Nota do editor:
O texto abaixo está longe de ser um poema( não basta a estrutura formal, nem um hiperbólico conjunto de metáforas, algumas delas boas, outras com a prosódia técnica errada), é, no entanto, uma verdade.
Por mim muitos sonham
Por mim muitos desejam
Por mim muitos esperam
Por mim muitos brigam
Em mim muitos se realizam
Em mim muitos se vangloriam
Em mim muitos se escondem
Em mim muitos esbravejam
Em mim muitos desabafam
Em mim muitos deliram
Em mim muitos enganam
Sem mim muitos se frustram
Sem mim muitos se entristecem
Sem mim muitos se angustiam
Sem mim muitos se deprimem
Sem mim muitos se desesperam
Sem mim muitos se calam
De ouro, prata, bronze, vidro, acrílico, pedra, madeira, não importa.
Investiram-me de um valor simbólico poderoso.
Dou prestígio, status, projeção, e até enriqueço alguns.
Sou um púlpito de igreja estressado,
cansado da mediocridade de muitos que me usam e abusam.
(Altair Germano)
In http://www.poesiaevanglica.blogspot.com/
Papéis com apontamentos de um percurso de cinquenta anos de pensamento evangélico, desde 1964. Este Blog não respeita o Acordo Ortográfico
Saturday, April 11, 2009
Wednesday, April 08, 2009
Kaddish por meu filho Absalão
Quem me dera que eu morrera / Por ti, Absalão.Rei David
Na alta abóbada de uma árvore
o teu cabelo chamou a morte
A tua efémera beleza
emaranhada no lugar dos ramos
como frágil presa
Um corpo sonâmbulo colhido como um fruto
como um pássaro nocturno
onde a morte depositou os dardos
Meu filho, Absalão, meu filho
ai o teu coração sozinho, permeável
ao vento sob a árvore.
Monday, April 06, 2009
O Anúncio
Basicamente é um diálogo. E todos sabem que os diálogos podem ser sinuosos, conter alçapões e esquinas desconhecidas, onde podem aguardar-nos os calafrios.
Várias imagens, como a ironia, a falta de ética, a falácia da solidariedade entre os homens, o incensar a mentira, o egoismo, a crítica aos que aguardam por salvação exterior à sua própria iniciativa, o eterno sebastianismo, etc., etc., nos podem ocorrer perante este:
«Então, que se passa?»
«Sabes lá, dinheiro!»
«Não me digas! »
«Verdade!»
«Não te preocupes. Lembras-te quando fizeste 30 anos? Nesse dia fui ao ...e abri uma conta poupança em teu nome. Todos os mêses depositei religiosamente 25 €. E tens lá um monte de dinheiro à tua espera»
«Estás a dizer-me que foste ao...e depositaste, etc.etc. A sério? Fizeste isso por mim?!»
........................................
«Não! Eu estava a gozar!»
Não havia necessidade de dizer coisas como estas («Triste mesmo…mais triste é o dinheiro que actrizes de renome estão a ganhar com esta publicidade misera e claro: elas é que se estão a rir na nossa cara… finalmente um anúncio à imagem do Bidarra: cínico e pouco solidário», In (www.ptfolio.com/2009/03/05/) que li em comentários sobre este anúncio a um tipo de poupança e de apelo a que devemos pensar em nós. Por quê?
Porque se corre o risco de transformar a peça em algo que navega em águas da filosofia, por causa do cinismo, que pode até não se descolar de um sentimento religioso, por causa da falta de ética perante as circunstâncias actuais. E não merece tanto!
Basta a encenação, as falas, certas expressões, e o recurso ao advérbio de modo «religiosamente», como resquício de uma certa moral religiosa, que é ancestral na hipocrisia com que Portugal vive o seu catolicismo romano, como uma pseudo nota de seriedade, que é incomparavelmente menos séria que a frase «sou ateu, graças a Deus!».
Dizer «Pensa em ti» é basicamente o ponto de partida para o tal diálogo. Como um dos elementos da retórica, o diálogo que Mikhail Bakhtin desenvolveu para o dialogismo, é figura que reproduz em falas diversas as ideias ou sentimentos das personagens.
Sendo o mote para a campanha criativa publicitária «Pensar em Ti» basicamente um diálogo, é natural que, segundo a tais regras da retórica, evidencie a polifonia que todo o discurso dialógico possui.
Várias imagens, como a ironia, a falta de ética, a falácia da solidariedade entre os homens, o incensar a mentira, o egoismo, a crítica aos que aguardam por salvação exterior à sua própria iniciativa, o eterno sebastianismo, etc., etc., nos podem ocorrer perante este:
«Então, que se passa?»
«Sabes lá, dinheiro!»
«Não me digas! »
«Verdade!»
«Não te preocupes. Lembras-te quando fizeste 30 anos? Nesse dia fui ao ...e abri uma conta poupança em teu nome. Todos os mêses depositei religiosamente 25 €. E tens lá um monte de dinheiro à tua espera»
«Estás a dizer-me que foste ao...e depositaste, etc.etc. A sério? Fizeste isso por mim?!»
........................................
«Não! Eu estava a gozar!»
Não havia necessidade de dizer coisas como estas («Triste mesmo…mais triste é o dinheiro que actrizes de renome estão a ganhar com esta publicidade misera e claro: elas é que se estão a rir na nossa cara… finalmente um anúncio à imagem do Bidarra: cínico e pouco solidário», In (www.ptfolio.com/2009/03/05/) que li em comentários sobre este anúncio a um tipo de poupança e de apelo a que devemos pensar em nós. Por quê?
