Papéis com apontamentos de um percurso de cinquenta anos de pensamento evangélico, desde 1964. Este Blog não respeita o Acordo Ortográfico
Saturday, January 31, 2009
O Poeta no Desemprego
Há muitos portugueses licenciados em Literatura
Que sonham ser Andrade
Ou Jorge ou Campos
Quando a melhor coisa a que podem
Chegar é ser óptimos
Caixas nas lojas Pingo Doce.
Friday, January 30, 2009
Tuesday, January 27, 2009
Saturday, January 24, 2009
Um Pródigo epidiano
Pequenina, mas insistente, como uma mosca –parafraseando o início de um conto de Albert Camus-, voando num espaço fechado, mantinha-se ainda a imagem do pai na mente do Pródigo.
Um rosto onde a alegria do sol resvalava nas rugas, fatigado e triste, um corpo curvado, avançando a custo, debilmente com a luz da manhã, parecendo querer alcançar o filho que partia. Quando acordou, no dia seguinte, o Pródigo pensou nisso, mas o sol da nova cidade a detalhar a sua sombra na rua desconhecida, mas fervente de uma vida livre, cosmopolita, há muito desejada, fê-lo esquecer o pai e pensar no que haveria de fazer com o dinheiro da herança.
Era assim que começaria um conto sobre o Filho Pródigo, não fosse o caso de pretender tão-só pensar no peso que os bens da herança exerceram sobre o jovem e o influenciaram a deixar a casa paterna.
Do ponto de vista social, neste caso parece que o filho mais novo recebeu apenas dinheiro ou bens móveis. Era o que poderia reclamar o filho por lei, ao atingir a maturidade, quer entre os antigos romanos e os sírio-fenícios, como um costume, seguido também pelos judeus.
À parte a teologia evangélica da parábola do Pródigo, para a altura em que Jesus Cristo a contou, e depois a exegese sob o prisma da sotereologia (a doutrina da Salvação), seria uma parábola com um cunho de incontornável modernidade.
Jamais nas relações patriarcais semitas, um filho deveria ter tomado uma decisão tal de afrontamento ao pai, ao patriarca da família, exceptuando aqui, por exemplo, a história de Absalão e David.
Neste aspecto é uma história de ideias. Um filho que tomou uma atitude, por assim dizer, que ficaria entre o Édipo, que lhe era muito anterior, e Freud que viria quase vinte séculos depois.
As rupturas com o progenitor -sobretudo na segunda infância- são do foro do Édipo. Do mal-entendido que Sófocles criou, partindo da lenda, e não da figura mitológica que decifra o enigma lançado pela Esfinge. Como sabemos, na psicanalise é hoje um complexo, o complexo de Édipo.
O sentimento que temos perante a atitude do Pródigo é do completo desejo da ausência do pai, embora não da punção criminosa contra o progenitor, como é óbvio.
Não foi esse o objectivo da parábola, nada se nos revela antes do subconsciente, menos ainda do inconsciente do filho pródigo, quanto às razões contra o velho e bondoso Pai.
Jesus quer colocar ali a situação universal do homem-criatura de Deus que se revolta contra o Criador. Mas, na verdade, o jovem pródigo «rebela-se» contra o pai, porque este representa os limites, a educação patriarcal, a obediência, as regras e os valores do Lar.
O jovem tem uma errada ideia de liberdade. «E, poucos dias depois, o filho mais novo,ajuntando tudo, partiu» (Lc,15,13)
E a ausência do pai proporciona-lhe a realização dessa ideia de ser livre. Em casa, o desfructe da herança, digamos do dinheiro, estava marcado ainda pela presença do pai, na sua consciência representava limitações. Podia usar os bens herdados, mas não o livre arbítrio, a liberdade plena para os gastar. Os olhos do pai estavam em todo o lado, na percepção do filho. Por essa razão partiu.
Era preciso criar um abismo, e o filho pródigo fê-lo, moral e fisicamente. Não vejamos nisso nenhum desespêro sentimental, a comandar esse sentimento de fuga, havia o aspecto utilitário - o como poder gastar o dinheiro, sem embaraços morais. Havia também aqui o que a filosofia designaria por necessidade, isto é, o que deveria ser diferente para a rotina do Pródigo.
«Partiu... para uma terra longínqua e ali desperdiçou a sua fazenda, vivendo dissolutamente» (Lc, 15, idem ). Ao invés do irmão mais velho, que sempre serviu o pai, «sem nunca transgredir» (Lc,15,29).
Roland Barthes, filósofo da linguagem francês, escreve sobre as crianças des-socializadas pela pobreza; assim, apreciado a esta luz moderna, o filho pródigo desfamiliarizou-se, todavia ao contrário, pela riqueza, como tantos jovens do nosso tempo, submetidos ao relativismo moral, hedonismo e materialismo.
Wednesday, January 21, 2009
Com Obama todos somos nós


Comentário postado no Público on line
21.01.2009 - 13h02 - João Tomaz Parreira, Aveiro/Portugal
Lembro-me ainda que em Novembro de 1960, estava no Posto Médico da Senhora da Hora, Porto, com a minha mãe, grávida da minha irmã. Ouvi que ganhara a Presidência na América John Kennedy. Depois, até 1963 fui acompanhando conforme os meus 14,15,16 anos permitiam, toda a acção do meu Ídolo: Kennedy, até ao fatídico dia 22 de Novembro. Hoje, com 61 anos, volto a ter um paradigma, talvez mais: no nosso século XXI, tenho e o Mundo também, um Arquétipo em Barack Obama. O seu discurso inclusivo, a sua belíssma retórica identificativa, implica-nos a todos. Com Obama todos somos nós.
