Saturday, August 18, 2012

BANDA DESENHADA EVANGÉLICA



Em notas de trabalho sobre a “Saudade”, José Ortega y Gasset escreveu que a “saudade não é um tema português; é o tema português. A saudade é o desejo de voltar.
À adolescência, por exemplo.
Intróito necessário para uma lembrança “literária”, dessas que surgem como o cometa Halley, e depois se perdem entre as galáxias das décadas e de inúmeras coisas úteis, literariamente falando, e outras meramente editoriais oportunísticas e meras nebulosas, no mau sentido, no “sistema solar” das nossas editoras evangélicas, que não são mais que entrepostos da colonização das traduções de má qualidade, teológica e literária.
Intróito talvez já longo para falar de “ As Viagens do Apóstolo Paulo”.

Banda desenhada, melhor, arquétipo de banda desenhada na melhor tradição sueca da primeira metade do século XX, publicada em revistas de conteúdo evangélico. O autor foi um artista, pintor e, possivelmente, escritor sueco, Bror Oscar Belfrage (nascido em 1905-), que em 1960 vivenciou através dos desenhos a preto-e-branco, das legendas e dos textos do próprio Livro dos Actos dos Apóstolos a vida e as viagens do Apóstolo dos Gentios.

O primeiro volume dá-nos a conhecer a personagem Saulo/Paulo a partir do encontro com Jesus na estrada de Damasco. Explica detalhes da vida quotidiana na Grécia e Chipre, no tempo paulino. O segundo, culmina com as viagens e as vivências do Apóstolo de Malta até à Itália.

Contextualiza geografias com os episódios em que Paulo desenvolve a sua pregação do Evangelho. Reproduz capítulos inteiros dos Actos, designadamente no 2º volume, a partir do cap. 25, ipsis verbis, como suporte textual da banda desenhada.

Foram ambos os volumes editados em Portugal pela antiga Casa Publicadora das Assembleias de Deus, ainda na sede da Rua Senhora do Monte, 14, à Graça, Lisboa, e impressos na Suécia, ou em fins da década de 50, ou com toda a certeza entre 1960 e 1962 ( esta data está manuscrita num dos volumes, pelo punho do meu Pai ( José Parreira, 4/10/1962) )

18/8/2012

Thursday, August 02, 2012

DISCUSSÕES DIVINIZADAS

                                         
Adão discute com Deus sobre os erros alheios, os da sua mulher.

Caim discute com Deus convencido de que Deus não é Omnipresente.

Abraão discute com Deus sobre as probabilidades da demografia dos justos em Sodoma.

Jacob discute com o Anjo do Senhor, esgrimindo argumentos terrenos, à força de braços.

©

Wednesday, July 25, 2012

Os Discípulos de Emaús



Estavamos sentados. Os olhos

convertidos às suas mãos

quando partia o pão

no escuro

abrindo-nos a luz.


25/7/2012

Saturday, July 07, 2012

Os Pés na Poça do Anti-Semitismo



Esta expressão, usa-a Bernard-Henry Levy no seu livro essencial O Século de Sartre. Quis dizer-nos que a França foi essa poça, durante e após o Holocausto e Auschwitz, em relação aos seus judeus, e que o filósofo Jean-Paul Sartre meteu os pés nessa «poça» para a denunciar.

Ainda hoje é preciso confrontarmos a nossa consciência cristã perante o que se designa por anti-semitismo. É que a história não nos põe de lado no que concerne a essa interpelação. Não foi só depois de Auschwitz que a poesia se tornou impossível, no dizer de Adorno, a nossa posição de cristãos evangélicos também, diante do que se designou e continua a chamar-se, com menos estrondo, é certo, «o problema judaico».

Mas há uma «questão judaica»? No século XXI? Sartre definiu-a em 1944, ainda se silenciava os nomes dos Campos de Extermínio nazi, e depois perante a hipocrisia dos franceses e até de alguns autores católicos, existencialistas cristãos, como Gabriel Marcel.

A questão judaica, que integra o que desde o século XIX se passou a chamar anti-semitismo, está a julgamento na história entre dois lexemas: aquele anti- e o racismo.

Racismo é, parafraseando Freud, «o ódio ao outro»; mas é um ódio à diferença visível: é negro, é branco, é cigano, é pobre, etc. O anti-semitismo não deixa de ser neste sentido um ódio à diferença, o ódio pelo outro por causa da diferença invisível, imperceptível.
Os judeus eram essa diferença, tinham a marca no rosto invisível, dizia-se que podiam corromper o mundo, secretamente. E se alguma literatura reflectiu isso com frases como «Weiss era mesmo alguém que trazia o destino estampado no rosto»( in A Pena Suspensa, de Sartre), a religião sobretudo acrescentou o maior contributo.

O facto conceptual continuou pelos séculos fora, tal qual o escritor francês, falecido em 1980, o escreveu no diálogo entre dois personagens judeus, no romance citado: «Mas o que é um judeu? É um homem que os outros homens consideram judeu.»
Antes e depois de Lutero.

A verdade é que Martinho Lutero não está isento de culpas quanto a essa consideração, por razões conceptuais baseadas na religião, designadamente num catolicismo medieval, que combatia alegadamente a cabala judaica com outra cabala, considerando os judeus como uma raça oriunda do Averno.

A historiografia do anti-semitismo não favorece o Grande Reformador protestante. Infelizmente. As suas próprias declarações sobre o que entendia ser o judeu, o comprometeram para o futuro.

No Julgamento de Nuremberga, Julius Streicher, o director do perverso Der Sturmer, jornal nazi e anti-semita, afirmou «que se tinha que ser levado a tribunal para responder pelo seu contributo para o assassínio em massa dos judeus, então Lutero – o pai da tradição anti-semita luterana, cuja anti-semitismo derivava da tradição católica- deveria estar a seu lado.»
Cartazes anti-semitas da juventude hitleriana, já em 1936 expunham publicamente como o alemão via o judeu, visão estruturada numa imagem religiosa: «Nós jovens, avançamos alegremente virados para o Sol…Com a nossa fé expulsamos o Diabo da Terra…» O Diabo, em maiúsculas, era o Judeu.
Justificações ilógicas apontavam num só sentido: os judeus crucificaram Jesus Cristo. O ódio religioso, do domínio da historiografia religiosa, que se transformou depois em ódio científico e sistemático, nas estruturas nazis da Solução Final, dirigido contra os judeus, era a resposta ao ódio «assassino» dos mesmos contra Jesus.

