Thursday, May 06, 2010

Saraiva Martins prefere atirar lama a assumir o escândalo

O cardeal Saraiva Martins já nos habituou a declarações patéticas, e apresenta-se invariavelmente como “mais papista que o papa”. Em entrevista recente ao jornal “I”, Saraiva Martins, sobre o tema da pedofilia entre os sacerdotes católicos, na sua ânsia de tapar o sol com a peneira, dispara em todas as direcções. Afirma ele: “noutras religiões em que não há celibato, há mais pedófilos”, querendo afastar o celibato da pedofilia, e acrescenta: “e isso é a prova evidente de que não existe qualquer relação.”Primeiro, Saraiva Martins não tem elementos sobre as outras religiões para afirmar que há lá mais pedofilia, deixando claro que estará apenas a sacudir a água do capote. Segundo, não há uma vaga de notícias do tema e um escândalo global nas outras religiões como na católica. Terceiro, não consta que casos isolados noutros contextos religiosos tenham sido sistematicamente abafados como na igreja católica. Quarto, as outras religiões não estão organizadas em sistema de pirâmide, como a católica, nem têm um Vaticano, por isso a responsabilidade de eventuais situações será sempre local e não mundial. Por último, ficava melhor a Saraiva Martins assumir o escândalo (como de resto já fez o papa) em vez de atirar lama para cima dos outros…

Via A Ovelha Perdida

Wednesday, May 05, 2010

À beira do abismo



Poema inédito e especial do poeta Rui Miguel Duarte

À beira do abismo
todos tremem os joelhos
e vacilam a voz

À beira do abismo
se a uns
falece a alma no olhar
a outros
desfalecem os membros
e fremem de atracção
que não podem nem querem
refrear, como por uma amante
misteriosa e fatal

Quantos foram traídos
tragados pelas fauces do abismo
de longe os pés laçados
pelo tentáculos do kraken
e os olhos quebrados
na silente profundidade?

outros exigem que os amarrem
ao mastro como Ulisses,
não se vão eles afogar
na perscrutação dos segredos
do canto das sereias

outros ainda que
diante do abismo
elevam as mãos e o coração
aos céus e cantam os corinhos
de louvor à grandeza do Senhor
do culto do último domingo

2/05/10

Monday, May 03, 2010

Apontamentos: Stuart Mill e o conceito de perseguição religiosa

História religiosa, Cristianismo, movimentos da Reforma, verdade e perseguições andam ligadas na filosofia social sobre a liberdade de John Stuart Mill.
O filósofo social do século XIX defendia que a verdade só triunfava das perseguições, se estas afrouxassem. Lemos no seu célebre Ensaio sobre a Liberdade.

A partir do Novo Testamento, designadamente do seu livro de História da Igreja, as perseguições ao Cristianismo, leia-se aos do Caminho ou aos cristãos, iam contra as mulheres e os homens e contra os signos do reconhecimento entre a comunidade dos crentes de então.
Os signos/sinais, remotamente distantes ainda dos estudos de semiologia, serviam de identificação e também de um escudo.

O atributo dos cristãos, o objecto significado na palavra peixe, IKhThUs representava as iniciais das palavras Iesoûs Khristós Theoû Uiós Soter «Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador».
No livro «Chaves para a Semiologia», este sinal dos cristãos é apresentado na sua magnificência histórica como um paradigma: «Foi, pois, graças a um jogo de palavra que o peixe, sumariamente traçado, se tornou o signo de reconhecimento entre os cristãos.» (pág 71, Universidade Moderna, D.Quixote, 1976).

Este signo, entendido apenas pela comunidade dos crentes, escondia-os aos olhos dos perseguidores romanos. Quando o signo aparecia, os utilizadores estariam ausentes. Nas paredes das catacumbas, no grafismo das paredes. Era um sinal da Verdade.
Tal Verdade não foi destruída pelas perseguições, nenhuma fogueira, nem rugido de fera, nem garras dilacerantes nem dentes como punhais de cada leão lançado aos cristãos acabou com a verdade.

A verdade nem sempre triunfa da perseguição?
Stuart Mill escreve que «história abunda em exemplos da verdade emudecida pelas perseguições». Nem sequer ficou incógnita durante séculos, como parece defender o autor. A Verdade, na sua actividade de testemunho, de pregação, de evangelização, pode ter passado por momentos de menor expressão e exuberância histórico-religiosa, mas jamais diminuída ou suprimida na sua essencialidade.
O autor particulariza a sua opinião religiosa e parece ter um preconceito anti-protestante, invocando que depois da Reforma luterana «o protestantismo foi a terra, foi extirpado» em Espanha, na Itália, na Flandres, na Áustria. «Sempre que avançaram na perseguição, esta vingou» - diz Mill.

Na Igreja Primitiva neo-testamentária a perseguição judaica consistiu num estímulo para o crescimento da Igreja. Mas as perseguições irromperam antes do período pós-Saulo. Imediatamente a seguir à Crucificação de Jesus Cristo, no próprio dia antes da Ressurreição e no Domingo da mesma, como se pode classificar o medo dos discípulos?
Senão como resultado de um espírito de perseguição latente por parte, sobretudo, dos componentes judiciários do Sinédrio, dos fariseus, dos príncipes dos sacerdotes? Ou mesmo dos judeus de um modo geral ?

Diríamos mesmo que a perseguição aos seguidores de Jesus começou na noite da prisão
do Senhor. Foi no sentido de obstar a uma perseguição logo ali perpetrada contra os seus seguidores, os discípulos, que Jesus disse aos guardas que «se pois me buscais a mim, deixai ir estes»- narra o Evangelho de João. O evangelista Mateus descreve sem eufemismos a cena, ao narrar que « então, todos os discípulos, deixando-o, fugiram».

Thursday, April 22, 2010

Os vigilantes da noite


inédito especial para os Papéis do poeta Brissos Lino

COMO UM MOCHO

“(…) sou como um mocho nas solidões.”
(Salmo 102:6)



Como vigilante da noite
guardo solidões
embrulho silêncios
desenho sombras com o bico
enquanto aguardo ruídos susceptíveis
rumores próximos da alvorada
voo silenciosamente
entre fios prateados de lua
com penas de seda afago
fantasmas medievais

os meus olhos redondos
desabrigam o terror
dos que se escondem de mim.

21/4/10


(Brissos Lino)

Sunday, April 18, 2010

E o Islão aqui tão perto...


Islamismo versus Protestantismo, em Marrocos, tão perto da História, de Espanha e de Portugal, para ler a notícia aqui, no El Pais:

Rabat expulsa a más de 80 protestantes y a un católico desde marzo acusados de "proselitismo" y de "querer quebrantar la fe musulmana"


Saturday, April 10, 2010

«Será a Bíblia um Livro de maus costumes?»

Palestra e Debate público na Universidade de Aveiro, realização do GBU. Emissão no programa «Luz das Nações», na RTP2, no dia 8 de Abril.

A minha igreja por uma criança


Dirão que está fora do contexto. Porventura não.

Começou a circular uma carta escrita em latim na qual o cardeal Ratzinger, enquanto perfeito da poderosa Congregação para a Doutrina da Fé, se opôs à destituição de um padre norte-americano acusado de práticas pedófilas «para bem da Igreja Universal». Os abusos sexuais sobre crianças são menos importantes que o «bem estar» ( seja isto o que for) da Igreja Católica.

Na parte final do drama Ricardo III de Shakespeare, o rei clama:
- «A horse! a horse! my kingdom for a horse!» O contrário, exactamente, de Ratzinger.
Shakespeare termina a fala de Ricardo III, indicando «exeunt», isto é, que a personagem sai de cena. É um vocábulo próprio na linguagem teatral, o abandono do palco.
Por aqui me fico.

Sunday, April 04, 2010

A murmuração dos helenistas contra os hebreus


O evangelista Lucas dedica nos seus Actos dos Apóstolos apenas um parágrafoàquele que foi um grande problema, não tanto pelo seu significado e duração, mas porque foi fundacional para a instituição do diaconato na Comunidade cristã de Jerusalém.
«Ora, naqueles dias, multiplicando-se o número dos discípulos houve murmuração dos helenistas contra os hebreus»- 6, 1

No plano social, as viúvas dos cristãos originários das cidades gregas não eram tratadas com simpatia devida pelos cristãos aborígenes da Palestina, de Jerusalém, da Judeia e da Galileia. Uns e outros eram Judeus. Uns da Dispersão, outros autóctones. Lucas enfatiza com um simples lexema («esquecer»), a causa da problemática questão: essas viúvas estavam a ser desprezadas e esquecidas nas refeições diárias.Este esquecimento está marcado no texto de Lucas com um termo grego (paratheoreo) que induz acção interior e exterior, a negligência dos sentimentos reflectida no descuido do olhar, do olhar por alto, do desprezo.