Saturday, January 17, 2009
Idílio depois do Dilúvio

Está aqui o tempo de soltar as pombas
sobre o barro lento.
Às águas nebulosas,
soltas das fauces da noite,
agora sim, as pombas
para acariciar o mundo.
É tempo de alongar os olhos
para o voo das pombas,
para o arco
que triunfa sobre as cores.
A beleza do voo já reflecte
no frágil espelho das águas,
as alegrias do dia,
e a flor já veste a primavera,
pétalas entre ruínas.
Tuesday, January 13, 2009
Todos fomos anti-semitas

«Jew», de Marc Chagall
Todos os domingos, os judeus eram atacados. Por assim dizer, cada domingo os sentimentos dos cristãos alemães eram irrigados com o ódio anti-semita.
Incompreensivelmente, os Soontagsblatter impressos entre 1918 e 1933, como semanários religiosos, foram «cultivando» dentro da piedade cristã o joío, com a ideia de que os judeus «eram os inimigos naturais da tradição cristã nacional».
O mundo, para o dizermos de um modo abstracto, foi (é ainda) quase todo anti-semita. Mitigando esta afirmação no que concerne a posições individuais, todos nós, de algum modo subjectiva ou objectivamente o fomos.
Partindo da forma profetizada do livro O Choque de Civilizações ( do recentemente falecido prof. Samuel Huntington, que preconizou este novo paradigma em 1996), a primeira e prevalecente «civlização», segundo a leitura do autor supracitado, foi sem dúvida a Ocidental iniciada no berço dos antigos gregos. Originária na Europa, a civilização ocidental é herdeira das civilizações clássicas grega e romana, que não foram propriamente íntimas do coração judaico.
O Ocidente com a Renascença recomeçara a instalar-se sobre todas as demais civilizações: latino-americana, islâmica, chinesa, hinduísta ou mesmo africana, etc. O Ocidente prevalecia também definido em torno de uma religião, o Cristianismo. O judaismo e os judeus estavam confinados às sinagogas e às judiarias, para não dizer da forma mais histórica possível, confinados aos guetos.
Do lado do Cristianismo, poderia ter havido uma exteriorização inefável de conforto para com os judeus, se a civilização ocidental dita cristã tivesse lido literalmente, sobretudo com sentido hermenêutico, com sentimento de afecto espiritual e humano, algumas das palavras inspiradas do Apóstolo Paulo sobre o posicionamento bíblico dos judeus. Do ponto de vista neo-testamentário e da História, o judeu foi responsável indirecto pela morte de Jesus, mas também foi beneficiário principalmente do facto de lhe terem sido confiados os oráculos de Deus – escreve Paulo na sua Carta aos Romanos.
As inquisições, sobretudo, misturaram a posição dos judeus perante a crucificação de Jesus com a sua natural aptidão para serem o povo da Aliança divina conferida no Sinai e de Moisés. Designadamente as Inquisições portuguesa e espanhola, constituiram-se um caso à parte na história geral da perseguição aos judeus– como escreve A.J.Saraiva em Inquisição e Cristãos- Novos. Ao juntarem o braço temporal-o Rei- com o braço espiritual- o Papa-, esqueceram que, «em teoria, a Igreja não podia obrigar a converter-se à Fé cristã os nascidos fora do seu grémio, como Judeus ou Muçulmanos», como afirma o prof.Saraiva, atitude que já antecipava um choque de civilizações nos séculos XV e XVI.
Hoje, é dado mais que adquirido que não existe Inquisição nem Santo Ofício, mas já as não havia nas primeiras décadas do século XX, no entanto as ideologias anti-culturais, isto é, políticas, souberam criar Auschwitz, subvertendo e desintegrando todos os valores e tudo o que era humanidade dentro da cabeça do homem europeu.
Persistem, porém, os preconceitos e, queira-se ou não se queira, há uma consciência latentemente anti-semita.
Na própria história da literatura contemporânea, este assunto não foi escamoteado. Basta ler «Focus» (1945), romance do dramaturgo Arthur Miller. «Um pouco acima dos seus olhos estava traçado com cuidado: Os judeus desencadearam a Guerra. E por baixo: Morte aos judeus».
Estava-se na América, em Nova Iorque. E a figura simbólica do judeu transformou-se no cidadão da nossa rua, acusado arbitrariamente de raça judaica, porque os óculos eram, alegadamente, denunciadores. O judeu parecia continuar a ser uma vítima da própria democracia.
in Diário de Aveiro, 12/1/2009
Friday, January 09, 2009
O Frio Polar
Monday, January 05, 2009
Saturday, January 03, 2009
Joanyr de Oliveira
Wednesday, December 31, 2008
Cem Anos de Fundamentos
O meio ambiente religioso de Filipos da Macedónia era propenso aos sincretismos.
Foi terreno fértil tanto para os cultos de Ísis e Artémis, como para os cultos greco-romanos, até o culto inelutável de uma religião imperial. O conhecimento do judaísmo helenizado também não seria esquecido. A própria magia corria pelos dedos dos filipenses como rios de dinheiro, o uso mercantilista dos espíritos demoníacos.
Foi neste contexto que Paulo chegou a Filipos e fundou uma igreja cristã, pela qual passou a sentir grande afecto.