Porque se corre o risco de transformar a peça em algo que navega em águas da filosofia, por causa do cinismo, que pode até não se descolar de um sentimento religioso, por causa da falta de ética perante as circunstâncias actuais. E não merece tanto!
Basta a encenação, as falas, certas expressões, e o recurso ao advérbio de modo «religiosamente», como resquício de uma certa moral religiosa, que é ancestral na hipocrisia com que Portugal vive o seu catolicismo romano, como uma pseudo nota de seriedade, que é incomparavelmente menos séria que a frase «sou ateu, graças a Deus!».
Dizer «Pensa em ti» é basicamente o ponto de partida para o tal diálogo. Como um dos elementos da retórica, o diálogo que Mikhail Bakhtin desenvolveu para o dialogismo, é figura que reproduz em falas diversas as ideias ou sentimentos das personagens.
Sendo o mote para a campanha criativa publicitária «Pensar em Ti» basicamente um diálogo, é natural que, segundo a tais regras da retórica, evidencie a polifonia que todo o discurso dialógico possui.
-De um lado, temos a apreensão perante a crise, a necessidade, o vazio financeiro e a falta de horizontes, a lamúria perante a situação em que o país, a Europa e o mundo estão enterrados;
-tudo centrado, curiosamente, num casa de chá (ou restaurante?) de classe média;
-do outro lado, temos a ironia, a promoção de uma falsa segurança, a frase antagónica, a antítese como a substituição de toda a esperança que na interlocutora acaba por se desmoronar.
No geral, esta peça publicitária basicamente promoverá a «mise-en-scène» dos afectos, o realce da mentira ? O quê, para além do marketing?
Gil Vicente e Shakespeare já trataram assim as relações humanas, com base na ironia, enquanto ingrediente do drama como a sátira, que acaba por ser o resumo eufemístico para dizer desprezo pelo nosso próximo.
(Crónica a sair no Diário de Aveiro)
Saturday, March 28, 2009
Convenções: um nome para a Unidade
1ª Convenção de Obreiros das Assembleias de Deus em Portugal, 1939Fotografia original do arquivo histórico de JTP
Paulo sabia que a unidade era um vínculo nos alicerces do cristianismo.
O apóstolo queria que as igrejas locais estivessem firmes em um só espírito, como uma só alma(Fl.1,27). Só assim, lutando juntos, o que chamou de «fé evangélica» se edificaria e manteria.
Nas relações humanas, sociais e religiosas entre os crentes, digamos assim, nada estava fora do alcance deles, nada se situava noutro mundo. «Rogo a Evódia, e rogo a Síntique que pensem concordemente, no Senhor»- esta recomendação traz Paulo ao domínio do quotidiano dos crentes em Filipos.(4,2)
O apóstolo queria que as igrejas locais estivessem firmes em um só espírito, como uma só alma(Fl.1,27). Só assim, lutando juntos, o que chamou de «fé evangélica» se edificaria e manteria.
Nas relações humanas, sociais e religiosas entre os crentes, digamos assim, nada estava fora do alcance deles, nada se situava noutro mundo. «Rogo a Evódia, e rogo a Síntique que pensem concordemente, no Senhor»- esta recomendação traz Paulo ao domínio do quotidiano dos crentes em Filipos.(4,2)
Pensar concordemente, pensar o mesmo, orientar a visão para um objectivo comum, fortalece as igrejas locais, é também uma função das Convenções. Têm de igual modo uma função fundadora e, por isso mesmo, impulsionadora.
Nos dias 18 a 22/8 de 1921, em Belém do Pará, realizou-se uma primeira Convenção Regional das Assembleias de Deus nesse Estado. O objectivo prioritariamente missionário dessas AD, já levara por diante o seu escopo ao enviar de Belém para Portugal o pioneiro pr.José de Matos. Já antes o haviam feito, enviando em 4 de Abril de 1913 o primeiro José, o missionário Plácido da Costa- “um português abridor de caminhos para o Evangelho”.
Em Portugal, Lisboa hospedava a sua também primeira Convenção de Obreiros para ajudar a preparar os obreiros existentes vocacionados para expandir a Obra de Deus e o Movimento Pentecostal a partir desse ano de 1939. A mesma incluia aqueles referidos obreiros consagrados do outro lado do Atlântico. E naturalmente os missionários oriundos do norte da Europa, principalmente o casal Ingrid e Tage Stahlberg.
As Convenções de Obreiros ( para se distinguiram das grandes Convenções Anuais de verão que se realizavam ainda na década de 50 em Nyhem, na Suécia) (1), constituiram-se dessa forma como algo oposto aos conclaves fracturantes, onde cada pessoa leva a sua «ideia». Não há moções, como no mundo da política partidária, porque o que é suposto unir, pode também fracturar. Ao invés, deve haver «assuntos de ordem prática e espiritual e de palpitante interesse»- como escrevia há 50 anos o pr.João S.Hipólito, em “Novas de Alegria” de Julho de 1958.
Esta peça jornalística, que a revista NA trouxe a lume naquela data, relatando o que foi a Convenção Pentecostal, realizada em Lisboa, na sede da Assembleia de Deus local, nos dias 7 a 14 de Maio, amplia-nos a visão hoje, passado meio século, sobre a importância que têm as Convenções de Obreiros. E como o Movimento Pentecostal se foi edificando, nas suas estruturas eclesiais - ligando o conjunto de igrejas autónomas locais - e teológicas- preservando as doutrinas bíblicas e o pensamento pentecostal, conforme o Novo Testamento.
