Sabedoria
alguém a viu fugir
há muito
voou por uma janela aberta
escapou em direcção às pessoas
de carne e osso.

1/9/09


Monday, August 31, 2009

Moleskine: (3) - "Equívocos denominacionais"


“Todos têm o direito de crer, valorizar e defender pontos de vista estruturantes da sua denominação, e de defender um património histórico, desde que isso não os cegue para a evidência de que o Corpo de Cristo não se esgota nesses estritos limites.” - é, do meu ponto de vista, a síntese de todo o bom e útil artigo do Brissos Lino.

Acrescento: se divulgamos que Cristo é o centro, não no sentido do Cristocentrismo cósmico teilhardiano, mas no de Paulo ( Gálatas, 3,28), então as denominações (apesar das suas legítimas fundamentações históricas) são por natureza periféricas a esse Centro, Cristológico, e podem correr o risco de se perderem em algum buraco negro da órbita. (Nosso comentário no Facebook)

Ler artigo em A Ovelha Perdida

Saturday, August 29, 2009

Moleskine: (2)

Todo o homem tem, queira o não queira, um problema, ou melhor, O problema com Deus.
É do domínio da ontologia, da epistemologia e da teologia. Mas tudo isto, que são ciências humanas, pesquisas, equações para a resolução de O Problema, está aquém de Deus.
Todo o homem ao ter O problema com Deus, resolve-O a seu modo: uns convertem-se através de Cristo; outros, ignoram-no; outros ainda mais trágicos, suicidam-se. Há os que se justificam e escrevem livros: Saramago desde "O Evangelho..." até agora este novo «Caím», revela o que há muito se sabe, que tem um/O problema com Deus. E procurará sempre até à sua morte, justificar-se. Uma coisa é certa: Saramago não é ateu! Nem matou Deus.

Thursday, August 27, 2009

Moleskine: (1)

(Os) Codex Ephrem da Pós-Modernidade ( marca registada!). Os palimpsestos pós-modernos, as rectificações de doutrinas fundamentais, as releituras enviesadas da Bíblia, os Sartres, os Saramagos, etc. Mas também os autores que eu chamo de «culto» evangélicos, que escrevem sempre para Soli Deo Gloria. Prosas do século 20 e 21. Esboço para artigo/ensaio.
Não sei se vou ter paciência e instrumentos para raspar…

Monday, August 24, 2009

Mel: Cantos da memória

Mel, de Tonino Guerra, em dialecto romagnolo e italiano.

CANTO NONO (CANTÈDA NÓV)

Terá chovido durante cem dias e a água infiltrada
pelas raízes das ervas
chegou à biblioteca banhando as palavras santas
guardadas no convento.

Quando tornou o bom tempo,
Sajat-Novà o frade mais jovem
levou os livros todos por uma escada até ao telhado
e abriu-os ao sol para que o ar quente
enxugasse o papel molhado.

Um mês de boa estação passou
e o frade de joelhos no claustro
esperava dos livros um sinal de vida.
Uma manhã finalmente as páginas começaram
a ondular ligeiras no sopro do vento
parecia que tinha chegado um enxame aos telhados
e ele chorava porque os livros falavam.


O Mel, de Tonino Guerra, da Assírio & Alvim, Fevereiro de 2004, Trad.Mário Rui de Oliveira.

Saturday, August 22, 2009

A morte dos outros

Simone de Beauvoir escreveu um romance capital sobre as revoluções, os que mandam à frente os outros e acabam por sofrer da culpa do sangue que os outros derramam. É o Sangue dos Outros.
Ontem na praia Maria Luisa, foi a morte dos outros que aconteceu. Dentro da nossa capacidade de percepção, dentro da nossa redoma de vida, o que conhecemos da Morte é que Ela é sempre a do outro! É nesta perspectiva que sempre A podemos ver: "Não, não foi aqui. Foi em Albufeira." A Morte é sempre em outro lugar.

Isto vem a propósito da crónica que o meu amigo Jacinto Lourenço escreveu no seu blog. Aqui

Friday, August 21, 2009

O Fim da História e o Início dos Institutos Bíblicos

Em Confeitaria Cristã



Desde 1989, fala-se muito do fim da história. Desde que Francis Fukuyama pegou, política e sociologicamente, nos pedaços de cimento e ferros do Muro de Berlim. Já se disse também que a história não merece confiança absoluta, porque quem a escreve são apenas homens.
É nesta perspectiva que me coloco, entre a história dos princípios das Assembleias de Deus, sobretudo no Brasil, o fim dessa mesma história com o surgimento das ditas igrejas neo-pentecostais, e, passe a redundância, a instituição dos Institutos Bíblicos, nem sempre bem aceites pelo pensamento de alguns intervenientes dessa mesma história. Continuar aqui

Monday, August 17, 2009

"Não creia na Bíblia", mas na palavra do Profeta

Justificar completamenteBíblia de Estudo Batalha Espiritual & Vitória Financeira.
Dr. Morris Cerullo

