Tuesday, February 07, 2012

O Dia que abalou o Mundo

10 de Novembro de 4004 a.C, dia da expulsão de Adão e Eva do Paraíso segundo a Cronologia de James Usher, in The Annals of te World.
 
 
 
Saíram em silêncio, nesse dia
fora dos muros do Jardim, o hálito
das bocas com um fruto
e o perfume dos corpos
e a libido
Passaram do círculo
do verde para as pedras
do suave gemido da nudez
para a rudeza dos vestidos
Teriam enfim a sua idade
como as árvores ou os lobos
a nostalgia na hora do uivo
passaram a prova da coisa proíbida
e agora
com os pés para a Morte
já tinham um sentido
4/2/2012

Saturday, January 28, 2012

Holocaust Memorial 27th of January

Kaddish por Nós


Quando eles nos mataram
a nossa cinza falou por nós

quando mataram nossos filhos tivemos mais
quando mostraram as nossas mulheres nuas
nossos olhos fecharam para sempre
houve cidades em que o vento
não trazia pássaros
mas cinzas.
 

Wednesday, January 18, 2012

Suicídio na Linha

Mulher entre os 60 e os 70 anos atirou-se de braços abertos para a frente da automotora que ligava Aveiro-Águeda”

in Diário de Aveiro, de 17/1/2012


Não suportou a cruz, o peso
disperso pelos braços
Uma faca que cortou um amor
desencontrado? O silêncio
a inundar-lhe os ouvidos?

Ou uma ária cigana
tocada nas cordas invisíveis
das lágrimas?

Desistiu de ver as mãos vazias e os olhos
sem futuro? Não suportou os deuses
entretidos à porta das igrejas
a falarem de arte?

Atirou-se de braços abertos
sem ninguém.

18/1/2012

Saturday, January 14, 2012

Vocabulário

Coisas que sairam das mãos de Deus, na Criação, e que começaram a ser sem as palavras ainda: Flor, Estrela, Rio. A Criação antes da Nomeação. Só o Homem, já tinha palavra antes do Criador o moldar com Suas mãos.

Friday, December 30, 2011

O Menino Maravilhoso de Isaías e de Virgílio



Isaías estava preparado para abrir a sua boca e dos seus lábios aptos saíria a notícia, a Boa Nova do Advento.

Porque um menino nos nasceu, // um filho se nos deu; // e o principado está sobre os seus ombros”.
Mas é na descrição poética de um mundo em trevas, uma metonímia para a escuridão da morte, onde as sombras se prolongavam dos olhos do povo, de ambos os reinos de Judá e de Israel, que Isaías embeleza o seu escrito, a fim de trazer a esse «povo que andava em trevas» o Messias. E novamente aqui as incontornáveis figuras de linguagem, de novo a metáfora e a símile, a fim de iluminar o silêncio profético desse período entre os dois Testamentos.

«O povo que andava em trevas // viu uma grande luz, // e sobre os que habitavam // na região da sombra de morte resplandeceu a luz. // Tu multiplicaste este povo e a alegria lhe aumentaste»

A primeira nomeação que Isaías usa para qualificar esse Filho Messiânico, que viria alterar toda a estrutura desse texto de Escritura Sagrada para um texto poético, é um termo epopeico: Maravilhoso, Maravilhoso Conselheiro, que re-ensinará a Moral, a Ética, a Sabedoria a um povo de entendimento entenebrecido, pela negra miséria do cativeiro na sua própria terra e do exílio.

Do mesmo modo, sete séculos depois o poeta latino Virgílio diria poéticamente de um menino que iria “partilhar vida dos deuses”. Por esse cântico poético, depois na Idade Média, o autor do épico “Eneida” foi recuperado para o Cristianismo com a categoria de profeta pagão.

Ao poeta foram “atribuidos dotes sobrenaturais de profeta e de mago” - diz-nos qualquer História da Literatura Latina. Mas não foi por ter “conduzido” como guia espiritual Dante, em viagem pelo Inferno, na monumental obra que é a Divina Comédia.

Sobretudo e exclusivamente foi porque escreveu nos derradeiros anos (42-39) antes de Cristo que um menino maravilhoso iria nascer. E esse escrito é até hoje não só inexplicável, mas também inelutável.
Há milénios que a crítica gostaria de poder identificar esse menino. O nome, ninguém até hoje sabe, embora haja quem o personifique num favor poético quer Virgílio teria de fazer a certo personagem influente, Polião, pelo nascimento do filho deste; mas quando lemos que o menino será maravilhoso, porque será portador de uma nova Idade de Ouro, não será num mero nome que se deve pressumir, pelo contrário, deve-se pensar na condição social e no carácter, na interioridade e na projecção moral, de tal criança, na sua superioridade inabalável, e assim olhar com o auxílio da hermenêutica literária e histórica.