A Convenção não mudou paradigmas, ela própria era substantivamente o paradigma da unidade das Assembleias de Deus.
Essa foi, por outras palavras dessa época, no tempo do princípio, a conclamação geral do nosso Movimento apontando o caminho da Unidade. Por isso afirmamos que Convenção é nome da Unidade, do que é multiplo mas tende a afirmar-se único e integro, no contexto do Movimento Pentecostal das Assembleias de Deus – as igrejas locais. Foi para prosseguir o estabelecimento deste princípio e desejando conservá-lo para o futuro, certamente, que saiu um artigo no página Ecos Redactoriais da revista «Novas de Alegria», nº 185, de Maio de 1958, sob o título “A Convenção”.
Alguns parágrafos. Na década de 50 «O verdadeiro Movimento Pentecostal é um vivo protesto contra toda a forma de mundanismo, modernismo, clericalismo.(...) Dentro da “Assembleia de Deus” como commumente é designado o Movimento em Portugal, há uma verdade bíblica de imenso valor: a independência e a integridade da igreja local.» « Não é numa Convenção que se determina o futuro da Obra. Há coisas indispensáveis que necessitamos ventilar, e unidos podemos fazer melhor do que separados, por exemplo no que diz respeito à nossa literatura, missão, etc., mas não é das atribuições da Convenção determinar sobre estas coisas. O alvo da Convenção é mais espiritual, para não dizer absolutamente espiritual.»
Tratou-se de uma peça jornalística vigorosa e inspirada. E à distância de meio século, parece-nos contudo um artigo datado. Se não vejamos, numa análise de conteúdo objectiva.
. Autoria do texto. Surge em bom rigor jornalístico como sendo um redactorial, implicava o director de NA. É um artigo de fundo não assinado. Todavia, pela “ficha técnica”, a direcção espiritual da revista estava a cargo do pr.Tage e a «formal» do pr.Alfredo Machado.
Comparativamente a outros escritos, sobretudo o livro «O Mistério dos Desaparecidos»(2), inclinamo-nos para a autoria de Tage Stáhlberg. Este entendia que designações denominacionais “não eram penhor de preparação para a segunda vinda de Cristo” ( pág. 64). Neste clássico sobre o arrebatamento da Igreja, no contexto desse acontecimento Tage escreveu «Não havia Baptistas, nem Metodistas, Congregacionalistas nem Pentecostais, etc., havia apenas Crentes».
Comparativamente a outros escritos, sobretudo o livro «O Mistério dos Desaparecidos»(2), inclinamo-nos para a autoria de Tage Stáhlberg. Este entendia que designações denominacionais “não eram penhor de preparação para a segunda vinda de Cristo” ( pág. 64). Neste clássico sobre o arrebatamento da Igreja, no contexto desse acontecimento Tage escreveu «Não havia Baptistas, nem Metodistas, Congregacionalistas nem Pentecostais, etc., havia apenas Crentes».
. O corpo do Texto. Num tom de autoridade, o artigo valoriza a igreja local, a sua autonomia desde que implementada num crescimento equilibrado e harmonioso dentro do ensino inspirado pelo Espírio Santo ao apóstolo Paulo. «Qualquer igreja local tem de verificar se a sua actividade está de harmonia com o Novo Testmento».
Considerava-se que o Movimento estava no meio de um Avivamento, como referem as notas do pr.Tage coligidas pelo nosso saudoso amigo pr. Carlos Baptista(3). «Nós temos a ousadia de dizer que o avivamento chegou a Portugal com os primeiros missionários pentecostais» (Pág 67) . Avivamento não anda desligado da harmonia. Para esta harmonia – refere o histórico redactorial-, «que é uma das condições para o progresso espiritual da igreja local», os «chamados Pentecostais» deveriam ter em conta a necessária e concludente realização da «nossa Convenção».
Considerava-se que o Movimento estava no meio de um Avivamento, como referem as notas do pr.Tage coligidas pelo nosso saudoso amigo pr. Carlos Baptista(3). «Nós temos a ousadia de dizer que o avivamento chegou a Portugal com os primeiros missionários pentecostais» (Pág 67) . Avivamento não anda desligado da harmonia. Para esta harmonia – refere o histórico redactorial-, «que é uma das condições para o progresso espiritual da igreja local», os «chamados Pentecostais» deveriam ter em conta a necessária e concludente realização da «nossa Convenção».
Desta valorização da assembleia de obreiros, pastores, evangelistas, anciãos idóneos, segundo o autor do texto, surge a proeminente razão da escrita do artigo. «Portanto, amigo e irmão pastor ou evangelista: ora ferverosamente pela Convenção, prepara-te como se fosses o único orador e vem, no poder do Espírito Santo, reunir-te connosco na luta contra o mal! Esperamos grandes coisas da parte do Senhor». O redactorial em apreço, estruturou-se numa estratégia espiritual e prática, teve a oportunidade de sair no exacto número de NA coincidente com a realização desse evento.
Curiosamente, diga-se que havia até um carácter «ecuménico», uma vez que as Convenções eram «francas não só para Obreiros das Assembleias de Deus, mas para cada pastor que deseja estudar e penetrar mais na Bíblia».