Perante a História não podemos deixar de pensar, no século XXI, que houve ( ainda há?)um anti-semitismo cristão, e que o Cristianismo, no que respeita ao aniquilamento europeu dos judeus na década de 40, ignorou teológica, social e humanitariamente, a raiz do Amor divino, demonstrado nas próprias palavras sofredoras de Cristo, na cruz: «Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem.»

Se Adorno afirmou que depois de Auschwitz não podia escrever-se mais Poesia, há porém algumas coisas que devem ser feitas pós-Holocausto. Para um Luteranismo puro tem que haver uma revisão aos comentários da História do anti-semitismo, com um pedido de perdão do Cristianismo, e também dos Evangélicos porque não basta aos mesmos fazerem apenas excursões a Israel, para visitar os lugares santos. O lugar santo deve começar no nosso interior, expurgando a nossa maneira de ver o outro, o Judeu.

2009

Wednesday, July 04, 2012

Três Salmos de "Falando Entre Vós Com Salmos"

SALMO 7


Aos que me perseguem, o Senhor apaga
o meu rasto, esconde os meus passos
dos olhares felinos, o meu coração
está aberto para Ele
Meu Deus haverá remédio para mim
a minha alma já não teme o teu arco curvado
nem as setas inflamadas
começa a aprender os altíssimos louvores
na tua própria língua.


SALMO 51


Ó Deus, o meu pecado ensurdece-me
é no meu interior um ruído
como a convulsão da terra, antes do sismo
os meus delitos entraram na corrente sanguínea
dá-me, ó Senhor, um coração branco
renova a verdade que um dia escolheste
nos meus olhos, como a neve nos ramos
das árvores, embranquece
os meus ossos humilhados
e os lábios
desenharão palavras de alegria.


SALMO 121


A dureza dos montes começa nos meus olhos
um paradoxo
para quem tem sublimes alparcas de voar
por isso fecho os olhos e os lanço
fora da órbita do mundo
para ti, Senhor, que fizeste o azul
onde puseste esta raíz dos homens
que é a terra
não haverá queda porque teus passos
são os mesmos do Senhor, diz
a voz que extingue dentro de mim
os medos que o Sol e a Lua
costumam esconder.


do livro “Falando entre vós com Salmos” (inédito)

Saturday, June 16, 2012


Depois de ler o artigo do Prof. Pe. Anselmo Borges no DN, sobre Charles Pépin:

Un homme libre peut-il croire en Dieu? fortaleci o pensamento de que foi, de

facto, o Cristianismo que criou a Liberdade ("Se o Filho vos libertar,

verdadeiramente sereis livres" - disse Jesus Cristo).
 

Porque Ele próprio criou a Libertação.

E não há liberdade sem libertação, disse Paulo Freire pouco antes de morrer em

1997.

Tuesday, June 05, 2012



Os corvos de Elias não conheciam o dia de amanhã
mas sabiam ser uma ponte aérea
entre Deus e o profeta
Os corvos de Elias não pensavam na cor
das suas penas, não pensavam no sol
do dia seguinte, na chuva que não desceria
também bebiam nas águas do ribeiro
Os corvos de Elias sem relógios
conheciam da manhã e da noite
o que levavam no bico.

25/4/2012

Thursday, May 17, 2012

Dói-me Jerusalém


"Me duele España"
Miguel de Unamuno


Dói-me Jerusalém, os ossos
que ficaram pedra sobre pedra
dói-me o muro
onde os rostos se descascam
das lágrimas, onde os lábios
segredam
as Lamentações trágicas da vida
doem-me
as alturas desmedidas do Sinai
o frio das pedras
onde antes um fogo se acendia
dói-me a sarça extinta
e doem-me os sete braços
do candelabro, levado para Roma
por um preço insuportável.

16/5/2012

Wednesday, May 02, 2012

SEM SOLUÇÃO DE CONTINUIDADE O ÚLTIMO VERSÍCULO DE ACTOS

            

o derradeiro versículo do cap. 28 de Actos do Apóstolos não tem, felizmente, solução de continuidade. Não pesa nele a interrupção.

“ Pregando o reino de Deus, e ensinando com toda a liberdade as coisas pertencentes ao Senhor Jesus Cristo, sem impedimento algum”

Pese embora a referência da narrativa ser dirigida ao trabalho derradeiro do Apóstolo Paulo em Roma, a intertextualidade da diegese não é apenas particular, é universal no que concerne à Missão da Igreja e aos Actos do Espírito Santo, que não cessaram.

Este versículo permite muitas perguntas e outras tantas respostas, mas nenhuma dúvida.
O final não é apenas histórico, no que concerne à biografia de Paulo escrita por Lucas, é sobretudo teológico, e, como tal, de continuidade. É portanto demasiadamente claro.

Em comentários bíblicos abrangentes de todos os versículos do Novo Testamento, por exemplo, encontramos alguma unanimidade na interpretação.
Lucas pretendia escrever um terceiro volume( o seu Evangelho e os Actos, dois tomos de uma mesma obra) para registar o julgamento e libertação de Paulo – dizem uns; a narrativa dá como terminada a história naquela circunstância da prisão fora do cárcere (a já usada prisão domiciliária) de Paulo – propõem outros. Ou o “fim abrupto da história de Paulo”, conforme a opinião do teólogo Oscar Cullmann.

A verdade é que “Paulo estava restabelecido e a sua coragem reanimada pela graça(...); é ele quem encoraja, quem actua, sempre da parte de Deus, no meio de toda a cena”- escreve John Nelson Darby (J.N.Darby), num comentário com quase dois séculos aos Actos (1). E, facto importante e até curioso, a história da relação de Roma com o Evangelho, a pregação do Evangelho, faz-se com a prisão de Paulo nessa cidade imperial.