"A Bíblia de Estudo Batalha Espiritual e Vitória Financeira foi projetada para levá-lo a uma nova posição de poder e vitória em todas as áreas da sua vida, embora o foco esteja em duas áreas: a batalha espiritual e a vitória financeira" - publicidade na Internet
«Assim têm surgido as bíblias disto e daquilo, para todos os gostos. Mas não me refiro a edições como a Bíblia da Mulher, Bíblia Teenager, Bíblia do Ministro, Bíblias de Estudo e outras do género, pois normalmente não são mais do que adequações da apresentação (formato, capa, tamanho de letra, destaques, mapas, tabelas, etc.) co m vista a públicos definidos.
Refiro-me a uma outra coisa, que se reveste de contornos de gravidade, e que entra no campo da manipulação e do abuso da boa fé das pessoas, tendo em conta a sua ignorância. Um dos últimos exemplos disto é a Bíblia da “Batalha espiritual e vitória financeira”, recheada de comentários altamente controversos (para não dizer pior) de Morris Cerullo, cuja propaganda afirma “Creia na palavra do Profeta de Deus”. Assim mesmo. O importante já não é crer na Palavra de Deus, mas na palavra de um homem que se intitula “Profeta de Deus” (com P maiúsculo, sim!). A Palavra de Deus foi substituída pela palavra do homem!…» Ler Aqui

Thursday, August 13, 2009

Jesus Bar-Abbâ

Tinha um rosto que já não temia nada, mesmo existindo poucas pessoas com vontade e heroísmo suficientes para lhe bater.
O seu corpo como um aríete talhado em rija madeira das acácias do Sinai, a sua tez escurecida tanto pelo sol do deserto como pelos luares, quando se escondia nas dobras da noite entre pedras nas estrada de Jericó para Jerusalém, os suas mãos que se meteram pela morte dentro, que a tratavam por tu, dissuadiriam qualquer afoito.

Até a sua voz, cava das profundidades dos pulmões, com o próprio som grave do seu nome. Apesar de induzir laços familiares, pois significava o «filho do pai». Era um nome que se impunha.

Por isso, mais uma sedição, menos uma, a sua reputação estava já estabelecida.
Exercia o terrorismo como uma linguagem de ferro para penetrar na cabeça do império romano, na dureza dos cérebros sob os capacetes dos legionários que ocupavam a Judeia.

Há muitos séculos, um pouco mais de mil- diziam os Livros-, houve os filisteus, mas bastaria um dos cinco seixos polidos e a funda de um pastor; agora eram os romanos, porém todos se acomodaram às armaduras de Roma.

Por tudo, mesmo na prisão, era um rosto que nada tinha a temer. Nem o seu nome temia mais impropérios do que aqueles que se ciciavam no medo, o seu nome não era próprio, era, a bem dizer, um título.
Filho fosse de quem fosse, seria uma pedra no sapato do equilíbrio que Sinédrio e a fortaleza Antónia queriam aparentemente manter.

E nesse meio-dia de sol encravado na aspereza da terra da Palestina, o desequilíbrio estava instalado, o balanço pendia para os lados da injustiça.

-É sempre assim na festa, uma substituição deveria ser o nome da Pessach(Páscoa judaica) - dizia um preso que, à parte o seu aspecto de rosto, corpo e roupas já no fio, parecia ter um pensamento próprio sobre certas coisas.

A troca, a substituição, era isso que se propunha à sanha da multidão acéfala e aos representantes da religião. Um inocente por um culpado.
Não parece que ao longo dos mais de vinte séculos que nos separam desse evento, do ponto de vista da justiça humana, as coisas tenham mudado muito.
Crónica para o Diário de Aveiro

Por que não sou neopentecostal

Aqui

«O neopentecostalismo é uma praga, uma verdadeira pandemia surgida nos meios cristãos, que tem arrastado multidões, enganadas e manipuladas por falsas promessas e doutrinas heréticas. Tem semelhança com o Cristianismo mas nega a sua essência. Essas auto-denominadas igrejas nãopassam de seitas neo-pagãs, de fachada cristã.»

Texto que adianta razões simples, da alma e da razão, da autoria do Pr.Brissos Lino.

Monday, August 10, 2009

O drama de um mito

Há 47 anos, em 5 de Agosto de 1962. Li nos jornais, na Costa da Caparica.

Marilyn Monroe

"made your lips more real with lipstick"
Allen Ginsberg

Tornas os teus lábios mais reais
Com baton, os teus lábios
Vermelhos
Engolem uma plateia
Cheia de olhos.