Aparentemente, parece-nos ser um problema meramente social, com traços de xenofobia, sabendo nós como sabemos que os judeus sempre enraizaram em si uma tendência para a exclusividade, quer religiosa, teológica e, por fim, social. A verdade é que a questão suscitada na Igreja de Jerusalém vai para outro plano. É civilizacional e do âmbito da cultura.
Como divergências de conteúdo transcultural, digamos assim, podem influenciar a Igreja de Deus, temos aqui a prova histórica no relato lucano. Mas tais divergências não foram obra do acaso, nada do que concerne aos Planos divinos na história do homem é por acaso. Contribuíram para o crescimento e expansão da Igreja, foram com a perseguição que a seguir eclodiu a pedra de toque da crise, em sentido teológico e neo-ortodoxo de mudança.
Problemas administrativos
Não apenas pelo facto histórico, mas pelas suas consequências fundacionais, o escritor bíblico regista que o crescimento da obra de Deus começou a ocasionar alguns problemas administrativos, pois o grande número de crentes tornava o governo da Igreja apenas sobre a superintendência dos apóstolos desajustado das realidades.
A expansão numérica era quantitativa, mas era obra do Espírito Santo, o reajustamento a essa realidade teria de ser obra administrativa dos homens dados pelo Senhor à Igreja. O discernimento dos problemas e a aplicação das soluções por parte dos apóstolos foram registados na historiografia da Igreja, tanto por Lucas, autor sacro, como séculos depois por Latourette, na sua extraordinária História da expansão do Cristianismo.
Havia dois grupos nesta queixa, os hebreus e os helenistas, e deste segundo partiu a queixa, pois havia muitas viúvas helenistas que vinham a Jerusalém para encerrar seus dias, e por isso, as vezes enfrentavam dificuldades financeiras grandes, o que fez com que os demais helenistas cobrassem da Igreja o auxílio aos seus pobres – é por norma esta a referência que os vários comentários bíblicos exibem.
A verdade é que tal discriminação poderia ter uma base na acção social condicionada por dificuldades financeiras dos crentes e da respectiva igreja. No entanto, em profundidade observa-se que a capacidade de subsistência financeira e económica da novel igreja em Jerusalém não era desprezível. A Igreja Cristã primitiva não começou com a discussão entre judeus e helenistas sobre a situação de precariedade de algumas mulheres crentes que sofreram o infortúnio de enviuvar, nem começou com a eleição de diáconos; se há uma data da fundação da Igreja, estivesse pessoalmente em Jerusalém ou na Galileia, se existe um início da sua fundação, estão logo após o dia da Ascensão do Senhor Jesus Cristo.
A partir daquele evento, testemunhado pelas esferas celestiais e o mundo dos homens, vemo-la em funcionamento. Actos 1, 8-12, designadamente este último versículo, refere que os «varões galileus» voltaram para a cidade, desde o monte das Oliveiras, e começaram as reuniões cristãs evangélicas, no cenáculo, e iniciaram a perseverança «unanimemente em oração e súplicas, com as mulheres, e Maria, mãe de Jesus, e com seus irmãos.»
A acção social da igreja em Jerusalém seria notada, nos aspectos práticos e espirituais entre os seguidores do Caminho, e sublinhada pelos próprios judeus seguidores de Moisés e da Lei. «Caindo na graça de todo o povo» a igreja crescia.O cronista inspirado, o evangelista Lucas regista os acontecimentos que estruturam a ideia de bem-estar financeiro, de crentes possidentes, com meios de fortuna, propriedades e trabalho fixo, quando nos dá conhecimento do peculiar sistema de «comunismo cristão», exclusivo da igreja em Jerusalém. É verdade que existia um tipo de “comunismo” na igreja de Jerusalém, mas era totalmente diferente do comunismo como o viemos a conhecer historicamente no século XX.Alguém escreveu a propósito da recensão literária ao livro de Johannes G. Vos (1903-1985) com as lições que produziu sobre o Catecismo Maior de Westminster de Janeiro de 1946 a Julho de 1949, in The Westminster Larger Catechism: A Comentary:
«É claro, portanto, que o “comunismo” temporário da igreja em Jerusalém não era uma questão de princípio, mas de contingência em face das condições peculiares àquele tempo e lugar. É extremamente insensato, anti-bíblico e anti-histórico apresentar o estado temporário das ocorrências na igreja de Jerusalém como análogo ao comunismo moderno, ou como um padrão a ser imitado pelos crentes em Cristo de todos os lugares.»

«Todos os que criam estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam suas propriedades e fazendas e repartiam com todos, segundo cada um tinha necessidade» (2,44,45)
Sistema que preponderou em importância, uma vez que Lucas volta a referi-lo em 4.32.34E faz notar uma evidência que retrata as excelentes condições económicas da igreja: «não havia pois entre eles necessitado algum».
O estado financeiro dos primeiros dias da igreja em Jerusalém adaptava-se perfeitamente ao que se escreveu sobre a história de Israel «se os povos se medissem aos palmos e a economia agisse como motor determinante e exclusivo da história mal haveria lugar para Israel na investigação do Próximo Oriente antigo». Diga-se o mesmo da situação financeira dos cristãos judeus e daquela comunidade cristã.
A população eclesial, por assim dizer, exibiria números de uma grandeza extraordinária, conforme lemos no relato do Evangelista médico e companheiro de Paulo. Note-se que os Actos só nos dão dois números precisos, que podem obedecer mais a uma estimativa do que a um «censo» demográfico de rigor: fala em 3 mil no dia de Pentecostes e 5 mil no capítulo 4, após o segundo discurso kerygmático de Pedro.
Problemas de civilização e cultura
O crescimento traz consigo a crise, porque supõe mudanças. A multiplicação de pessoas precipitou a multiplicidade de culturas. O espaço das novas linguagens alargou-se.
A civilização greco-romana tinha mais mundo para lá das fronteiras religiosas fechadas do judaísmo.
Mas o acontecimento da inclusão desses crentes, homens e mulheres, oriundos das cidades gregas, judeus de fala grega, não podia significar que eles aportavam conhecimento contra o Evangelho, queria dizer apenas que possuíam um espírito mais aberto, culturalmente. Os problemas começavam neste ponto. Abertura de espírito, não outro espírito, nem outro evangelho, nem outro Cristo.Contextualizando com os dias actuais, desde a década de 70 do século XX até hoje, a transcorrer uma década do XXI, existe também o problema das inclusões da Cultura, de uma maior participação nas comunidades cristãs evangélicas de jovens e maiores com licenciaturas, doutoramentos, institutos bíblicos, faculdades de teologia, etc.
Ainda hoje, em alguns meios religiosos, designadamente evangélicos, o tema Cultura parece dimanar directamente de um termo grego hamartia, isto é, pecado. Ou se não, uma porta aberta para pecados sendo o mais comum a alegada falta de «humildade», ou a «imodéstia», ou ser «intelectual».Nos dias da Igreja Apostólica de Jerusalém, o problema estava a crescer nessa área da civilização e da cultura antagónicas ao judaísmo.
Problemas de transculturalidade
Ainda se vivia à sombra do Templo. Para serem «momentaneamente tolerados tinham que continuar a exibir uma piedade estilo judaico», escreveu um dos maiores especialistas da contemporaneidade do ministério e percurso do Apóstolo Paulo, o teólogo belga Lucien Cerfaux.O Cristianismo trazia, no entanto, uma ruptura com a instituição Templo, ruptura já iniciada com Jesus quando expulsou os vendilhões do mesmo, num acto anti-cultural, para os judeus da época e porque aquela Casa teria que ser chamada Casa de Oração.As próprias designações que a cultura popular atribuía então ao ainda não conhecido Cristianismo, a seita dos nazarenos, o Caminho, eram já portadores de algo não assimilável, algo novo.
Os apóstolos de Jesus Cristo já não tinham um linguajar rude, o conteúdo do que pronunciavam trazia espírito e vida aos ouvidos do homem comum hebreu.As mulheres, no plano da transcultura, começaram a ter relevância quando comparadas, nas Cartas de Paulo, com os homens, porque «em Cristo» não há homem nem mulher, mas ambos os géneros são Um n’Ele.
Contudo as resistências transculturais entre a mulher e o homem sempre se fizeram sentir. Um pormenor actual da civilização tailandesa exprime bem essa salvaguarda machista de posições. Na Tailândia as mulheres não podem ocupar quartos do 1º andar num hospital e os homens do rés-do-chão; isso significaria a superioridade da mulher em relação ao homem.
Percebemos, com os dados actuais que temos e as contextualizações devidas, que transculturalmente, na Igreja de Jerusalém, as viúvas gregas fossem preteridas pelas judias, pelo factor da mistura cultural; no entanto, a maravilha reside em que seria criado um corpo de servidores – os diáconos –, homens, para servir à mesa e dessa forma servir as mulheres. Era a superioridade do Evangelho.
Via A Ovelha Perdida, que publicou este inédito.