Paulo pregava o Reino de Deus e ensinava acerca de Jesus Cristo. E esta acção não foi nem é jamais o fim da História da Igreja, essa História presente é um contínuo de somas desde o Século I, enquanto a Igreja não for secretamente arrebatada por Jesus.

Uma intertextualidade literária

Atalhando caminho para uma intertextualidade clássica, uma vez que os capítulos 27 e 28 de Actos são especialmente considerados também clássicos, do nível literário, e.g.,da Odisseia (de Homero) ou, salvo melhor opinião, do Canto I, de Ezra Pound, permitam-me que cite a mim próprio:

“ No texto de Actos, o evangelista coloca a narrativa dentro da própria moldura da História e da biografia de Paulo, enquadrando-a nas circunstâncias políticas, religiosas e geográficas do seu tempo. (…) Particularmente, a descrição com todo o seu ambiente, sai dos mares jónicos e torna-se, por si própria, num dos únicos e mais importantes documentos históricos sobre um naufrágio. (...)Rigorosamente, as mesmas qualidades evidentes nos trechos das obras clássicas de Homero e Pound (separadas por quase três
milénios ) são notadas, também, na excelência do texto bíblico dos Actos dos Apóstolos.” (2)

O carácter daqueles dois capítulos não é porém a ficção, é a verdade. Mas Lucas usou expediente literário para nos indicar que o derradeiro versículo da sua narrativa, era uma porta não fechada. E poderia bem terminar em suspenso com um “Assim que...”, como o citado Ezra Pound utilizou para a sua parafrase (o Canto I, de “The Cantos”, sua obra-prima no século XX) do Canto ou Rapsódia nº XI da Odisseia de Homero.

“De modo que /Assim que”/ “So that:” -no original do poeta anglo-americano Pound- é um expediente cronológico que parece suspender para relançar a acção a seguir, uma passagem, uma ligação entre um passado e um futuro, em continuidade, que casou a poesia narrativa de Homero e a poesia lírica da Idade Média (3)
.
Por seu lado, o versículo inteiro e último de Actos é essencial para essa ligação, de um passado, de uma história que ainda decorre e do futuro. Parafraseando um verso célebre de Miguel Torga (do poema Dies Irae), todo o futuro está neste dia de hoje do versículo.

Crepúsculo, aparente, e Alvorada, apenas duas palavras com as quais podemos qualificar o versículo 31.

Mas é exactamente nas palavras que a continuidade e o futuro se perfilam, na afirmação final do autor evangélico sagrado, que as coisas pertencentes ao Senhor Jesus Cristo estavam a ser ensinadas, propagadas, “sem impedimento algum”.

Teremos de socorrer-nos do Novo Testamento Grego (4) e pôr em relevo os dois vocábulos finais: parrêsias, akôlutôs.

O que significam dá-nos a medida, o primeiro, de uma abertura de par em par pela qual se entra com ousadia; o segundo, que tal entrada e caminhar não têm obstáculos permanentes nem absolutos. O versículo derradeiro dos Actos dos Apóstolos é um final aparente que contém um princípio contínuo em si mesmo.
Sendo história humana estaria limitado ao tempo, anos, meses, horas, segundos, mas é História de Deus.

Não com o rigor da disposição cronológica das cartas paulinas no NT, que não existe, mas pelo posicionamento tradicional no Cânone, a epístola aos Romanos não sendo a primeira que ele escreveu e tão pouco a que redigiu na sua prisão na cidade imperial, é o seguimento natural do Ensino teológico concernente ao Reino de Deus e ao Evangelho de Jesus Cristo.
A carta aos Romanos é considerada mais Tratado de Teologia do que Epístola. E assim é que poderíamos ligar, com alguma liberdade respeitosa, o versículo 31 de Actos aos versículos 1 e depois 16 do cap. 1 de Romanos. E temos a razão da continuidade.
A raison d'étre da pregação do Evangelho de Deus é a História da Igreja.

______________________________________________________
(1) “Estudos sobre a Palavra de Deus”, Depósito de Literatura Cristã, 1987

(2) Revista “O Obreiro”, nº 26, Janº/Marº 1984, CPAD; e “Bara-Cadernos Culturais, III”, s/data

(3) A Odisseia, Homero, Canto XI, Biblioteca Editores Independentes, pág.180 ss, trad. Frederico Lourenço; “Os Cantos”, Ezra Pound, Editora Nova Fronteira, pág. 21 ss, trad.José Lino Grunewald.

(4) Novum Testamentum Graece, Nestle-Aland

(Texto a sair na revista "Novas de Alegria"                                                                                                          

Saturday, April 14, 2012

A RESSURREIÇÃO

Sem nada por que chorar
senão o túmulo vazio
e dois anjos a arrumarem a casa
vazia para sempre
sem nada sobre o que derramar o seu incenso

as mulheres
recém chegadas ao sepulcro
vão gastar os olhos na vigília

as mulheres sem um corpo onde encostar
o seu olhar silencioso
o fio das suas lágrimas

e regressam, as mulheres
regressam com o vento nas sandálias

as mulheres que vêm com o medo
mas com os cabelos como os ramos
perfumados de alegria.

7/4/2012

Thursday, March 22, 2012

Salmo 137 em português moderno

 
 
 
Não invocámos pequenos prazeres
junto aos rios da Babilónia
nas margens havia salgueiros
e neles pendurámos nossas lágrimas
nem pequenos passeios
de barco, no sossego das águas
aos sábados
pendurávamos a vida
nesses dias à beira dos rios
da Babilónia, imóveis
só tomávamos o ar.

21/3/2012

Wednesday, March 14, 2012

Rua chamada Direita


Rua Direita, em que o sol estreita os raios
num único os raios oblíquos
uma rua de Damasco, simples endereço
onde por um acidente celeste
Saulo entrou, hóspede
dos planos divinos e esperava
os dias eram cegos com o olhar colado a escamas
tremia ainda, pelo calafrio da luz
que penetrara até à raíz dos olhos?
pela Voz que, qual punho, o derrubara
na poeira de veludo da estrada de Damasco?

