Friday, January 29, 2010

À Saída da Escola: ("A Poesia é uma imaginação")

Quando toca às 17:45, as crianças querem todas a lua, não no sentido em que Calígula a queria, mas a liberdade de correr uns contra os outros, uns pelos outros, pelo recreio até aos pais e avós.
O meu neto Vasco, veio e disse-me:-Avô, hoje fizemos uma poesia. Que as pedras cantam. Sabes, avô, uma poesia é uma imaginação.
Parei, respondi-lhe a perguntas seguintes que também eu fazia poesias e que sabia que as pedras podem clamar, cantar e chorar lágrimas, sobretudo quando chove.
Mas pensei: ando a ler há quatro décadas pelo menos, Aristóteles, Horácio, Shelley, Johannes Pfeiffer, Todorov, Jean Cohen, Rainer Maria Rilke, e até Marcuse, para saber o que é a Poesia. Ouço cursos de Poética, Estética de Plotino, até o "Carteiro de Pablo Neruda" sobre a metáfora.
E o meu neto, Vasco Parreira, 7 anos, disse-o de uma penada: - Avô, é uma Imaginação. A poesia é uma imaginação.

Monday, January 18, 2010

A ficção como releitura da Bíblia na forma de conto

A Bíblia Sagrada está repleta de episódios que são contos, a parábola do Filho Pródigo é, tecnicamente, um conto. O Velho Testamento tem bastantes.

O conto está para o romance, como o soneto pode estar para uma epopeia. É um som carregado de harmonia, que se vai tornando instantânea a cada frase, fala directa, ou verso, até que se extingue aos nossos ouvidos, deixando-nos ficar a sós com a personagem ou personagens, o conflito ou a colisão de conflitos, os ambientes, os tempos cronológico e histórico, que povoaram por instantes a nossa imaginação.
Todos os contos de Florbela Ribeiro são, em regra, assim, histórias breves, short-story para produzirem um único efeito. Não são arengas morais para despertar emoções fáceis, são vivências. Mas naturalmente têm uma estrutura simbólica e da Fé da autora.
Ela usa as personagens que a Bíblia Sagrada, do ponto de vista historiográfico, nos revela tanto no Velho como no Novo Testamentos.
São, genericamente, figuras que protagonizaram a realidade histórica. No VT a narrativa de alguns profetas, a própria génese do povo hebreu a partir de episódios abraâmicos, no NT a narrativa evangélica de autor, como Lucas.
Mas a autora aveirense introduz uma nuance, comum a quase todos os contos, que é a sua acurada visão feminina. São contos, quase todos, os éditos e os inéditos que conhecemos, escritos no feminino. Há por isso hoje, na ficção evangélica, o género conto com uma narrativa no feminino.
«Jéssica repousava a excessiva magreza do seu corpo cansado e doente. Na cama adornava a silhueta esguia com uma nobre e delicada colcha de linho, bordada à mão. Mas permitiu que o seu olhar baço pela dor se ausentasse dali. Através da janela entreaberta, entrava uma brisa fresca, que fazia esvoaçar com subtil leveza a brancura da cortina de organdi.» (O auto-retrato)

Perscrutamos até alguma alteridade nas suas personagens.

«A dor que me inundava naquele momento era indescritível.
Um redemoinho vindo ninguém sabe de onde, destruiu por completo a minha vida.» (Redemoinhos)


«Saboreávamos os primeiros dias de Primavera.
Porém o calor intenso que se fez sentir durante todo o dia, forçou-nos a um recolhimento quase que obrigatório.» ( A Filha da Cananeia)


Com isto não queremos afirmar que há contos cujas entrelinhas contêm auto-biografia. Se esta existe é apenas ao nível do pensamento, porque a autora pensa as suas personagens à sua imagem.
Identifica-as nos seus dramas, e identifica-se com o climax de alegria que atingem, toma partido.
O que é interessante verificar, é que jamais deixa as suas personagens ( sobretudo elas) sozinhas, acompanha-as até ao pathos mais doloroso e por isso sai com elas vitoriosa em demanda dos louros do agonista que ganha uma batalha, ou uma pugna. Existe em algumas das suas histórias, o que os gregos chamaram de anagorise, isto é, momentos críticos onde se vê a reviravolta do destino do protagonista ( caso conhecido do conto Por um Fio, que ficciona a vida da prostituta Raabe, de Jericó)