No fundo, como uma questão de contexto, na qual as promessas proféticas sobre Jesus Cristo podem também ocupar um lugar de relevância.

BUCÓLICAS IV
Nesta écloga, Virgilio utiliza alegorias para glorificar alguns dos seus protectores em Roma. O intuito deste entrecho bucólico, que não vem cantar pastores, nem os prados verdejantes para os rebanhos, é de outra ordem. É mítico e profético, trata do fim de um tempo e começo doutro novo, fala da criação do mundo, do Paraíso sem a serpente.

Eis que chega aquele fim da idade que predisse Cumas outrora, renascendo assim a grande ordem de século após século”

Especialmente esta Bucólica parece conter uma profecia messiânica feita pela Sibila - sendo isto apropriado pelos primeiros cristãos. Por esta razão, durante a Idade Média a Sibila de Cumas e Virgílio foram considerados profetas da vinda de Cristo.

Este menino que, primeiro, verá a férrea idade sumir do mundo logo vindo a de ouro”

O primeiro imperador já considerado cristão, Constantino ( “bispo do exterior” como gostava de se chamar), quando disse a sua mensagem para o I Concílio de Niceia interpretou esta passagem das Éclogas como uma referência à primeira vinda de Jesus.

O autor da “Eneida” classifiava esse tempo como “ Esta era nova ”, esse menino lado a lado com os heróis – escreve Virgílio – estaria na origem da Paz: “ com ele mesmo ao Céu erguido e governando a Terra em paz pela virtude de seu pai.”

Existe de igual modo um acento narrativo que nos lembra Isaías, no que concerne ao milenarismo / milenismo do profeta do Velho Testamento. “As cabrinhas por si trarão aos lares / tetas cheias de leite e dos leões / rebanho algum terá receio “, “ Serpente morrerá e morrerá / toda a pérfida planta venenosa “

O profeta Isaías profetizou acerca do reinado do Messias com uma linguagem imagética, temporal porque se trata da letra, mas inspirada pelo Espírito Santo que lhe mostrou o Advento do Menino.

O futuro na profecia de Isaías está numa Pessoa, nenhum outro profeta elevou perante os olhos do Mundo Antigo a Pessoa de Jesus Cristo ligado a elementos naturais da vida dos homens: nascer e morrer, de modo distinto e único.

Profecia retrospectiva, a de Isaías, porque “ como o passado e o futuro procedem igualmente da essência de Deus , uma inspirada penetração no passado dá a entender uma penetração no futuro e vice-versa”- Comentário de La Bíblia, Jamieson et alli.

E fê-lo de forma poética, ornando a exaltação do Messias de nomes da esfera celeste perante a miséria negra do cativeiro, em todo o belíssimo capítulo 9 do seu Livro. É como se aos três magos que foram a Belém, à humilde estrebaria, levar os simbólicos artefactos da sua riqueza ao Menino, Isaías estivesse presente como o quarto levando não ouro, incenso ou mirra, mas Nomes. As características essenciais do Menino.

Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; e o principado está sobre os seus ombros: e o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus forte, Pai da eternidade, Princípe da paz.”

(c) 12/2011

Wednesday, December 21, 2011

Foi Assim a Salvação: Inédito de Brissos Lino



Foi assim a Salvação. Um Menino

desceu aos homens

com a paz na algibeira

e estrelas na boca

enquanto uns olhos de sol e de lua

lhes aqueceram os dias

e os sonhos

para sempre.


21/12/11


Brissos Lino ©


Thursday, December 15, 2011

Os que vêm nos camelos, navegam na Luz branda

Os que virão nos camelos” Jorge de Lima

Os que vêm nos camelos
navegam na luz branda do luar
têm visões no deserto
quando o sol derrama no horizonte
as águas ilusórias
também bebem
dos espelhos da água mais profunda
vêm de vales estuantes
os que virão nos camelos
quando a viagem terminar os seus vestidos
serão trapos do tempo, não importa
pois trazem presentes
e seguem a estrela indispensável
e vão em busca da glória
do Menino.