_____________________________________________________________
História das Assembleias de Deus no Brasil, Emílio Conde, 1960
(1)-“A Visit to Scandinavia”, The Pentecostal Evangel, nº 23, 18/5/1951
(2)-Edição da Assembleia de Deus, Lisboa, (3ª), s/d
(3)-Milagres de Deus em Portugal, Edições NA, 2002
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História das Assembleias de Deus no Brasil, Emílio Conde, 1960
(1)-“A Visit to Scandinavia”, The Pentecostal Evangel, nº 23, 18/5/1951
(2)-Edição da Assembleia de Deus, Lisboa, (3ª), s/d
(3)-Milagres de Deus em Portugal, Edições NA, 2002
Sunday, March 22, 2009
Nota ao texto "Salmo 121 Uma Superabundância"

Observação do meu amigo dr.Rui Miguel:
«Cumprimento-te e saúdo-te pela análise enriquecedora e múltipla (literária, psicológica, histórica e cultural, um pouco retórica também) do Salmo. Lembro-me de ter lido, embora me não lembre onde, que os montes aos quais o Eu declara erguer os seus olhos poderiam ser alusão a ídolos pagãos erigidos nos altos pelos vizinhos dos Israelitas e Judeus e também por estes (ver livros de Reis e Crónicas), e que de quando em vez um rei temente a Deus mandava destruir. (...)
Amigo Rui Miguel, interessante essa tua hipótese de abordagem com contextualização na história da idolatria pós-mosaica e na própria tradição litúrgica dos judeus/congregações judaicas.
A linha de hermenêutica a seguir, na explanação do Salmo 121, não é estanque. Na mente do salmista que criou este cântico, pode bem ter havido também a alusão crítica, diríamos hoje subliminar, aos idolos dos altos, aos ídolos-postes, da idolatria israelita que considero pós-mosaica.
Os montes no ideário teológico e poético dos judeus, segundo o Livro das Orações, o Siddur (que significa ordem), representavam por outro lado, o lugar por onde passa o Amado, que vem chegando (na súplica dessa oração pela ordem sequêncial disposta no livro).
Há também quem ligue hermeneuticamente este salmo à intervenção miraculosa de Deus no campo de batalha que levou os egípcios a fugir, na idade contemporânea, digo década de 60, aquando da célebre Guerra dos 6 dias. Esses inimigos modernos seriam montes a rodear o pequeno espaço de Israel.
Wednesday, March 18, 2009
Entrevista
O poeta e bloguista cristão Sammis Reachers, do Brasil, entrevistou-nos aqui:
http://comunidade.cristianismohoje.com.br/profiles/blogs/entrevista-com-o-poeta
http://poesiaevanglica.blogspot.com/2009/03/entrevista-com-o-poeta-evangelico.html
http://comunidade.cristianismohoje.com.br/profiles/blogs/entrevista-com-o-poeta
http://poesiaevanglica.blogspot.com/2009/03/entrevista-com-o-poeta-evangelico.html
Monday, March 16, 2009
Pré-Publicação: Salmo 121 Uma Superabundância (II)

No Salmo 121 há vários diálogos, do autor(viajante/peregrino) consigo próprio, do autor com Deus e, depois, de uma terceira Pessoa que entra no discurso do Salmo, quando deixamos de ler o pronome pessoal eu e passamos para um ele.
Nos versos 1 e 2: Elevo...me...o meu ; depois o verso 3, onde uma segunda pessoa fala da terceira: Não deixará vacilar o teu pé: aquele que te guarda não tosquenejará.
O diálogo, por assim dizer, estabelecer-se-ia assim: o Eu(a 1ª pessoa): -Elevo os meus olhos... De onde me virá o socorro?; o Tu(a 2ª pessoa):- Ele (o Senhor, a 3ª pessoa) não deixará vacilar o teu pé.
Esta voz que o salmo introduz, do ponto de vista da inspiração bíblica, só pode ser a voz do conforto do Espírito Santo a revelar o cuidado do Deus de Israel; testemunhando a verdade de que «O Senhor é quem te guarda».
Uma abordagem psicológica
A história de uma alma, do tipo psicológico da personagem do Salmo, o modo como cruza os olhos físicos pelas problemas e provações e os olhos espirituais, dirigidos a Quem pode ajudá-lo.
Uma abordagem psicológica
A história de uma alma, do tipo psicológico da personagem do Salmo, o modo como cruza os olhos físicos pelas problemas e provações e os olhos espirituais, dirigidos a Quem pode ajudá-lo.
Olhar para os montes, donde se pode inferir o olhar para as dificuldades emergentes, em síntese, o olhar para dentro de si próprio, e o olhar para o Senhor. Um dia, lemos que o salmo 121 é o dos olhares. Joseph Ratzinger, já Papa, disse-o doutra forma, paralelamente acerca do 123: «O Salmo, que acabamos de proclamar, encerra -se numa troca de olhares: o fiel eleva seus olhos ao Senhor e aguarda uma reação divina, para colher o gesto de amor, um olhar de benevolência».
Compreendemos que o olhar do salmista(peregrino) seja lançado para as dificuldades, os montes que o esperam, e que terá de passar, caminhos estreitos, precipícios engolidores embora de beleza atraente, até chegar ao Templo em Jerusalém, às festas sagradas.
Ora é aqui perante a história de uma alma que nos colocamos.
Quando olha para os montes, que estavam colocados entre a sua tenda e o Templo, parece titubear, as estradas eram penosas, corria-se o risco de uma quebra da vontade e, até, da solidariedade com os outros irmãos quando juntos subiam a Jerusaém, esse olhar era para fora.
Quando olha para os montes, que estavam colocados entre a sua tenda e o Templo, parece titubear, as estradas eram penosas, corria-se o risco de uma quebra da vontade e, até, da solidariedade com os outros irmãos quando juntos subiam a Jerusaém, esse olhar era para fora.
