Tuesday, April 26, 2011

No Dia da Sua Morte


Hoje os cordeiros sentiram calafrios
no leite materno, beberam
os trigos o orvalho do chão
inclinando as espigas
hoje o sol abrandou
o seu ímpeto de fogo
e cedeu
a angústia pesada das pedras
dos sepulcros
hoje neste dia desigual
todas as mães sentiram
estremecer o útero
porque na cruz
uns olhos bordados de doçura
sucumbiam.

25/4/2011

Wednesday, April 06, 2011

Se me tirar os Olhos


Se me tirar os olhos, não ficarei
no entardecer
nem me perderei no caminho
com os meus dedos irei
sob o fogo azul do sol
tocar ainda os rostos que conheço
Se me tirar os olhos
poderei sonhar para dentro
tal como a água terna das lágrimas
começa antes no fundo inominável


Se me tirar os olhos
todas as coisas
serão cores que ouvirei
nos sons que conheço, um neto
afundando a cabeça no meu peito
será uma canção
entre um pássaro e outro pássaro
sentirei o vento do seu voo
e assim o que agora não vejo
em todas as coisas tornar-se-á claro.

6/04/2011

Sunday, March 13, 2011

Um epigrama do Salmo 23 de Hemingway

A poesia de Ernest Hemingway foi recomendada por Ezra Pound. “Ele escreve muito bons versos.” Tem uma linguagem precisa e selecciona com cuidado as suas impressões visuais, resumia o autor de Os Cantos, reservando para o lado do imagismo as imagens de alguns dos poemas de Hemingway.

No Neothomist poem, EH relaciona a partir do título a temática religiosa com o naturalismo, parece inspirar-se na fé de Tomás de Aquino, sobretudo, mais do que na filosofia de Aristóteles. A bem dizer, é uma paráfrase poiética do Salmo 23 perfeitamente cristã, estruturada no conceito da fé sobre o que se não pode ver ainda.

Neste poema de dez versos (ten-line poem), que o autor acabou por reduzir a um epigrama, produziu um eco do Salmo 23, uma paráfrase sintética que resume toda a omnipotência e omnipresença do pastor. Inicialmente os dez versos eram uma imitação do Salmo. Desconexa na sua estrutura poética, no seu enunciado salmódico, colocando lugares e adereços no poema que não correspondem nem canónica nem datadamente ao conteúdo do poema hebraico de David.

Da redução do poema a duas linhas apenas, não se encontra nenhuma explicação. Apenas gravura do poema dactilografado por inteiro e depois já o epigrama publicado em The Exile, uma revista literária editada em 1927 por Ezra Pound.

Todavia, o resultado, o epigrama não exibe mordacidade nenhuma. Nem se vislumbra resquícios de crítica.
Contudo, anotações marginais ao poema vêm esclarecer que o que parece ser uma referência ao Tomismo, pode bem não ser. Ainda que lateralmente Hemingway tenha desejado sublinhar alguma coisa a ver com a religião, ao que parece.

A verdade é que o autor de “Por quem os sinos dobram”quer significar com este título a conversão à Igreja de alguns dos seus amigos como Jean Cocteau e, sobretudo, Thomas Sterns Eliot (T.S.Eliot), de onde o “Thom” pode bem ser a sugestão.

NEOTHOMIST POEM
The Lord is my shepherd
I shall not want his for long
he maketh me to lie down in green pastures
and there are no green pastures
he leadeth me beside still waters
and still waters run deep
the wind blows and the bark of the trees is wet from the rain
the leaves fall and the trees are bare in the wind
leaves float on the still waters
there are wet dead leaves in the basin of the fountain

POEMA NEO-TOMISTA
O Senhor é o meu pastor, nada
me faltará por muito tempo
ele me faz repousar em pastos verdejantese não há pastos verdesguia-me mansamente a águas tranqüilase ainda correm águas profundas
….
o vento sopra e a casca das árvores está molhada da chuvaas folhas caem e as árvores estão nuas ao ventofolhas flutuam sobre as águas calmashá folhas mortas molhadas na bacia da fonte

POEMA NEO-TOMISTA
O Senhor é o meu pastor, nada
me faltará por muito tempo.

(Tradução de poemas de J.T.Parreira)

Tuesday, February 08, 2011

Lição poética de podologia:


Nem sempre os pés desistem

Nem sempre os pés desistem de caminhar
para ficar de frente aos outros
a convergir
nem sempre param
para escutar dores e estórias
de outros andarilhos da vida
e aventura
esquecem-se muito de partilhar a jornada
deixam escapar as alegrias
da comunhão
mas acabam por concluir que o chão
que pisam homens e cavalos
é duro para todos.

