Friday, November 21, 2008

O Peregrino, romance de conduta


O Peregrino não é um poema nacional, daqueles que referenciam uma literatura como O Paraíso Perdido, Folhas de Erva ou Os Lusíadas. É, no entanto, um tratado épico da vida e da viagem agónica do Cristão.

Trata-se da efabulação da conduta desta personagem peculiar – o Cristão-, que ultrapassa os próprios catolicismo romano e protestantismo.

Simplificando as coisas, é uma mistura enciclopédica repleta de rótulos morais, de conduta ética, moral, social, religiosa, não se referindo estritamente ao passado.

No actual pós-modernismo ainda é capaz de causar perplexidades? De abrir fissuras na alma humana, que é às vezes um deserto? De estar para além dos livros de auto-ajuda? Sem dúvida, e não apenas nos meios cristãos, sobretudo evangélicos, mas nos domínios eruditos da história da literatura universal.

Não pensando escrever um romance, João Bunyan criou, contudo, um universo literário em que elabora personagens para a Fé e reune as realidades com as suas visões como autor. Por essa inesperada forma e conteúdo foi considerado o maior ficcionista inglês do século XVII. Na escrita do seu livro, Bunyan incluiu a totalidade de uma vida inteira de observação apaixonada dos homens e das mulheres, e a tal dimensão chamar-se-á universalidade, cosmovisão, romance psicológico, etc. Neste âmbito, está estruturado no plano vertical, ou seja, vai das profundidades às alturas do recorte psiciológico das suas várias personagens, na vivida galeria de tipos que criou.

Um original historiador das Literaturas como é o autor de O Cânone Ocidental, Harold Bloom, escreveu «que as visões de Bunyan actuam sempre sobre o narrador». O que nos parece querer dizer, salvo melhor opinião, que a experiência narrada em A Progressão do Peregrino foi de ambos, muito mais do crente que do romancista.

Desde a abertura do romance até ao momento decisivo para o qual a acção é conduzida, estamos diante de um narrador-personagem nada neutro « E, no meu sonho, alonguei a vista por toda a extensão do vale», que comenta, de forma metafórica, a fuga à ira vindoura, « o seu olhar desvairado volvia-se para um e outro lado, como em busca de um caminho para fugir », e o percurso de uma vida que começa com a conversão a Cristo, e o trajecto da carreira cristã dificultada pelo ambiente circunstâncial mundano, «Esta furiosa luta prolongou-se até perto do meio-dia, hora em que se esgotaram as forças de Cristão, que, por causa das feridas, ia enfraquecendo cada vez mais. Apolião não deixou de aproveitar esta vantagem…» (1)

É, por isso, The Pilgrim’s Progress, a crónica do homem crente que atravessa todos os tempos desde o Novo Testamento. E o padrão literário sobre o qual o livro se estruturou foi a alegoria, mas tratada com tal realismo que a transfigurou em romance.

Com efeito, foi escrito a partir de um padrão bíblico como uma alegoria religiosa, como um panfleto ou um sermão, escreveria Walter Allen na panorâmica histórica O Romance Inglês (2). E para este antigo catedrático, essa panorâmica inicia-se justamente com o Pilgrim’s Progress, o que assim eleva o romance de Bunyan ao patamar das obras fundadoras.

Em Portugal foi traduzido e editado pela Livraria Evangélica, em 1913, com certeza pela primeira vez, sob o extenso e significativo título O Peregrino ou a viagem do cristão à Cidade Celestial debaixo da forma de um sonho.

Há nesta obra um padrão definidor da sua origem, da sua base de construção literária. Esse padrão foi a Bíblia, designadamente a tradução de John Wycliffe, no século XIV, e, posteriormente, a de Tyndale que a popularizaram, tornando-a acessível. Tanto ao povo como a Shakespeare foi dada a oportunidade de ler a Bíblia, como foi dada a possibilidade de ler um livro, O Peregrino, conduzido por ela e que ao mesmo tempo a introduzia na literatura e aplicava na viagem do ser humano e do crente, neste mundo.

O PADRÃO

O Peregrino é por assim dizer uma aplicação hermenêutica na forma da ficção de um tipo de literatura, o romance, que nascia na Inglaterra depois do teatro de Shakespeare e a par da poesia considerada moderna (Romantismo), cujo fundador apontado por muitos foi Woordsworth.