14/3/2012

Monday, February 27, 2012

Escalar as feridas do Sinai



Escalar as feridas do Sinai
enquanto o fogo descansa na montanha
escalar Athos com os pés molhados no Egeu
desafiar as pedras
como se fossem duros deuses terreais
fazer pelos Himalaias o caminho
até que o mundo seja apenas
o azul, luzindo
nas águas do sol propenso à alegria
escalar os Alpes
os penhascos em risco e os gelos mortais
até desviar da noite a Estrela d'Alva.

26/2/2012

Thursday, February 16, 2012

TROFÉUS

Com mãos mercenárias como se fossem aves
de rapina
romperam teus vestidos, relíquias
com os fios da tua veste, a tua última
túnica com forma unânime
levaram para casa, com as mãos sujas
guardaram um pouco do brilho
do teu sangue.

16/2/2012

Tuesday, February 14, 2012

A Cultura do Cristianismo em risco na Europa





O património da Europa, que está a aproximar-se da destruição, senão do suicídio, ao fundar-se em valores do respeito pela dignidade humana, da liberdade, da democracia, assenta fundamentalmente sobre valores religiosos e estes valores são matéria do Cristianismo.

A fundação da Cultura do Cristianismo pelo apóstolo Paulo não está, porém, cativa de um passado remoto. Na segunda metade do Primeiro Século – a partir do ano 50 a.D - já essa Cultura, essa Nova Luz, a Idade do Ouro que até Virgílio, o poeta latino, vaticinou (Bucólica Quarta), se preparava para ser coluna no futuro.

Tolerada ou sentida com temor pelas instâncias do poder romano(Actos 24,25) e «reconhecida» nos seus fundamentos pela curiosidade do espírito cultural grego (Actos 17 ), ajudaria a conduzir da Patrística à Reforma o Pensamento dos cristãos, e a despeito de muita dialética materialista no século XX, um autor como Harold Bloom teria que colocar Paulo como um autor bíblico fundacional a par de Dante e Shakespeare. Para o autor do Cânone Ocidental, Paulo esteve também na base da ontologia do Ser.

Este começou por estruturar a Cultura Cristã dentro das balizas da cultura do judaismo. Na referência biográfica que faz de si próprio nas epístolas aos Coríntios e aos Filipenses, não enjeita suas origens, as quais eram motivo de orgulho no tempo anterior ao Caminho de Damasco.

Assim, imensamente por causa do trabalho missionário de Paulo, que abarcou o Oriente e o Ocidente, a remota Ásia Menor e a Europa, a Cultura do Cristianismo foi uma cultura de rotura. A cultura de rotura com os valores, com a amoralidade e a imoralidade, do secularismo, começou a ser veiculada pelas Comunidades dos cristãos, pela Igreja.

E sem excepção, as Epístolas de Paulo, não excluindo como é óbvio as cartas dos demais apóstolos, contribuiram para tal cultura de rompimento. Paulo confirmou doutrinariamente toda a historicidade do relato de Lucas nos Actos, Paulo tornaria o Cristianismo num Facto histórico, resgatando-o da ideia da época de ser uma seita do judaismo. Desde um ponto de vista histórico o cristianismo supõe o principal aportamento do povo hebreu e uma das mais importantes influências semíticas junto com o alfabeto – no âmbito geo-cultural ocidental. Já se escreveu que «a religião cristã foi um factor primordial na hora de formar o sentido da identidade europeia.»

A Igreja bíblica está fundada sobre a Doutrina dos Apóstolos, a Europa subtraída às hostes da barbárie tem nas suas fundações os veios auríficos dos valores imbatíveis dessa Doutrina. Assim o Cristianismo não pode ser visto apenas como a Religião, é também a Identidade.

(Excertos de artigo publicado em "Novas de Alegria", de Dezembro de 2003.)

Tuesday, February 07, 2012

O Dia que abalou o Mundo

10 de Novembro de 4004 a.C, dia da expulsão de Adão e Eva do Paraíso segundo a Cronologia de James Usher, in The Annals of te World.
 
 
 
Saíram em silêncio, nesse dia
fora dos muros do Jardim, o hálito
das bocas com um fruto
e o perfume dos corpos
e a libido
Passaram do círculo
do verde para as pedras
do suave gemido da nudez
para a rudeza dos vestidos
Teriam enfim a sua idade
como as árvores ou os lobos
a nostalgia na hora do uivo
passaram a prova da coisa proíbida
e agora
com os pés para a Morte
já tinham um sentido
4/2/2012

Saturday, January 28, 2012

Holocaust Memorial 27th of January

Kaddish por Nós


Quando eles nos mataram
a nossa cinza falou por nós

quando mataram nossos filhos tivemos mais
quando mostraram as nossas mulheres nuas
nossos olhos fecharam para sempre
houve cidades em que o vento
não trazia pássaros
mas cinzas.
 

Wednesday, January 18, 2012

Suicídio na Linha

Mulher entre os 60 e os 70 anos atirou-se de braços abertos para a frente da automotora que ligava Aveiro-Águeda”

in Diário de Aveiro, de 17/1/2012


Não suportou a cruz, o peso
disperso pelos braços
Uma faca que cortou um amor
desencontrado? O silêncio
a inundar-lhe os ouvidos?

Ou uma ária cigana
tocada nas cordas invisíveis
das lágrimas?

Desistiu de ver as mãos vazias e os olhos
sem futuro? Não suportou os deuses
entretidos à porta das igrejas
a falarem de arte?

Atirou-se de braços abertos
sem ninguém.

18/1/2012

Saturday, January 14, 2012

Vocabulário

Coisas que sairam das mãos de Deus, na Criação, e que começaram a ser sem as palavras ainda: Flor, Estrela, Rio. A Criação antes da Nomeação. Só o Homem, já tinha palavra antes do Criador o moldar com Suas mãos.

Friday, December 30, 2011

O Menino Maravilhoso de Isaías e de Virgílio



Isaías estava preparado para abrir a sua boca e dos seus lábios aptos saíria a notícia, a Boa Nova do Advento.