Tuesday, March 30, 2010

O chavão da “sã doutrina”


“Cristo não foi essencialmente professor, legislador, mas ser humano, ser humano real como nós. Por isso, ele não quer que em nosso tempo sejamos alunos, representantes ou defensores de determinada doutrina, mas seres humanos, seres humanos reais perante Deus.” (Dietrich Bonhoeffer)

Jesus Cristo não veio a este mundo para ensinar uma doutrina em particular mas sim para reconciliar os homens com o Pai.Não vemos o Mestre de Israel alimentar discussões teológicas com os teólogos da época. A única vez que terá discutido doutrina e teologia com os doutores da Lei terá sido aos doze anos, aquando da visita a Jerusalém e mesmo aí as Escrituras não registam o teor da argumentação, pelo que a mesma será irrelevante para nós (Lc 2:41-47).Sejamos claros, a doutrina não é uma vaca sagrada. Desmistifiquemos esse mito.


A doutrina é sobretudo uma questão de identidade

Todo o ser humano dispõe de uma identidade. Ela implica características distintivas, que não só o distinguem de outros cidadãos como lhe conferem um sentido próprio e muito pessoal. A arquitectura estética e conceptual do indivíduo, as suas origens, a sua história de vida, o seu self, fazem dele uma pessoa única e irrepetível.É claro que alguns gostos, vocações e características pessoais não são exclusivas daquele dado indivíduo, o que lhe permite a identificação de grupo ou comunitária com outros seus semelhantes. Mas até estes aspectos, digamos, mais sociais, ajudam a definir a sua singularidade. Por exemplo, um jogador de futebol não é igual, apesar de tudo aos seus colegas, embora possa ter a mesma nacionalidade, idade, naturalidade, clube ou posição de jogo. Será sempre um jogador diferente de todos os outros, e nesse sentido, único.

(...)

A doutrina não salva ninguém

Apesar de parecer redundante, talvez não seja má ideia relembrar que o nosso Salvador é Cristo e não a Cristologia (doutrina de Cristo). Logo, a doutrina não salva ninguém.Ela é, antes de mais, um sistema organizado de fé e crenças que confere um sentido à dimensão espiritual do indivíduo e da comunidade de fé em que se insere. A doutrina organiza as minhas convicções, oferece-me uma dada cosmovisão espiritual, mas não mais do que isso.


Artigo essencial do dr.Brissos Lino. Ler na íntegra Aqui

Sunday, March 28, 2010

Saturday, March 27, 2010

Eu espalhei meu coração sob os Teus pés


Eu tenho espalhado os meus sonhos sob os teus pés
Por isso, pise suavemente;
Afinal, está pisando os meus sonhos.
W.B.Yeats


É sob os teus pés que os meus sonhos
mais resplendem, como o sol
que me chega na vastidão do azul
são teus pés sobre meus sonhos
iluminam as zonas de sombra
dão-lhes texturas de ouro
cada sonho uma esmeralda
que é a lágrima verde
do fogo
Dão discernimento aos meus sonhos
os teus pés, tornam-se bússolas
metendo-os na direcção do norte
apaziguam ímpetos, durezas
de pedra nos meus sonhos tornam-se
algodão, os meus sonhos sob os teus pés
não estão no chão, tão-pouco
no ar, espalhados sob os teus pés
são apenas o meu coração.


27/3/2010

Thursday, March 18, 2010

As costas de Deus

«Rogo-te que me mostres a tua glória», solicitou Moisés a Y'hôvâh, numa temperatura espiritual em crescendo que o encorajou, depois de estar com o Senhor, de Lhe falar face a face e ter ouvido que a «presença» divina subiria com ele e com o povo. Lemos no livro do Exôdo, 33.

E o diálogo, na verdade mais monólogo divino que diálogo, que se estabeleceu seguidamente, integra-se numa das cenas mais misteriosas descritas no Velho Testamento. Um escol de comentadores e hermeneutas teológicos, da linha fundamentalista, num trabalho de síntese com o Comentario Exegetico y Explicativo de la Biblia, lograram expressar o estado espiritual e psicologicamente motivado de Moisés ao escreverem que «ele teve, para seu consolo e alento, uma manifestação explêndida e completa da majestade divina, não no seu brilho sem véu, mas até onde admitiria a debilidade humana.»

Houve uma certa inocência no pedido de Moisés. Não sabia o que estava a pedir.
Moisés no plano restrito da história, da sua história e do povo de hebreu, estava a pedir a eternidade, a figura real da eternidade, o Absoluto. Queria ver a glória divina.
De facto, não estava a solicitar uma imagem. Depois de ver a sarça, e o fogo no Sinai,
a simbologia, queria ver a Pessoa.

O que Moisés pediu só poderia ser respondido em sentido figurado, por isso o rosto, as mãos, as costas de Deus devem ser entendidas figurativamente. Rosto, mão, costas, uma semiologia teológica para Deus

O autor bíblico Javeísta (como Harold Bloom gosta de lhe chamar em O Cânone Ocidental) só pode cingir-se ao diálogo entre Y'hôvâh e o próprio Moisés; hoje, para esse desiderato de uma alegado encontro com e de uma «visão» consentida do Divino, escrever-se-iam cerca de 245 páginas sobre uma qualquer «Cabana».

O Tópos Preciso
O lugar necessário para a satisfação do pedido de Moisés havia de corresponder não à poética do momento, ver Deus, mas à dureza pétrea da geografia física e à humanidade, isto é, as limitações para conter a totalidade da Glória do Divino, com a Sua presença em plenitude.

O lugar era abrupto, pétreo, montanhoso, uma penha numa das rochas do Monte Sinai, um refúgio, ainda assim, como narra o texto bíblico, um tópos junto da Divindade. O Senhor disse a Moisés: « Eis aqui um lugar junto a mim; ali te porás sobre a penha».

Há outras experiências no Velho Testamento quanto a lugares (tópos) abruptos, sem beleza, nada idílicos nem estrutura poética, nos quais o Senhor dialogou com alguns Servos, o caso de Moisés e o de Elias, numa caverna.

É preciso que seja marcada definitivamente a diferença entre a Presença e o lugar, a manifestação de Deus e o espaço onde se manifesta, a majestade e a limitação.
O Céu, como a habitação divina, e a Terra como pertença temporária do ser humano, não são da mesma substância, um lugar é da matéria, o outro é etéreo. Um lugar pode ser medido, o outro desde a mecânica celeste até ao inefável não o pode ser jamais.

As costas de Deus
As costas de Deus, é um modo de dizer, seriam como a esfera de Parménides, não têm ponto algum localizável aos olhos humanos, são como o próprio Deus, são a Sua eternidade, sem espaço e sem tempo. Deus está cheio do que É. Por falar naquele filósofo de Eléia, não sei se tinha um conhecimento teológio de Deus, mas disse-O como Deus é: Ser-Absoluto. E indagou: - «Como poderia ser gerado? E como poderia perecer depois disso? Assim a geração se extingue e a destruição é impensável. Também não é divisível, pois que é homogêneo, nem é mais aqui e menos além, o que lhe impediria a coesão, mas tudo está cheio do que é.»

À maneira da massa de uma esfera bem rotunda, em equilíbrio a partir do centro, em todas as direções, o Senhor Deus pois não pode ser algo mais aqui e algo menos ali.Mas o autor canónico e histórico do livro do Exôdo, autor em causa própria, foi muito mais simplíce e acessível ao narrar-nos o seu diálogo com Y'hôvâh, referindo que o Senhor se deixaria ver «pelas costas». O próprio termo hebraico dá-nos essa dimensão de um antropomorfismo compreensível ao ser humano, ao empregar a palavra 'áchor 'áchor, a qual quer significar em sentido lato a parte posterior de alguém ou alguma coisa. E não podemos dizer muito mais.

Ver Deus de costas é tudo o que podemos ver dEle, numa perspectiva do Velho Testamento. No Novo esta agonia que sempre acompanhou o homem, ver «o Deus invisível», é eliminada perante a expressa realidade do Filho, como assevera um possível hino cristão primitivo na Carta de Paulo aos Colossenses (I,15-20): «o Filho do seu amor, o qual é a imagem do Deus Invisível, o primogénito de toda a criação».

Monday, March 08, 2010

«Bíblia Dake»

Documento importante sobre a chamada «Bíblia Dake», que aqui consideramos «Fake»
Ler neste sítio

Tuesday, February 23, 2010

Saturday, February 20, 2010

O Vigor de um cansaço


O vigoroso cansaço do meu amigo, Poeta e Pr. Brissos Lino
A estranha cultura «gospel»: maus livros de auto-ajuda, más «bíblias anotadas», má poesia, má arte, má música.

