Saturday, December 30, 2006

Cayucos, pateras, botes, canoas


ARQUIPÉLAGO FLUTUANTE

Viajam com as cabeças de fora
cortam a espuma
do vento nas ondas

cortam o rosto com sal
viajam com o corpo
uns dos outros

vão no arquipélago
gulag
do mar

vêm
em direcção a ti
terra

vêm
como
ninguém

30/12/2006

Friday, December 22, 2006

O autor referenciado

Leitura & Literatura - Pesquisa de Obras por Autor
J. T. Parreira · Jacinta Passos (escritora baiana); Jacinto Benavente (* 1966 † 1954)(Espanha) (Nobel de Literatura em 1922); Jacinto Lucas Pires ...urs.bira.nom.br/autor/autor.htm - 258k -

Monday, December 18, 2006

Chamo-os

(Uma conversação sobre Hebreus 11, 4, ss )

Os ombros de Abel, de longe
voltam-se para mim
e um cordeiro emana
como nuvem de lã
E Enoque, que saía do chão, volúvel
transparente
para a alegria celeste
Estava Noé no silêncio
da sua janela, no meio de escura água
e olhava para cima, movido
pelas fontes do céu
E Abraão, quando chamado
viu ao longe, desafiou os olhos
para a luz suave das estrelas
Em algum sótão do sono
Jacob necessitava de um pouco
de sonho
E pelas pegadas do gado Moisés,
pelo deserto, regressa
até mim.
Chamo-os, enquanto
Raabe do corpo
desenlaça
um fio escarlate.

Friday, December 15, 2006

Um Salmo 121

«Elevo os meus olhos para os montes.
De onde me virá o socorro?»

Não vou deixar que os montes
me tornem pequeno
para não ver as alturas acima deles

os pássaros pousados
no ar, as estrelas
no meio de um mar obscuro,
o fogo
penetrante do sol

não vou deixar que eles
me ceguem
para não ver o sol

que se abatam sobre mim
como paredes
não deixarei que os montes
resumam os meus olhos
a duas poças da alma.

23-9-2006

Saturday, December 02, 2006

Melhor «texto» para a Paz

Sylwia Kapuscinski for The New York Times

The House That a Hope for Peace Built
Jewish and Muslim students live together at the Mid-East Coexistence House on the Douglass College campus of Rutgers University.

Friday, December 01, 2006

Antologia de Poesia Cristã em Língua Portuguesa

Antologia de Poesia Cristã em Língua Portuguesa - Clique aqui e baixe
Após dois anos de diligente pesquisa, Sammis Reachers concluiu e tornou disponível a todos gratuitamente a Antologia de Poesia Cristã em Língua Portuguesa, reunindo poemas de caráter genuinamente cristão de grandes nomes da literatura lusófona, desde Camões até os dias atuais, passando por escritores e poetas como Machado de Assis, Fernando Pessoa, Alexandre Herculano e muitos outros. Poemas de mais de 80 autores, dentre brasileiros, portugueses e africanos. Textos belíssimos, selecionados a partir de uma perspectiva evangélica. Um verdadeiro presente aos leitores, sejam eles cristãos ou não.

Wednesday, November 29, 2006

As virgens prudentes

As virgens prudentes não têm olhos
para si próprias, olham
o firmamento
o brilho das suas lâmpadas
olham o escuro e o dia
derramados -
o leite da aurora e o rosal do ocaso -
esperam o perfume
que é a suavidade
dos passos do noivo
que já se aproxima.