Ao situar todo o seu pensamento em referência à Bíblia, é dotado de um sentido agudo da narratividade, do ritmo romanesco e, simultaneamente, da construção dramática. Isto explica o seu sucesso ao longo destes três séculos.

O padrão teve por base as leituras de Bunyan, e, assim, dentro do próprio romance baseou na leitura de livros edificantes sobre moral e da própria Bíblia, o ponto de partida da personagem, o Cristão, para todos os efeitos um anti-herói. De facto, lemos na pág.7 que a personagem procurava «na oração e na leitura lenitivo para tão indescritível dor.»

A personagem da obra-prima de Bunyan, como um anti-herói, marcha contra-cultura, estabelecendo uma comparação literária por contraste. Poderia ser, sem dúvida, o anti-Quixote, colocado nesse enredo dos mais antigos da literatura, a Viagem. Há algum humor pícaro sub-reptício no conteúdo do romance de Bunyan, mas não excessivo, contido dentro das balizas rigorosas do sentido espiritual. O Quixote lutou contra os gigantes (moinhos de vento), o que transporta em si a ironia da imaginação e da ilusão de óptica; o Cristão luta contra o Apolião, que é uma figura de pesadelo, um monstro; e, no decurso da viagem, cruza-se com figuras realmente irónicas: o Loquaz, o Próprio-Interesse, o Amor-ao-Dinheiro, o Volta-Atrás. E compara (na pág.154) a ingenuidade a «um pinto mais esperto que foge ainda pegado à casca ».

Ao começar com uma alegoria, vai abrir o caminho e preparar o leitor para uma sucessão de alegorias. O narrador Bunyan, pregador baptista no período da restauração dos Stuarts que privilegiavam os anglicanos e que por isso foi perseguido e preso, refere-se assim à sua prisão: «caminhando pelo deserto deste mundo, parei num lugar onde havia uma caverna». Nela adormeceu e teve um sonho.

O ENREDO

À estrutura narrativa do conto ou do romance, chama-se enredo. O enredo d’O Peregrino não é amplamento aberto, isto é, não se trata de uma literatura popular, mas, também, não é de todo uma obra fechada nem tão-pouco esotérica, só inteligível pelos conhecedores da Bíblia. O seu realismo é compreensível porquanto fala da vida do homem e da sua vital relação com Deus. Mas nem por isso é um livro místico.

Desconstruindo a complicação onírica que reside nos sonhos, e que séculos mais tarde Freud viria a explicar, sem misticismos Bunyan coloca os leitores perante o seu sonho de autor-narrador com o sonho da sua personagem. A estrutura do romance é toda ela o sonho que se torna realidade, pelas vivências e pelo discurso todo bíblico.

Criou uma linguagem nova, justamente porque no entendimento da critíca literária não estava esterilizado pela cultura, como p.ex. John Milton, João Bunyan tirou partido da sua incultura, as suas observações são o fruto da pureza cristã e iluminada pelo Espírito que estava nos seus olhos, com que viu a realidade do homem já considerado moderno, a caminho da angústia, da solidão e do desamparo espiritual.

Problemas que o existencialismo cristão de Kierkegaard estabeleceu em definitivo dois séculos depois de Bunyan.

Este inventa palavras, descreve paisagens, fixa pormenores, faz diálogos paradigmáticos, alegoriza a viagem do homem crente em luta permanente contra o pecado, tudo isso ao serviço da alegoria torna a sua obra realista, contemporânea e autêntica.

Foi como se tivesse ouvido uma voz do céu a dizer-lhe escreve a visão, e esta era a realidade estruturada num padrão único, que Bunyan acabou por criar dando inclusíve início ao romance inglês, colocando o percurso de O Peregrino nesse campo e muito para além dos chamados conduct books, ou livros de cabeceira que o puritanismo e o quakerismo promoveram.

Bunyan faz também integrar na estrutura do seu romance, o enredo comum à época, as Viagens. Em O Peregrino, porém, o autor faz o seu anti-herói partir de uma cidade alegórica: a cidade do Mal, de onde foge, rumo à cidade de Deus ou Cidade Celestial.

Aconteceu o mesmo na vida do autor, que teve uma juventude dissoluta até aos vinte anos. Com esta idade casou com uma jovem fortemente piedosa, esta levou na bagagem literatura devocional, o que contribuiu para converter Bunyan num pregador de sólido arcaboiço moral, que abriu toda a sua alma para os valores puritanos. Fê-lo com convicção e com o risco da própria vida, ao contrário do seu sucessor imediato no romance inglês, Daniel Defoe, que possuia apenas um cantinho na sua alma para esses valores, apesar de ter escrito Family Instructor- uma temperada ficção em tom religioso na qual o autor do Robinson Crusoé dá exemplos de moral aos membros da família.