Ler aqui, o texto

Wednesday, February 17, 2010

Palavra Profética II


“And the sign said, The words of the prophets are writtenon the subway walls and tenement hallsAnd whispered in the sound of silence”
Simon and Garfunkel, “The sound of silence”
As luzes da cidade não contam
a história dos risos que pararam
do tráfego das pessoas no vaivém
das avenidas espessas
de neblina imanente
Os néones não cantam
a solidão do cimento
não tocam os gritos das sombras chinesas
recortadas pelo Anjo da Morte
nas diminutas janelas
Os sons desse mar de gente
não se consomem com o tempo
cada mão deixou de se anichar no conforto de outra
Aí, nos túneis do metro só as cervicais
são agitadas para um e outro lado
por duas ondas de vácuo
aí, nas galerias dos centros comerciais
atravessadas por sombras árvores andantes
aí, onde ninguém se detém a ouvir
e todos preferem o som do silêncio,
aí, nas paredes vestidas de graffiti
e de cartazes publicitários
e de propaganda aos candidatos
alguém escreveu sem desenhos nem cores
as palavras da profecia
aí, os olvidados profetas deixaram
o seu verbo, para não ser olvidado
aí, na cal ficou a visão
para que alguém ao passar a correr
não deixe de a ver
e a conte e a cante e a grite
16/02/10
Poema inédito do meu Amigo Rui Miguel Duarte

Monday, February 15, 2010

Concerto Vozes pelo Haiti


Concerto Vozes pelo Haiti, música e poesia de inspiração religiosa, evangélica. Notícia aqui e aqui
Na foto, o maestro Pedro Duarte, os poetas Brissos Lino e J.T.P, ontem em Lisboa.

Wednesday, February 10, 2010

Pedido de Saul a David

Rembrandt, Saul and David
Toca um salmo à minha alma
Senta-te ao pé de mim, junta
ao meu o teu ouvido
Ouviremos
os gestos das folhas
a pousarem na água
os pés
das ovelhas a silenciarem
a sombra
O pentagrama do coração
registará a música
das artérias coronárias
O coração baterá
ignorando a morte.
30-7-2008

Monday, February 01, 2010

Parreiras:


Parábola da Videira
"Permaneçam em mim, que eu permaneço em vós. Um ramo não pode dar fruto por si só, se não estiver unido à videira. Por isso, não podem dar fruto se não estiverem unidos a mim. Eu sou a videira e vós os ramos. Aquele que estiver unido comigo dá muito fruto porque sem mim nada podem fazer."Evangelho de João 15,4-5 (versão A Bíblia para todos, p. 2134)
Permaneço em ti
ramo de outro ramo maior
como pequena gota
num imenso mar
se me soltasse
se ao vento me desse
e da latada me desamparasse
asas não me susteriam
na queda
e o húmus seria a minha sepultura
Estou em ti
exígua ramificação
da majestade do teu tronco
sem ela o que seria?
um galho seco amputado
de uma árvore de morte
Vivo de ti e em ti
e a minha polpa traz
as marcas da violência
selectivamente aplicada
da tesoura de podar
aí, embora tímido,
revela-se hoje
um renovo volante
na parreira
a promessa túmida
de um cacho
31/01/10
Poema inédito enviado pelo meu Amigo Poeta Rui Miguel Duarte

Friday, January 29, 2010

À Saída da Escola: ("A Poesia é uma imaginação")

Quando toca às 17:45, as crianças querem todas a lua, não no sentido em que Calígula a queria, mas a liberdade de correr uns contra os outros, uns pelos outros, pelo recreio até aos pais e avós.
O meu neto Vasco, veio e disse-me:-Avô, hoje fizemos uma poesia. Que as pedras cantam. Sabes, avô, uma poesia é uma imaginação.
Parei, respondi-lhe a perguntas seguintes que também eu fazia poesias e que sabia que as pedras podem clamar, cantar e chorar lágrimas, sobretudo quando chove.
Mas pensei: ando a ler há quatro décadas pelo menos, Aristóteles, Horácio, Shelley, Johannes Pfeiffer, Todorov, Jean Cohen, Rainer Maria Rilke, e até Marcuse, para saber o que é a Poesia. Ouço cursos de Poética, Estética de Plotino, até o "Carteiro de Pablo Neruda" sobre a metáfora.
E o meu neto, Vasco Parreira, 7 anos, disse-o de uma penada: - Avô, é uma Imaginação. A poesia é uma imaginação.

Monday, January 18, 2010

A ficção como releitura da Bíblia na forma de conto

A Bíblia Sagrada está repleta de episódios que são contos, a parábola do Filho Pródigo é, tecnicamente, um conto. O Velho Testamento tem bastantes.

O conto está para o romance, como o soneto pode estar para uma epopeia. É um som carregado de harmonia, que se vai tornando instantânea a cada frase, fala directa, ou verso, até que se extingue aos nossos ouvidos, deixando-nos ficar a sós com a personagem ou personagens, o conflito ou a colisão de conflitos, os ambientes, os tempos cronológico e histórico, que povoaram por instantes a nossa imaginação.
Todos os contos de Florbela Ribeiro são, em regra, assim, histórias breves, short-story para produzirem um único efeito. Não são arengas morais para despertar emoções fáceis, são vivências. Mas naturalmente têm uma estrutura simbólica e da Fé da autora.
Ela usa as personagens que a Bíblia Sagrada, do ponto de vista historiográfico, nos revela tanto no Velho como no Novo Testamentos.
São, genericamente, figuras que protagonizaram a realidade histórica. No VT a narrativa de alguns profetas, a própria génese do povo hebreu a partir de episódios abraâmicos, no NT a narrativa evangélica de autor, como Lucas.
Mas a autora aveirense introduz uma nuance, comum a quase todos os contos, que é a sua acurada visão feminina. São contos, quase todos, os éditos e os inéditos que conhecemos, escritos no feminino. Há por isso hoje, na ficção evangélica, o género conto com uma narrativa no feminino.
«Jéssica repousava a excessiva magreza do seu corpo cansado e doente. Na cama adornava a silhueta esguia com uma nobre e delicada colcha de linho, bordada à mão. Mas permitiu que o seu olhar baço pela dor se ausentasse dali. Através da janela entreaberta, entrava uma brisa fresca, que fazia esvoaçar com subtil leveza a brancura da cortina de organdi.» (O auto-retrato)

Perscrutamos até alguma alteridade nas suas personagens.

«A dor que me inundava naquele momento era indescritível.
Um redemoinho vindo ninguém sabe de onde, destruiu por completo a minha vida.» (Redemoinhos)


«Saboreávamos os primeiros dias de Primavera.
Porém o calor intenso que se fez sentir durante todo o dia, forçou-nos a um recolhimento quase que obrigatório.» ( A Filha da Cananeia)


Com isto não queremos afirmar que há contos cujas entrelinhas contêm auto-biografia. Se esta existe é apenas ao nível do pensamento, porque a autora pensa as suas personagens à sua imagem.
Identifica-as nos seus dramas, e identifica-se com o climax de alegria que atingem, toma partido.
O que é interessante verificar, é que jamais deixa as suas personagens ( sobretudo elas) sozinhas, acompanha-as até ao pathos mais doloroso e por isso sai com elas vitoriosa em demanda dos louros do agonista que ganha uma batalha, ou uma pugna. Existe em algumas das suas histórias, o que os gregos chamaram de anagorise, isto é, momentos críticos onde se vê a reviravolta do destino do protagonista ( caso conhecido do conto Por um Fio, que ficciona a vida da prostituta Raabe, de Jericó)

Submersa num revolto mar de silêncios, permanecia a fatídica onda que a lançou naquela vida. Com os olhares do povo cravados nas costas, deslizava pelas ruas da cidade de Jericó com o rosto escondido por uma burka negra. Todos sabiam quem ela era, e principalmente o que fazia.
Durante muito tempo agonizou, pela facada traiçoeira do destino. Chorou amargamente a dor do infortúnio que arrombara a sua porta, lançando-a na lama juntamente com o nome do seu pai. Mas toda a família permanecia unida, sofrendo com ela e por ela. (Por um Fio)

Alguns contos de Florbela Ribeiro vieram abrir uma brecha no pensamento anquilosado de que a narrativa bíblica com personagens é estanque, é o que a Escritura apresenta em letra de forma, e pronto.
Esquecem-se esses, que cada personagem tem uma história, ou melhor uma meta-história, a história de vida que não está escrita, que pode ser deduzida, legitimamente recriada, desde que se não quebre a estrutura simbólica e da Fé.
A viúva de Naim teve uma história e o filho morto, que Jesus Cristo ressuscitou, também. Doutro modo, o evangelista Lucas não teria narrado que Jesus o entregou a sua mãe. Para quê? Para o prosseguimento da sua história de juventude que a morte viera cercear.
O conto a que a autora deu estrutura de reportagem ( Reportagem em Naim), metendo-se na pele de uma jornalista repórter que acompanha o caso, é exemplar quanto à sugestão de uma história pessoal de família para além da canonicidade do texto lucano, para além mesmo do conteúdo literal da narrativa.
Florbela Ribeiro prossegue na sua escrita evangélica, ou melhor bíblica, os caminhos disciplinares da Escrita Criativa. Este tipo de composição, a que também se pode chamar escrita imaginativa, baseia-se na formação e expressão de imagens mentais e conceitos arquivados na sua memória e na sua cultura da Bíblia. Recombina todo este acervo interior com fantasia, q.b., sem fugir nunca das estreitas balizas que o Texto Sagrado lhe coloca, mas que a escritora sabe seguir com uma imaginação e uma dicção conceptual, de profundo pensamento cristão, mesmo quando se trata de narrativas estruturadas sobre o narrado no Velho Testamento.
A autora é uma ficcionista, ainda quando conhecemos de cor os episódios, as personagens, a moral que o texto sagrado nos quer transmitir. Não inventa verdades, dá-nos na sua linguagem criadora, não raras vezes poética, a Verdade com a veste diáfana da fantasia.