Submersa num revolto mar de silêncios, permanecia a fatídica onda que a lançou naquela vida. Com os olhares do povo cravados nas costas, deslizava pelas ruas da cidade de Jericó com o rosto escondido por uma burka negra. Todos sabiam quem ela era, e principalmente o que fazia.
Durante muito tempo agonizou, pela facada traiçoeira do destino. Chorou amargamente a dor do infortúnio que arrombara a sua porta, lançando-a na lama juntamente com o nome do seu pai. Mas toda a família permanecia unida, sofrendo com ela e por ela. (Por um Fio)

Alguns contos de Florbela Ribeiro vieram abrir uma brecha no pensamento anquilosado de que a narrativa bíblica com personagens é estanque, é o que a Escritura apresenta em letra de forma, e pronto.
Esquecem-se esses, que cada personagem tem uma história, ou melhor uma meta-história, a história de vida que não está escrita, que pode ser deduzida, legitimamente recriada, desde que se não quebre a estrutura simbólica e da Fé.
A viúva de Naim teve uma história e o filho morto, que Jesus Cristo ressuscitou, também. Doutro modo, o evangelista Lucas não teria narrado que Jesus o entregou a sua mãe. Para quê? Para o prosseguimento da sua história de juventude que a morte viera cercear.
O conto a que a autora deu estrutura de reportagem ( Reportagem em Naim), metendo-se na pele de uma jornalista repórter que acompanha o caso, é exemplar quanto à sugestão de uma história pessoal de família para além da canonicidade do texto lucano, para além mesmo do conteúdo literal da narrativa.
Florbela Ribeiro prossegue na sua escrita evangélica, ou melhor bíblica, os caminhos disciplinares da Escrita Criativa. Este tipo de composição, a que também se pode chamar escrita imaginativa, baseia-se na formação e expressão de imagens mentais e conceitos arquivados na sua memória e na sua cultura da Bíblia. Recombina todo este acervo interior com fantasia, q.b., sem fugir nunca das estreitas balizas que o Texto Sagrado lhe coloca, mas que a escritora sabe seguir com uma imaginação e uma dicção conceptual, de profundo pensamento cristão, mesmo quando se trata de narrativas estruturadas sobre o narrado no Velho Testamento.
A autora é uma ficcionista, ainda quando conhecemos de cor os episódios, as personagens, a moral que o texto sagrado nos quer transmitir. Não inventa verdades, dá-nos na sua linguagem criadora, não raras vezes poética, a Verdade com a veste diáfana da fantasia.

Sunday, January 17, 2010

Rondine al nido: Crónica p/Diário de Aveiro

Ingrata tarefa do escritor de crónicas que não pode introduzir no texto os discursos ficcionados, que são a torrente do rio calmo ou tempestuoso das suas personagens.
Tem que se limitar aos factos, os que estão no fundo da sua recordação, ou qualquer outro pedaço de ficção que a sua imaginação liga à realidade.
Sentado diante do computador, olha em vão o cinzento do dia que a janela lhe revela, ouve o som da chuva que inunda a primeira condição do vidro dessa janela, o silêncio frio, ouve o tamborilar das gotas na tijoleira da varanda, como na primavera ouve o arrulhar e o trissar das andorinhas.
Senta-se e socorre-se de um cd, que vem navegando pelo ar desde o Sony na voz do desaparecido Pavarotti que lhe canta, pela sala e pela casa fora, o Rondine al Nido.
O acto de escrever é feito de vários somatórios, ideia, música, facto, a notícia, a beleza - mesmo descontando o que poeta Rainer Maria Rilke disse, que o belo não é senão o começo do terrível, tudo se soma no acto de escrever uma prosa fiada ( classificou-a assim Vinicius de Moraes), uma prosa corrida sobre o que o mundo conhece.
O assunto não falta, é o momento.
Haiti, um país (se é que era um país), prefiro dizer a país uma casa, um lar pobre e empobrecido, que foi preciso submergir na catástrofe do chão para ser lembrado pelos telejornais e se falar em fait divers a par dos seus problemas. E agora estes são as pessoas, os velhos, as mulheres, os homens, as crianças em escombros.
O tópico é infalível, mas quero antes ligar esta prosa á canção napolitana que ouvia na voz do Luciano. O tema da canção era as andorinhas que regressam todo o ano, na primavera, menos aquelas que já não podem mais voltar.
E veio ao meu pensamento, a crónica das crianças, meninas e meninos, que já não regressaram da Escola. Esperaram aqueles que tiveram a dita de estar vivos, esperaram em vão mas elas não vieram.
O regresso não teve mar bilhante nem Ítaca nem Penélope. Andorinhas a quem o sol secou as asas no pó do chão. As varandas estão desertas. O silêncio ao redor não é o do céu azul das Caraíbas, nem bate já com as asas das aves. Jamais se poderá beijar os cabelos crespos do filho ou filha que a escola para sempre escondeu.
16/01/2010