No meu entender, Crusoé trata da epicidade da solidão, numa ilha transformada em habitat. Ao contrário, o Cristão de Bunyan é o épico da vida peregrinada entre outras gentes, outras vozes, neste mundo, de um modo que chega a ser fantástico.

ÉPICA FANTÁSTICA

A épica fantástica propõe-nos a construção de um mundo paralelo no qual a narrativa se centra em relatos que devem reunir dois elementos essenciais: devem ser colectivos, sobre povos, hábitos, condutas morais, e devem possuir grandeza heróica. Teoricamente aplicável hoje ao romance fantástico, estas características não faltam a O Peregrino, sobretudo tomando em linha de conta o século XVI do dealbar de um tipo de literatura como o romance.

O universo e as personagens alternativas que João Bunyan nos propõe em O Peregrino, não se conheceram antes nas tradições orais, nem estão presentes nas posteriores literaturas, mesmo naquelas que fizeram do fantástico a estrutura da sua narrativa, como a literatura sul-americana da segunda metade do século XX.

Todavia, a épica fantástica pode ser descoberta no romance, onde os relatos são heróicos e nos colocam perante o enfrentamento entre o Bem e o Mal, mas sem magia. E essa luta já vem de um «lá longe», de antes da chamada idade da água.

E quando essa luta universal entra no domínio do real de uma vida, no seu quotidiano, ainda que a partir de um sonho, e se estrutura num romance de vida que tem de facto existência, a vida do Cristão em qualquer tempo, é assim a realidade a entrar na ficção. Ainda que através da mais estranha das proveniências e pela mais inesperada das formas. Através de uma obra-prima chamada O Peregrino, que une a ficção e a experiência.
____________________________
(1) - Págs. 82, 15 e 78, respectivamente. «O Peregrino, A Viagem do Cristão à Cidade Celestial». Imprensa Metodista, Brasil, 7ª edição, 1955.
(2) –O Romance Inglês, Walter Allen, Livros Pelicano, Ulisseia, Lisboa, 196?

Saturday, November 15, 2008

O beijo de Caravaggio


E um beijo rompeu as cordas
do silêncio
caiu na noite, caiu no rosto
como uma mentira, como uma estrela
cai no rotundo deserto

Um beijo soa do fundo, com pressa
um beijo astuto
dissimulando a lâmina
que vem do coração

nessa noite o ar
amacia a face
de Cristo, confiante
daquele beijo triste.

25-10-2008

Sunday, November 09, 2008

A torre da igreja


A torre da igreja cresce
na aspiração dos céus
estica-se a devoção rumo ao azul
nas imensas janelas há luz
colorida
e efeitos sagrados
o som cavo convida à reflexão
e talvez à culpa
a solidez da pedra amacia as almas
cansadas
e refugia-lhes os medos.

(Brissos Lino)

extraído de A Ovelha Perdida

Tuesday, November 04, 2008

Esboços (Homilética):

“MARIA”, O NOSSO NOME DITO POR JESUS
João 20, 16


Introd.- Neste vers. e no seguinte está vertida toda uma Teologia acerca da nossa relação com Deus através de Jesus Cristo. E o que Cristo conhece de nós próprios. Ao conhecer e nomear n/nome, conhece nossa identidade, quem somos.
Maria é um nome, corresponde a uma pessoa individual, ser humano na sua complexidade.
(Maria (Μαρία transliteração em grego do hebraico Maryam, Miriã ou Miriam מרים que em hebraico significa "contumácia" ou "rebelião" - Ex 15:20 - cuja raiz é מרה "rebelde")
Com os seus receios, dúvidas.No plano social, uma desconhecida, mais uma pessoa sem importância colectiva. Mas Cristo sabia o seu nome: “Maria”. SALMO 139,15-16

1.O ACONTECIMENTO
1.1-Apreciar a contextualização da ocorrência
Maria chora- desgostos, angustia e sofrimento do ser. Vs.11.
Maria olha para sobrenatural sem o reconhecer, Vs. 12 – a natureza carnal do ser humano não entender as coisas espirituais. A névoa d/lágrimas/aflição/não deixa ver grandezas d/Deus.
Maria perplexa, perdida – o ser com dúvidas, sem saber o que fazer para encontrar o Salvador Vs.13 e 14 O Evangelho diz que olhou para Jesus, não o reconheceu. Os homens tacteiam na religião, ouvem falar da Palavra de Deus. Mas não O reconhecem diante das suas vidas.