Porque um menino nos nasceu, // um filho se nos deu; // e o principado está sobre os seus ombros”.
Mas é na descrição poética de um mundo em trevas, uma metonímia para a escuridão da morte, onde as sombras se prolongavam dos olhos do povo, de ambos os reinos de Judá e de Israel, que Isaías embeleza o seu escrito, a fim de trazer a esse «povo que andava em trevas» o Messias. E novamente aqui as incontornáveis figuras de linguagem, de novo a metáfora e a símile, a fim de iluminar o silêncio profético desse período entre os dois Testamentos.

«O povo que andava em trevas // viu uma grande luz, // e sobre os que habitavam // na região da sombra de morte resplandeceu a luz. // Tu multiplicaste este povo e a alegria lhe aumentaste»

A primeira nomeação que Isaías usa para qualificar esse Filho Messiânico, que viria alterar toda a estrutura desse texto de Escritura Sagrada para um texto poético, é um termo epopeico: Maravilhoso, Maravilhoso Conselheiro, que re-ensinará a Moral, a Ética, a Sabedoria a um povo de entendimento entenebrecido, pela negra miséria do cativeiro na sua própria terra e do exílio.

Do mesmo modo, sete séculos depois o poeta latino Virgílio diria poéticamente de um menino que iria “partilhar vida dos deuses”. Por esse cântico poético, depois na Idade Média, o autor do épico “Eneida” foi recuperado para o Cristianismo com a categoria de profeta pagão.

Ao poeta foram “atribuidos dotes sobrenaturais de profeta e de mago” - diz-nos qualquer História da Literatura Latina. Mas não foi por ter “conduzido” como guia espiritual Dante, em viagem pelo Inferno, na monumental obra que é a Divina Comédia.

Sobretudo e exclusivamente foi porque escreveu nos derradeiros anos (42-39) antes de Cristo que um menino maravilhoso iria nascer. E esse escrito é até hoje não só inexplicável, mas também inelutável.
Há milénios que a crítica gostaria de poder identificar esse menino. O nome, ninguém até hoje sabe, embora haja quem o personifique num favor poético quer Virgílio teria de fazer a certo personagem influente, Polião, pelo nascimento do filho deste; mas quando lemos que o menino será maravilhoso, porque será portador de uma nova Idade de Ouro, não será num mero nome que se deve pressumir, pelo contrário, deve-se pensar na condição social e no carácter, na interioridade e na projecção moral, de tal criança, na sua superioridade inabalável, e assim olhar com o auxílio da hermenêutica literária e histórica.

No fundo, como uma questão de contexto, na qual as promessas proféticas sobre Jesus Cristo podem também ocupar um lugar de relevância.

BUCÓLICAS IV
Nesta écloga, Virgilio utiliza alegorias para glorificar alguns dos seus protectores em Roma. O intuito deste entrecho bucólico, que não vem cantar pastores, nem os prados verdejantes para os rebanhos, é de outra ordem. É mítico e profético, trata do fim de um tempo e começo doutro novo, fala da criação do mundo, do Paraíso sem a serpente.

Eis que chega aquele fim da idade que predisse Cumas outrora, renascendo assim a grande ordem de século após século”

Especialmente esta Bucólica parece conter uma profecia messiânica feita pela Sibila - sendo isto apropriado pelos primeiros cristãos. Por esta razão, durante a Idade Média a Sibila de Cumas e Virgílio foram considerados profetas da vinda de Cristo.

Este menino que, primeiro, verá a férrea idade sumir do mundo logo vindo a de ouro”

O primeiro imperador já considerado cristão, Constantino ( “bispo do exterior” como gostava de se chamar), quando disse a sua mensagem para o I Concílio de Niceia interpretou esta passagem das Éclogas como uma referência à primeira vinda de Jesus.

O autor da “Eneida” classifiava esse tempo como “ Esta era nova ”, esse menino lado a lado com os heróis – escreve Virgílio – estaria na origem da Paz: “ com ele mesmo ao Céu erguido e governando a Terra em paz pela virtude de seu pai.”

Existe de igual modo um acento narrativo que nos lembra Isaías, no que concerne ao milenarismo / milenismo do profeta do Velho Testamento. “As cabrinhas por si trarão aos lares / tetas cheias de leite e dos leões / rebanho algum terá receio “, “ Serpente morrerá e morrerá / toda a pérfida planta venenosa “

O profeta Isaías profetizou acerca do reinado do Messias com uma linguagem imagética, temporal porque se trata da letra, mas inspirada pelo Espírito Santo que lhe mostrou o Advento do Menino.

O futuro na profecia de Isaías está numa Pessoa, nenhum outro profeta elevou perante os olhos do Mundo Antigo a Pessoa de Jesus Cristo ligado a elementos naturais da vida dos homens: nascer e morrer, de modo distinto e único.

Profecia retrospectiva, a de Isaías, porque “ como o passado e o futuro procedem igualmente da essência de Deus , uma inspirada penetração no passado dá a entender uma penetração no futuro e vice-versa”- Comentário de La Bíblia, Jamieson et alli.

E fê-lo de forma poética, ornando a exaltação do Messias de nomes da esfera celeste perante a miséria negra do cativeiro, em todo o belíssimo capítulo 9 do seu Livro. É como se aos três magos que foram a Belém, à humilde estrebaria, levar os simbólicos artefactos da sua riqueza ao Menino, Isaías estivesse presente como o quarto levando não ouro, incenso ou mirra, mas Nomes. As características essenciais do Menino.

Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; e o principado está sobre os seus ombros: e o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus forte, Pai da eternidade, Princípe da paz.”

(c) 12/2011

Wednesday, December 21, 2011

Foi Assim a Salvação: Inédito de Brissos Lino



Foi assim a Salvação. Um Menino

desceu aos homens

com a paz na algibeira

e estrelas na boca

enquanto uns olhos de sol e de lua

lhes aqueceram os dias

e os sonhos

para sempre.