Friday, January 15, 2010

Haiti: "Todos são meus filhos"

Para quebrar o silêncio que certas palavras carregam:

Crédito da foto: El Pais
Da peça de Arthur Miller: «Todos são meus filhos»

Saturday, January 09, 2010

Conto: O Náufrago

No Blog A Ovelha Perdida, de Brissos Lino, "le mon Éditeur", uma short story sobre o sonhos e o ciúme e o Amor, Freud e Deus. Este conto foi um desafio que a contista Florbela Ribeiro me lançou no Facebook.
«Agarrou-se ao amor porque era mármore, uma pedra de mármore no meio do mar.
Não sabe ainda hoje o tempo que o sonho durou, nessa noite, das galerias do sonho sabe apenas que acordou com as mãos agarradas, num último gesto, à almofada.»

Saturday, January 02, 2010

O Hóspede e a sua exegese

A exegese ao poema feita pelo Poeta Rui Miguel Duarte:
O que parece ser uma recriação da narrativa a partir da anagnórise de Jesus na estrada de Emaús. Um Alguém (Jesus?) com ar tão frágil e sensível ao que o rodeia ("olhos indecisos […] "estremece / à mais pequena folha"), tão humano que carrega sono. Cristo ou alguém por Ele. Personagem enigmática este hóspede, com os seus "sonhos / de distância" e "uma metáfora dissonante". Não nas palavras que diz, como ramos, mas nesse gesto que o revelou em Emaús, o partir do pão.
O Hóspede (poema édito em Poeta Salutor)

Depois de a noite se instalar
ao redor do fogo, abrir sobre a cama
o espaço para o corpo
e os lençóis que ainda trazem
os perfumes da manhã
Alguém chega, pela noite
com olhos indecisos e os sonhos
de distância, traz sono e estremece
à mais pequena folha
que cai na noite fresca
Esse Alguém
pode trazer um coração lavado
uma metáfora dissonante
ramos de palavras, e partindo
o pão, abrir os nossos olhos.

Tuesday, December 29, 2009

Os Antinómicos "Ser-para-Morte" e "Ser-para-os-Outros"

Duas propostas sobre o Ser que contendem na natureza humana, e cujas perspectivas apreciadas por dois pensadores do século XX, um existencialista ateu e outro cristão radical, apontam caminhos diversos dentro das mesmas realidades a que o humano não pode fugir, a Morte e a Vida.
O « ser-para-morte» de Heidegger e o «ser-para-os-outros», de Bonhoeffer. São frases, mais conhecida a primeira que a segunda, construídas sobre uma estrutura da evidência da condição humana, que é, não obstante os defeitos, a condição humana do Ser.
A ausência mútua de Heidegger e Bonhoeffer um perante o outro no campo das Ideias, até no seu diferente modo de estar perante o nazismo, e a mesma ausência de ambos no meio evangélico, como pensadores, é um fenómeno de como ainda rejeitamos pensar o Ser Humano a não ser em moldes pré-concebidos, se não mesmo preconceituosos e baseados em maniqueísmos como bom, mau, preto, branco, crente, descrente.
Assim como, de uma forma errada -dizem os seus exegetas -,Heidegger pensava que a filosofia só poderia ser escrita em duas línguas: grego e alemão, muitos de nós julgam que o Ser Humano só pode ser pensado de um lado, o interior animado que precisa de uma salvação. Um homem abstracto diante de Deus, quando o que Deus mais quer é Homens concretos, assim como nos colocou diante de Um Filho concreto, o Verbo concreto que se fez carne.
Sabemos que no Éden o Criador não fez um ser simbólico, mas um Ser com espírito, alma e corpo. Mas por causa do pecado que produziu o que é designado como Queda, essa triunidade do Ser passou a estar sujeita à morte.