1.2 –Maria confunde JESUS com o jardineiro. Vs.15
Ao longo dos séculos/mormente no 19 e 20 confundiu-se JESUS e Sua actividade salvadora com um: Profeta, um Justo, um leader religioso fundador Cristianismo, um revolucionário q.antecipou o igualitarismo, um radical q. sobrevalorizou os pobres. Poucos afirmaram: És o CRISTO, o F.do D.vivo Mat.16,16

2.”MARIA”, JESUS CONHECE NOSSO NOME
2.1 – Vs. 16 Nome, identidade, necessidade. Jesus ao chamá-la assim, fê-la perceber que não a perdera de vista. Ela enganara-se a Seu respeito: Hortelão; Jesus não se equivocou sobre ela/sobre o Ser humano.

2.2-JESUS compreendeu a confusão de Maria. E pronunciou o seu nome com voz redentora, de intimidade. Pronunciou o seu nome/nosso nome para no fazer descansar: Isaias 43,1-2

2.3-A menção do nome de Maria/nosso nome: - trouxe p/plano espiritual o que em Israel, o sumo sacerdote fazia: os nomes das tribos de Israel estavam nos s/ ombros e coração. Ex.28,9
Assim n/nomes estão no coração do n/Sumo Sacerdote e no de Deus-Pai. Isaias 49,16

3. PROVA DE CRISTO RESSUSCITDO
Jesus revela-se e revela o Pai / a nossa filiação/do homem e mulher crentes e salvos:
Vs.17

Friday, October 31, 2008

É a hora!



Embora ainda não esteja no site da prestigiosa revista semanal de economia, já está em release divulgado pela publicação. "Os EUA devem se arriscar", é o título, segundo o texto de divulgação. "Apesar de todas as deficiências da campanha, tanto John McCain quanto Barack Obama oferecem esperança de redenção nacional. Agora, os EUA devem escolher entre eles. A Economist não tem direito a voto, mas, se tivesse, votaria em Obama." Mais adiante, a publicação faz ressalva: o apoio é "sincero", mas reconhece que o nome é um "risco".
"Dada a inexperiência de Obama, a falta de clareza em relação a algumas de suas crenças e a perspectiva de um Congresso predominantemente democrata, votar nele é um risco". Mas, conclui, "um risco que os EUA deveria tomar, dado o caminho difícil que se apresenta adiante."

Via Pavablog

Saturday, October 25, 2008

Lusitania

Antes da pátria já havia os rios
tão longos como os olhos do Infante.
Veio sem nome e com vestes
arrancadas aos lobos, lares amaciando
as pedras, fogos que são ouro
a subir das cinzas.
Antes da pátria já havia a terra
tão pequena
como os nossos olhos hoje.

Tuesday, October 21, 2008

Lições de tauromaquia para lidar a Crise


As vacas de Basã e o touro de Wall Street

Em Deus e o Mundo dos Negócios, Paul Stevens, autor também de A Espiritualidade na Prática, lembra uma história conhecida, especialmente do público norte-americano, que começa com a frase “você tem duas vacas”. Ele cita Richard Higginson em uma abordagem sobre investimentos, em seu livro Questions of Business Life [Questões da vida de negócios]. Qualquer semelhança não é mera coincidência.

Feudalismo: Você tem duas vacas. O seu senhor fica com parte do leite.
Fascismo: Você tem duas vacas. O governo fica com as duas, contrata você para cuidar delas e vende o leite para você.
Comunismo: Você tem duas vacas. Você tem que cuidar delas, mas o governo fica com todo o leite.
Capitalismo: Você tem duas vacas. Você vende uma e compra um touro. O seu rebanho se multiplica e a economia cresce. Você vende o rebanho e se aposenta com o lucro.