O olhar para dentro da própria alma, o tornar a si na linguagem de Jesus sobre o Filho Pródigo, era o olhar galvanizador. O olhar para dentro de nós próprios vai buscar alento à alma, ao que a alma sabe sobre o nosso Deus e Pai, que o salmista conhece ser o: Senhor que fez o céu e a terra.
Tuesday, March 10, 2009
A dúvida de Godot
A revista Newsweek, em 14/11/1988, exactamente há vinte anos, fazia a recensão crítica da peça À Espera de Godot, então levada à cena na Broadway e protagonizada por dois geniais actores, Robin Williams e Steve Martin.
Não sendo a Newsweek uma revista literária, nem do pensamento filosófico, não foi porém surpresa ler que o texto de Samuel Beckett era a mais famosa peça do século.
Designadamente pelas alegadas interpretações sob o prisma da Bíblia, de Freud, de Jung ou do Existencialismo. Sobretudo deste, segundo o qual há questões com as quais todos temos que lidar, como o significado da vida, a morte, e o lugar de Deus na existência humana.
Talvez tenha sido surpreendente, sim, ler os questionamentos que o articulista e crítico teatral colocava sobre o significado da personagem, uma espécie de deus ex-machina que nunca aparece em cena, Godot.
Perante a espera do misterioso Godot, perguntava-se se seria Deus? A Morte? A oferta de emprego?
Tendo chocado audiências no início da década de 50, inquiria-se se não seria outro o significado, se Godot não era um conceito, uma «espécie de Ocidente», que perante as ruinas da 2ª Guerra Mundial e dos escombros éticos e morais que o nazismo deixara, não seria um retrato moral da humanidade em crise e, aparentemente, sem respostas? Seria hoje a espera do fim da crise, que, como todas as demais grandes crises, incuba uma plêiade de gurus, sacerdotes da economia, da política, com litanias próprias?
Supostamente, a peça apresentava ao mundo ocidental, que este estava estruturado no desconcerto de uma máxima beckettiana: «Não há nada no mundo mais cómico do que a infelicidade», ou mesmo na frase inicial da peça «Nada a fazer», que exprime o começo da desistência da personagem Estragon.
De tudo o que se pode tirar dessa peça teatral chamada «À Espera de Godot», do fôlego inoperante das suas duas personagens principais, de todas as propostas e teorias, passíveis de serem apropriadas pela nossa ética judaico-cristã, católica e protestante, temos muito mais a dúvida de uma procura, que está disfarçada de «espera».
Nesta peça do absurdo, considerada a mais significativa de Samuel Beckett, não se espera, como tudo leva a crer, mas, sim, procura-se.
Não sendo a Newsweek uma revista literária, nem do pensamento filosófico, não foi porém surpresa ler que o texto de Samuel Beckett era a mais famosa peça do século.
Designadamente pelas alegadas interpretações sob o prisma da Bíblia, de Freud, de Jung ou do Existencialismo. Sobretudo deste, segundo o qual há questões com as quais todos temos que lidar, como o significado da vida, a morte, e o lugar de Deus na existência humana.
Talvez tenha sido surpreendente, sim, ler os questionamentos que o articulista e crítico teatral colocava sobre o significado da personagem, uma espécie de deus ex-machina que nunca aparece em cena, Godot.
Perante a espera do misterioso Godot, perguntava-se se seria Deus? A Morte? A oferta de emprego?
Tendo chocado audiências no início da década de 50, inquiria-se se não seria outro o significado, se Godot não era um conceito, uma «espécie de Ocidente», que perante as ruinas da 2ª Guerra Mundial e dos escombros éticos e morais que o nazismo deixara, não seria um retrato moral da humanidade em crise e, aparentemente, sem respostas? Seria hoje a espera do fim da crise, que, como todas as demais grandes crises, incuba uma plêiade de gurus, sacerdotes da economia, da política, com litanias próprias?
Supostamente, a peça apresentava ao mundo ocidental, que este estava estruturado no desconcerto de uma máxima beckettiana: «Não há nada no mundo mais cómico do que a infelicidade», ou mesmo na frase inicial da peça «Nada a fazer», que exprime o começo da desistência da personagem Estragon.
De tudo o que se pode tirar dessa peça teatral chamada «À Espera de Godot», do fôlego inoperante das suas duas personagens principais, de todas as propostas e teorias, passíveis de serem apropriadas pela nossa ética judaico-cristã, católica e protestante, temos muito mais a dúvida de uma procura, que está disfarçada de «espera».
Nesta peça do absurdo, considerada a mais significativa de Samuel Beckett, não se espera, como tudo leva a crer, mas, sim, procura-se.
As personagens procuram conhecer quem é ou o que é esse Godot, o qual esperam, numa repetição dos dias, inúteis e sem sentido ou sem esperança como no trabalho de Sísifo. Uma tarefa que a literatura dita ateísta não descarta e assume como unhope, palavra significativamente utilizada pelo poeta Thomas Hardy, que escreveu um poema (In Tenebris ) sobre a desesperança:
Esperar sem esperança é, na sua essencialidade, esses dois dias consecutivos nos quais um par de homens patéticos afirmam pelas palavras e pela mímica esperar um ausente, que se chama Godot. Do mesmo modo que hoje, a Europa, a América, a Ásia, esperam alguma coisa no meio da Crise Económica e Social.
(Crónica para o Diário de Aveiro)
Saturday, March 07, 2009
Eu pauso
Wednesday, March 04, 2009
Pré-Publicação: Salmo 121 Uma Superabundância

Constatação e dúvida, seriam os dois momentos iniciais deste salmo, se se tratasse apenas de um género composicional, uma criação literária. Mas a superabundância dos elementos que possui, histórico-bíblicos e da poesia hebraica, inspirada, do Saltério, abre-nos algumas janelas sobre uma paisagem de esplendor.Elevo os meus olhos para os montes:
De onde me virá o socorro?