21/12/11


Brissos Lino ©


Thursday, December 15, 2011

Os que vêm nos camelos, navegam na Luz branda

Os que virão nos camelos” Jorge de Lima

Os que vêm nos camelos
navegam na luz branda do luar
têm visões no deserto
quando o sol derrama no horizonte
as águas ilusórias
também bebem
dos espelhos da água mais profunda
vêm de vales estuantes
os que virão nos camelos
quando a viagem terminar os seus vestidos
serão trapos do tempo, não importa
pois trazem presentes
e seguem a estrela indispensável
e vão em busca da glória
do Menino.

13/2/2011

Sunday, December 04, 2011

Crónica de um plágio


1969, no Leste Angola. Chega às minhas mãos correspondência, e uma revista que a juventude das Assembleias de Deus editava: "Caminho"( nº 16, Jul/Ago 1969). Na secção de poesia (pág 14/15), ao lado de um poema meu - "Fragmentos para o Salmo 8", deparo-me com um soneto evangélico: "Ser Crente", um chamado clássico de um dos maiores poetas clássicos baptista Mário Barreto França.

O meu espanto, está "manuscrito" no que coloquei na própria página acerca de um inconcebível plágio. O soneto vem "assinado" por um pretenso autor...  

 Este plágio provou-me 2 coisas, naquele longínquo ano de 69 em plena Guerra colonial - o desejo de notoriedade sem olhar a meios; e que é preciso sempre alguém que conheça poesia, os autores, alguma coisa da história da poética universal, para poder coordenar uma publicação, neste caso, que veicule poesia. Pelo menos, mas como se defende no minimalismo: o menos é mais.

Saturday, November 19, 2011

O que disseram os companheiros de Emaús


Percorreste os nossos ouvidos
para encontrar um recanto
para o Amor
as palavras que abriam clareiras
na vasta linha da noite
As Tuas palavras foram amaciando a noite
foram dando asas ao chão
do caminho de Emaús
que pisavamos na noite
o Teu invisível fogo
das palavras, que depois à mesa
se transformaram em pão
e aí os nossos olhos entenderam.

18/11/2011

Tuesday, November 08, 2011

Lei do Retorno


Quem são estes que vêm voando como nuvens
e como pombas as suas janelas”
Isaias, 60,8


Aqueles que nos levaram
também nos deram asas, quando chegaram
as horas de Deus
trouxemos as nuvens
para as nossas sandálias
e voamos
como pombas branqueando as sombras
podemos fazer as nossas janelas
com vista para o mar
nossos braços e pernas
não serão mais pontas soltas no vento.



*A Lei do Retorno (de 1950) dá a qualquer judeu "no exílio" o direito de voltar para sua histórica terra natal e de receber sua cidadania.

Thursday, November 03, 2011

Maria de Schubert



Tem nos seus olhos um filho

a tremer de frio

sob o sólido

fogo de uma cruz, um amor

moribundo, que deixa

um tapete

macio de sangue no caminho

no seu ventre agora existe

um espaço

onde quereria guardar

o seu menino.

31-10-2011

Saturday, October 22, 2011

"Aquele de cuja mão fugiu o Anjo", e-book, poemas evangélicos

 

E-Book, download gratuíto AQUI:


                                                                                                                                                                      

Saturday, October 08, 2011

As Cartas


Eram cartas sem resposta
apenas num sentido, como as raízes
irrompem da terra na flor vertical
impossíveis de responder, as cartas
ardiam no pergaminho, como a sarça
a viver num fogo celeste
e sem peso
vertiam-se na voz de quem as lia
o céu está nas cartas, é um lugar
na terra, em Corinto ou em Éfeso.

8/10/2011
 

Tuesday, September 27, 2011

A Casa de Bernarda Alba


 “- A Madalena desmaiou. - É a que fica mais só”
Garcia Lorca


A tristeza de habitar
entre mulheres sozinhas
com sinos
dentro da cabeça

Olhares perdidos nos tectos
entre os ângulos das sancas
e o frio
solitário das paredes
as mulheres no escuro
dos vestidos

Com a saudade
que tem retratos nas mesas
e velhos poetas espessos
nas estantes
e grossas portas fechadas
com o mofo da tristeza a habitar
estas ninfas do silêncio.

14/10/2009

Thursday, September 22, 2011

O VERBO NÃO SE FEZ APENAS CARNE

A afirmação joanina “o Verbo se fez carne”, no Prólogo do seu Evangelho, é uma declaração teológica, primordial, cristológica obviamente, do mesmo modo que é, em seguida, antropológica.

Toda a asserção vai no sentido de nos fazer entender que o Verbo não apenas se fez carne, mas tomou também a forma inefável dos sentimentos do homem. Não se reconhecia esta verdade no próprio século de Jesus Cristo, quando os docéticos oriundos do gnosticismo afirmavam que Cristo era um espírito apenas, quando não um fantasma, sem carne, com um corpo aparente, negando-Lhe assim a humanidade.

O facto incontroverso, é que o Verbo habitou entre nós, em toda a extensão do Ser, não obstante sem pecado.

O “habitar” entre nós do Evangelho de João não foi por motivos exteriores, uma morada geográfica, numa cidade ou numa vila, numa casa, num quarto, um bilhete de identidade que a administração do território exige; o “habitar” é meta-histórico, era algo que, no grego, brotava do significado “tenda”, ou “tabernáculo”, vocábulo que o apóstolo Paulo elevara à categoria do simbólico, da metáfora de “corpo” na sua segunda epístola aos coríntios, que, como é sabido, é anterior ao evangelho joanino.

Veio para o que era seu
«Cristo não veio ao inferno, mas ao “que era seu”», esta formulação feliz dá-nos a dimensão do mundo (cosmos) que Deus amou.  O teólogo Dietrich Bonhoeffer, mártir cristão protestante moderno sob o regime nazi, afirmou-a no seu livro Ética. A índole teológica e moral desta obra reflexiva, também contra a “grande mascarada do mal”, personificada no nazismo, conduziu Bonhoeffer a uma cristologia perto do homem. Uma cristologia, como não poderia deixar de ser, a favor do mundo.