Capitalismo segundo a Enron [ou, atualizando, segundo as “Instituições Financeiras” em Wall Street]: Você tem duas vacas. Vende três para sua companhia de capital aberto usando cartas de crédito abertas pelo seu cunhado em um banco. Em seguida, faz um acordo para quitar a dívida com participação acionária, e pode, então, adquirir todas as quatro vacas de volta, com isenção de taxas para as cinco vacas. Os direitos sobre o leite das seis vacas são transferidos por meio de um intermediário para uma empresa nas Ilhas Cayman, que pertence secretamente a um dos acionistas majoritários, que vende os direitos de todas as sete vacas de volta para a sua companhia de capital aberto. O relatório anual da “Instituição” aponta que a companhia possui oito vacas, com opção de compra para uma nona.
E, por falar em vaca, lembro-me também das de Basã, gordas e satisfeitas, que nos foram apresentadas por Amós (Am 4:1). Com a palavra, o próprio: “Eu sei das muitas maldades e dos graves pecados que vocês cometem. Vocês oprimem o justo, recebem suborno e impedem que se faça justiça ao pobre nos tribunais” (5:12). “Está chegando o dia em que mandarei fome pelo país inteiro. Todos ficarão com fome, mas não por falta de comida, e com sede, mas não por falta de água. Todos terão fome e sede de ouvir a mensagem de Deus, o Senhor” (8:11).

Fonte: Ultimato.
via A Ovelha Perdida

Saturday, October 18, 2008

Andeiro (2)

(Pompeia, Setembro 1994)










À espera dos actores, em vão
chamamos dos braços da madeira
chamamos do fundo
de nós mesmos
um grito espesso, de cinza
nas gargantas.

Thursday, October 16, 2008

Sylvia Pl(de)ath


Quando meteu a cabeça no forno de gaz
como um leão caindo sobre a presa
todos os poemas estavam prontos
dirigidos
para a morte sobre a mesa
Ela fê-lo de novo, e de novo
toda a manhã escureceu
a sua pele brilhante e o cabelo
como um sol loiro.

(poema reescrito, libelo contra o suicídio)

Tuesday, October 14, 2008

Restos de Noite

Restos de sono na cara
restos de noite nas pálpebras
e de sonho por detrás delas

as olheiras são pequenas bolsas
de canguru
que carregam desgostos

os sulcos do rosto cansado
fazem velho o acordado
de olhos raiados
e hálito vicioso

há manhãs inconvenientes que
batem
com força
antes do tempo.

(Brissos Lino)
in A Ovelha Perdida

Sunday, October 12, 2008

"E o poeta se fez triste..."






Brissos Lino


Escrevia João Tomaz Parreira, em jeito de nota de pé de página, no seu blogue “Papéis na Gaveta”, a 27/7/2008:

“Nunca fui um homem de alegrias excessivas. Com algum sentido de humor, sim. Ironia quanto baste, como a do profeta Elias, na mesma linha que seguiu da ironia alimentada pelo conhecimento sobre as religiões e os rituais que caminham pelo absurdo. Mas foi preciso chegar aos 61 anos para ser triste.

Triste como Charles Dickens ante a realidade que estampou no seu livro Tempos Difíceis/Hard Times, em que as crianças e os trabalhadores explorados eram as vítimas;
triste como Ezra Pound, o poeta dos Cantos, diante da Usura;
triste como o Álvaro de Campos, heterónimo de Pessoa, ao ver o mundo com o pessimismo do grande poema A Tabacaria, como se tivesse razão e, infelizmente, teve-a.

Tudo do domínio da Literatura, dirão. Mas quem poderá ter a veleidade de se afirmar triste, com aquela tristeza que só é divina, de Jesus perante a cidade de Jerusalém?”

São palavras duras, convenhamos, que expressam alguma desilusão sobre o mundo e os homens. E contudo JTP, como cristão convicto que é, sempre soube que os homens estão habitados pelo pecado, o qual gera a morte, no dizer de S. Paulo, e que o mundo não está em boas mãos, visto que se encontra “no maligno”.

Mas talvez o desconforto e a surpresa com que se diz triste agora, aos 61 anos, depois de boa parte da vida vivida, seja mais com o que sente do que com o que sabe. A racionalidade funciona a um ritmo muito mais acelerado do que as emoções.

Por outro lado, a alegria vem e vai. Pode gerar-se quase instantaneamente, apenas desencadeada por um factor fortuito, que estimula a libertação de um fluxo mais significativo de adrenalina.

Já a tristeza anda mais devagar, precisa de tempo para se consolidar, instala-se mais discretamente mas traz consigo as malas e faz-nos companhia durante mais tempo. Requer introspecção, distanciamento e uma postura mais reflexiva, característica nos poetas, mas também no ser humano em geral, da fase da meia-idade para a frente.