Como o apóstolo Paulo nunca foi um produto da assimilação das opiniões que corriam nos seus dias, em certo sentido, diríamos que foi líder de opinião.
Fosse qual fosse o território onde as suas viagens missionárias o levassem, a aplicação da Verdade do Evangelho, da ética e da moral cristãs, a Salvação do homem e a Vida Eterna deste como retribuição futura, consistia no seu primordial objectivo.
Onde Paulo chegava, contra o monte Párnaso, ou o altar ao «deus desconhecido», ou mesmo os judaísmos voltados para o monte de Jerusalém, ele contra tudo isso, levantava o Gólgota, que era também a contra-cultura do seu tempo. E, na verdade, de todos os tempos.
Pela causa de Cristo crucificado, Paulo envolveu e conquistou a Macedónia. Como aos atenienses divulgou a infinitude e a glória do «deus desconhecido», que os gregos supunham brindar com a «santa» ignorância, aos macedónios filipenses ensinou que o verdadeiro «Deus Altíssimo» não ficava como refém de uma simples frase de uma mera adivinhadora. Sim, porque às vezes é preciso que se saiba quem é o Deus Altíssimo e o que significa nos lábios de quem o pronuncia (At 16,17; Lc 8,28), seja através das «pedras» que falam quando os homens se calam ou seja através de uma jovem endemoninhada.
Contextualizações para valorizar a firmeza
No meio dos ataques do sincretismo religioso, das políticas anti-tudo que viesse da Judeia, da legislação em vigor nas colónias greco-asiáticas do Império Romano acerca de actividades religiosas prosélitas, o autor da epístola aos Filipenses propugnava pela firmeza dos crentes da Igreja, na Macedónia.
«Abundância na caridade, na ciência e no conhecimento», «aprovação das coisas excelentes», «cheios de frutos de justiça», são alguns dos pontos iniciais que Paulo desejava e nos quais os cristãos filipenses deveriam abundar (1,9-11) com firmeza. Com efeito, pontos fortes indubitavelmente contra os sincretismos para aqueles dias e para hoje também.
Cem anos de Fundamentos
Pensamos que no século XXI os sincretismos tomaram forma avassaladora como produtos do chamado pós-modernismo relativamente às religiões e aos valores, até mesmo sob a forma do profetizado Choque de Civilizações ( do recentemente falecido prof. Samuel Huntington), contudo os avisos sobre os sincretismos religiosos começaram cedo nos inícios do passado século XX.
A primeira e prevalecente «civlização», segundo a leitura do autor supracitado, foi sem dúvida a Ocidental. Nem se podia falar nessa altura de um «choque», o Ocidente começava a instalar-se sobre todas as demais: latino-americana, islâmica, chinesa, hinduísta ou mesmo africana, etc. O Ocidente prevalecia também definido em torno de uma religião, o Cristianismo.
Em 1909, há exactamente cem anos, «Deus levou dois Cristãos leigos, Lyman e Milton Stewart, a comprometerem-se com os gastos da publicação de uma série de doze volmes que deveriam apresentar os fundamentos da fé cristã.»( Os Fundamentos, R.A.Torrey, Hagnos, 2005)
Os referidos magnatas do petróleo californiano, dispuseram a sua fortuna para espalhar os Fundamentos.
As suas doutrinas foram e continuam a ser fundamentais na Fé Cristã, aqui algumas em síntese:
Bíblia Sagrada, no seu conteúdo espiritual e na sua estrutura literária, veículo para conhecer os fundamentos da humanidade, Palavra de Deus para a Salvação, para a Moral e a Ética do criatura humana.
Deus, Pai Criador, omnipotente, omnisciente e omnipresente no Universo.
Deus em Cristo. O Deus-Homem, o nascimento virginal de Jesus Cristo e a Sua ressurreição corporal dentre os mortos.
Espírito Santo, Pessoa divina que intervém no confronto do coração humano com a necessidade de Salvação que Deus-Homem trouxe à humanidade, a Redenção por causa do Pecado.
Vida Eterna como retribuição futura do crente.
Então, era preciso combater as incursões do liberalismo. As armas práticas foram remetidas «gratuitamente a ministros do evangelho, missionários, supervisores da escola dominical». Sabe-se hoje que três milhões de volumes foram então distribuídos, ainda que exclusivamente no mundo anglo-saxónico.
Nesse momento da história em que a conjugação do chronos e kairos se realizaram felizmente como tempo e oportunidade, o Fundamentalismo tornou-se um enorme e inexpugnável «Pártenon» doutrinário.
Monday, December 22, 2008
Anunciação
Wednesday, December 17, 2008
Os Sapatos de Desprezo
Thursday, December 11, 2008
10 anos de défice de concordância verbal
Mas nem todas essas razões serão do âmbito da teologia do Texto Sagrado, mesmo quando o marketing diz que «a tradução da NVI é isenta de interpretações particulares ou denominacionais.» Nem corroboram necessariamente as críticas através das quais algumas Igrejas Evangélicas fundamentalistas afirmam que se trata de uma versão moderna visando «enfraquecer diversas doutrinas como a Divindade de Cristo, a expiação por Cristo e só pelo Seu sangue, Sua morte vicária, etc.etc.»
Ao atribuir-lhe influências que talvez tenham pesado, como a vetusta versão de Westcott e Hort (feita em 1881) e que deu origem ao chamado Texto Crítico, tais razões até acabam por respeitar uma Versão que é produto de «dez anos de trabalho intenso, milhares de horas gastas, por eruditos de diferentes especialidades teológicas e linguísticas».