8/2011

Monday, September 12, 2011

A Pomba



(Piero de La Francesca)

A pomba contra o preconceito
que descia
passou todas as fronteiras
nas margens do Jordão
um sinal pairando, mais do que um sinal
uma voz
acomodava a beleza divina
nos ouvidos, a voz
do Pai que ilumina o Filho.

12/9/2011


Wednesday, September 07, 2011

Por um rio que havia em Babilónia




Por um rio que havia em Babilónia
nossos olhos perguntavam pela foz
nossas mãos colhiam e deixavam
passar por entre os dedos as estrelas
num rio que havia em Babilónia
nas margens assentamos
o coração cansado
e os cordeiros, como as harpas
presos aos salgueiros
a um rio que havia em Babilónia
descalçamos as alparcas
e lançamos orações
como a um muro de águas.


1/9/2011






Friday, August 26, 2011

Carta para um jovem amigo

Caro J

Vejamos então, J. Para já são pensamentos que me ocorrem aqui mesmo.


O Messianismo ou qualquer doutrina messiânica -do ponto de vista religioso- não pode pertencer ao Cristianismo, seria uma contradição de Fé, seria afirmar uma coisa e o seu contrário: uma espécie de
Um - Cristo (que dá nome à sua religião)- a - Vir.

Ser cristão/evangélico messiânico é portanto uma contradição.

Os Movimentos que vão nesse sentido visam, do meu ponto de vista, a conversão dos judeus a Cristo - o Movimento moderno Judeus para Jesus, por exemplo. Mas tal movimento pode colocar em causa a Doutrina Bíblica do Novo Testamento quanto à vinda do Lógos- o Verbo que se fez carne e habitou entre nós.

O crêr - como alguns Movimentos Judeus Messiânicos crêem- num Yeshua como sendo o Messias, pode levar-nos à confusão da pergunta: O Yeshua/Jesus que já veio no NT, ou que há-de vir, segundo o Talmude, segundo o judaismo mais ortodoxo.

Por exemplo, os Essênios do Qumrâm esperavam Aquele que viria lutar com as armas da Luz. Manuscritos do Mar Morto exibem isso.

A questão deve ser abordada quase como uma verdade à Monsieur de Lapalisse: O Judaismo, ortodoxo, contemporâneo, crê de facto num Messias a Vir, o Cristianismo /os Evangélicos/os Católico-Romanos / Ortodoxos / creêm num Cristo que veio.

A figura do Messias, o estudo do mesmo, é histórico e teológico....penso que os Messiânicos - salvo melhor opinião- estão só no domínio da teologia. O Cristianismo, obviamente, tem-na como base estruturante da Doutrina Cristológica, mas já passou também para o plano da História: O MESSIAS(no hebraico), O CRISTO (no grego) já veio.


Tome estes apontamentos como uma espécie do seu Amigo e Irmão a pensar alto para ele próprio.

  ( voltaremos ao assunto).

Um abraço. João

Wednesday, August 03, 2011

O Construtor

“Se o Senhor não edificar a casa,
em vão trabalham os que a edificam”
Salmo 127, 1

A construção vem de cima
escava-se
nos alicerces do céu
começa para lá do algodão
das nuvens, desce nas colunas
de mármore desde o azul, sem ruído
O Construtor toca com o arco
do violino celeste
de lápis-lazúli e edifica a nossa casa
desde o universo.


2/8/2011

Tuesday, July 19, 2011

As Quedas

No Paraíso, Adão foi de Queda em Queda após a desobediência. Aplicaríamos aqui um verso clássico do poeta alemão Rainer Maria Rilke para caracterizar a espiral de solidão, de medo, de angústia, de deceção consigo próprio oriundas do interior de Adão: “ O belo apenas é o começo do terrível”.
A falha do homem (de Adão), na Aliança ou Dispensação da Inocência, lançou-o em várias Quedas. A sua experiência espiritual, existencial e moral com Deus/o Criador entrou pela porta errada da rebeldia e da desobediência e tais quedas revelaram-se na chamada Aliança Adâmica, de inocente passou a responsável e os custos dessa mudança foram tremendos para a Humanidade.

A Queda
No século XIX, o filósofo cristão Kierkegaard, pioneiro na definição da angústia do Ser humano como um efeito, apresentou a causa da mesma: a Queda no Jardim do Éden. Desde tal definição até hoje, tem-se manifestado grande dificuldade em traduzir a palavra “angst”, que serviu de base para o pensamento kierkegaardiano, no que concerne, designadamente, ao existencialismo cristão. O conceito traduzido, que tem vindo a ser usado, é “ansiedade”.
Não é novo este termo, nos seus efeitos visíveis. Adão terá sentido profunda e indefinível ansiedade no Paraíso, quando necessitou de se esconder de Deus e, nesse tempo de espera, revolver os seus arcanos angustiadamente e modificar o seu olhar sobre o próprio corpo.

O livro do Génesis narra o primeiro acontecimento físico da Queda, a expulsão do Jardim: “E, expulso o homem”(Gn 3,24)

O que tal expulsão significou, não esteve apenas no campo de uma deslocalização de um sítio para outro, de dentro para fora do lugar edénico; a expulsão do jardim foi a circunstância /o aspecto visível de um desligamento da Comunhão íntima com o Criador, operado no momento dito da Queda, quando Adão (o Homem) sucumbiu à tentação e se tornou desobediente a Deus. Antes da expulsão física, houve a espiritual e depois a existencial, se quisermos, e ainda a social, para aplicarmos termos que hoje nos são comuns.

