Thursday, July 31, 2008

Canta um hino à minha alma


Marc Chagall, o poeta reclinado


Canta um hino à minha alma
Senta-te ao pé de mim
encosta
ao meu o teu ouvido
Ouviremos
os gestos das folhas
a pousarem na água
os pés
das ovelhas a silenciarem
a sombra
um hino para nossa alma
nos percorre
O pentagrama do coração
registará a música
das artérias coronárias
O coração baterá
ignorando a morte.

30-7-2008

Sunday, July 27, 2008

Nota de pé-de-página (2)

Nunca fui um homem de alegrias excessivas. Com algum sentido de humor, sim. Ironia quanto baste, como a do profeta Elias, na mesma linha que seguiu da ironia alimentada pelo conhecimento sobre as religiões e os rituais que caminham pelo absurdo. Mas foi preciso chegar aos 61 anos para ser triste.
Triste como Charles Dickens ante a realidade que estampou no seu livro Tempos Difíceis/Hard Times, em que as crianças e os trabalhadores explorados eram as vítimas;
triste como Ezra Pound, o poeta dos Cantos, diante da Usura;
triste como o Álvaro de Campos, heterónimo de Pessoa, ao ver o mundo com o pessimismo do grande poema A Tabacaria, como se tivesse razão e, infelizmente, teve-a.
Tudo do domínio da Literatura, dirão. Mas quem poderá ter a veleidade de se afirmar triste, com aquela tristeza que só é divina, de Jesus perante a cidade de Jerusalém?

Caravaggio

Conversão de Paulo, no caminho de Damasco.

Friday, July 25, 2008

Nota de pé-de-página (1)

A fundação da Cultura do Cristianismo pelo apóstolo Paulo julgamo-la adormecida no passado. Mas já se preparava para ser coluna no futuro.
Reconhecida pelas instâncias do poder romano(Actos 24,25) e pela curiosidade do espírito cultural grego (Actos 17 ), ajudaria a conduzir da Patrística à Reforma os pensamentos cristãos, e a despeito de muita dialética materialista no século XX, um autor como Harold Bloom teria que colocar Paulo como um autor bíblico fundacional a par de Dante e Shakespeare. Para o autor do Cânone Ocidental, Paulo esteve na base da ontologia do Ser.

Wednesday, July 23, 2008

Evangélicos em Portugal, 1984


Gerald Carl Ericson, Núcleo, Lisboa, 1984


BlockquoteEsforços Educacionais Especiais
(...)
A Associação Cultural Evangélica (Bara) tem procurado promover o estudo da cultura entre os evangélicos, sobretudo através da publicação da sua revista "BARA", desde o ano de 1978.»

Monday, July 21, 2008

Suicídio, Linha de Fronteira

Suicídio, Linha de Fronteira in Portal Evangélico da AEP
BlockquoteEntão, Saul tomou a espada e se lançou sobre ela.
I Samuel,31,4


Saul não foi um herói paradigmático, embora trágico, por isso a sua morte é sem louvor bíblico. Embora David tenha feito uma elegia para o Livro dos Justos, mas essa morte entra no acto deplorável e não recomendável do suicídio. E um suicídio levou a outro.
Algumas culturas muito posteriores iriam ver este acto de Saul e do seu escudeiro como uma maneira honrosa de escapar a uma situação de derrota e de vergonha.
Em todo o caso, a Bíblia Sagrada, sem julgar moralmente os suicidas, refere apenas quatro declarados actos de aplicação da morte a si próprio, sendo três de personagens marcantes: Saul, Aitofel e Judas Iscariotes. (...)