Porém, enquanto leitores de fé na Bíblia e submissos à mesma, todo o conteúdo do Salmo 121 exclui logo a dúvida, pelas beleza e doçura da presença do Senhor no caminho dos remotos peregrinos. Presença extensível aos cristãos peregrinos da vida de hoje a caminho a Pátria Celestial.
E a razão está no enunciado desse texto poético bíblico, que segundo a ciência da análise e interpretação da obra literária, se chama a anunciação do Eu, no caso bíblico, a anunciação do Eu salvador.
O meu socorro vem do Senhor
Que fez o céu e a terra.
Todos admitimos que é uma «peça lírica»(1) pertencente a um grupo especial dos Salmos, os Cânticos dos Degraus ou de Romagem.
Sabemos, sobretudo, que estes são na estrutura temática canções de celebração ao Senhor e de confiança no Deus de Israel, que acompanhavam os peregrinos na sua romagem à Casa do Senhor, em Jerusalém. Com efeito, são na sua estrutura esquemática uma narrativa cujo discurso é teológico.
O diálogo no Salmo
Ao analisar o seu discurso, temos ao dispor um instrumento chamado dialogia. Estuda o diálogo que existe num texto capaz de dar vida aos argumentos do mesmo. Os criadores desta figura, o dialogismo, Mikail Bakthine e Júlia Kristeva, chamaram a esse recurso a polifonia do texto. A interação de todas as palavras dentro do texto. As diversas vozes que estão no texto do salmo, dão-lhe sentido.
(.../...)
Saturday, February 28, 2009
Mickey Rourke, um rosto gasto
Wednesday, February 25, 2009
Botas e Carpins

Aí por meados do ano 1946, em Lisboa pelo menos, não imagino a revista TIME, Vol. XLVIII, nº 4, de 22 de Julho, a seguir pelas ruas da Baixa, debaixo do braço dos transeuntes sem pressa porque não havia Metro a apanhar.
Não imagino mesmo leitores nas pastelarias do Rossio a comentar o artigo editado na secção Foreign News-Portugal, «How Bad is the Best?» e a olhar para a capa, na qual ao lado de uma maçã podre olhava de soslaio o decano dos Ditadores, Salazar.
A peça jornalística de meia dúzia de páginas relatava o princípio do Estado Novo até àquela data, e a pergunta «como o mau é o melhor?» era óbvia. Naquele Portugal melancólico e empobrecido, rendido ao Homem que livrara a Pátria da Segunda Guerra, mas que fora suficientemente cínico para entristecer o país com a notícia da morte de Hitler, não estou a imaginar outra coisa senão o silêncio.
Não imagino mesmo que, apesar de ser a primeira capa sobre Portugal que a Time publicava ( a segunda seria em 1975 com o medo do país se tornar comunista), o povo fosse agradecer em manifestação até S.Bento por Salazar nos ter proporcionado essa celebridade.
O facto é que começando a ler o artigo, se veria logo que a coisa seria objectiva e muito crítica. Embora nos primeiros parágrafos, a definição moral e o retrato psicológico do ditador o referenciassem como «modelo de rectidão».
Seguia-se depois para a inevitabilidade desse meio século de tristeza nacional: o desequilibrio dos orçamentos familiares das famílias portuguesas, o crescimento da tuberculose, os 5.800 casos de doença mental, o baixo índice da educação «apesar de Salazar ser um professor», a Oposição( o M.U.D.), o medo de Salazar do caos, «a justificação tradicional dos ditadores», que abriu caminho a cada vez mais restrições e medidas «contra os possíveis rebeldes». Mas, também, coisas positivas: desde logo o restabelecimento do equilibrio financeiro do deficit da nação, em 68-70 anos de deficits antes de 1928, os barcos de aluguer no Lago de Palhavã, o equivalente ao hot-dog americano, a sardinha assada e as «song of fate»( o fado), ou mesmo o Rossio ter sido equiparado à Times Square.
Mas o que interessaria aos leitores portugueses, estou a imaginar, eram sem dúvida as «mulheres no jardim», do Presidente do Conselho.
O facto mais significativo acerca da relação de Salazar com a Condessa Carolina Asseca, é que nem sequer a mexeriquice portuguesa, nem os milhares de inimigos de Salazar, sugeriram que a Senhora fosse sua amante. – Há distância de 60 anos, era esta também a outra tónica do artigo, na parte do texto que versava este assunto no âmbito da vida privada do Presidente do Conselho e do decano dos ditadores da Europa.
O facto mais significativo acerca da relação de Salazar com a Condessa Carolina Asseca, é que nem sequer a mexeriquice portuguesa, nem os milhares de inimigos de Salazar, sugeriram que a Senhora fosse sua amante. – Há distância de 60 anos, era esta também a outra tónica do artigo, na parte do texto que versava este assunto no âmbito da vida privada do Presidente do Conselho e do decano dos ditadores da Europa.
Ora foi uma «cópia» dessa revista que a recente mini-série televisiva A Vida Privada de Salazar exibiu recentemente em dois episódios de pura ficção, em um ou outro ponto. Falar-se-ia das inseparáveis botas do Ditador e dos carpins frágeis da aristocracia da D.Carolina. Confesso que no artigo inteiro não descortinei nem botas nem carpins.