Muito e incontável tempo depois, em pleno início da Igreja, Paulo de Tarso escreve que “todos pecaram e estavam destituídos da glória de Deus”(Rm 3,23)

Outra queda
Em vão procuramos nas Concordâncias clássicas e antigas, como a Cruden's ou a Concordances Verbales de Louis Segond, a palavra Queda para exprimir a passagem de Adão da inocência ao pecado. Não parece que disponhamos desse vocábulo para sublinhar a narrativa do Génesis.
O NT, apenas como um exemplo, quando refere “queda”, entre outras acepções usa este termo em relação a Israel (Rm 11:11). E por aí, expressões com os sentidos verbal e substantivo.
O termo “Queda” do homem é de uso da teologia e muito tardio já. Pertence, contudo, à história da salvação, não pode haver soteriologia séria que o não inclua. Pertence à pregação (ao querigma) mais do que à arqueologia dos termos bíblicos relativos ao Pecado original.
Assim surge desde as origens da linguagem grega ou hebraica como apostasia, rebeldia(rebelar-se), desviar, abandono, separação, etc. e, finalmente, perdição e ruína, no sentido moral e religioso.
Vários teólogos protestantes pós Kierkegaard usaram o termo para exprimir suas ideias, uns que se tratava de um mito narrativo para falar da condição do homem face a Deus, outros um paradigma para falar do “homem fora da vida divina”; Barth chama-lhe mesmo a “queda do homem”. A “queda” é a condição humana, numa palavra, o Pecado.
Seguindo a narrativa de Génesis 3, apercebemo-nos que da chamada queda original resultaram várias outras quedas.

A queda existencial ou psicológica.
Ao contrário do que Kierkegaard entendia, Adão (o homem) não “estava fora” da raça humana antes de desobedecer, de transgredir o limite imposto por Deus. Possuía livre arbítrio e relação espiritual com o Criador bastantes para escolher, não ainda entre o Bem e o Mal, (Gn 2, 16-17), mas entre ser ou não fiel ao Seu Amigo, com o qual se encontraria todas as tardes ( Gn 3,8), que lhe levou os animais e as aves para “ver como (Adão/o homem) lhes chamaria” (Gn 2,19).
Com efeito, Adão era -como sabemos pelas Escrituras Sagradas- o primeiro Homem da raça humana. Adão era um indivíduo concreto. A sua relação com toda a Criação era essencial, advinha da sua essência de homem criado à imagem de Deus, a sua existência não era simbólica. Essa existência de harmoniosa relação com o Criador foi destruída, Adão passou a viver entregue a si próprio, agora sabia o Bem e o Mal. A sua liberdade estruturar-se-ia a partir daí entre estas duas categorias.
Na sua busca incessante de um existencialismo cristão, Kierkegaard definiu a universalidade da Queda, agora com absoluta razão ao escrever: “a queda de Adão desenha a queda de todo o homem”

Queda social
Com a Queda, a realidade social de Adão alterou-se radicalmente. Usando linguagem contemporânea, diríamos que a função social de Adão foi guardar e cultivar o Éden. Função adequada à coroa da Criação divina, trabalho dignificador, promoção social que Deus conferiu para o homem participar na manutenção da criação. O que se poderia chamar teologia do trabalho, a partir do livro do Génesis, radica nessa acção primordial de que Adão foi incumbido.
A instituição do trabalho, não como contribuição redentora, nem como castigo, mas como facto participativo da Criação, não deixou de sofrer o estigma do Pecado, da desarmonia que este introduziu na humanidade. Uma teologia do trabalho não parte de outro ponto. Deste ponto de vista, apreciando na narrativa genesíaca a voz divina, entendemos que da alegria, do gozo do trabalho, Adão caiu para a obrigatoriedade do mesmo. Foi o que Deus lhe quis dizer, nestas palavras divinas: “ maldita é a terra por tua casa: em fadiga obterás dela o sustento durante os dias de tua vida. Ela produzirá também cardos e abrolhos (…) No suor do rosto comerás o tu pão” (Gn3, 17-19).
Foi uma queda social que acompanhou toda a desarmonia da própria natureza. A acompanhar esta queda, esta nova situação do primeiro homem, esteve outra que lhe marcou doravante o seu novo lugar: fora do Jardim. A expulsão do Edén foi, indubitavelmente, uma tremenda queda social; Adão do Paraíso foi relegado para o Mundo.
“E expulso o homem colocou querubins ao oriente do jardim do Éden”.(Gn. 3, 24)

Ainda assim, a misericórdia divina colocou Adão no caminho de viver, se bem com a morte dentro de si. A vida e a morte, o bem e o mal, o espírito e a carne, como estruturantes da nossa humanidade.

Friday, July 15, 2011

Passagem por Samaria

!Y nadie sospechaba com qué temblor de urgencia
buscaba ella en la gente un resto de ternura!...
Andrés Quintanilla Buey



Diziam que ia ao poço
escondida sob o cântaro
que perdera já o olhar
varrendo o chão
a mulher samaritana
via apenas sombras
na água que do poço recolhia
ninguém suspeitava
que enchia de lágrimas o cântaro


Há quem diga que pecava
por um gesto de ternura
quando a rosa do sol incandescia
e trespassada de silêncio
se escondia, diziam
da mulher samaritana tanta coisa
ia ao poço para beber
da água repetida, na quietude frágil
da água, a sua vida.

Friday, June 24, 2011

Poucas vezes a fome terá tido

Poucas vezes a fome terá tido
tanta altivez
como nos caixotes do lixo, com a cabeça
triste, levantada, a procurar
poucas vezes o homem terá sido
tão ignorado
pelo homem como quando lança as mãos
como uma rede
para apanhar o seu quinhão de ar
Estar escondido atrás da claridade
das cortinas da janela
e ver essa altiva pobreza, poucas vezes
terei tido nos meus olhos
a beleza dolorida de ser homem.

24/6/2011



Saturday, June 11, 2011

Salmo

Oh Como é boa a suavidade dos girassóis
que se unem uns aos outros
a olhar para o sol, nenhum quer mais
sol que o outro irmão
e sabem que o vento raramente
lhes inclina as vestes para o chão
porque se amparam como se fossem
uma parede
verde com desenhos amarelos
de criança para sempre.

11/6/2011

Wednesday, June 08, 2011

Suicídio na Greenwich Village

Um poema de Gregory Corso

Braços estendidos
mãos espalmadas contra o parapeito da janela
ela olha para baixo
pensa em Bartok, Van Gogh
e nas caricaturas do New Yorker
ela cai

eles levam-na com um Daily News no seu rosto
e um armazenista joga água quente na calçada

(Tradução de J.T.Parreira)