Sunday, January 17, 2010

Rondine al nido: Crónica p/Diário de Aveiro

Ingrata tarefa do escritor de crónicas que não pode introduzir no texto os discursos ficcionados, que são a torrente do rio calmo ou tempestuoso das suas personagens.
Tem que se limitar aos factos, os que estão no fundo da sua recordação, ou qualquer outro pedaço de ficção que a sua imaginação liga à realidade.
Sentado diante do computador, olha em vão o cinzento do dia que a janela lhe revela, ouve o som da chuva que inunda a primeira condição do vidro dessa janela, o silêncio frio, ouve o tamborilar das gotas na tijoleira da varanda, como na primavera ouve o arrulhar e o trissar das andorinhas.
Senta-se e socorre-se de um cd, que vem navegando pelo ar desde o Sony na voz do desaparecido Pavarotti que lhe canta, pela sala e pela casa fora, o Rondine al Nido.
O acto de escrever é feito de vários somatórios, ideia, música, facto, a notícia, a beleza - mesmo descontando o que poeta Rainer Maria Rilke disse, que o belo não é senão o começo do terrível, tudo se soma no acto de escrever uma prosa fiada ( classificou-a assim Vinicius de Moraes), uma prosa corrida sobre o que o mundo conhece.
O assunto não falta, é o momento.
Haiti, um país (se é que era um país), prefiro dizer a país uma casa, um lar pobre e empobrecido, que foi preciso submergir na catástrofe do chão para ser lembrado pelos telejornais e se falar em fait divers a par dos seus problemas. E agora estes são as pessoas, os velhos, as mulheres, os homens, as crianças em escombros.
O tópico é infalível, mas quero antes ligar esta prosa á canção napolitana que ouvia na voz do Luciano. O tema da canção era as andorinhas que regressam todo o ano, na primavera, menos aquelas que já não podem mais voltar.
E veio ao meu pensamento, a crónica das crianças, meninas e meninos, que já não regressaram da Escola. Esperaram aqueles que tiveram a dita de estar vivos, esperaram em vão mas elas não vieram.
O regresso não teve mar bilhante nem Ítaca nem Penélope. Andorinhas a quem o sol secou as asas no pó do chão. As varandas estão desertas. O silêncio ao redor não é o do céu azul das Caraíbas, nem bate já com as asas das aves. Jamais se poderá beijar os cabelos crespos do filho ou filha que a escola para sempre escondeu.
16/01/2010

Friday, January 15, 2010

Haiti: "Todos são meus filhos"

Para quebrar o silêncio que certas palavras carregam:

Crédito da foto: El Pais
Da peça de Arthur Miller: «Todos são meus filhos»

Saturday, January 09, 2010

Conto: O Náufrago

No Blog A Ovelha Perdida, de Brissos Lino, "le mon Éditeur", uma short story sobre o sonhos e o ciúme e o Amor, Freud e Deus. Este conto foi um desafio que a contista Florbela Ribeiro me lançou no Facebook.
«Agarrou-se ao amor porque era mármore, uma pedra de mármore no meio do mar.
Não sabe ainda hoje o tempo que o sonho durou, nessa noite, das galerias do sonho sabe apenas que acordou com as mãos agarradas, num último gesto, à almofada.»

Saturday, January 02, 2010

O Hóspede e a sua exegese

A exegese ao poema feita pelo Poeta Rui Miguel Duarte:
O que parece ser uma recriação da narrativa a partir da anagnórise de Jesus na estrada de Emaús. Um Alguém (Jesus?) com ar tão frágil e sensível ao que o rodeia ("olhos indecisos […] "estremece / à mais pequena folha"), tão humano que carrega sono. Cristo ou alguém por Ele. Personagem enigmática este hóspede, com os seus "sonhos / de distância" e "uma metáfora dissonante". Não nas palavras que diz, como ramos, mas nesse gesto que o revelou em Emaús, o partir do pão.
O Hóspede (poema édito em Poeta Salutor)

Depois de a noite se instalar
ao redor do fogo, abrir sobre a cama
o espaço para o corpo
e os lençóis que ainda trazem
os perfumes da manhã
Alguém chega, pela noite
com olhos indecisos e os sonhos
de distância, traz sono e estremece
à mais pequena folha
que cai na noite fresca
Esse Alguém
pode trazer um coração lavado
uma metáfora dissonante
ramos de palavras, e partindo
o pão, abrir os nossos olhos.

Tuesday, December 29, 2009

Os Antinómicos "Ser-para-Morte" e "Ser-para-os-Outros"

Duas propostas sobre o Ser que contendem na natureza humana, e cujas perspectivas apreciadas por dois pensadores do século XX, um existencialista ateu e outro cristão radical, apontam caminhos diversos dentro das mesmas realidades a que o humano não pode fugir, a Morte e a Vida.
O « ser-para-morte» de Heidegger e o «ser-para-os-outros», de Bonhoeffer. São frases, mais conhecida a primeira que a segunda, construídas sobre uma estrutura da evidência da condição humana, que é, não obstante os defeitos, a condição humana do Ser.
A ausência mútua de Heidegger e Bonhoeffer um perante o outro no campo das Ideias, até no seu diferente modo de estar perante o nazismo, e a mesma ausência de ambos no meio evangélico, como pensadores, é um fenómeno de como ainda rejeitamos pensar o Ser Humano a não ser em moldes pré-concebidos, se não mesmo preconceituosos e baseados em maniqueísmos como bom, mau, preto, branco, crente, descrente.
Assim como, de uma forma errada -dizem os seus exegetas -,Heidegger pensava que a filosofia só poderia ser escrita em duas línguas: grego e alemão, muitos de nós julgam que o Ser Humano só pode ser pensado de um lado, o interior animado que precisa de uma salvação. Um homem abstracto diante de Deus, quando o que Deus mais quer é Homens concretos, assim como nos colocou diante de Um Filho concreto, o Verbo concreto que se fez carne.
Sabemos que no Éden o Criador não fez um ser simbólico, mas um Ser com espírito, alma e corpo. Mas por causa do pecado que produziu o que é designado como Queda, essa triunidade do Ser passou a estar sujeita à morte.

Martin Heidegger- dizia que a angústia ou o sentimento de aborrecimento – que chamava de profundo, não o aborrecimento trivial, circunstancial - no homem advém do facto da sua natureza temporal.
É a morte que termina a nossa constituição, segundo o filósofo. A nossa constituição terrena, a nossa estrutura corpórea, de acordo com a Bíblia Sagrada.
Ele partiu desta consideração, do Tempo, do limite temporal do Ser, para a consideração final do ser-para-morte.
Sobre a dificuldade que sempre parece ter aureolado esta frase, puramente existencialista, um aluno atento de Heidegger em 1955, o filósofo espanhol Julián Marías, logrou torná-la mais clara, ao escrever:
« Há uma frase famosíssima, citada mil vezes, segundo a qual, diz Heidegger, que o homem é sein zum Tod, que se traduz invariavelmente como "ser para a morte". O único problema é que isto não quer dizer no alemão "ser para a morte"; porque a palavra sein, que quer dizer certamente "ser", significa também outras coisas como "estar"; os alemães não dizem "estar" porque não têm o verbo "estar".»
O homem, segundo a teologia paulina, desde os alvores do Cristianismo «está» à morte, ou melhor «está na morte».
Como? Paulo revela aos efésios o percurso ontológico do homem e a mudança operada, ao acentuar que os crentes, vivificados agora, estiveram ( usa um particípio ) «mortos em ofensas e pecados», e sublinha não um estado momentâneo, mas o estado do Ser.
Embora este desde os primeiros dias distantes da Queda, após a Criação, seja ser para a morte, a partir do divino «certamente morrerás». Afirmação, com certeza, incompreensível ao homem por não saber o que era a Morte.
Não creio hoje que os primeiros Pais não a tenham ouvido sem experimentar angústia. A angústia desta frase acentuou-se em Adão e Eva e sucubiram perante o lôgro de Lucífer, como se a desobediencia desarmasse a proibição e o veredicto divinos.
A morte passou a ser – e Heidegger definiu-a não ignorando a teologia, porém em linguagem filosófica- como uma ameaça contínua, «ameaça por causa da sua constante presença». O ser para morte é essencialmente angústia, diz H. em O Ser e o Tempo.
Este existencialismo produziu um Ser sem esperança. Álvaro de Campos cultivando a perspectiva do nada, conferindo-lhe a substância da sua vontade de nada, na poesia “Lisbon Revisited” escreveu «A única conclusão é morrer.»
Se do ponto de vista da nossa compreensão e experiência da morte, esta seja sempre «a morte do outro», centrâmo-la em nós, será um dia a nossa. Enquanto isso, um teólogo do Discipulado veio trazer-nos uma outra dimensão do Ser, o Ser-para-os-Outros.