Contudo, é curioso observar como JTP fala da sua tristeza. Parece fazê-lo com pouco à vontade, justificando-a cuidadosamente com as suas desilusões, como se tivesse algum acanhamento por se sentir assim. Daí talvez a marcação de distância com Jesus, ele sim, tinha todo o direito de se sentir triste perante Jerusalém. JTP, um simples mortal, não ousa estar triste como o seu Mestre. Quer que fique bem claro que não se sente nesse direito.

Já estou a ouvir algumas cabeças, porventura escandalizadas, a estranhar esta confissão honesta, que vai muito mais na linha da tradição literária (e também portuguesa, como no caso dos “vencidos da vida”) do que na postura de algum cristianismo plástico, de sorriso artificial e tontamente optimista. Como se não fossemos todos de carne e osso, e os sentimentos não fossem legítimos e uma evidência.

A chamada “geração de setenta”, no séc. XIX português, ficou conhecida como “os vencidos da vida”, cujo lema foi: “Para um homem, o ser vencido ou derrotado na vida depende, não da realidade aparente a que chegou – mas do ideal íntimo a que aspirava”. Neste sentido não somos todos “vencidos”? E não temos todos motivos para “sermos tristes”?

JTP sabe bem onde encontrar conforto pleno para o seu sentimento de tristeza. Sabe bem quem nunca o desiludirá. Mas sejamos honestos. É exactamente assim que nos sentimos todos em certos momentos, se acaso vivemos com os pés no chão.

A vantagem do que confia em Deus é que, sem tirar os pés do chão, pode manter a cabeça no céu. E isso permite que a nossa tristeza não seja um livro fechado.

Outubro 2008

Monday, October 06, 2008

Biografia de Bolso

A veces se le oye cantar cosas de niño
Gabriel Celaya



Respira numa pequena cidade o mesmo ar
por onde passam os sinos
e os pássaros que chamam os olhos
para cima das árvores da rua principal
na pequena cidade onde vive e que teima
em ser provinciana, toda a gente
se conhece pelo modo como diz o nome
e o rosto de hoje foi o que se viu ontem
Vive numa pequena cidade
cuja gente se preocupa com o buraco
do ozono e o da rua em que reside
Passa algum tempo em casa devagar
as janelas raramente o vêem
sempre que cruza os olhos por um livro
é para paralisar a eternidade
também cruza os braços para se defender
do coração inconfidente
Alguns anos escreveu poesia
com o alheamento das estrelas
não conseguiu entrar ainda na fórmula
azul que é o céu
mas conseguiu deixar aos filhos
como herança dois ou três editores
e espera viver alguns anos ainda
para levantar a cabeça.

Sunday, October 05, 2008

A Religiosidade em Vergílio Ferreira

Notas tiradas de um Conferência
Procurar Deus, a Fé e a religiosidade nas 22 obras de ficção, nos 12 livros de ensaio e 11 diários de Vergílio Ferreira, será obra homérica. Será contudo acto legitimado por um conjunto de razões, entre as quais temos os próprios termos definidos pelo autor no que concerne ao invisível.
Estará, de resto, na linha dos teólogos do século XX que acharam normal interrogar a literatura para nela encontrarem um testemunho sobre a fé e sobre a descrença, sobre o significado da existência do Homem e de Deus, ou sobre a ausência divina.

Parte da vastíssima bibliografia de Vergílio Ferreira continua, também por isso, a ser impar, na procura da luz e da beleza, obra de epifanias sem obsessões ideológicas (do ponto de vista das ideias políticas ) como primeiro neo-realista, e a seguir pelo rigor e originalidade com que na história da literatura portuguesa da segunda metade do Século XX, inscreveu a metafísica.
Assim, é sempre com alguma frequência que se liga a palavra romance à palavra problema, «romance de problema», disseram alguns críticos, quando se trata de caracterizar a obra romanesca do nosso escritor.