Porém, a coisa mais próxima de botas e carpins, que alegadamente o artigo da TIME publicaria sobre a relação «improvável», é a frase «sua reputação de piedade ( de Salazar) é tão grande que uma ligação é considerada impensável.»
Muitos portuguêses – sugeria o articulista- tinham esperança que os rumores de que ele pretendia casar fossem verdadeiros; dizia-se que casamento podia humanizar o homem de quem a maioria tinha medo e que poucos amavam, e que já havia descoberto o aforismo de Lord Acton, segundo o qual «o Poder tende a corromper, o Poder Absoluto corrompe absolutamente.»
Thursday, February 19, 2009
"No princípio era o Verbo..." e um papel do 25 de Abril
Há meia dúzia de anos, o semanário Expresso, 25-04-03, publicava um artigo de opinião, relacionado com as comemorações do Dia da Liberdade desse ano e reformas políticas então em curso.No texto, dizia o autor que essas comemorações «são justamente enquadradas por uma preocupação de reforma do sistema político. (...) Simplesmente, por muitas que sejam as leis e as providências normativas, a duradoura reforma do sistema político passa pela reforma das mentalidades e dos comportamentos. (...) Tal como diz a Bíblia, no seu começo, «No princípio era o Verbo». Assim, também a reforma do sistema político inicia-se agora, nesta derradeira oportunidade, com leis avulsas importantes.»
Este parágrafo, mereceu-nos uma observação, a qual publicamos nessa data no Observatório da Aliança Evangélica. Transcrevêmo-la aqui, porque ocorrem, nos meios de comunicação social, com frequência citações deslocadas e imprecisas das Sagradas Escrituras, produzidas por personalidades que devem achar que fica bem citar a Bíblia no mesmo passo que citam Shakespeare.
Genericamente, este artigo de um prof. da Faculdade de Direito de uma universidade lisboeta, cujo nome por resguardo e pudor não devo citar, é um texto compreensível que louva o empreendimento governamental e legislativo de reformar o sistema político com leis - palavras necessárias, o verbo -, não esquecendo algo importante, e que teve a coragem de citar, que é a tão precisada reforma das mentalidades e comportamentos perante essas e outras leis. É um artigo para apelar à cidadania. O pior é quando, a dado passo, pretende enriquecê-lo com uma palavra bíblica, logo do foro da teologia.
Com efeito, estabelece uma confusão de «Princípios» de jurisdição teológica.
O «princípio» que cita, como estando no começo da Bíblia, entenda-se no Livro do Génesis, na realidade não o está. Encontra-se num dos Evangelhos.
Se quisermos falar da importância dos dois «Princípios», deveremos dizer que «No princípio era o Verbo» é mais importante, porquanto trata da Eternidade.
Sendo o termo «arché» o mesmo para ambos, localiza, no entanto, o Verbo divino, o Filho de Deus, junto do Pai desde o eterno. O texto está no primeiro capítulo e primeiro versículo do Evangelho Segundo S.João.
Sendo o termo «arché» o mesmo para ambos, localiza, no entanto, o Verbo divino, o Filho de Deus, junto do Pai desde o eterno. O texto está no primeiro capítulo e primeiro versículo do Evangelho Segundo S.João.
Quando, de facto, «a Bíblia, no seu começo», diz «No princípio criou Deus...», o que estamos a ler é o início do Tempo e do começo da matéria no Tempo.
Como sabemos são categorias diferentes.
Como sabemos são categorias diferentes.
Monday, February 16, 2009
À espera de uma porta
Fragmento de tela de Hopper, Nighthawks, 1942O ascensor com um solavanco pára
As portas deslizam, a saída
É agora uma parede branca
Meus dedos apunhalam
Os botões, tocam
No sinal de alarme, uma voz brusca:
-«Qual é o problema?»
Com a minha voz dentro de uma caixa
De ossos e adrenalina:
-«Quero sair no 25º andar, há anos
Que trabalho neste piso, meu nome
É conhecido»
-«Não há 25º andar neste edifício»
E a voz do altifalante indiferente
Recomeça um mundo vazio.
12/2/2009
As portas deslizam, a saída
É agora uma parede branca
Meus dedos apunhalam
Os botões, tocam
No sinal de alarme, uma voz brusca:
-«Qual é o problema?»
Com a minha voz dentro de uma caixa
De ossos e adrenalina:
-«Quero sair no 25º andar, há anos
Que trabalho neste piso, meu nome
É conhecido»
-«Não há 25º andar neste edifício»
E a voz do altifalante indiferente
Recomeça um mundo vazio.
12/2/2009
Friday, February 13, 2009
Sexta-feira 13

Um gato preto de olhos fundos
de outro mundo
(...)