Martin Heidegger- dizia que a angústia ou o sentimento de aborrecimento – que chamava de profundo, não o aborrecimento trivial, circunstancial - no homem advém do facto da sua natureza temporal.
É a morte que termina a nossa constituição, segundo o filósofo. A nossa constituição terrena, a nossa estrutura corpórea, de acordo com a Bíblia Sagrada.
Ele partiu desta consideração, do Tempo, do limite temporal do Ser, para a consideração final do ser-para-morte.
Sobre a dificuldade que sempre parece ter aureolado esta frase, puramente existencialista, um aluno atento de Heidegger em 1955, o filósofo espanhol Julián Marías, logrou torná-la mais clara, ao escrever:
« Há uma frase famosíssima, citada mil vezes, segundo a qual, diz Heidegger, que o homem é sein zum Tod, que se traduz invariavelmente como "ser para a morte". O único problema é que isto não quer dizer no alemão "ser para a morte"; porque a palavra sein, que quer dizer certamente "ser", significa também outras coisas como "estar"; os alemães não dizem "estar" porque não têm o verbo "estar".»
O homem, segundo a teologia paulina, desde os alvores do Cristianismo «está» à morte, ou melhor «está na morte».
Como? Paulo revela aos efésios o percurso ontológico do homem e a mudança operada, ao acentuar que os crentes, vivificados agora, estiveram ( usa um particípio ) «mortos em ofensas e pecados», e sublinha não um estado momentâneo, mas o estado do Ser.
Embora este desde os primeiros dias distantes da Queda, após a Criação, seja ser para a morte, a partir do divino «certamente morrerás». Afirmação, com certeza, incompreensível ao homem por não saber o que era a Morte.
Não creio hoje que os primeiros Pais não a tenham ouvido sem experimentar angústia. A angústia desta frase acentuou-se em Adão e Eva e sucubiram perante o lôgro de Lucífer, como se a desobediencia desarmasse a proibição e o veredicto divinos.
A morte passou a ser – e Heidegger definiu-a não ignorando a teologia, porém em linguagem filosófica- como uma ameaça contínua, «ameaça por causa da sua constante presença». O ser para morte é essencialmente angústia, diz H. em O Ser e o Tempo.
Este existencialismo produziu um Ser sem esperança. Álvaro de Campos cultivando a perspectiva do nada, conferindo-lhe a substância da sua vontade de nada, na poesia “Lisbon Revisited” escreveu «A única conclusão é morrer.»
Se do ponto de vista da nossa compreensão e experiência da morte, esta seja sempre «a morte do outro», centrâmo-la em nós, será um dia a nossa. Enquanto isso, um teólogo do Discipulado veio trazer-nos uma outra dimensão do Ser, o Ser-para-os-Outros.