2/2/11

Brissos Lino


Monday, January 24, 2011

Noli Me Tangere


Não me toques
que o meu corpo é agora inconsumível
nem o beijo dos anjos tocará meu rosto
deixa a tua mão
na fronteira do amor que se desprende
do meu corpo, a minha carne
agora é um cristal.
5/11/2010

Thursday, January 13, 2011

Sei

Sei que Deus sentado
apascenta os nossos sonhos
e nos toca no ouvido
quando o abismo se aproxima
do nosso chão
o pesadelo
e acordamos
Sei que Deus toca
nos nossos cabelos
põe a sua mão por baixo
e tira as nuvens do caminho
dos pássaros.


13/1/2011

Friday, January 07, 2011

Demagogias dos que nem demagogos sabem ser

«A chamada tarifa social sobre a electricidade, supostamente para dar algum apoio às famílias carenciadas foi a montanha que pariu um rato.
A DECO estima que o desconto andará entre 60 a 80 cêntimos por mês, já que incide não sobre o consumo mas sobre a potência contratada, pelo que considera que não se trata de nenhuma tarifa social. A Segurança Social começou esta semana a enviar o comprovativo para as famílias carenciadas pedirem a tarifa social de electricidade.»

Continuar a ler Aqui, oportuna intervenção cívica do dr. Brissos Lino, no jornal Setubalense.

Saturday, January 01, 2011

O meu Salmo 121

Tenho tido os meus montes
e à sua volta anéis
de nuvens, circulando
com átomos tristes de água

os meus olhos procurariam
nada, um mergulho no escuro
mas um pé em falso
romperia a ténue película
que me sustém a vida

Nos meus montes peço socorro
de onde virá a mina de oiro
a fonte dos cristais
da pura água

mas um salto no escuro
e seria o fim

O meu socorro vem do Senhor
que fez de céu e de terra
esta distância
que trazem os meus olhos.

31/12/2010

Saturday, December 18, 2010

Haikai

Sob as palmeiras
vejo o rumo do vento,
que amacia as folhas.

Miami Beach, 19-12-2010

Sunday, December 12, 2010

"O Grito da Semente", do dr.Brissos Lino, Apresentação


Decorreu no Hotel Real Palácio, Lisboa, ontem dia 11, a apresentação do livro "O Grito da Semente", da autoria do prof. dr. Brissos Lino. A apresentação da obra, segue aqui:



Dadas as características deste conjunto de textos, poderíamos afirmar que estamos perante a obra de vários autores concentrados num só, dada a variedade de temas que fluem em socalcos de pensamento.
Mas este livro, que tenho a honra de poder apresentar, sendo como é uma colecção de assuntos, acaba por ser aquele rio da antiguidade, o rio de Heraclito, no qual não se mergulha duas vezes na mesma água.

Está patente nesta antologia de textos, diria nesta série de artigos, uma inter-discursividade que passa por alterações do ritmo dos textos, mais fluídos uns, mais pesados de doutrina outros, a intimidade dos mesmos é também diversa, em todo o caso a semântica teológica deste caudal de rio, parte como os 4 rios bíblicos do Genésis, da criatividade e do profundo conhecimento do autor sobre a Bíblia e sobre os homens.

Sabe-se que os japoneses, no século VII, tiveram uma ideia para a utilização das vozes múltiplas que se interligam num género de literatura, o poema, com a criação da renga (poesia de colaboração), que é um exercício de escrita colectiva, num só poema ou conjunto de poemas colectivo.
Entendem o que eu quero dizer, e por que razão trago aqui a Arte Poética. Talvez por uma razão do inconsciente, ou, se este vocábulo for inatingível, por uma razão do coração.

A verdade é que neste «Grito da Semente», salvaguardadas as devidas proporções do género e dos conteúdos, sinto essa diversidade unívoca ao ler todo o conjunto.

Não há neste livro nenhuma peça que esteja a mais, como diria sobre as leis Montesquieu, Brissos Lino sabe há muitos anos que um texto inútil num conjunto enfraquece os textos necessários.