Com efeito, no aspecto linguístico e das estruturas da frase, da beleza de estilo e de um discurso concordante, é que perante alguns trechos nos quedamos perplexos pela má qualidade desse discurso, nesta tradução para a língua portuguesa. O que felizmente não acontece com outra versão traduzida para a nossa língua na designada A Bíblia para Hoje, mais conhecida por O Livro, da Socidade Bíblica de Portugal, de 2000(?), cujas estruturas da frase estão correctas e são dinâmicas.
A verdade é que à publicação da NVI enquanto linguagem adequada ao entendimento do homem do século XXI, de muitas leituras e que sabe distinguir um bom texto de um mau texto, corresponde uma redacção muito pouco cuidada, no rigor do bom português e na dialogia (em síntese a figura do diálogo que dá vida a uma argumentação), o que qualquer bom texto ou boa obra já não dispensam, nos nossos dias.
A NVI exibe, de facto, alguns défices na sua sintaxe, na sua prosódia, o que não abona a produção de um bom texto comunicacional.
Infelizmente para quem tanto invoca, com razão e, sem dúvida, honestidade, a ciência linguística que nos sublima o legado dos textos escritos remotamente, mas de conteúdo eterno, incorreu-se num mau serviço prestado à natureza dinâmica da linguagem. Esta com certeza que exige actualização da língua, mas não faz pactos com erros de estrutura na sintaxe. O que se comunicou bem no passado não pode tornar-se menos belo e estético no presente, apenas para que possa ajustar-se à comunicação de massa, isto é, a uma divulgação massiva.
A contemporaneidade não pode significar sincretismo, sobretudo no que concerne aos Textos Bíblicos, e jamais o rebaixamento do nível da compreensão da mensagem, «popularizando» a mesma ao ponto de quase a fazer sucumbir a uma actual e infeliz iliteracia.
É o caso de algumas passagens dos Evangelhos em que a narrativa está ordenada com um défice de concordância.
A Concordância Verbal
Como se sabe, trata-se da solidariedade entre o verbo e o sujeito, e nas suas regras gerais, os autores da celebrizada Nova Gramática do Português Contemporâneo, Profs. Celso Cunha e Lyndley Cintra, 1984, vão à concordância do verbo com o número e a pessoa e o sujeito, vão até aos casos particulares dos pronomes e da regência dos verbos.
Os Exemplos Infelizes da NVI
Salvo melhor opinião, as divergências no tratamento vocativo dos protagonistas de alguns trechos dos Evangelhos não condizem com o modo das relações pessoais, nem tão-pouco com o original grego, de cuja origem linguística o Novo Testamento parte e os autores da NVI reivindicam, e bem, o ponto de partida na fidelidade ao original.
Eis alguns desses exemplos:
-Mateus, 3. 14,15 : «Eu preciso ser baptizado por ti, e tu vens a mim? Respondeu Jesus: «Deixe assim por enquanto; convém que assim façamos, para cumprir toda a justiça». Acresce que o verbo grego aphes é conjugado na 2ª pessoa, activamente, ( pelo que devia ser deixa e não deixe) .
-Mat 4. 6,7: «Se tu és o Filho de Deus, joga-te daqui para baixo.» Jesus lhe respondeu:«Não tente o Senhor seu Deus».
-Mat 4.9,10: E (o diabo) lhe disse: «Tudo isto te darei, se te prostrares e me adorares». Jesus lhe disse:« Retire-se, Satanás! Pois está escrito: «Adore o
Senhor seu Deus e sirva somente a ele.» Do modo como está redigida a reconstrucção da frase, oriunda do hebraico Shemá, pode inferir-se que a mesma parece querer exortar Satanás a que «deve adorar e servir» o Senhor. O que é, no mínimo, uma impossibilidade teológica.
-Mat 8.21,22: Outro discípulo lhe disse: «Senhor, deixa-me primeiro ir sepultar meu pai.» Mas Jesus lhe disse: «Siga-me, e deixe que os mortos sepultem os seus próprios mortos.»
Procuramos aqui, como se percebe, o paradigma do diálogo de Jesus com três personagens diferenciados. Um histórico, um ente espiritual, e um desconhecido. E não entendemos por que razão o tu se torna você, num cerimonial não adequado.
Outros exemplos de outros tantos aspectos paradigmáticos, não deixam de nos causar alguma perplexidade.
-Marcos 1. 40,41: Um leproso aproximou-se dele e suplicou-lhe de joelhos: «Se quiseres, podes purificar-me!» Cheio de compaixão, Jesus estendeu a mão, tocou nele e disse: «Quero. Seja purificado.» Imediatamente a lepra o deixou, e ele foi purificado.
O referencial forte do verbo katharídzo (limpar, purificar, declarar ritualmente aceitável), tanto permite a voz imperativa «fica limpo», como «purificado», mas é a forma de construir a oração da narrativa em discurso directo que lhe confere o ênfase e a emoção do texto.
Salvo melhor opinião, no texto da NVI, há uma frieza de discurso, que quase se revela neutral. Parece que o tom da narrativa acentua uma declaração formal por parte de Jesus, como que a declarar ritualmente aceitável o leproso, e não a acção dinâmica de Jesus a operar o milagre da cura através da sua palavra poderosa e declarativa. Para além de uma certa impessoalidade no trato, o que nunca foi uma atitude de Jesus mantendo à distância socialmente os necessitados e doentes.