Dietrich Bonhoeffer- afirmou com a sua vida, perdida às mãos do regime nazi, este princípio mais do que cristão. Originalmente evangélico. «Ser-para-os-Outros».
Na perspectiva da afirmação de Jesus Cristo ( «o Filho do Homem também não veio para ser servido, mas para servir»), é anterior ao Cristianismo enquanto nome dado aos primitivos cristãos, é completa e genuinamente evangélico.
Pensou na morte? Obviamente, mas no sentido contrário ao de Heidegger.
Na sua conhecida obra da prisão hitleriana, antes de ser enforcado, escreveu: «Nos últimos anos, pensar na morte tornou-se cada vez mais familiar para nós.»
Era um pensamento não alimentado pela desesperança, mas estruturado com a serenidade porque cada novo dia de vida era um milagre. O seu testemunho di-lo, de uma forma corajosa: «Ficamos admirados com a serenidade com que recebemos as notícias da morte de companheiros com a nossa idade».
Neste contexto, o cristão deveria pensar mais no morrer do que na Morte, porque esta foi vencida por Cristo. «Tragada foi a morte na vitória»-clamava o apóstolo Paulo. Sabia que o último inimigo que há-de ser aniquilado é a morte. Porque Jesus Cristo sujeitou todas as coisas debaixo dos seus pés.
Mas toda a reflexão de Dietrich Bonhoeffer a partir da obra da sua vida, Ética, até à derradeira Resistência e Submissão, foi direccionada para o discipulado, a ética cristã e o serviço a Deus e aos homens.
Escreveu naquela obra que «toda a reflexão ética tem, então, por fito que eu seja bom e o que o mundo (através do meu fazer) se torne bom.» A realidade última desse serviço, defendia Bonhoeffer, não pertence à imagem profana do mundo sobre Deus, pertence ao crente no seu autotestemunho de Deus.
«O próprio Deus deixa-se servir por nós no humano»- escrevia nas Cartas da Prisão de Tegel ao seu amigo Eberhard Bethge.
Nesta obra há um diálogo teológico, sendo o tema central quem é Jesus Cristo hoje para nós? E nessa pergunta há as suas experiências contra a igreja oficial e a conspiração política necessária para que a igreja se não humilhasse ao regime hitleriano, submetendo a compreensão vital de Cristo aos jogos do poder, numa sociedade religiosa que tinha sobre si uma religião de Estado totalitário e criminoso.
O testemunho, a reflexão e a existência de Bonhoeffer, que resumia no «seu testemunho perante o mundo» foi nesse sentido de serviço aos outros. A nossa relação com Deus transforma-nos em «ser-para-os-outros» na comunhão de vida com Jesus Cristo.
Entendia o teólogo que Jesus Cristo não estava em rota de colisão com o espaço mundo,
porque contrariaria a noção de seviço ao próximo. A consequência prática de ser cristão.



Monday, December 28, 2009

Um poema sem pretéritos imperfeitos

Aqui um poema (Abriste-me a porta da vida) de Florbela Ribeiro sobre uma composição de arte fotográfica

Os romances do "DB" português

Via A Ovelha Perdida, temos aqui a análise erudita da pretensa ficção de conhecimento de um conhecido jornalista e pivot ( longe de ser anchorman) da nossa Televisão.

Wednesday, December 23, 2009

Palavra Profética, uma exegese poética

“Mas diante da igreja, antes quero dizer cinco palavras tiradas da minha cabeça, mas que os outros possam aproveitar, do que milhares de palavras em línguas desconhecidas.”1 Cor 14,19 (versão A Bíblia para todos p. 2246)

Há um baú de tesouro
repleto e palpitante de mistérios
inefáveis depositados por Deus,
como a terra úbere de minérios,

os próprios anjos dele se surpreendem
reclinados na indagação
de novo vento que lhes enfune as asas
e nos lábios lhes cante nova canção

não é de madeira preciosa
nem engastado de diamante
é dotado de riso e choro
de canto doce e troante

esse tesouro é a mente
incendiada e tenra do profeta
apurada para a interpretação de Deus
trasladada em voz de pastor, rei ou poeta

desse tesouro não retira o profeta
um gemido em estado bruto inexprimível
em língua celeste inaudita
mas palavra de homem inteligível

ao tempo e ao entendimento da assembleia
conforto coragem leme e lema para o povo
assim dita e pronunciada é como na árvore
nascente a pujança de um renovo

20/12/09

Rui Miguel Duarte

Tuesday, December 22, 2009

Ceias de Natal, nas vésperas


Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; e o principado está sobre os seus ombros; e o seu nome será Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz.
Isaías 9:6

***

Jacinto Lourenço

"Hoje de manhã, ao preparar-me para sair de casa, veio à minha mente este versículo bíblico. Como habitualmente faço, ouvia as primeiras notícias do dia na Antena 1 e, com elas, a de que os dois maiores partidos portugueses tinham realizado os seus jantares de natal, no mesmo dia, na mesma noite, a de ontem. Ora, como sou uma pessoa adulta, resolvida e medianamente inteligente, não estava à espera naturalmente que os dois líderes partidários se tivessem dedicado, mutuamente, poemas ou canções de natal, ou mesmo uma simples mensagem de boas festas. Mas também não esperava que o Natal, ou um simples jantar de natal, à volta do qual as pessoas normalmente se reunem para comer, beber e falar de tudo menos daquilo que é o Natal, viesse a servir de mote para que os líderes partidários, pessoas de quem devíamos esperar atitudes minimamente positivas por esta altura, se dirigissem mensagens, sim, mas de ataque pessoal e político, transmitindo desta forma, a ideia de que aquilo que conta não é o país ou as pessoas mas as suas intrigas político-palacianas, contrariando até o espírito deste natal “humanista” com que somos brindados pela sociedade mercantilista . Claro que não sou ingénuo, mas caramba, pelo menos que, nessa noite, em que juntam as suas hostes para um suposto jantar de natal, se coibissem de se degladiar e agredir e passar dessa forma mensagens negativas para a nação." Ler na íntegra Aqui