Todos os 37 capítulos, digamos assim, são elos como veias onde corre o mesmo sangue lusitano do nosso autor, que mais uma vez irá beneficiar a não muito abundante portugalidade, genuína, da escrita evangélica. Quase toda ela escrita, agora, em “estrangeiro” e muito mal traduzida em alguns casos, via algumas casas editoras que se dedicam à importação e a aumentar o déficit da nossa balança de pagamentos cultural com o Exterior.

Na sua forma, todos os textos podem parecer iguais, uns mais iguais do que outros, mas a torrente das suas águas teológicas, renova-se de artigo para artigo, de crónica para crónica, de estudo para estudo. Tudo isto com um nome, que me apetece dar-lhe: os diários do pensamento do escritor Brissos Lino.

Saul Bellow, escritor norte-americano e Nobel em 1976, chamou aos diários de um autor “transacções íntimas”. O criador de Herzog ou de Na Corda Bamba, disse isso porque houve um tempo em que as pessoas tinham o hábito de se dirigir a si próprias.

O escritor e poeta evangélico Brissos Lino, fugiu a esse ritual em desuso e estes seus diários de um pensamento, sendo um trading íntimo entre o autor e a sua responsabilidade perante Deus, dirigem-se de si para os outros. Possuem um sentido universal. São uma forma de Missão em toda a trajectória deste novo livro.

«O Grito da Semente», sendo o seu autor um poeta, é um título criativo, «fisga o leitor» (aprende-se isto na Escrita Criativa), é poético, já porque traduz um tropo de linguagem, uma metáfora, ao mesmo tempo um oxímoro, já porque também é uma belíssima impossibilidade que só a poesia logra alcançar. E, no entanto, quão realizável é, quando passa da poiética para o domínio do fazer teologia.

Esta obra, que tenho a honra de apresentar, do Doutor e Pastor Evangélico Brissos Lino, é sobretudo teológica.

Escreve o autor na sua introdução ao livro, que tem uma «ênfase de ministério», que «é a do ensino da Palavra», por isso - escreveu - «me interesso pelos estudos bíblicos e teológicos», e por essa razão também « me arrepio com tantos abusos, desvios e aberrações ensinadas e praticadas em nome de Deus e da Sua Palavra.»- afirmou o escritor.

É com esta consciência que lhe conheço há mais de três décadas, que trata a Teologia, e diria aqui com uma expressão pessoal e de posse, a nossa Teologia, seja esta a Sistemática, a de Brancroft, de Myer Pearlman ou a de Karl Barth.

Sabemos do que trata a Teologia, permitam-me dizê-lo assim, trata da vocalidade nos dois sentidos: do discurso do Homem sobre Deus, que é tout court a Teologia, e do discurso de Deus sobre o Ser Humano, que é Palavra Divina nas Sagradas Escrituras. “O Grito da Semente” vai beber a esta Fonte a sua fresca cristalinidade.

E o que reúne, é de primeira água. Um conjunto de textos de transversalidades, que estabelecem pontes a partir da teologia com temáticas variadas, a cultura e história clássica literárias, a psicologia, a psicoterapia pastoral, o fait-divers da sociedade global seja esta religiosa, eclesial ou secular, a divulgação para o Conhecimento e a Sabedoria, em contexto bíblico que indica o caminho não para se compreender mais, mas compreender melhor.

A verdade é que estamos e estará o leitor perante uma obra teológica, com efeito, mas pensada e estruturada literariamente na concentração, dir-se-ia, da crónica, do texto de carácter jornalístico, do artigo de fundo cristão e bíblico, profundos e ricos como existem poucos nesta área.

Mergulhamos nela como num mar transparente, de peixes exóticos, sem abismos, sem correntes que perturbem a beleza do mergulho no cristal, mesmo sem a beleza aparente dos corais que podem ferir os meios de que dispomos para poder nadar ou caminhar sobre a transparência das águas.

A Teologia aqui, neste livro, não é o grande tubarão simbólico a que as rémoras parasitas de alguns pseudo-teologistas (não teólogos sérios) se agarram para navegar em proveitos próprios.
É Teologia, sim, mas de serviço público, que primeiro nos faz pensar em Deus e depois no Homem.

Vem, de resto, na linha do pensamento de Soren Kierkegaard, cuja argumentação no que concerne à existência de Deus e à nossa mente , se pode resumir a « «Se» Deus existe - e a minha fé não me permite pressupor outra coisa -, como deve o meu intelecto pensá-Lo?»