Sunday, July 13, 2008

Para memória passada

13 de Março de 2007

Novas de Alegria

Título de um jornalzinho dos Protestantes, ao tempo em que vivia no Alentejo profundo, junto a Espanha. Lia-o - ou antes - folheava-o no consultório de um médico para mim essencial: o que me trouxe à vida, do ventre de minha mãe, que Deus haja! As duas enfermeiras que recordo com toda a saudade, liam-no e porque uma delas era da 'seita', trazia-o para a sala de espera. E mal nenhum fazia, pois a mensagem era radiosa! Apenas a sociedade em geral não apadrinhava o grupo 'separatista', de resto limitadíssimo e apontadíssimo a dedo... Ai dos que eram protestantes: tinham o pessoal ortodoxo à perna; e por isso formavam uma pequena comunidade muito unida e fechada!Não sei porque me deu para escrever sobre isto, logo hoje. Talvez porque, em dia de trocar de carro, a alegria seja a nota mais dominante na vida de um simples agnóstico... (...) Que me compreendam e perdoem os editores da revista da minha amiga protestante!

(José Paracana, 64, autor do blog Artenosatos)

Pontes de Paris

Pontes de Paris, Nadir Afonso


As águas do Sena
são um manual
de arquitectura

de pontes
rectilíneas, em arco
no espelho
do rio, esculpindo
as águas, as pontes
multiplicam-se

sob um céu de vidro
pardo, parado.

11.7.2008

Wednesday, July 02, 2008

In "A Ovelha Perdida"

“A Igreja tem que tomar consciência de que hoje exerce a sua missão numa sociedade que não se identifica com ela, no sentido em que a Igreja não é a sociedade. No nosso caso, há uma maioria de católicos mas há também outros e isso faz com que a Igreja não possa situar-se no quadro da sociedade exercendo um antigo poder de influência e uma antiga relação Igreja/sociedade que já não existe”, indicou.
Cardeal-Patriarca de Lisboa, aos microfones da “Rádio Renascença”.


A reflexão do chefe da igreja católica em Portugal é honesta e correctíssima. Mas importaria acrescentar que a denominada “maioria de católicos” é uma maioria cultural e não religiosa. A maioria dos portugueses diz-se católica por uma questão de identificação cultural e de tradição familiar, mas não praticam, não conhecem a doutrina, em grande parte discordam de muita dessa doutrina, não são comprometidos com ela. E vão à igreja apenas nas cerimónias religiosas que funcionam como ritos de passagem (baptizados, casamentos, funerais).
Por sua vez, os “outros”, que tornam a sociedade heterogénea, em termos religiosos, apesar desta confissão (e pedagogia?) continuam a ser discriminados na dita sociedade, perante os poderes públicos, a comunicação social, e até a igreja dominante. Essa é a verdade. Mas é sempre bom ouvir intervenções pedagógicas como esta.
(B.L.)

Thursday, June 26, 2008

As Sagradas Escrituras não são mudas


«Se os textos não são interrogados, permanecem mudos», era a disposição geral no dizer de teólogos liberais, como Bultmann, perante a Bíblia. E tal interrogação, far-se-ia sob as formas mais diversas, sob um denominador comum: os métodos críticos histórico e morfológico.
Freud disse certa ocasião a Papini que ensinara «aos outros a virtude da confissão e afinal nunca pude abrir inteiramente a minha alma». Os teólogos liberais confessaram-se ruidosamente nos seus escritos, porque acharam que a Bíblia Sagrada estava muda diante das contextualizações que eram precisas- do seu ponto de vista- ser feitas na modernidade do Século XX.
Muitas obras fizeram ruído nesse tempo. Mas mais do que obras de exegese, eram instrumentos para colocar em causa os textos bíblicos, para os desnudarem das suas roupas riquíssimas do que é celeste, para os despojarem da sua espiritualidade.
A chamada Alta Crítica, a despeito de pretender ser honesta, teologicamente, para com o homem, acabou por levantar a sua voz contra o Divino, porquanto procurou apenas a Literatura nas Sagradas Escrituras, interessada em detectar fontes, tipos literários, questionando autores e datas.
É verdade que nem todos os Evangelhos apresentam a vida de Cristo duma forma teológica, procurando dar uma narratividade literária, somente o de João a apresenta de modo teológico, sobretudo. Diz-se nos meios teológicos académicos que o fez para que os leitores sejam salvos. Forma e conteúdo, todavia, estão intrinseca e espiritualmente ligados, por exemplo, nos textos sagrados evangelísticos. Estruturalmente jamais aceitaríamos ler os Evangelhos se nos fossem apresentados hoje sob a forma de romance. Diga-se o mesmo das Epístolas, onde conteúdo e forma são um corpo todo inspirado e inspirador pelo fôlego do Espírito Santo.
Perante as Sagradas Escrituras, afinal perante a sua totalidade, quem deve ficar em reverente silêncio é o Homem, e se deve falar é para interrogar como o carcereiro de Filipos, porque a Palavra de Deus é que nos questiona, nos desnuda, nos aponta o Caminho.