Saturday, December 19, 2009

A Estrebaria


a estrebaria fechou as portas
no aprisco não há ovelhas
os anjos já se calaram
e as estrelas nada anunciam
só resta a lembrança do menino
mas os homens enlouquecidos
já venderam até o seu nome
(Poema de Manuel Adriano Rodrigues, AQUI )

Friday, December 18, 2009

"Gaysamento"

"Mas porque tem o governo tanta pressa em aprovar esta lei quando sabe que está em curso uma petição, para obrigar à realização de um referendo, promovida pela Plataforma Casamento e Cidadania? Logo no início de Janeiro a petição será entregue na Assembleia da República, a solicitar a convocação de um referendo, e já dispõe de um número de signatários que torna obrigatória a sua apreciação pelo Parlamento. Ora, sendo o governo minoritário e havendo partidos da oposição que discordam desta lei, já se vê que as coisas não poderão ficar assim.Então, em nome de quê corre o governo este risco político de vir a sofrer uma derrota pesada, quer por via do Tribunal Constitucional, do PR e de um referendo que já antecipa vir a perder? Porque razão corre contra um património cultural tão importante e a sensibilidade da generalidade dos cidadãos?"

Questão oportuna que o dr.Brissos Lino, Poeta e Pastor Evangélico, levanta Aqui, para ler na íntegra.

Thursday, December 17, 2009

Afluentes sem vida

No final da Conferência de Copenhague sobre a saúde do Planeta, os poetas lembram a crise das almas tristes.
Nas lágrimas desse olhar
Leio emoções sufocadas
Sonhos desmentidos
Ilusões apagadas
Numa realidade cruel
Mas a vida segue
E prossegue
Estagnada pela dureza
Das amarras
Que te impedem de sorrir

(Florbela Ribeiro)

Friday, December 11, 2009

Poesia de Natal

Marc Chagall



Os anjos fariam um colar
de palavras do seu cântico

Se tivessem as ferramentas
dos homens e o fogo
fosforescente da forja
seriam as palavras anéis
de prata enfileiradas

Anjos tangendo os lábios
no mais puro hino branco
seus sorrisos soltando-se
das estrelas e nas pedras
os anjos caminhariam
sobre asas.

11-12-09

Wednesday, December 09, 2009

Última Hora: Bíblia Dake (Fake) vai ser recolhida

BÍBLIA DAKE SERÁ RECOLHIDA

Acompanhar a notícia Aqui

"No tempo em que não havia Pai Natal"

"Não vou falar do Natal, mas das coisas que acontecem à volta do Natal. Acho que, de todas as épocas, esta será a mais consensual no mundo cristão, seja qual for a confissão, embora nem sempre pelas mesmas razões, ou pelas melhores razões, para todos. Tenho, confessadamente, um problema com a forma como se celebra actualmente o natal; um problema que entronca na minha memória de infância sobre a época. Já o disse noutras ocasiões e circunstâncias, mas volto a repetir: estou divorciado do natal, deste natal feérico, de exposição mediática e intrusão mercantilista. Deste frenesi consumista fora e dentro de casa. Talvez por isso, já tenha alguma dificuldade em ouvir as músicas de natal que ecoam por tudo o que é sítio ao ritmo de papel de embrulho e laçarotes a metro. Ouço pessoas a desejarem-se constantemente "bom natal" ou "feliz natal" e lembro-me de como em criança eu gritava para dentro de poços secos de água para ouvir o retorno da minha voz devolvida pelo vazio do profundo."

Artigo up to date de Jacinto Lourenço, para ler na íntegra Aqui

Saturday, December 05, 2009

Nota de Falecimento: Poeta Joanyr de Oliveira

Inesperadamente, como chegam sempre as notícias por e-mail, veio, pela mão da secretária do escritor, a nota da morte do meu Amigo querido, Mestre e Companheiro na Poesia Evangélica contemporânea, Joanyr de Oliveira. Completaria dia 6, 76 anos.