- Lucas 13.23-25 : Alguém lhe perguntou: Senhor, serão poucos os salvos? Ele lhes disse: «Esforcem-se para entrar pela porta estreita, porque eu lhes digo que muitos tentarão entrar e não conseguirão. Quando o dono da casa se levantar e fechar a porta, vocês ficarão do lado de fora, batendo e pedindo: «Senhor, abre-nos a porta». Neste exemplo de ausência de concordância, os pronomes pessoais confundem o díalogo. Nem precisamos do grego légõ ýmin, basta que consideremos as pessoas gramaticais que nos são indicadas para a compreensão de um colóquio: «com quem se fala» são o tu e o vós; e «de quem se fala»-ele, eles. O primeiro caso gramatical é aquele que se adapta ao nosso texto.
- João 3. 7: Não se surpreendam pelo fato de eu ter dito: É necessário que vocês nasçam de novo. De facto, para este trecho há opiniões que dizem que a língua grega implica um plural. Em nossa opinião, após a análise de outras versões, até mesmo da Holy Bible, New Intenational Version, da «New York International Bible Society», de 1978, ou João está a narrar o que Jesus Cristo já havia ensinado a um conjunto de outras pessoas, e, portanto, trata-se de uma transcrição em discurso directo, ou se está a forçar a gramática grega do texto original a algo que ela não pretendeu estabelecer.
O facto é que no NT grego o verbo dizer e o pronome pessoal, é referencial à 2ª pessoa do singular, na primeira parte do versículo ( «Não te admires de eu te dizer »). Já na segunda parte, o pronome está no plural. Jesus relembra o que já teria dito em colectivo: «Necessário vos é nascer de novo »?
Não podemos afirmar isso, podemos apenas relembrar que no início da conversa entre ambos foi o que Jesus começou por afirmar «Se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus.» Mas o mais provável é ser uma assertiva de carácter universal, abrangente e por essa razão ( na língua grega) gramaticalmente impessoal.
Finalmente, relevo da intenção da NVI o pretender alcançar uma «linguagem relevante ao coração do homem do século 21», com reverência e comprometimento, embora críticas menos benevolentes, em matérias doutrinárias, proponham que há nesta versão ataques e diatribes contra a genuína Palavra de Deus.
Wednesday, December 10, 2008
60 Anos de Direitos Humanos
Wednesday, December 03, 2008
Adenda a "Morte com Interrupções"
O Prémio Nobel da Literatura português previu ficcionalmente um facto contrário às normas da vida, a ausência da morte. Contrariamente a outras declarações suas pessimistas, estava a contradizer uma observação comum à decada de 40 do escritor argelino Albert Camus, segundo o qual «os homens morrem e não são felizes». A seu modo gosta também de elaborar uma escrita sobre absurdos. Por outro lado, parece-nos que ajudou também ao pessimismo telúrico e barroco de Miguel Torga, que cantou «Apetece morrer, mas ninguém morre», no poema Dies Irae .
Monday, December 01, 2008
Morte com interrupções

“No dia seguinte ninguém morreu.” E as consequências éticas, filosóficas, religiosas do desajuste da demografia mundial estavam lançadas, por ninguém morrer.
Trata-se aqui do início da intriga ficcional do romance «As Intermitências da Morte»(2005), de José Saramago, que repetiu, formalmente, o seu estilo na pontuação e no uso de minúsculas.
O Prémio Nobel da Literatura português previu ficcionalmente um facto contrário às normas da vida, a ausência da morte. Contrariamente a outras declarações suas pessimistas, estava a contradizer uma observação comum à decada de 40 do escritor argelino Albert Camus, segundo o qual «os homens morrem e não são felizes». A seu modo gosta também de elaborar uma escrita sobre absurdos.
Desde que a sua literatura começou a ser prolífica e marca de griffe editorial, que José Saramago tem uma tendência para surrealizar o que ele mais contesta, a religião cristã, o que não pode suportar, a «solução Deus», e por isso antepõe que Deus «é o problema». Em entrevista recente ao «Diário de Notícias»(5/11/2008), afirmou que a Igreja «está em toda a parte e meteu-se nas nossas vidas e não quer sair». Segundo o escritor ela “tem uma obsessão moldadora”.
Portanto, não tomando a religião cristã pela alegoria da caverna de Platão( que glosou noutro romance), isto é, pelas sombras, reinventa-a em algumas realidades teológicas que são conteúdo incontornável do Cristianismo. É inegável que a sua boa escrita no plano científico da crítica literária, não sejamos preconceituosos, surpreende.
Evidenciando conhecer a Bíblia, não o poderemos negar, o autor do «Evangelho Segundo Jesus Cristo» gostaria de «desmitologizá-la» como em certo sentido o fez Rudolf Bultmann, o téologo, no que concernia aos Evangelhos. Como se estes fossem um tratado de mitologias que era necessário ajustar ao mundo moderno, usando para tanto um programa de desmitologização do evangelho, por exemplo, por em dúvida factos da vida de Cristo. Por vezes de subvertê-los, porque não quer nada de sobrenatural e não pode basear-se em outra explicação que não seja o seu ateísmo militante.
Desta forma, no seu Evangelho Segundo...coloca um facto central do Cristianismo, Cristo na Cruz.