Texto publicado inicialmente in Confeitaria Cristã

Friday, June 20, 2008

Que Pássaros Cantam?

"Satan watching the caresses of Adam and Eve", William Blake, in Paraíso Perdido, 1808

Que pássaros cantam
no paraíso que perdi?

Que estrelas, nunca
definitivas, riscaram
num buraco do céu
a sua passagem?

Em que ramo
esqueci o fruto da vida?

Habito as alternâncias do tédio
e do ânimo, às vezes
uma casa de areia
onde mesmo assim existe
um trilho de flores silvestres.

Em que mina de ouro perdi
o olhar, que já foi um brilho
na noite?

Como é difícil ser bêbado
de silêncios.

20-6-2008

Friday, June 13, 2008

No silêncio húmido da noite

O pastor das nuvens

À noite o mar é o pastor das nuvens brancas do horizonte.Fá-las circular pelas pastagens do céu.”(Harry Martinson, “Comboio Camuflado”)

No silêncio húmido da noite
o espelho das águas reflecte
a imagem toda
o algodão branco do céu
as ovelhas de cima
dispensam o som de flauta ou harpa
pastoril
nada como olhar para baixo
antes de adormecer
e ver a imensidão bela do pastor
à luz da Lua
sempre lá.

Palmela, Junho de 2008

(© Brissos Lino)

Saturday, June 07, 2008

O Tempo que passou

Poema publicado na revista A Seara, da Casa Publicadora das Assembleias de Deus do Brasil, em Dezembro de 1971. Com «Poema de Natal» chamou-se a atenção para a Nova Poesia Evangélica e para o jovem poeta. A mesma revista, em Maio de 1972, trazia um artigo crítico, de análise, e de boas-vindas a esse trabalho para os meios literários evangélicos em língua portuguesa, assinado por Joanyr de Oliveira.

Saturday, May 31, 2008

Uma Parábola


(Quadro de Jean -François Millet)


Lembra-te dessa mulher
que arrancou com coragem
à escuridão do pó
uma moeda simples, única
mesmo diante das outras
-que eram nove.
Quando varria
não eram os seus passos
que ouvia, porque voava
sobre o chão da cozinha
seus olhos submergiam
no território onde nada
tem alma, e o chão
nunca lhe fugiu debaixo
dos seus pés.

31-5-2008

Tuesday, May 27, 2008

A luz de Paris

A luz de Paris, aqui uma interessante forma poética de analisar a Luz. Pelo poeta Brissos Lino.

Monday, May 26, 2008

Vagabundos

A planta dos pés na terra, um passo
atrás do outro, os olhos
humilhados onde passam
conhecem só
o calor húmido do chão
e as formas de uma nuvem
que o ímpeto das águas
rompe de repente
Hoje como ontem
o sol sobre os ombros
um dia após o outro
ligados ao fundo
por estrelas
nos celestes caminhos
A noite vem deitar os corpos
nos sonhos aguardados
no coração dos andarilhos
com paciência, a treva
que vem voando cega.