Ler na íntegra aqui
http://ovelhaperdida.wordpress.com/2009/02/13/sexta-feira-13-2/
Tuesday, February 10, 2009
Alba
Monday, February 09, 2009
O Diálogo do Momento:Cristãos/Muçulmanos
Duas caixas de fruta voltadas ao contrário encostadas ao muro. Abdulai sentado a um canto dum desses caixotes, a nosso pedido, dá-nos lugar ao seu lado. Veste-se dum comprido e gasto bubu claro de onde ressaltam as riscas negras, verticais. Um boné branco, também ele ruço pelo tempo, característico do muçulmano, cobre-lhe o cabelo escasso. Talvez resultado de algum ataque mais ou menos recente tem a boca um pouco ao lado. Tem olhos sombrios, diria mesmo apagados. O francês sai-lhe perturbado pela língua mãe e também por aquela deficiência. Entre as mãos passeia-lhe uma velha caixa de comprimidos que ele vai abrindo de tempos a tempos e de onde tira as moedas para fazer o troco dos baldes de água que os habitantes do bairro vêm comprar. É um homem de diálogo. E porque o diálogo faz parte do caminho que percorremos ele vai desfiando os seus pensamentos, evocando o livro santo dos muçulmanos. Eu ouço-o com a máxima atenção. Allah é a razão primeira do muçulmano. Sabe-se num mundo criado por Deus e que vai terminar por se encontrar diante d'Ele para o julgamento final. Falamos da criação e do modo fantástico como Deus tudo criou e como tudo sustém. Ouço-o com gosto enquanto vai desfiando a vida. Fala-se do paraíso e eu baixo-me para desenhar um pequeno círculo com uma abertura. Vai-me seguindo enquanto vou rasquinhando o “paraíso” e depois chegamos ambos à triste realidade que para entrar ali é necessário deixar todos os pecados de fora. Acabamos por concluir que por nós mesmos é impossível.
Friday, February 06, 2009
A profecia de Norman Mailer

Não há como a História para pregar partidas. Mesmo sem o recurso à perspectiva poética, aforística e tautológica do poeta T.S.Eliot sobre os ciclos do Tempo:
«O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro,
E o tempo futuro contido no tempo passado».
Em 1967, a América tinha uma ferida exposta à luz mediática, essa ferida chamava-se Vietname. E escritores negros como James Baldwin, ou brancos e formalistas como o poeta Robert Lowell, ou o rebelde da Nova Esquerda americana Norman Mailer, em conjunto marchavam contra essa ferida.
Sem desodorizantes, até os hippies se manifestavam contra o que se dizia ser o odor da carne queimada no Vietname. Até nós, no Portugal cinzento, antes da filmografia sobre essa guerra, chegava vagamente esse odor.
Na década de 60, os jovens da minha geração ( de 47) lembrar-se-ão, mesmo dentro dos filtros do salazarismo-marcelismo, das notícias que davam conta em português da Grande Marcha sobre o Pentágono, em Washington, brandindo um Não à guerra americana no Sueste Asiático.
Hoje, existem vários documentos literários sobre esse tempo de protestos, que a juventude e os intelectuais, negros e brancos iniciaram ainda em 1963, mas que só quatro anos depois teve a sua máxima expressão, visando o tripé presidente Johnson, MCnamara e Rusk, a quem chamaram «os maiores criminosos de guerra do país».
Norman Mailer veio para a rua com os seus exércitos da noite e atacou. Com uma propensão histriónica em tudo que escrevia, «atacou» o Pentágono e o «dinheiro que fez o Pentágono». Escreveu um livro-documento denominado Os Exércitos da Noite( D.Quixote, 1997), segundo a crítica norte-americana e os Prémios, o Pulitzer e National Book Award, uma obra vigorosa depois de Os Nus e os Mortos (Portugália,1972).
No decurso de uma Manifestação contra a Guerra do Vietname é preso e depois elabora esse livro-documento em que se entrelaça o novo jornalismo e a ficção, e a história vem narrar todos os passos e palavras e sentimentos da história norte-americana dos anos finais da década de 60.
Há até poetas nessa Manifestação, foram valorizá-la e deram ao livro de Mailler uma dimensão de Epopeia. E profecias também.
Um dos poetas mais notado nessa época, o citado Robert Lowell, que já havia composto For the Union Dead, como «coisa pública», comparece por isso em Washington para se fazer ouvir. Lê à mole humana um extenso poema Despertar Cedo ao Domingo de Manhã, como um despertador de consciências, política, social e culturalmente falando.
A profecia, essa viria - lemos em Os Exércitos da Noite- com um discurso futurista, ainda que montado com vocábulos desse tempo ou que começavam a fazer caminho nesse tempo: Poder Negro, brancos, negros, Nova Esquerda, etc.
Descreve o discurso da irmã do conhecido Malcom X, Ella L.Collins, que foi para o lider da Nação do Islão, «a primeira mulher negra com verdadeiro orgulho» falecida em 1996. No entanto, segundo o romancista, Ella falava ainda aos Brancos como se se pudesse conceber uma sociedade onde eles marchassem pela mesma rua, mas muitos dos Negros nesta secção reservada tinham passado para o futuro, para aquele negro do século XXI, quando o Poder Negro tivesse conseguido fazer o Branco invisível para o Negro.»
Claro que o movimento Black Power esgotou-se enquanto tal nos anos 70, o presidente Obama é o negro do século XXI, e o afro-americano já não é invisível, obviamente o branco também não.
Fome e Sede de Justiça
"Fome e Sede de Justiça". Relato de uma vida sem futuro, inserto no Diário de Notícias, aqui via Ab-Integro.
in http://www.ab-integro.blogspot.com
in http://www.ab-integro.blogspot.com
Thursday, February 05, 2009
Assuntos de Família (o Aborto)

Gunther Grass, escritor, Nobel da Literatura, enquanto poeta aderiu na década de 40 ao Movimento Expressionista, também andou pelas tertúlias do surrealismo. Depois afastou-se. No entanto, existe um poema que exprime bem ambos os movimentos, sobretudo o Expressionismo. É também um autêntico libelo contra o Aborto.
Assuntos de Família
No nosso museu - vamos todos os domingos-,
inauguraram uma nova secção.
Nossos filhos abortados, embriões pálidos e sérios,
encolhidos em redomas de cristal,
preocupados com o futuro dos seus pais.
(Trad. do alemão e espanhol, por J.T.Parreira)
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