16/1/2008

Wednesday, August 05, 2009

A religião do socioeconómico

Por muito que procurem evidenciar o contrário na estrutura religiosa e popular do seu discurso, existem hoje «igrejas» que ao designarem-se como centros de ajuda espiritual, querem governar Deus. -«Vamos buscar esse Deus- proclamam-, preparem o copo de água».
Nos seus conceitos ditos cristãos, nem Deus, nem Jesus Cristo estão no centro da Revelação, a importância revelacional vai toda para o que é socioeconómico, para não falar de ícones periféricos ( isto é, copos de água, fogueiras santas, monte de Sinai, cruz de fogo, etc.), como transferências do profano para o sagrado ou a necessidade de uma presença «sagrada» visível e palpável, no dizer de Roger Caillois.

O que se tenta fazer, numa homilética manipuladora de massas normalmente carentes, umas, e outras ambiciosas, é a compatibilização do incompatível, teologia e ciência económica, cristianismo e mercado, espírito e matéria, Deus e Mamom.

Alguns desses líderes da ajuda espiritual contribuem, irreflectida e inconscientemente, para o pensamento do século XIX, de Ludwig Feuerbach, segundo o qual todos os conceitos de Deus são invenções humanas, sejam eles cristãos ou não, e se projectam das esperanças ou dos temores humanos.

O homem após ter-se perdido de Deus, «reencontrou-se» em si próprio, é o resultado em palavras simples a que a crítica religiosa de Feuerbach chega. O homem convencido da sua incapacidade de realizar, pelos próprios meios, a verdade, o bem, o amor, projecta esses atributos humanos para fora de si e cria um ser superior a que chama Deus. Assim, conclui o filósofo, esse Deus prejudica a boa vontade do homem.

Entre outras incursões, Feuerbach levou seu pensamento para o materialismo. E com este foi levado à crítica religiosa, e no entanto escreveu a sua obra máxima que foi A Essência do Cristianismo. Mas atenção, como se sabe, esta obra é uma crítica ao Cristianismo, com ela conseguiu fazer que Marx reformulasse o seu idealismo hegeliano e se mudasse para o trono do materialismo. A tal ponto que Engels, o amigo de Marx, saudou assim esse novo materialismo: «fora da natureza e dos homens nada há, e os seres superiores criados pela nossa imaginação religiosa não são mais do que o reflexo fantástico do nosso próprio ser.»
Esta essência do cristianismo não propunha Cristo nem uma teologia, propunha uma antropologia e o Homem no lugar da divindade. O ser humano projectando Deus.

Mesmo agora, uma ideia de Deus começa a tomar forma em vocábulos como «triunfar», «alcançar objectivos», «projectos» e «fé», como palavra mágica. Estes termos fazem parte do discurso, numa dicção suavemente carregada de sotaque das Américas. E pretendem que o Senhor fique às ordens de bispos, pastores, obreiros, que o tratam no mesmo tom de voz, como um Deus que se demove por dicções de pseudo-psicologistas, pelas palavras com lágrimas dentro, e não no sacrossanto Nome do Seu Filho Jesus Cristo.

Salvaguardadas as devidas proporções, porque longe de mim guindar tais centros religiosos à categoria de dotados intelectualmente, existem no entanto auto-designadas «igrejas» que logram criar um deus governável pelos líderes, um deus a quem se manda fazer, determinando já o homem a vitória.
Tais «organizações», evito agora chamar-lhes igrejas, parece que pretendem notabilizar a ideia filosófica segundo a qual Deus é a projecção exterior dos desejos do homem, não já como Feuerbach defendia, do desejo de perfeição do homem, mas de algo que o hedonismo económico e o anseio de prosperidade trouxeram nos últimos 30 anos do século XX, acentuando-se neste início do XXI de uma forma pouco normal.

Tuesday, August 04, 2009

apócrifo

para os companheiros j.t. parreira e brissos lino, com respeito

além da ambição de construir e espalhar prédios cada vez mais altos, fulano de tal gastou os anos tentando demolir o mito chamado jesus. estava às vésperas dos 90 anos e não tinha certeza de atingir seus objetivos, apesar da fortuna acumulada, das concorridas conferências mundo afora, dos artigos disputados pela imprensa. apesar, suspirou com um débil sorriso, contemplando o resultado de um trabalho que consumiu seus últimos 20 anos: estava em sua graphica - carinho com que distinguia sua tipografia -, e dava os últimos retoques na capa em couro de um evangelho apócrifo, em hebraico. de repente, não sabia se houve uma queda de energia ou sua visão falhara. mas o coração rugindo/miando/rugindo/miando no peito deu-lhe a certeza: estava morrendo. teve apenas o tempo de murmurarar um débil "jesus!".

samuca santos

Publicado no Recanto das Letras em 03/08/2009

Monday, August 03, 2009

A Visita

Trazia o corpo
arrastado nos sapatos
gastos, com uma história
de buracos negros sucessivos

Os seus silêncios
eram de incenso, o cheiro divino
do lume
e as suas mãos tinham dedos infrangíveis
para tocar as notas da chuva
que bate nos vidros

Trazia os olhos naturais
neles não havia fundo, vogavam
apenas como se espalhassem um perfume.

9/2/2009