Todavia, mistura-lhe um acontecimento diverso e doutra ocasião, a voz do Pai Celestial fazendo-se ouvir entre nuvens «Este é o Meu filho amado em quem me comprazo», e, por fim, altera todo o evento expiatório da Salvação, invertendo e mutilando uma das mais fundamentais palavras pronunciadas na cruz por Cristo: “Homens, perdoem a meu Pai, porque Ele não sabe o que está a fazer.”
Aqui está uma inversão blasfema, um reducionismo da crucificação a um mero caso de equívoco, uma humanização absurda do Divino. A qual pretende colocar aqui o problema da humanização da Divindade ainda que seja através de metáforas sob a capa da literatura. Há na realidade, escreveu alguém, no escritor português José Saramago, uma fonte vasta de inquietantes questões e esse livro destinava-se à problematização de algumas delas, como: A literatura humaniza o Divino ou diviniza o homem? Os textos bíblicos são ditames santos ou literatura santificada?
Mas é precisamente nesta área que Saramago gosta de elaborar ficcionalmente. Gosta de embaraçar os sentimentos de alguns leitores e de estabelecer contrastes. E o que pensa ser mito, prefere destruí-lo e reconstruir com outro mito, a que chama, em alguns casos, metáfora.
Era desta capacidade de Saramago para o cambio de valores, para lograr estabelecer inversões, para a efabulação e subversão de realidades enraizadas no património cultural e religioso dos cristãos, estejam estes no Leste ou no Oeste, que se falava com muito ruído no ano de 1992. O barulho aconteceu quando o romance de José Saramago Evangelho segundo Jesus Cristo foi cortado da lista dos concorrentes ao Prémio Literário Europeu, pelo Subsecretário de Estado da Cultura de então, Sousa Lara. Este nem teve sequer necessidade de recorrer a um dos Salmos(53,1), onde se afirma que «o insensato diz no seu coração: Não há Deus».
Pode ter sido um acto a roçar uma censura, admitimo-lo nessa altura, mas não tão execrável quanto isso, tomando em linha de conta as explicações do governo da época: "A obra atacou princípios que têm a ver com o património religioso dos portugueses. Longe de os unir, dividiu-os." A verdade é que alguma coisa do que escreve e diz o autor de Ensaio sobre a Cegueira, longe de unir, divide.
De resto, como escritor, é a sua marca de água. O tradicional anúncio do Prémio Nobel feito pela Academia, que caracteriza autor e obra galardoados, disse em 1998 acerca de Saramago, que se tratava de um romancista que “com parábolas sustentadas pela imaginação, compaixão e ironia continuamente, nos permite apreender uma realidade indefinível".
Comecemos pelo fim, pela morte, no seu conceito judaico-cristão. O filósofo inglês Bernard Williams, o mais importante da filosofia da moral do século XX, argumentou um dia que a vida eterna seria tão entediante que ninguém podia aguentar. De acordo com ele, a constância que define uma eterna auto-existência implicaria um infinito deserto de experiências repetitivas. Baseou-se numa peça teatral de referência de um autor checo da década de 20, Karel Cepek, que criou uma personagem Elina Makropulos, de 342 anos, que tendo bebido o elixir da vida eterna desde os 42 anos, opta por deixar de tomá-lo e morre. Ambos, dramaturgo e o filosofo moralista defenderam o chamado tédio da imortalidade.
As Sagradas Escrituras, de uma forma lapidar, estabelecem que ao “homem está destinado morrer uma vez, vindo depois disso o juízo”, o apóstolo Paulo apontou a causa, ao dizer que o “salário do pecado é a morte”. José Saramago preferiu efabular sobre o fim inesperado da Morte. Dir-se-ia a morte da Morte.
Acercando-se deste aspecto da desconstrução de um facto, a revista The New Yorker publicou no final de Outubro uma crítica literária à tradução do livro “Intermitências da Morte” nos Estados Unidos. Segundo o articulista, a obra resume aquela tese de Williams segunda a qual a vida precisa da morte para fazer sentido - a morte é apresentada como o período negro que ordena a sintaxe da vida. A ironia do titulo da peça jornalística “Death takes a holiday" ("A morte tira umas férias") em conjunto com a simplificação do titulo da obra traduzida de Saramago, "Death with Interruptions", traduzem o sentido irónico e que altera a ordem ou o estado de coisas que o escritor utiliza para perverter um conjunto de dogmas que, partindo da ideia da morte, valorizam valores doutrinários da religião cristã.
Em síntese, entre outras finalidades de carácter literário, ficcional, o ataque a esse conjunto de dogmas não é a menor. As funções da igreja, a doutrina da ressurreição, a utilidade da pregação, etc.
Sem margem para dúvidas, a páginas 21, escutamos a conversa telefónica entre o «primeiro-ministro» e a «Eminência»: «Sem morte, ouça-me bem, senhor primeiro-ministro, sem morte não há ressurreição, e sem ressurreição não há igreja:.. como lhe veio à cabeça que deus poderá querer o seu próprio fim».
Saramago tenta reescrever a história do Sagrado sob o prisma do fantástico e da ficção especulativa como se fossem os mais prováveis acontecimentos. «Dá-lhes uma sólida interpretação literal»- assevera o crítico da revista nova iorquina.
Nós acrescentamos: pelo próprio ateísmo em que vive e escreve Saramago, ainda que não possa fugir a escrever muitas vezes o vocábulo «Deus», seja em maiúsculas ou letra pequenina.
Friday, November 21, 2008
O Peregrino, romance de conduta

O Peregrino não é um poema nacional, daqueles que referenciam uma literatura como O Paraíso Perdido, Folhas de Erva ou Os Lusíadas. É, no entanto, um tratado épico da vida e da viagem agónica do Cristão.