"Prezados (a),
Tenho a triste missão de comunicar-lhe que o escritor pioneiro de Brasília, Joanyr de Oliveira, faleceu na manhã do dia 05, no Hospital Santa Helena em Brasília e será sepultado, no dia 06 (data em que completaria 76 anos), no Cemitério Campo da Esperança em Brasília.
O corpo será velado na capela nº 3 do referido cemitério, a partir das 14 horas, e sepultamente às 17 h.
Atenciosamente,
Rosângela Trindade"
Um Obituário que pode ser lido aqui

A Semiótica narrativa dos objectos de Gideão

O episódio bíblico-histórico de Gideão já originou um importante movimento evangélico à escala mundial. O paradigma foi, sem dúvida, a selecção tendo em vista uma determinada tarefa. Os Gideões Internacionais, como são conhecidos, seleccionados entre as diversas igrejas, desenvolvem, assim, um ministério nobre de espalhar o Livro de Deus em hotéis, escolas, hospitais, etc.
Mas a proposta fundacional daquela personagem do Velho Testamento aprofunda e desencadeia outros pensamentos e outras hermenêuticas. Porventura uma das mais aliciantes abordagens, será no âmbito da semiologia, digamos assim, dos objectos usados por Gideão.

Um episódio da história
Ao lermos o texto bíblico que narra a preparação da batalha contra os medianitas, cingimo-nos exclusivamente a que se trata de um episódio de passagem, em que Deus pretende que o seu povo de Israel compreenda que só pode ganhar combates confiando, não na sua força, mas na do seu Iavé. Neste âmbito, o livro de Juízes é, de facto, um conjunto de eventos, de repetição de eventos, dando sempre ênfase à estrutura moral e ética da história de uma nação teocrática e na exclusiva dependência do Único Deus.
Não devemos, no entanto, ignorar que existe, designadamente no episódio «Gideão, com trezentos homens, vence os medianitas», uma narratividade literária que estrutura o alcance teológico do ensino de Deus ao seu povo, numa circunstância adversa e de crise. Convém colocar em paralelo em todo texto, o assombro da grande literatura, a imaginação, e uma linguagem. Numa palavra, a língua comunictiva de Iavé, o próprio dizer de Deus à conversa com Gideão.
O filósofo e linguista George Steiner justificou no seu livro «Depois de Babel » a capacidade por parte do homem entender a língua de Deus, no Paraíso, pela existência de uma sintaxe divina, que ao longo da história do relacionamento de Deus com os patriarcas, profetas, sumo-sacerdotes, reis no Velho Testamento, se foi manifestando até à encarnação do Verbo. E assim dos Apóstolos até ao crente mais simples na Igreja de Cristo.


Neste relato bíblico, histórico-literário, com o seu poder de causar assombro como obra literária, a escolha dos homens culminaria depois com a escolha dos objectos e da expressão nominal simples de cada um dos mesmos.
A avaliação dos acontecimentos na estrutura da narração, dá-lhe de facto valor literário; a espiritualidade do texto, o que se pretendeu alcançar - o desígnio divino - confere-lhe o valor inspirado biblicamente, com os três objectos utilizados.

A semiologia espiritual dos cântaros, tochas e trombetas de chifre.
Os objectos apresentados na narração, representavam-se a si mesmos como objectos de uso comum, na vida e na realidade. Tiveram um papel instrumental. Mas eles apresentaram-se como uma metalinguagem também, não apenas como utensílios. Cada objecto caracterizava uma mensagem que se descreve pela semiologia. Cabe, assim, à semiologia descrever cada mensagem contida nesses três diversos tipos de comunicação.
Independentemente de tais objectos haverem tido uma funcionalidade precisa, ilustrando uma espécie de guerra psicológica engendrada pela estratégia de Gideão (in Comentário Bíblico Moody, Vol. II, pág.55 ), podemos apreciá-los pelo seu conteúdo espiritual e pelo que podem, idealmente, representar na vida do crente.