A natureza dos circunstancialismos em que se encaixam as suas personagens, a natureza do conteúdo, do carácter, do temperamento, do comprometimento, das necessidades e das grandes motivações das mesmas, leva-as a um permanente questionar.
A verdade é que, quando se procura respostas exclusivamente humanas sem Deus no plano para a vida diária, a vida com preocupações existenciais, o acto de perguntar no ser humano começa por uma escala de valores com grandes esperanças que desemboca na frustração, uma das personagens-chave do romance vergiliano afirma que Deus lhe interessou como ponto de partida e não como meta.
No narrador-autor do romance APARIÇÃO será aí que indagaremos da religiosidade vergiliana, embora por entreposta entidade ficcional como seja a personagem-sujeito na primeira pessoa.
Na verdade, Alberto, o protagonista-narrador, não se distancia da sua narração, como compete de resto a um narrador que estabelece a trama, a intriga da sua própria história. Diria que Alberto Soares se criou a si próprio como personagem, a partir das várias aparições que desde logo lhe conseguimos apontar, desde a primeira página numa espécie de «corrente de consciência», ou monólogo interior:
- A Aparição das coisas, a tomada de consciência dos objectos,
- A Aparição do «nous», do pensamento, das ideias,
- A Aparição ontológica do Ser,
- A Aparição de si a si próprio, a epifania do Eu,
- A Aparição do humano contra o divino,
- A Aparição do absurdo da morte. («A iluminação da vida perante a evidência da morte»)
E no culminar de todas estas "aparições" acabou por afirmar que «Deus se me gastou». Ora nós sabemos que ao colocar Deus como problema e não como solução, essencial, é o Homem que se gasta a si próprio.

Wednesday, October 01, 2008

Tuesday, September 30, 2008

Mau Uso do Grego pelas TJ


A chamada Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas, da Sociedade Torre de Vigia, sabe e proclama que «é um assunto de muita responsabilidade traduzir as Escrituras Sagradas dos idiomas originais.»
Nos seus milhões de escritos, livros e revistas, as Testemunhas de Jeová afirmam os princípios: «Defendamos lealmente a Palavra Inspirada de Deus» (in Sentinela, 1\10\1997).
Para essa alegada defesa editam livros tais como «O que a Bíblia realmente ensina?», «A Bíblia-Palavra de Deus ou de Homem?».

Esperaríamos que na sua praxe agissem em conformidade. Mas não, nem é esse o anelo vital da sua «evangelização», que é levada a cabo pelos institucionalmente chamados «publicadores de congregação». Mulheres e homens que «evangelizam» e ensinam publicamente, porta a porta e nas ruas, o que designam como « Boas Novas do Reino».
Entretanto, desenvolvem uma «pregação» determinada também pelo seu manual enciclopédico, o Estudo Perspicaz das Escrituras ( do inglês Insight on the Scriptures), editado em 1988, composto por vários volumes, que são a principal referência e objecto de consulta sobre as palavras bíblicas usadas como ajuda ao entendimento da Bíblia.
Daí que sem qualquer crítica moral aos membros da Organização (conheço bem alguns), e muito menos preconceito ético ad hominem, não podemos porém deixar de sublinhar que os 6.957,852 (1) membros activos, envolvidos publicamente no trabalho das Testemunhas, cujos corações cheios de pensamentos sobre como lidar com Jeová estão todavia vazios do Deus revelado por JesusCristo, embora passem uma boa parte da vida alegadamente a «estudá-lO».

Com efeito, para "estudarem" Jeová usam todos os meios. No primeiro volume do Estudo Perspicaz... pode ler-se que a ajuda vem através de se «ajuntar de todas as partes da Bíblia os pormenores que se relacionam com os assuntos em consideração.» E algo que, pedagogicamente seria útil se não fosse um dos fundamentos para o Erro, «trazer à atenção palavras das línguas originais e seu sentido literal ».

Obsevemos algumas dessas palavras. Veremos apenas duas, de extrema importância, porque a mudança que as Testemunhas de Jeová introduzem, muda todo o paradigma do significado do vocábulo conhecer, na frase absorver conhecimento de Deus.

Lê-se assim na versão da TNM das Escrituras Sagradas, Evangelho de João, 17, 3: «Isto significa vida eterna, que absorvam conhecimento de ti, o único Deus verdadeiro».
Nas mais variadas versões, revistas e corrigidas, da Bíblia Sagrada de Almeida e até da velhíssima versão da Vulgata do padre Figueiredo, lemos, respectivamente:
«E a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro» ou E a vida eterna porém consiste em que elles conheçam por um só verdadeiro Deus a ti. (2)

Numa exegese gramatical e depois teológica do texto bíblico, como genuinamente se impõe, devem aplicar-se as regras todas que compõem a interpretação do significado verdadeiro desse mesmo texto, ou de uma palavra-chave.
Semanticamente o termo conhecer, na Bíblia Sagrada, tanto no Velho como no Novo Testamento, implica intimidade, profundidade na relação com alguém ou alguma coisa. Não meramente um conhecimento intelectual e frio. Naquele sentido, o Deus da Bíblia deu-se a conhecer através de Jesus Cristo.