27-11-2006

Monday, November 20, 2006

Os Relativismos

O relativismo no jardim do Éden
O relativismo principiou no Éden com uma sucessão de atitudes de claudicação, de falta de firmeza perante uma excepção divina, que longe de introduzir mal-estar no seio da humanidade, pelo contrário a beneficiava para a Vida. A ordem de Deus foi clara: «De toda as árvores do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás».(1) O efeito da desobediência foi revestido também de clareza: -«porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás ».
A relativização iniciou-se na argumentação do Diabo, que julgou dessacralizar, ou «des-absolutizar» as palavas de Deus. Todas as formas de ordem poderiam ser ultrapassadas, desde que se pudesse condicionar tais ordens a uma contextualização. Assim, esse primeiro relativismo influenciou o comportamento da mulher e do homem, levando ambos a transgredir. Os argumentos de Satanás, que vamos procurar ver em linguagem actual (2), são extremamente sedutores. - «É verdade que Deus disse », e a relativização da verdade divina em relação a um simples gesto quotidiano - comer ou não comer, usar ou não usar - começou aqui. O aceitar essa verdade e contextualizá-la de acordo com nosso pensamento e conveniência. Também o colocar na boca de Deus palavras que Ele não disse. Esta é uma atitude moderna. - «... Que não deviam comer de nenhuma das árvores do jardim? » O chamado diálogo dos diferentes quando não se possui convicções enraízadas ou se conhece mal os conteúdos pode ser (é) prejudicial. E os relativismos de hoje e o pós-moderno propõem muito este tipo de diálogo. -«Não. Nós podemos comer a fruta de todas as árvores do jardim », disse Eva. -«Só da árvore que está no meio é que não devemos comer. Dessa é que Deus disse que não devíamos comer e nem sequer tocar-lhe, senão morreríamos.»
A verdade revelada serviu ao Diabo para rebaixar uma afirmação de fé ao nível da mera metáfora e da história, construindo uma falsa ponte entre estas e a afirmação de fé através da dúvida.
-« Isso não é verdade. Não morrem nada ! »
Estabeleceu-se deste modo o primeiro relativismo, permitindo pensar que nada é certo, nem fixo, que as palavras divinas não eram um absoluto, mas qualquer coisa que poderia ser alterada de acordo com os desejos do próprio ego humano.
Não satisfeito com o lançar a semente da dúvida, dir-se-ia que pretendeu criar um sistema filosófico em que o reducionismo da divindade aos meros sentimentos humanos era já uma pedra basilar do agnosticismo e do ateísmo. - «Deus sabe muito bem que no mesmo instante em que comerem esse fruto os vossos olhos se hão-de abrir, e serão capazes de distinguir o bem do mal.» Versões tradicionais e mais antigas da Bíblia de Almeida dizem: «Sereis como Deus », algo que o Diabo sabia ser impossível por experiência, quando o orgulho o cegou, e que veio lançá-lo no abismo.

Um exemplo de relativismo
No final dos anos 90, um pensamento teológico, oriundo da Grã-Bretanha, espalhou-se provocativamente.
Assentes na então exígua obra de uma professora argentina de ética cristã, Marcella Althaus-Reid, as suas lições na Universidade de Edimburgo reclamavam por uma «teologia sem roupas íntimas». O que a autora queria dizer com isto, é que se deve contestar por exemplo o que chama «a ideologia heterossexual» da Bíblia, procurando lançar na opinião pública um «Deus de muitas faces», para todos e todas as orientações, sejam elas quais forem, o que se nos afigura um novo panteísmo, neste caso ético-moral. É o pós-modernismo, são as interpretações modernas sobre Deus e a Sua Palavra, e de preferência tudo quanto O provoque.

Os relativismos hoje
O papa Bento XVI, com o mesmo estilo indefectível do ex- cardeal Joseph Ratzinger, tem vindo a alertar para os relativismos, chamando-lhe no contexto actual «a ditadura do relativismo» que está a dominar nas categorias do filosófico e da moralidade. Ser levado por qualquer vento de doutrina, parece ser a atitude dos tempos modernos.
Poucas horas antes de ser eleito, o cardeal Ratzinger afirmou o que nós, evangélicos, também subscrevemos, que «é necessário defender uma fé clara», o que definitivamente é o oposto do relativismo religioso.
Tais relativismos, contra os quais também os evangélicos se batem, vêm introduzindo no mercado das ideias e das atitudes éticas, que tudo pode ser alterado por circunstâncias mais favoráveis, que a moral é transitória, do aborto às díspares orientações sexuais, que tudo possui igual valor, que tudo é aceitável. Mas não é.

Monday, November 13, 2006

Regresso a casa depois da tarde

Sem projectos, nem sensibilidade
na ponta dos dedos, dos olhos já caiu
o pano sobre os sonhos perdidos

como um transporte público, como um trem
que ao longe acende o nevoeiro
com a derradeira luz vermelha

nada há
a fazer, abres a porta
e a casa ouve-te em silêncio.