13/2/2011

Sunday, December 04, 2011

Crónica de um plágio


1969, no Leste Angola. Chega às minhas mãos correspondência, e uma revista que a juventude das Assembleias de Deus editava: "Caminho"( nº 16, Jul/Ago 1969). Na secção de poesia (pág 14/15), ao lado de um poema meu - "Fragmentos para o Salmo 8", deparo-me com um soneto evangélico: "Ser Crente", um chamado clássico de um dos maiores poetas clássicos baptista Mário Barreto França.

O meu espanto, está "manuscrito" no que coloquei na própria página acerca de um inconcebível plágio. O soneto vem "assinado" por um pretenso autor...  

 Este plágio provou-me 2 coisas, naquele longínquo ano de 69 em plena Guerra colonial - o desejo de notoriedade sem olhar a meios; e que é preciso sempre alguém que conheça poesia, os autores, alguma coisa da história da poética universal, para poder coordenar uma publicação, neste caso, que veicule poesia. Pelo menos, mas como se defende no minimalismo: o menos é mais.

Saturday, November 19, 2011

O que disseram os companheiros de Emaús


Percorreste os nossos ouvidos
para encontrar um recanto
para o Amor
as palavras que abriam clareiras
na vasta linha da noite
As Tuas palavras foram amaciando a noite
foram dando asas ao chão
do caminho de Emaús
que pisavamos na noite
o Teu invisível fogo
das palavras, que depois à mesa
se transformaram em pão
e aí os nossos olhos entenderam.

18/11/2011

Tuesday, November 08, 2011

Lei do Retorno


Quem são estes que vêm voando como nuvens
e como pombas as suas janelas”
Isaias, 60,8


Aqueles que nos levaram
também nos deram asas, quando chegaram
as horas de Deus
trouxemos as nuvens
para as nossas sandálias
e voamos
como pombas branqueando as sombras
podemos fazer as nossas janelas
com vista para o mar
nossos braços e pernas
não serão mais pontas soltas no vento.



*A Lei do Retorno (de 1950) dá a qualquer judeu "no exílio" o direito de voltar para sua histórica terra natal e de receber sua cidadania.

Thursday, November 03, 2011

Maria de Schubert



Tem nos seus olhos um filho

a tremer de frio

sob o sólido

fogo de uma cruz, um amor

moribundo, que deixa

um tapete

macio de sangue no caminho

no seu ventre agora existe

um espaço

onde quereria guardar

o seu menino.

31-10-2011

Saturday, October 22, 2011

"Aquele de cuja mão fugiu o Anjo", e-book, poemas evangélicos

 

E-Book, download gratuíto AQUI:


                                                                                                                                                                      

Saturday, October 08, 2011

As Cartas


Eram cartas sem resposta
apenas num sentido, como as raízes
irrompem da terra na flor vertical
impossíveis de responder, as cartas
ardiam no pergaminho, como a sarça
a viver num fogo celeste
e sem peso
vertiam-se na voz de quem as lia
o céu está nas cartas, é um lugar
na terra, em Corinto ou em Éfeso.

8/10/2011
 

Tuesday, September 27, 2011

A Casa de Bernarda Alba


 “- A Madalena desmaiou. - É a que fica mais só”
Garcia Lorca


A tristeza de habitar
entre mulheres sozinhas
com sinos
dentro da cabeça

Olhares perdidos nos tectos
entre os ângulos das sancas
e o frio
solitário das paredes
as mulheres no escuro
dos vestidos

Com a saudade
que tem retratos nas mesas
e velhos poetas espessos
nas estantes
e grossas portas fechadas
com o mofo da tristeza a habitar
estas ninfas do silêncio.

14/10/2009

Thursday, September 22, 2011

O VERBO NÃO SE FEZ APENAS CARNE

A afirmação joanina “o Verbo se fez carne”, no Prólogo do seu Evangelho, é uma declaração teológica, primordial, cristológica obviamente, do mesmo modo que é, em seguida, antropológica.

Toda a asserção vai no sentido de nos fazer entender que o Verbo não apenas se fez carne, mas tomou também a forma inefável dos sentimentos do homem. Não se reconhecia esta verdade no próprio século de Jesus Cristo, quando os docéticos oriundos do gnosticismo afirmavam que Cristo era um espírito apenas, quando não um fantasma, sem carne, com um corpo aparente, negando-Lhe assim a humanidade.

O facto incontroverso, é que o Verbo habitou entre nós, em toda a extensão do Ser, não obstante sem pecado.