Dietrich Bonhoeffer- afirmou com a sua vida, perdida às mãos do regime nazi, este princípio mais do que cristão. Originalmente evangélico. «Ser-para-os-Outros».
Na perspectiva da afirmação de Jesus Cristo ( «o Filho do Homem também não veio para ser servido, mas para servir»), é anterior ao Cristianismo enquanto nome dado aos primitivos cristãos, é completa e genuinamente evangélico.
Pensou na morte? Obviamente, mas no sentido contrário ao de Heidegger.
Na sua conhecida obra da prisão hitleriana, antes de ser enforcado, escreveu: «Nos últimos anos, pensar na morte tornou-se cada vez mais familiar para nós.»
Era um pensamento não alimentado pela desesperança, mas estruturado com a serenidade porque cada novo dia de vida era um milagre. O seu testemunho di-lo, de uma forma corajosa: «Ficamos admirados com a serenidade com que recebemos as notícias da morte de companheiros com a nossa idade».
Neste contexto, o cristão deveria pensar mais no morrer do que na Morte, porque esta foi vencida por Cristo. «Tragada foi a morte na vitória»-clamava o apóstolo Paulo. Sabia que o último inimigo que há-de ser aniquilado é a morte. Porque Jesus Cristo sujeitou todas as coisas debaixo dos seus pés.
Mas toda a reflexão de Dietrich Bonhoeffer a partir da obra da sua vida, Ética, até à derradeira Resistência e Submissão, foi direccionada para o discipulado, a ética cristã e o serviço a Deus e aos homens.
Escreveu naquela obra que «toda a reflexão ética tem, então, por fito que eu seja bom e o que o mundo (através do meu fazer) se torne bom.» A realidade última desse serviço, defendia Bonhoeffer, não pertence à imagem profana do mundo sobre Deus, pertence ao crente no seu autotestemunho de Deus.
«O próprio Deus deixa-se servir por nós no humano»- escrevia nas Cartas da Prisão de Tegel ao seu amigo Eberhard Bethge.
Nesta obra há um diálogo teológico, sendo o tema central quem é Jesus Cristo hoje para nós? E nessa pergunta há as suas experiências contra a igreja oficial e a conspiração política necessária para que a igreja se não humilhasse ao regime hitleriano, submetendo a compreensão vital de Cristo aos jogos do poder, numa sociedade religiosa que tinha sobre si uma religião de Estado totalitário e criminoso.
O testemunho, a reflexão e a existência de Bonhoeffer, que resumia no «seu testemunho perante o mundo» foi nesse sentido de serviço aos outros. A nossa relação com Deus transforma-nos em «ser-para-os-outros» na comunhão de vida com Jesus Cristo.
Entendia o teólogo que Jesus Cristo não estava em rota de colisão com o espaço mundo,
porque contrariaria a noção de seviço ao próximo. A consequência prática de ser cristão.



Monday, December 28, 2009

Um poema sem pretéritos imperfeitos

Aqui um poema (Abriste-me a porta da vida) de Florbela Ribeiro sobre uma composição de arte fotográfica

Os romances do "DB" português

Via A Ovelha Perdida, temos aqui a análise erudita da pretensa ficção de conhecimento de um conhecido jornalista e pivot ( longe de ser anchorman) da nossa Televisão.

Wednesday, December 23, 2009

Palavra Profética, uma exegese poética

“Mas diante da igreja, antes quero dizer cinco palavras tiradas da minha cabeça, mas que os outros possam aproveitar, do que milhares de palavras em línguas desconhecidas.”1 Cor 14,19 (versão A Bíblia para todos p. 2246)

Há um baú de tesouro
repleto e palpitante de mistérios
inefáveis depositados por Deus,
como a terra úbere de minérios,

os próprios anjos dele se surpreendem
reclinados na indagação
de novo vento que lhes enfune as asas
e nos lábios lhes cante nova canção

não é de madeira preciosa
nem engastado de diamante
é dotado de riso e choro
de canto doce e troante

esse tesouro é a mente
incendiada e tenra do profeta
apurada para a interpretação de Deus
trasladada em voz de pastor, rei ou poeta

desse tesouro não retira o profeta
um gemido em estado bruto inexprimível
em língua celeste inaudita
mas palavra de homem inteligível

ao tempo e ao entendimento da assembleia
conforto coragem leme e lema para o povo
assim dita e pronunciada é como na árvore
nascente a pujança de um renovo

20/12/09

Rui Miguel Duarte

Tuesday, December 22, 2009

Ceias de Natal, nas vésperas


Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; e o principado está sobre os seus ombros; e o seu nome será Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz.
Isaías 9:6

***

Jacinto Lourenço

"Hoje de manhã, ao preparar-me para sair de casa, veio à minha mente este versículo bíblico. Como habitualmente faço, ouvia as primeiras notícias do dia na Antena 1 e, com elas, a de que os dois maiores partidos portugueses tinham realizado os seus jantares de natal, no mesmo dia, na mesma noite, a de ontem. Ora, como sou uma pessoa adulta, resolvida e medianamente inteligente, não estava à espera naturalmente que os dois líderes partidários se tivessem dedicado, mutuamente, poemas ou canções de natal, ou mesmo uma simples mensagem de boas festas. Mas também não esperava que o Natal, ou um simples jantar de natal, à volta do qual as pessoas normalmente se reunem para comer, beber e falar de tudo menos daquilo que é o Natal, viesse a servir de mote para que os líderes partidários, pessoas de quem devíamos esperar atitudes minimamente positivas por esta altura, se dirigissem mensagens, sim, mas de ataque pessoal e político, transmitindo desta forma, a ideia de que aquilo que conta não é o país ou as pessoas mas as suas intrigas político-palacianas, contrariando até o espírito deste natal “humanista” com que somos brindados pela sociedade mercantilista . Claro que não sou ingénuo, mas caramba, pelo menos que, nessa noite, em que juntam as suas hostes para um suposto jantar de natal, se coibissem de se degladiar e agredir e passar dessa forma mensagens negativas para a nação." Ler na íntegra Aqui

Saturday, December 19, 2009

A Estrebaria


a estrebaria fechou as portas
no aprisco não há ovelhas
os anjos já se calaram
e as estrelas nada anunciam
só resta a lembrança do menino
mas os homens enlouquecidos
já venderam até o seu nome
(Poema de Manuel Adriano Rodrigues, AQUI )

Friday, December 18, 2009

"Gaysamento"

"Mas porque tem o governo tanta pressa em aprovar esta lei quando sabe que está em curso uma petição, para obrigar à realização de um referendo, promovida pela Plataforma Casamento e Cidadania? Logo no início de Janeiro a petição será entregue na Assembleia da República, a solicitar a convocação de um referendo, e já dispõe de um número de signatários que torna obrigatória a sua apreciação pelo Parlamento. Ora, sendo o governo minoritário e havendo partidos da oposição que discordam desta lei, já se vê que as coisas não poderão ficar assim.Então, em nome de quê corre o governo este risco político de vir a sofrer uma derrota pesada, quer por via do Tribunal Constitucional, do PR e de um referendo que já antecipa vir a perder? Porque razão corre contra um património cultural tão importante e a sensibilidade da generalidade dos cidadãos?"

Questão oportuna que o dr.Brissos Lino, Poeta e Pastor Evangélico, levanta Aqui, para ler na íntegra.

Thursday, December 17, 2009

Afluentes sem vida

No final da Conferência de Copenhague sobre a saúde do Planeta, os poetas lembram a crise das almas tristes.
Nas lágrimas desse olhar
Leio emoções sufocadas
Sonhos desmentidos
Ilusões apagadas
Numa realidade cruel
Mas a vida segue
E prossegue
Estagnada pela dureza
Das amarras
Que te impedem de sorrir

(Florbela Ribeiro)

Friday, December 11, 2009

Poesia de Natal

Marc Chagall



Os anjos fariam um colar
de palavras do seu cântico

Se tivessem as ferramentas
dos homens e o fogo
fosforescente da forja
seriam as palavras anéis
de prata enfileiradas

Anjos tangendo os lábios
no mais puro hino branco
seus sorrisos soltando-se
das estrelas e nas pedras
os anjos caminhariam
sobre asas.

11-12-09

Wednesday, December 09, 2009

Última Hora: Bíblia Dake (Fake) vai ser recolhida

BÍBLIA DAKE SERÁ RECOLHIDA

Acompanhar a notícia Aqui

"No tempo em que não havia Pai Natal"

"Não vou falar do Natal, mas das coisas que acontecem à volta do Natal. Acho que, de todas as épocas, esta será a mais consensual no mundo cristão, seja qual for a confissão, embora nem sempre pelas mesmas razões, ou pelas melhores razões, para todos. Tenho, confessadamente, um problema com a forma como se celebra actualmente o natal; um problema que entronca na minha memória de infância sobre a época. Já o disse noutras ocasiões e circunstâncias, mas volto a repetir: estou divorciado do natal, deste natal feérico, de exposição mediática e intrusão mercantilista. Deste frenesi consumista fora e dentro de casa. Talvez por isso, já tenha alguma dificuldade em ouvir as músicas de natal que ecoam por tudo o que é sítio ao ritmo de papel de embrulho e laçarotes a metro. Ouço pessoas a desejarem-se constantemente "bom natal" ou "feliz natal" e lembro-me de como em criança eu gritava para dentro de poços secos de água para ouvir o retorno da minha voz devolvida pelo vazio do profundo."