Saturday, November 04, 2006

História

Publicado em Agosto de 1974 na extinta revista «A Seara», do Rio de Janeiro, dispôs que os signatários se declaravam por uma Nova Poesia Evangélica, inconformada e irreconciliável com o decadente e passadista em matéria de expressão(linguagem)e de concepção.

Os falsos profetas

Ouça dizer que ele está no deserto.
Não vá.

O engano é incomunicável.
Passe o céu e a terra
na ponta dos seus olhos.
Não durma.

Presuma que em algum ponto
abutres insistem num voo
de seda.
Não seja.

Saturday, October 21, 2006

Teatro Evangélico-Um Ministério Metalinguístico


Está enganado aquele que tenta desentender o teatro evangélico como outra coisa que não uma arte apta a veicular a mensagem bíblica, através da estética das palavras e da representação.
Não se trata de exacerbação experimentalista, pelo contrário, entendemos que a arte dramática é um ministério metalinguístico com um código de comunicação variado. Pode ir e vai além mesmo da linguagem corrente, tratando dos dramas e conflitos humanos.
No Velho Testamento, a encenação, a representação e as palavras dramatizadas são tão antigas quanto a poesia hebraica.
As encenações seguintes, ambas determinadas pelo Senhor ao profeta Ezequiel, são, por assim dizer, um script de experiências onde se estrutura uma tese - o chamado miolo da acção -, como sinais de aviso a Israel sobre o cativeiro:
«Tu, pois, ò filho do homem, toma um tijolo, põe-no diante de ti, e grava nele a cidade de Jerusalém. Põe cerco contra ela, edifica contra ela fortificações, levanta contra ela trincheiras e põe contra ela arraiais, e aríetes em redor.» «Tu, pois, ó filho do homem, prepara a bagagem de exílio, e de dia sai, à vista deles, para o exílio; e do lugar onde estás parte para outro lugar à vista deles. À vista deles, pois, traze para a rua, de dia, a tua bagagem de exílio; depois, à tarde sairás, à vista deles, como quem vai para o exílio. Abre um buraco na parede, à vista deles, e sai por ali.» (Livro de Ezequiel,4 e 12)
O arco do proscénio, sob o qual na velha Europa e na terra de Shakespeare se representavam as palavras, através da voz, do corpo, da acção, não era necessariamente lugar de pecado. Para o teatro evangélico não o é seguramente, e agora mesmo, nos nossos dias, os palcos para a representação de peças cristãs são abertos, são a própria rua, muitas vezes, são a própria tribuna donde se prega a Palavra de Deus.
O nosso teatro, a nossa maneira de expressarmos com arte o Evangelho, pode abandonar - como alguém escreveu - «a escuridão dos cenários e penetrar na luz do Sol - perante palácios, nos adros das igrejas, nos largos das aldeias, nas colinas», sendo que o que é válido para o teatro dito secular, «mundano», pode e dever ser mais válido ainda para o teatro de conteúdo cristão.
As peças dramáticas cristãs, com base nos quadros bíblicos e veiculando mensagens para os dias hodiernos, não são frívolas, nem para diversão. São para fazer pensar e para ajudar a mudar vidas, seja na vertente do chamado teatro de época (bíblica, do Velho e do Novo Testamentos), seja sob a forma da representação da vida moderna. São uma das mais poderosas ferramentas de evangelização que levam a vivenciar situações, factos, personagens - é o que nos diz um dos mais recentes manuais do género, editado no Brasil pela Hagnos, «O Ministério do Teatro II ».
Claro que tal visão do uso de meios como a arte cénica, terá a ver, também, com o desenvolvimento cultural da comunidade, da sociedade e do país.
Se recorrermos à Internet sobre o tema em apreço, «teatro evangélico », verificaremos que existe uma multiplicidade de oferta neste domínio. As informações sobre companhias de teatro cristão aptas a trabalharem em liceus, igrejas e conferências, como um ministério instituído, designadamente nos Estados Unidos da América, são vastíssimas.
Mas não só. As artes de representação cristãs, a reintrodução de uma cultura cristã evangélica no meio de uma sociedade secularizada e materialista, estendem-se do Reino Unido à Australia, tocam pontos tão díspares como Tauranga, na Nova Zelandia, e Vancouver, no Canadá.
Em português também. Movimentos evangélicos do Brasil utilizam os grupos de arte dramática e musical como meio para proclamarem o Evangelho e a dimensão da vida cristã evangélica.
No âmbito da literatura com intuitos esclarecedores e pedagógicos sobre este ministério tão específico, as artes teatrais como meio de evangelizar, há contudo uma preocupação, ajudar a que não se confunda teatro evangélico com teatro religioso. E aqui as capacidades de discernimento espiritual dos utilizadores devem estar alerta, para uma triagem do que é proclamação evangelística, através da arte, e do que é mera forma de idolatria encenada.