A língua bíblica do Novo Testamento possui um vocábulo para conhecer, que é, no próprio texto citado, gínomai ou ginosco ( ou gignósko), que são, na sua forma, um verbo.
Deste derivam conhecidas palavras: gnose, um substantivo de onde se parte para outro, gnóstico, que afirmava um conhecimento espiritual, superior e esotérico. Já nesse tempo conhecer não era mero significado de conhecimento cultural, mas de conhecimento que dava sentido à vida humana.

O dicionarista bíblico W.E.Vine, em sua fundamental obra Vine’s Expository Dictionary (que as testemunhas de Jeová deturpam e usam no que lhes interessa), escreve que ginosko no NT significa «entender completamente». Também indica frequentemente a relação entre duas pessoas e a aprovação nesse relacionamento, Deus é conhecido do crente, e este de Deus.(vd.I Jo 2, 3-4).

Ora apesar de todo o sentido alegado de procurar a Verdade, os «tradutores» da Novo Mundo das Escrituras Sagradas, não reduziram apenas o vocábulo a um significado que jamais teve - de aprendizagem intelectual de doutrina ainda que sobre Deus - , mas também o subverteram a uma simples absorção de conhecimentos. Ou será que com absorvam quiseram significar consumam, gastem, sorvam, etc.? Como se de um duvidoso percurso escolar em que não existem certezas se tratasse.

O termo que o nosso texto bíblico apresenta, gramaticalmente, é uma enfática forma verbal de gínomai, isto é, ginóskosin, verbo na terceira pessoa do presente activo do plural.
A Tradução do Novo Mundo produz até o reducionismo da vida eterna, que segundo eles não É, apenas significa. Para as TJ significa uma tão só absorção de conhecimento intelectual, doutrinário até, de Deus, e do próprio Jesus Cristo, que Deus enviou - afirmação enfática de Cristo na Sua oração sacerdotal. Há que lembrar aqui outra observação linguística sobre o que os tradutores russelistas omitem (intencionalmente ?) do próprio texto grego: o termo verbal apesteilas, de apostello, enviar, apostolos, enviado.

Jesus Cristo disse que a vida eterna é o conhecimento intímo dos atributos divinos activos e morais, revelados pelo Espírito Santo, sobre Monon alethinon Theo (Único verdadeiro Deus), da relação filial do crente com Deus-Pai. A comunhão com Deus através de Seu Filho. E não apenas um simples aprendizado doutrinário. Nenhum leitor assíduo e mesmo estudioso da Bíblia e conhecedor cultural da teologia será filho de Deus, terá comunhão íntima com Ele, só por isso.
Infelizmente temos de pensar que as Testemunhas de Jeová estão neste barco.
(1)- In Estatística do Relatório Mundial das TJ do Ano de Serviço 2007
(2) -Bíblia Sagrada, seg.Vulgata Latina, Depósito das Escripturas Sagradas, Lisboa, 1909

Monday, September 29, 2008

A sagrada família

Ora Jesus amava a Marta
e a sua irmã, e a Lázaro
com um amor em marcha
pelo mundo errante

Marta passava a correr
os dias, passava incenso
e a água pela casa
preparava refeições
disponha a harmonia
dos pratos pela mesa

Maria escutava
com os rosto preso na beleza
das palavras de Jesus
A Lázaro lhe doía
imponente, no corpo
a sua cruz.

Monday, September 22, 2008

Thursday, September 11, 2008

A Poesia da Bíblia

Dou um salto quase místico
do hebraico
e descanso em pastos verdes

Envolto num lençol de fresca água
aos pés do grego vou cair

Depois que o salmo de Davi, depois que Job
cairam dos meus olhos
na mais lírica lágrima que tive.

15/2/97

Saturday, September 06, 2008

Ler Max Lucado?

BlockquoteMax Lucado ressoou a enorme maioria evangélica que apoiou a invasão e guerra do Iraque. Em um “prayer breakfast” com George W. Bush, pastores de várias denominações abençoaram as tropas que avançavam com tanques e aviões, lançando mísseis “inteligentes”. Milhares morreram e os púlpitos se mancharam de sangue. Como algum deles ainda consegue citar: “Bem-aventurados os pacificadores porque serão chamados filhos de Deus”?
(Ricardo Gondim, via aqui A Ovelha Perdida)