Artigo up to date de Jacinto Lourenço, para ler na íntegra Aqui

Saturday, December 05, 2009

Nota de Falecimento: Poeta Joanyr de Oliveira

Inesperadamente, como chegam sempre as notícias por e-mail, veio, pela mão da secretária do escritor, a nota da morte do meu Amigo querido, Mestre e Companheiro na Poesia Evangélica contemporânea, Joanyr de Oliveira. Completaria dia 6, 76 anos.

"Prezados (a),
Tenho a triste missão de comunicar-lhe que o escritor pioneiro de Brasília, Joanyr de Oliveira, faleceu na manhã do dia 05, no Hospital Santa Helena em Brasília e será sepultado, no dia 06 (data em que completaria 76 anos), no Cemitério Campo da Esperança em Brasília.
O corpo será velado na capela nº 3 do referido cemitério, a partir das 14 horas, e sepultamente às 17 h.
Atenciosamente,
Rosângela Trindade"
Um Obituário que pode ser lido aqui

A Semiótica narrativa dos objectos de Gideão

O episódio bíblico-histórico de Gideão já originou um importante movimento evangélico à escala mundial. O paradigma foi, sem dúvida, a selecção tendo em vista uma determinada tarefa. Os Gideões Internacionais, como são conhecidos, seleccionados entre as diversas igrejas, desenvolvem, assim, um ministério nobre de espalhar o Livro de Deus em hotéis, escolas, hospitais, etc.
Mas a proposta fundacional daquela personagem do Velho Testamento aprofunda e desencadeia outros pensamentos e outras hermenêuticas. Porventura uma das mais aliciantes abordagens, será no âmbito da semiologia, digamos assim, dos objectos usados por Gideão.

Um episódio da história
Ao lermos o texto bíblico que narra a preparação da batalha contra os medianitas, cingimo-nos exclusivamente a que se trata de um episódio de passagem, em que Deus pretende que o seu povo de Israel compreenda que só pode ganhar combates confiando, não na sua força, mas na do seu Iavé. Neste âmbito, o livro de Juízes é, de facto, um conjunto de eventos, de repetição de eventos, dando sempre ênfase à estrutura moral e ética da história de uma nação teocrática e na exclusiva dependência do Único Deus.
Não devemos, no entanto, ignorar que existe, designadamente no episódio «Gideão, com trezentos homens, vence os medianitas», uma narratividade literária que estrutura o alcance teológico do ensino de Deus ao seu povo, numa circunstância adversa e de crise. Convém colocar em paralelo em todo texto, o assombro da grande literatura, a imaginação, e uma linguagem. Numa palavra, a língua comunictiva de Iavé, o próprio dizer de Deus à conversa com Gideão.
O filósofo e linguista George Steiner justificou no seu livro «Depois de Babel » a capacidade por parte do homem entender a língua de Deus, no Paraíso, pela existência de uma sintaxe divina, que ao longo da história do relacionamento de Deus com os patriarcas, profetas, sumo-sacerdotes, reis no Velho Testamento, se foi manifestando até à encarnação do Verbo. E assim dos Apóstolos até ao crente mais simples na Igreja de Cristo.


Neste relato bíblico, histórico-literário, com o seu poder de causar assombro como obra literária, a escolha dos homens culminaria depois com a escolha dos objectos e da expressão nominal simples de cada um dos mesmos.
A avaliação dos acontecimentos na estrutura da narração, dá-lhe de facto valor literário; a espiritualidade do texto, o que se pretendeu alcançar - o desígnio divino - confere-lhe o valor inspirado biblicamente, com os três objectos utilizados.

A semiologia espiritual dos cântaros, tochas e trombetas de chifre.
Os objectos apresentados na narração, representavam-se a si mesmos como objectos de uso comum, na vida e na realidade. Tiveram um papel instrumental. Mas eles apresentaram-se como uma metalinguagem também, não apenas como utensílios. Cada objecto caracterizava uma mensagem que se descreve pela semiologia. Cabe, assim, à semiologia descrever cada mensagem contida nesses três diversos tipos de comunicação.
Independentemente de tais objectos haverem tido uma funcionalidade precisa, ilustrando uma espécie de guerra psicológica engendrada pela estratégia de Gideão (in Comentário Bíblico Moody, Vol. II, pág.55 ), podemos apreciá-los pelo seu conteúdo espiritual e pelo que podem, idealmente, representar na vida do crente.

Cântaros de barro
A Bíblia Sagrada apresenta uma metáfora para falar da criatura humana como um vaso de barro nas mãos do Oleiro. Nos livros de Isaías e de Jeremias lemos acerca do homem como barro e obra das mãos de Deus, também no plano colectivo como Deus modelou o povo de Israel, usando o exemplo de uma olaria; na epístola aos Romanos, Paulo escreve sobre nós próprios como vasos de barro para honra ou para desonra, na perspectiva de que o oleiro tem direitos sobre o barro. É mais claro ainda um texto determinante desta verdade, que o mesmo apóstolo Paulo recomendou aos crentes de Tessalónica (4.4), nomeando o corpo como vaso ( no grego,skeuos ). «Que cada um de vós saiba possuir o próprio vaso (ou corpo) em santificação ».
Mas, o vaso de cerâmica(ostrakinos) ou de barro é um continente, vale o que vale o seu conteúdo, metaforicamente. No plano espiritual é um receptáculo, no que concerne ao ego precisa, na perspectiva bíblica, de desvestir-se ou partir-se para que resplandeça a Luz interior, como sucedeu com os cântaros ou jarros para água ( chamados na Septuaginta ydrias, os ydrías kenàs, jarros vazíos) dos homens de Gideão. Muitos séculos depois, já na Igreja Primitiva, Paulo falava de que o conhecimento da glória divina fora entregue, qual tesouro, em vasos de barro ( os tais ostrakinois skeuesin) (2 Co 4.6,7) Esta «declaração surpreendente» de Paulo, explica como Deus para dar ao apóstolo o conhecimento da sua glória, lhe iluminou o coração, das trevas fez resplandecer a luz, lhe entregou um tesouro que é o Evangelho.

Lâmpadas
Iluminar, nos textos bíblicos em paralelo com a experiência histórica, não é apenas fazer claridade na escuridão.
Teologicamente, a iluminação é sobretudo fundadora do reino da Luz contra o reinado das trevas espirituais, assim como no aspecto da vida social e familiar quotidiana desses remotos tempos, a iluminação era conseguida através do fogo,em lâmpadas com azeite.
Na obscuridade, o exército inimigo seria confrontado com luz, o habitual medo do escuro funcionaria nesse episódio dos midianitas versus Gideão ao contrário, a luz repentina das tochas do outro lado iria aterrorizá-los.
Transportando tal experiência para o campo da vivência cristã, dir-se-á que tal episódio também marca a relação do crente com o mundo. Quando Jesus Cristo afirmou «vós sois a luz do mundo», foi mesmo isso que quis dizer, na decorrência da proclamação das Boas Novas que incumbe à mulher e ao homem cristãos. Portanto, o crente não é uma metáfora da luz, ele mesmo é portador dessa luz pelo novo nascimento. Paulo escreve aos Tessalonicenses que «sois filhos da Luz e filhos do dia», e, assim, o Dia do Senhor não apanhará o crente de surpresa.

Trombetas de chifre
O toque das trombetas não foi um som de beleza, um sinal estético, foi um toque por impulso da urgência.A prática do povo com as trombetas de chifre era uma experiência de vitória. Foi um paradigma que não deveria ser mudado. O objecto de osso de carneiro lembrava este com substituto no sacrifício de Isaac.
Shofar, do hebraico, é um instrumento de sopro antiquíssimo, não produz sons delicados. Não é usado por prazer ou divertimento. Gideão usou as trombetas como uma sinalização, para marcar uma presença inesperada no campo da noite. O som poderia ter uma leitura semiótica, do nosso ponto de vista menos do que a leitura do significado do objecto.
Na obscuridade da acção o inimigo seria confrontado com um som e com a representatividade de uma nação, já que a trombeta era um objecto nacional dos israelitas.
A trombeta (shofar) não tem função em serviços religiosos nos dias de hoje. Contudo, na sua transposição metafórica para a Igreja, digamos que tem um substituto, do ponto de vista do que pode simbolizar. Como experiência no campo espiritual para os cristãos, a trombeta insere-se no plano do testemunho pessoal do crente, da sua nacionalidade e cidadania dos céus, da proclamação do Evangelho e da notícia que Jesus Cristo é Redentor. Noutro plano, se quisermos escatológico, o crente é um arauto da mensagem da Parousia, que assinala a próxima Segunda Vinda do Senhor, como anuncia o rapto da Igreja. #

Saturday, November 28, 2009

Lutero: Sem Sonhos, Nem visões...