Friday, October 13, 2006

Eppur, si mouve!



Acordamos e a Terra é redonda.

Alisamos os olhos e o mundo
no abismo pede respostas.

Já haverá sol nas árvores
nas varandas e nos telhados
o sol varre as sombras
e os homens pedem respostas
cabisbaixas que não vêm
ao encontro nas calçadas.

Arredondamos a Terra
acordamos o Céu com preces
e os anjos dispõem sobre nós
a brisa matinal das asas.


3.2004

Friday, October 06, 2006

Juventude perdida


Erik Jacobs for The New York Times

Evangelicals Fear the Loss of Teenagers
More than 3,400 teenagers attended a Christian youth extravaganza in Amherst, Mass., last month. But evangelical leaders are worried that other young people are now abandoning the faith in droves.

Créditos do link, do texto e da imagem: The New York Times de hoje.

Wednesday, October 04, 2006

Conto: Uma conversa sobre ruínas

(Conclusão)
Lá fora, as pedras, como as pessoas em multidão, ainda se apertavam umas contra as outras, na solidão. O que restava da sinagoga de Kefar Nahum era, de facto, para além dos artefactos pétreos, toda a solidão de não pertencer a este tempo. Embora também não pertencesse nem aos tempos nem a sinagoga original, narrados no Evangelho de Marcos.
- Sabe, Sheina, lembro-me agora da parte final do poema, que se adequa a este caso, cujos primeiros versos já lhe disse.
- «Há anos que as ruínas / misturam os telhados / e os pátios, as colunas / que repousam do cansaço».
-O poema aqui não conta – Sheina contrapôs com uma brusquidão mal disfarçada na voz. – Não, não é que eu não goste de poesia – emendou, ao ver uma retracção no rosto de Jorge. - A verdade é que sempre podemos colocar vozes nestas salas, no que foram estas salas, quero eu dizer, murmúrios nas paredes - concluiu.
-Murmúrios nas paredes que levantarmos na memória da história… isso é também poesia – argumentou, já recomposto, Jorge, prosseguindo o que julgava ser uma inspiração – A arqueologia tem por função também tirar véus que os séculos, os preconceitos e os mitos, se encarregaram de manter.
E Sheina achou melhor concordar e perguntou, entrando no jogo:
- Já pensou em quantas conversas e orações se encostaram nestas colunas?
- Prefiro a essas análises mais do foro da espiritualidade, a história tradicional das cidades, sejam elas bíblicas ou não - respondeu Jorge. Era apenas um profissional, a sua relação com as pedras era fria, a sua emotividade reduzia-se exclusivamente à poesia. A somar a isso, descendia de uma família que tinha um passado pouco dado a amar as coisas judaicas, embora não fosse como os seus ancestrais do século XVI, um anti-semita, desses que só viam, como o outro Jorge Temudo, os judeus num sítio, na fogueira da Inquisição. Esse seu avoengo remotíssimo fora indigitado, no reinado de D. João III, para espiar e acusar os marranos.
-Há milénios que nós, os judeus, lidamos com a frieza de uma boa parte da humanidade, embora agora se justifique o anti-semitismo com preconceitos de esquerda – disse Sheina, num tom irónico, depois de ouvir aquela pequeníssima parte da autobiografia do seu colega português.
- Há anos que as ruínas / misturam os telhados / e os pátios…- Jorge já começara a repetir os versos, quando Sheina o interrompeu:
-Bem vistas as coisas, o poema até se adequa bem ao que estamos a ver. E cá temos o trabalho arqueológico que serve para destrinçar o que está misturado.
-Claro, para dar uma identidade às ruínas -afirmou Jorge com convicção.
Tinha procurado conservar uma distância razoável de fazer arqueologia fosse em solo israelita fosse no chão palestiniano, por um imperativo de consciência. Jorge Temudo parecia, agora, ter recobrado a sua identificação com aquilo que era uma parte do berço fundador da humanidade.
-Bem vê, Sheina, com um passado anti-semita na família, de expulsões e despojamento de judeus, achava que não deveria vir aproveitar-me da história, ainda que artesanal, monumental, ou o que seja, de um povo a quem se negou a existência – admitiu, com um tom de tristeza na voz, e dirigindo o seu olhar para longe.
Sheina falou por ele, num tom interrogativo, mas a revelar compreensão:
- Porque seria um acto de hipócrisia, no mínimo…
- Pior – concluiu Jorge - seria um perfeito oportunismo.
Mas o que se passara na década de Quarenta com os judeus da Europa Central e os acontecimentos recentes mudaram-lhe as ideias.
Aquele trabalho de campo arqueológico, a céu aberto, cujo sítio os seus colegas já tinham isolado e sobre o qual recaíam agora os habituais gestos de filigrana na obtenção de pequenas provas, estava porém longe de caber no pessimismo do seu poema de estimação. Por mais que continuasse a lembrar-se desses versos.
«(…)as colunas / que repousam do cansaço. / Nossos olhos / as visitam, flutuam, / e perdem-se na poeira das ruas.»
-Estafante este trabalho, mas tem um sabor de aventura - disse Sheinfeld, o outro colega contratado pelo Departamento de Arqueologia da Universidade, que tinha estado a ouvir a conversa entre os dois.
-Aventura, muita vez, connosco mesmo – contrapôs Jorge.
-Embora nós não tenhamos tempo para acompanhar a aventura da história – disse com um ar sério Sheinfeld. Para logo acrescentar, rindo: - Por manifesta limitação de idade.
Aquele trabalho iria ser de largas horas diante de qualquer coisa que no fundo tinha sido abandonada, involuntariamente, pela curta vida dos homens. ©J.T.Parreira