Cântaros de barro
A Bíblia Sagrada apresenta uma metáfora para falar da criatura humana como um vaso de barro nas mãos do Oleiro. Nos livros de Isaías e de Jeremias lemos acerca do homem como barro e obra das mãos de Deus, também no plano colectivo como Deus modelou o povo de Israel, usando o exemplo de uma olaria; na epístola aos Romanos, Paulo escreve sobre nós próprios como vasos de barro para honra ou para desonra, na perspectiva de que o oleiro tem direitos sobre o barro. É mais claro ainda um texto determinante desta verdade, que o mesmo apóstolo Paulo recomendou aos crentes de Tessalónica (4.4), nomeando o corpo como vaso ( no grego,skeuos ). «Que cada um de vós saiba possuir o próprio vaso (ou corpo) em santificação ».
Mas, o vaso de cerâmica(ostrakinos) ou de barro é um continente, vale o que vale o seu conteúdo, metaforicamente. No plano espiritual é um receptáculo, no que concerne ao ego precisa, na perspectiva bíblica, de desvestir-se ou partir-se para que resplandeça a Luz interior, como sucedeu com os cântaros ou jarros para água ( chamados na Septuaginta ydrias, os ydrías kenàs, jarros vazíos) dos homens de Gideão. Muitos séculos depois, já na Igreja Primitiva, Paulo falava de que o conhecimento da glória divina fora entregue, qual tesouro, em vasos de barro ( os tais ostrakinois skeuesin) (2 Co 4.6,7) Esta «declaração surpreendente» de Paulo, explica como Deus para dar ao apóstolo o conhecimento da sua glória, lhe iluminou o coração, das trevas fez resplandecer a luz, lhe entregou um tesouro que é o Evangelho.

Lâmpadas
Iluminar, nos textos bíblicos em paralelo com a experiência histórica, não é apenas fazer claridade na escuridão.
Teologicamente, a iluminação é sobretudo fundadora do reino da Luz contra o reinado das trevas espirituais, assim como no aspecto da vida social e familiar quotidiana desses remotos tempos, a iluminação era conseguida através do fogo,em lâmpadas com azeite.
Na obscuridade, o exército inimigo seria confrontado com luz, o habitual medo do escuro funcionaria nesse episódio dos midianitas versus Gideão ao contrário, a luz repentina das tochas do outro lado iria aterrorizá-los.
Transportando tal experiência para o campo da vivência cristã, dir-se-á que tal episódio também marca a relação do crente com o mundo. Quando Jesus Cristo afirmou «vós sois a luz do mundo», foi mesmo isso que quis dizer, na decorrência da proclamação das Boas Novas que incumbe à mulher e ao homem cristãos. Portanto, o crente não é uma metáfora da luz, ele mesmo é portador dessa luz pelo novo nascimento. Paulo escreve aos Tessalonicenses que «sois filhos da Luz e filhos do dia», e, assim, o Dia do Senhor não apanhará o crente de surpresa.

Trombetas de chifre
O toque das trombetas não foi um som de beleza, um sinal estético, foi um toque por impulso da urgência.A prática do povo com as trombetas de chifre era uma experiência de vitória. Foi um paradigma que não deveria ser mudado. O objecto de osso de carneiro lembrava este com substituto no sacrifício de Isaac.
Shofar, do hebraico, é um instrumento de sopro antiquíssimo, não produz sons delicados. Não é usado por prazer ou divertimento. Gideão usou as trombetas como uma sinalização, para marcar uma presença inesperada no campo da noite. O som poderia ter uma leitura semiótica, do nosso ponto de vista menos do que a leitura do significado do objecto.
Na obscuridade da acção o inimigo seria confrontado com um som e com a representatividade de uma nação, já que a trombeta era um objecto nacional dos israelitas.
A trombeta (shofar) não tem função em serviços religiosos nos dias de hoje. Contudo, na sua transposição metafórica para a Igreja, digamos que tem um substituto, do ponto de vista do que pode simbolizar. Como experiência no campo espiritual para os cristãos, a trombeta insere-se no plano do testemunho pessoal do crente, da sua nacionalidade e cidadania dos céus, da proclamação do Evangelho e da notícia que Jesus Cristo é Redentor. Noutro plano, se quisermos escatológico, o crente é um arauto da mensagem da Parousia, que assinala a próxima Segunda Vinda do Senhor, como anuncia o rapto da Igreja. #