Sem Sonhos, Nem visões...
Imperdível, pelo menos esta nota inicial do texto, tão necessário hoje no que concerne a uma revisão ou reforma (?) de métodos, dando lugar exclusivo à Bíblia Sagrada.

"Infelizmente parte da Igreja evangélica não tem sido guiada exclusivamente pela Palavra de Deus. Em algumas denominações percebe-se nitidamente que a tradição religiosa, as experiências místicas, além de técnicas terapêuticas e estratégias de marketing, servem como bússola e orientação àqueles que se denominam cristãos."

In Púlpito Cristão, via Ab-Integro, de Jacinto Lourenço

Saturday, November 21, 2009

As virgens das lâmpadas


Estão paradas a segurar
a sua sombra
até que o sol seja um lento
traço fino no horizonte

Estão paradas e olham para as mãos
há no desenho das chamas
uma forma quase de estrelas
brilham, tremem as mãos
iluminadas nas candeias

Esperam o baixar
e o subir do sangue
ao coração
Esperam paradas, encostadas
ao seu sono

Enquanto a língua do lume
lambe as feridas da noite.

21-11-2009

Tuesday, November 17, 2009

O Dante da Poesia Bíblica



Há uma observância das normas da poética no livro bíblico do profeta Isaías.
Com efeito, existem provas incontáveis de como a melhor poesia pode prescindir do metro. No estudo de uma poética ocidental, não foi por mera referência editorial que se escreveu sobre a grande poesia que pode dispensar a metrificação, e que tal se estende até ao livro bíblico de Isaías.
Uma referência do nosso tempo, o crítico literário Harold Bloom já havia escrito, que, face à realidade social em que se vive, o homem actual é exortado a encontrar “em Platão ou em Isaías a origem da nossa moralidade.” (O Canone Ocidental, pág.39)

O estilo deste profeta integra uma unidade que a crítica não pôde desintegrar, embora desde o século XVIII o tentasse fazer. Como é do domínio dos estudiosos, essa crítica colocava em questão a identidade do autor, sugerindo a hipótese de várias identidades autorais do Livro bíblico profético.
O prof. Adriano Moreira afirmou, a este propósito, que, contrariamente às hesitações da tal crítica, o Livro de Isaías mantém a continuidade da voz e da mensagem, da voz de Isaías e da sua Profecia, nas Escrituras Sagradas.(Isaías, Três Sinais Editores, Apresentação de AM)

É, com certeza, no âmbito do Fundamentalismo evangélico, um estilo literário, assim considerado há muito, com estudos fundamentalistas desde o princípio do século passado. «O estilo de Isaías difere amplamente de qualquer outro profeta do Antigo Testamento»- escreve o prof.George Robinson na colectânea Fundamentos (Edição de R.A.Torrey, Hagnos, pág.93)

O filho de Amós estabelece desde o início o paradigma do seu Livro ao declarar que o mesmo será resultado de uma Visão. E di-lo de uma forma linear, comparativamente ao princípio de Ezequiel, que o faz de um modo prosaico e muito histórico-literário, também. O termo hebraico châzôn (sonho, revelação, oráculo), compara-se ao grego orasis, o que equivale à coisa que se torna visível. E a poesia torna as ideias visíveis nas palavras. Gostaria também de usar aqui o termo «poesis», que significa «fazer», referindo-o como uma forma de arte, de criatividade visual.

Com efeito, a poesia existente no Livro de Isaías permite-nos que «vejamos» o que o profeta escreve e vaticina, as suas imagens, as suas metáforas.
Por exemplo, do entrecho poético: “Como são belos sobre os montes os pés do mensageiro que anuncia a paz, que traz a boa nova, que apregoa a vitória, que diz a Sião: “Já reina o teu Deus”( Is 52,7). Os “pés do mensageiro” com feridas, sujos da poeira da estrada, são “belos” na poética do profeta. A razão é a qualidade da mensagem, a sua totalidade mensageiro / mensagem, a boa nova que é ela própria um som de paz. Forma e conteúdo da mensagem são a mesma coisa: uma voz pacífica perante a visão dos atalaias que já distinguem o retorno do Senhor a Sião.

Outro entrecho do Livro, o cap.53 é paradigmático. Sendo profecia, traduz porém o acontecimento numa linguagem estruturada em símiles e metáforas. A antevisão da paixão e crucificação do Messias é notavelmente de poética.

Poderíamos dizer que na poética do profeta bíblico existe o paradigma de uma antecipação do estilo modernista, 2.600 anos antes, obedecendo no entanto ao rigor das normas hebraicas, mas com apontamentos da área dos tropos da linguagem. Como alguém considerou, é fácil descobrir que o Livro de Isaías contém mais vocabulário do que qualquer outro livro da Bíblia e artifícios de linguagem.

Antes de movermo-nos para outro ponto sobre a poeticidade do escrito Isaías e sobre este como poeta, deixem-me exemplificar: ele usou um esquema que hoje conhecemos como quiasmo. Esta figura literária de repetição pode ser pensada como a do paralelismo hebraico.
Assim esquematizado: ABCDDCBA ou ABBA Vejam-se dois exemplos: A-Efraim B-não invejará a Judá B- e Judá A-não oprimirá a Efraim. ( 11,13) e 55:8: A-Porque os meus pensamentos B-não são os vossos pensamentos, B-nem os vossos caminhos A-os meus caminhos, diz o Senhor.

A observância da poética em Isaías é um problema da cultura, problema do qual faz parte a solução para o entendimento da linguagem da poesia de uma boa parte do livro do profeta bíblico.Tanto na forma como conteúdo.
Citando, comparativamente, o teólogo Richard Niebuhr, «Paulo foi um conservador cultural» e não rejeitamos de modo algum que tenha incluído no seu discurso em Atenas a referência a dois poetas pagãos da cultura greco-romana: Aratus e Cleantes.

A Cultura é um meio que deve dar expressão à Fé, e não um fim em si mesma. O profeta Isaías, no seu tempo antes de Cristo, não citou poetas, ele próprio foi poeta, exprimiu a sua Visão e a sua Fé no Servo Sofredor através da sua cultura poética. Isaías é um autor bíblico que explica tudo.
O próprio uso do termo «Senhor dos Exércitos», que é uma forma universal no escrito inspirado de Isaías trata do senhorio de Deus sobre anjos e estrelas, isto é, o Criador do Universo inteiro, porquanto na linguagem bíblica os «exércitos» divinos são os anjos e as estrelas.

Outro termo utilizado é o peculiar «o Santo de Israel» que é uma particularidade que identifica o Senhor da Nação, e marca esta como constituída por um Povo peculiar e separado para corresponder ética, moral e espiritualmente à santidade.
Nesse tempo já havia termos que definiam e caracterizavam, nas literaturas clássica de antes do Velho Testamento, soberanias e autoridades, designadamente «o pastor de povos», que se referia aos reis e é designado na Ilíada e na Odisseia de Homero – os poimèn laôn.
Tratava-se aqui de uma metáfora, uma símile literária que o profeta Isaías cristalizou no seu Livro, no contexto de Israel, ao falar do que vira na sua visão mística, «o Rei, o Senhor dos exércitos», o Criador do universo inteiro. Isaías tem sido definido, pelos estudiosos do seu Livro bíblico, desde 1775 como o «Dante da poesia hebraica».

Porquê Dante? Por este ser um admirador da arte dos Salmos? E da Roma cristã? Pelo estilo da escrita, das imagens, pela potência inventiva das frases, ou pela sua estrutura visionária da sua obra-prima? A Divina Comédia? Sobre Dante escreveu-se que ele vê e sente por imagens. Cada episódio é um reflexo variado de tudo aquilo que agita a alma de Dante.
Ele sente-se como vidente e profeta investido de uma missão divina.
Dante sofre perante tais imagens dessa visão dantesca, a que já se chamou a «danteide» desde o Paraíso ao Inferno. «Dante sofre por aqueles factos e aquelas impressões, e quer transmitir esse sofrimento; doutro modo não poderia dar a entender aquilo que deve ou quer, ou seja o aspecto e os perigos do Inferno»

Isaías sofreu perante a visão do Servo Sofredor, de Cristo na figura da ovelha muda perante os tosquiadores, sem beleza alguma para que fosse desejado. Isaías cujo nome tem parecenças no sentido do de Jesus, «o Senhor salva», é talvez por essa razão considerado o «Dante da poesia bíblica».
Sendo considerado o primeiro dos evangelistas, viu o Amor de Deus a entrar solene com corpo no mundo antigo, a estabelecer a era da Graça. Estabeleceu na sua profecia uma moralidade transmitida por palavras poéticas e uma ética na sua narrativa que apontava os erros e o futuro de Israel e retratou quase um milénio antes o percurso evangélico de Jesus Cristo, do Advento à Cruz, com uma poética da Graça divina.