O “habitar” entre nós do Evangelho de João não foi por motivos exteriores, uma morada geográfica, numa cidade ou numa vila, numa casa, num quarto, um bilhete de identidade que a administração do território exige; o “habitar” é meta-histórico, era algo que, no grego, brotava do significado “tenda”, ou “tabernáculo”, vocábulo que o apóstolo Paulo elevara à categoria do simbólico, da metáfora de “corpo” na sua segunda epístola aos coríntios, que, como é sabido, é anterior ao evangelho joanino.

Veio para o que era seu
«Cristo não veio ao inferno, mas ao “que era seu”», esta formulação feliz dá-nos a dimensão do mundo (cosmos) que Deus amou.  O teólogo Dietrich Bonhoeffer, mártir cristão protestante moderno sob o regime nazi, afirmou-a no seu livro Ética. A índole teológica e moral desta obra reflexiva, também contra a “grande mascarada do mal”, personificada no nazismo, conduziu Bonhoeffer a uma cristologia perto do homem. Uma cristologia, como não poderia deixar de ser, a favor do mundo.

8/2011

Monday, September 12, 2011

A Pomba



(Piero de La Francesca)

A pomba contra o preconceito
que descia
passou todas as fronteiras
nas margens do Jordão
um sinal pairando, mais do que um sinal
uma voz
acomodava a beleza divina
nos ouvidos, a voz
do Pai que ilumina o Filho.

12/9/2011


Wednesday, September 07, 2011

Por um rio que havia em Babilónia




Por um rio que havia em Babilónia
nossos olhos perguntavam pela foz
nossas mãos colhiam e deixavam
passar por entre os dedos as estrelas
num rio que havia em Babilónia
nas margens assentamos
o coração cansado
e os cordeiros, como as harpas
presos aos salgueiros
a um rio que havia em Babilónia
descalçamos as alparcas
e lançamos orações
como a um muro de águas.


1/9/2011






Friday, August 26, 2011

Carta para um jovem amigo

Caro J

Vejamos então, J. Para já são pensamentos que me ocorrem aqui mesmo.


O Messianismo ou qualquer doutrina messiânica -do ponto de vista religioso- não pode pertencer ao Cristianismo, seria uma contradição de Fé, seria afirmar uma coisa e o seu contrário: uma espécie de
Um - Cristo (que dá nome à sua religião)- a - Vir.

Ser cristão/evangélico messiânico é portanto uma contradição.

Os Movimentos que vão nesse sentido visam, do meu ponto de vista, a conversão dos judeus a Cristo - o Movimento moderno Judeus para Jesus, por exemplo. Mas tal movimento pode colocar em causa a Doutrina Bíblica do Novo Testamento quanto à vinda do Lógos- o Verbo que se fez carne e habitou entre nós.

O crêr - como alguns Movimentos Judeus Messiânicos crêem- num Yeshua como sendo o Messias, pode levar-nos à confusão da pergunta: O Yeshua/Jesus que já veio no NT, ou que há-de vir, segundo o Talmude, segundo o judaismo mais ortodoxo.

Por exemplo, os Essênios do Qumrâm esperavam Aquele que viria lutar com as armas da Luz. Manuscritos do Mar Morto exibem isso.

A questão deve ser abordada quase como uma verdade à Monsieur de Lapalisse: O Judaismo, ortodoxo, contemporâneo, crê de facto num Messias a Vir, o Cristianismo /os Evangélicos/os Católico-Romanos / Ortodoxos / creêm num Cristo que veio.

A figura do Messias, o estudo do mesmo, é histórico e teológico....penso que os Messiânicos - salvo melhor opinião- estão só no domínio da teologia. O Cristianismo, obviamente, tem-na como base estruturante da Doutrina Cristológica, mas já passou também para o plano da História: O MESSIAS(no hebraico), O CRISTO (no grego) já veio.


Tome estes apontamentos como uma espécie do seu Amigo e Irmão a pensar alto para ele próprio.

  ( voltaremos ao assunto).

Um abraço. João

Wednesday, August 03, 2011

O Construtor

“Se o Senhor não edificar a casa,
em vão trabalham os que a edificam”
Salmo 127, 1

A construção vem de cima
escava-se
nos alicerces do céu
começa para lá do algodão
das nuvens, desce nas colunas
de mármore desde o azul, sem ruído
O Construtor toca com o arco
do violino celeste
de lápis-lazúli e edifica a nossa casa
desde o universo.


2/8/2011