Trata-se da efabulação da conduta desta personagem peculiar – o Cristão-, que ultrapassa os próprios catolicismo romano e protestantismo.
Simplificando as coisas, é uma mistura enciclopédica repleta de rótulos morais, de conduta ética, moral, social, religiosa, não se referindo estritamente ao passado.
No actual pós-modernismo ainda é capaz de causar perplexidades? De abrir fissuras na alma humana, que é às vezes um deserto? De estar para além dos livros de auto-ajuda? Sem dúvida, e não apenas nos meios cristãos, sobretudo evangélicos, mas nos domínios eruditos da história da literatura universal.
Não pensando escrever um romance, João Bunyan criou, contudo, um universo literário em que elabora personagens para a Fé e reune as realidades com as suas visões como autor. Por essa inesperada forma e conteúdo foi considerado o maior ficcionista inglês do século XVII. Na escrita do seu livro, Bunyan incluiu a totalidade de uma vida inteira de observação apaixonada dos homens e das mulheres, e a tal dimensão chamar-se-á universalidade, cosmovisão, romance psicológico, etc. Neste âmbito, está estruturado no plano vertical, ou seja, vai das profundidades às alturas do recorte psiciológico das suas várias personagens, na vivida galeria de tipos que criou.
Um original historiador das Literaturas como é o autor de O Cânone Ocidental, Harold Bloom, escreveu «que as visões de Bunyan actuam sempre sobre o narrador». O que nos parece querer dizer, salvo melhor opinião, que a experiência narrada em A Progressão do Peregrino foi de ambos, muito mais do crente que do romancista.
Desde a abertura do romance até ao momento decisivo para o qual a acção é conduzida, estamos diante de um narrador-personagem nada neutro « E, no meu sonho, alonguei a vista por toda a extensão do vale», que comenta, de forma metafórica, a fuga à ira vindoura, « o seu olhar desvairado volvia-se para um e outro lado, como em busca de um caminho para fugir », e o percurso de uma vida que começa com a conversão a Cristo, e o trajecto da carreira cristã dificultada pelo ambiente circunstâncial mundano, «Esta furiosa luta prolongou-se até perto do meio-dia, hora em que se esgotaram as forças de Cristão, que, por causa das feridas, ia enfraquecendo cada vez mais. Apolião não deixou de aproveitar esta vantagem…» (1)
É, por isso, The Pilgrim’s Progress, a crónica do homem crente que atravessa todos os tempos desde o Novo Testamento. E o padrão literário sobre o qual o livro se estruturou foi a alegoria, mas tratada com tal realismo que a transfigurou em romance.
Com efeito, foi escrito a partir de um padrão bíblico como uma alegoria religiosa, como um panfleto ou um sermão, escreveria Walter Allen na panorâmica histórica O Romance Inglês (2). E para este antigo catedrático, essa panorâmica inicia-se justamente com o Pilgrim’s Progress, o que assim eleva o romance de Bunyan ao patamar das obras fundadoras.
Em Portugal foi traduzido e editado pela Livraria Evangélica, em 1913, com certeza pela primeira vez, sob o extenso e significativo título O Peregrino ou a viagem do cristão à Cidade Celestial debaixo da forma de um sonho.
Há nesta obra um padrão definidor da sua origem, da sua base de construção literária. Esse padrão foi a Bíblia, designadamente a tradução de John Wycliffe, no século XIV, e, posteriormente, a de Tyndale que a popularizaram, tornando-a acessível. Tanto ao povo como a Shakespeare foi dada a oportunidade de ler a Bíblia, como foi dada a possibilidade de ler um livro, O Peregrino, conduzido por ela e que ao mesmo tempo a introduzia na literatura e aplicava na viagem do ser humano e do crente, neste mundo.
O PADRÃO
O Peregrino é por assim dizer uma aplicação hermenêutica na forma da ficção de um tipo de literatura, o romance, que nascia na Inglaterra depois do teatro de Shakespeare e a par da poesia considerada moderna (Romantismo), cujo fundador apontado por muitos foi Woordsworth.
Ao situar todo o seu pensamento em referência à Bíblia, é dotado de um sentido agudo da narratividade, do ritmo romanesco e, simultaneamente, da construção dramática. Isto explica o seu sucesso ao longo destes três séculos.
O padrão teve por base as leituras de Bunyan, e, assim, dentro do próprio romance baseou na leitura de livros edificantes sobre moral e da própria Bíblia, o ponto de partida da personagem, o Cristão, para todos os efeitos um anti-herói. De facto, lemos na pág.7 que a personagem procurava «na oração e na leitura lenitivo para tão indescritível dor.»
A personagem da obra-prima de Bunyan, como um anti-herói, marcha contra-cultura, estabelecendo uma comparação literária por contraste. Poderia ser, sem dúvida, o anti-Quixote, colocado nesse enredo dos mais antigos da literatura, a Viagem. Há algum humor pícaro sub-reptício no conteúdo do romance de Bunyan, mas não excessivo, contido dentro das balizas rigorosas do sentido espiritual. O Quixote lutou contra os gigantes (moinhos de vento), o que transporta em si a ironia da imaginação e da ilusão de óptica; o Cristão luta contra o Apolião, que é uma figura de pesadelo, um monstro; e, no decurso da viagem, cruza-se com figuras realmente irónicas: o Loquaz, o Próprio-Interesse, o Amor-ao-Dinheiro, o Volta-Atrás. E compara (na pág.154) a ingenuidade a «um pinto mais esperto que foge ainda pegado à casca ».