Tuesday, September 26, 2006

Crítica Literária

NADA, NEM MESMO A CHUVA
Um texto de J.T.Parreira
(Análise crítica)
Maria José Limeira

Gostei muito desse texto “Nada, nem mesmo a chuva”, de J.T.Parreira, por causa das palavras simples que o autor utiliza para falar de coisas simples.
Quem poderia contestar as “pequenas gotas como as lágrimas que se movem dentro do coração”? Um mundo de coisas que este trecho exprime, de uma maneira tão singela e comovente... Todos entendem como se processa essa emoção, e é por isto que esse poema ganha o foro universal.
Vemos adiante as “mãos” das “mães” que “guardam as chaves das pequenas nuvens”. Que bonito, não?Falar em nuvens é olhar um céu nublado de onde desabam essas lágrimas-chuvas que o autor enfoca e, no final, abre-se a outras contemplações.
É um texto meditativo sobre os gestos que a Natureza esboça, com um narrador impessoal, que dá elegância ao discurso poético.Quando o domínio se fecha, as mãos se abrem. Muito bom!
(Maria José Limeira é escritora e doce jornalistademocrática de João Pessoa-PB)

NADA, NEM MESMO A CHUVA

Nada, nem mesmo a chuva
tem tão pequenas gotas
como as lágrimas que se movem
dentro do coração
E as pequenas mãos
que sobem pelo rosto
das mães? Ninguém
como elas tem a chave
para tão pequenas nuvens
Ninguém, nem mesmo o silêncio
tem tão pequenas mãos
para abrir
tão fechado domínio.

Sunday, September 24, 2006

A ovelha perdida

Pastor, onde está a ovelha tresmalhada
ferida como um pássaro
que caiu do ninho, que se ergue
num balido apertado entre os espinhos
a confusa ovelha que segue o luar
espargido no chão
na ilusão da água

Que pode fazer uma ovelha sem rebanho
que perdeu o norte ao céu
senão errar, que pode a simples
fazer sob as nuvens
que cruzam o sol, senão baixar
os seus olhos para a tristeza
sob o infinito breu

Envia o coração com os teus ombros
prontos a romperem com firmeza
pelos vales oblíquos, que esperas, Pastor,
o fim da noite larga? Não deixes
que a próxima manhã que espelha o sol
desça e acorde sequer uma janela
e sem rebanho encontre a tua ovelha.

12-04-2003