Ao começar com uma alegoria, vai abrir o caminho e preparar o leitor para uma sucessão de alegorias. O narrador Bunyan, pregador baptista no período da restauração dos Stuarts que privilegiavam os anglicanos e que por isso foi perseguido e preso, refere-se assim à sua prisão: «caminhando pelo deserto deste mundo, parei num lugar onde havia uma caverna». Nela adormeceu e teve um sonho.
O ENREDO
À estrutura narrativa do conto ou do romance, chama-se enredo. O enredo d’O Peregrino não é amplamento aberto, isto é, não se trata de uma literatura popular, mas, também, não é de todo uma obra fechada nem tão-pouco esotérica, só inteligível pelos conhecedores da Bíblia. O seu realismo é compreensível porquanto fala da vida do homem e da sua vital relação com Deus. Mas nem por isso é um livro místico.
Desconstruindo a complicação onírica que reside nos sonhos, e que séculos mais tarde Freud viria a explicar, sem misticismos Bunyan coloca os leitores perante o seu sonho de autor-narrador com o sonho da sua personagem. A estrutura do romance é toda ela o sonho que se torna realidade, pelas vivências e pelo discurso todo bíblico.
Criou uma linguagem nova, justamente porque no entendimento da critíca literária não estava esterilizado pela cultura, como p.ex. John Milton, João Bunyan tirou partido da sua incultura, as suas observações são o fruto da pureza cristã e iluminada pelo Espírito que estava nos seus olhos, com que viu a realidade do homem já considerado moderno, a caminho da angústia, da solidão e do desamparo espiritual.
Problemas que o existencialismo cristão de Kierkegaard estabeleceu em definitivo dois séculos depois de Bunyan.
Este inventa palavras, descreve paisagens, fixa pormenores, faz diálogos paradigmáticos, alegoriza a viagem do homem crente em luta permanente contra o pecado, tudo isso ao serviço da alegoria torna a sua obra realista, contemporânea e autêntica.
Foi como se tivesse ouvido uma voz do céu a dizer-lhe escreve a visão, e esta era a realidade estruturada num padrão único, que Bunyan acabou por criar dando inclusíve início ao romance inglês, colocando o percurso de O Peregrino nesse campo e muito para além dos chamados conduct books, ou livros de cabeceira que o puritanismo e o quakerismo promoveram.
Bunyan faz também integrar na estrutura do seu romance, o enredo comum à época, as Viagens. Em O Peregrino, porém, o autor faz o seu anti-herói partir de uma cidade alegórica: a cidade do Mal, de onde foge, rumo à cidade de Deus ou Cidade Celestial.
Aconteceu o mesmo na vida do autor, que teve uma juventude dissoluta até aos vinte anos. Com esta idade casou com uma jovem fortemente piedosa, esta levou na bagagem literatura devocional, o que contribuiu para converter Bunyan num pregador de sólido arcaboiço moral, que abriu toda a sua alma para os valores puritanos. Fê-lo com convicção e com o risco da própria vida, ao contrário do seu sucessor imediato no romance inglês, Daniel Defoe, que possuia apenas um cantinho na sua alma para esses valores, apesar de ter escrito Family Instructor- uma temperada ficção em tom religioso na qual o autor do Robinson Crusoé dá exemplos de moral aos membros da família.
No meu entender, Crusoé trata da epicidade da solidão, numa ilha transformada em habitat. Ao contrário, o Cristão de Bunyan é o épico da vida peregrinada entre outras gentes, outras vozes, neste mundo, de um modo que chega a ser fantástico.
ÉPICA FANTÁSTICA
A épica fantástica propõe-nos a construção de um mundo paralelo no qual a narrativa se centra em relatos que devem reunir dois elementos essenciais: devem ser colectivos, sobre povos, hábitos, condutas morais, e devem possuir grandeza heróica. Teoricamente aplicável hoje ao romance fantástico, estas características não faltam a O Peregrino, sobretudo tomando em linha de conta o século XVI do dealbar de um tipo de literatura como o romance.
O universo e as personagens alternativas que João Bunyan nos propõe em O Peregrino, não se conheceram antes nas tradições orais, nem estão presentes nas posteriores literaturas, mesmo naquelas que fizeram do fantástico a estrutura da sua narrativa, como a literatura sul-americana da segunda metade do século XX.
Todavia, a épica fantástica pode ser descoberta no romance, onde os relatos são heróicos e nos colocam perante o enfrentamento entre o Bem e o Mal, mas sem magia. E essa luta já vem de um «lá longe», de antes da chamada idade da água.
E quando essa luta universal entra no domínio do real de uma vida, no seu quotidiano, ainda que a partir de um sonho, e se estrutura num romance de vida que tem de facto existência, a vida do Cristão em qualquer tempo, é assim a realidade a entrar na ficção. Ainda que através da mais estranha das proveniências e pela mais inesperada das formas. Através de uma obra-prima chamada O Peregrino, que une a ficção e a experiência.
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(1) - Págs. 82, 15 e 78, respectivamente. «O Peregrino, A Viagem do Cristão à Cidade Celestial». Imprensa Metodista, Brasil, 7ª edição, 1955.
(2) –O Romance Inglês, Walter Allen, Livros Pelicano, Ulisseia, Lisboa, 196?

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