É uma Teologia prática que prova Deus, isto é, que Ele existe. Que pensa Deus. Páginas como «Discurso sobre Deus» ou «Onde estão os teólogos?», abrem caminho ao que o autor proclama ter de ser feito, no desafio da Teologia, «aplicar o pensamento de Deus e sobre Deus ao mundo e ao tempo em que as sociedades se encontram em cada momento da história dos homens.»
Na literatura cristã, designadamente de inspiração e formação evangélica, o discorrer sobre Teologia, como práxis, pode dispôr de vários meios.

Brissos Lino usa aqui aquele a que chamaria de crónica teológica, que, pelos meios utilizados na sociedade de informação e globalização actuais - sobretudo a web, com os blogues e as redes sociais - atinge ao mesmo tempo um elevado número de leitores.

O tratamento dado a essas crónicas estará na mesma linha, por exemplo, da epistolografia cujos conteúdos versam a teologia, ou não estão nada longe da mesma, no quadro dos valores ético-morais. Pensemos nas cartas trocadas entre o pastor Oskar Pfister e Sigmund Freud, ou esse memorial de angústia lúcida, respaldada pela esperança, que se chama «Resistência e Submissão», as cartas do teólogo Dietrich Bonhoeffer enquanto prisioneiro do regime Nazi.

E estas referências que à primeira vista se nos afiguram tão díspares, conduzem-me a referir uma crónica culta, invulgar nos meios religiosos menos letrados: denomina-se «O Profeta Vergílio». E o autor cumpre assim também o desiderato alcançado de ensinar, de transmitir conhecimento. À pergunta «haverá profecia messiânica nas «Bucólicas» de Vergílio? O próprio autor responde com um texto de pura divulgação cultural-literária, do domínio da história da literatura latina, para culminar, uma vez mais, com a teologia, desta feita concernente à teologia messiânica, aquela que profeticamente Isaías nos traz, puramente cristocêntrica.

Diametral e teologicamente oposto, aparece-nos outro texto, num feliz conúbio entre as críticas teológica e dos costumes rotineiros, religiosos, perante a Bíblia Sagrada, e a pedagogia do como deve ser nosso olhar sobe a Bíblia. E a fórmula inicial que o escritor utiliza, é o aspecto relacional do leitor com a sua Bíblia. Escreve o pastor e pedagogo Brissos Lino:

« Para o cristão comprometido com Deus, a sua Bíblia é quase como uma pessoa. Vamo-nos relacionando com ela ao longo dos anos e desenvolvendo até uma espécie de afectividade com o Livro, tantas são as realidades humanas e espirituais para que ele nos alerta e sensibiliza, e os momentos importantes em que nos acompanha.»

As leituras que o autor faz de diversíssimos assuntos, são leituras da contemporâneidade, mesmo de temáticas enraízadas no tempo mais remoto, para o homem do século XXI, contextualizadas na forma ora pedagógica, ora ensaística, ora teologizante, ora simplesmente literário-jornalística no modo de crónica, com as quais nos presenteia.

Por exemplo, quando escreve a págs. 21 sobre as más hermenêuticas, afirmando que « a descontextualização é um dos maiores crimes que se cometem na interpretação dos textos bíblicos. Não podemos ler textos milenares com a mentalidade e o enquadramento civilizacional do homem do século XXI, pois isso é desvirtuar, à partida, o seu sentido intrínseco.»

Ou sobre os oráculos proféticos, a que muitos pretendem reduzir a Bíblia Sagrada, atribuindo-lhe a baixeza dos chamados poderes mágicos, que Palavra divina não possui. E cito dois brevíssimos parágrafos:
« Um dos erros de utilização mais tremendos é atribuir ao Livro poderes quase mágicos, fazendo dele oráculo profético.
Por exemplo, há quem feche os olhos e aponte o dedo, de forma aleatória, em busca de um versículo que lhe dê resposta ao seu problema do momento.»

Ou ainda sobre o perigo atemporal e constante do liberalismo. «Querer fazer dela uma colectânea de estórias, mitos ou lendas, é reduzi-la a uma mera realidade literária e cultural, retirando-lhe a sua principal característica – o sobrenatural, dada a sua divina inspiração. (…) A leitura liberal da Bíblia é herética.»

Afirmações desconfortáveis para os nossos dias, porque quebram formas anquilosadas, põem em causa fôrmas recorrentes, e correm o risco de ser observadas como heresias, não porque pronunciem o contrário, apenas porque fazem ver de outro ângulo, e talvez partam mesmo um certo fio do discurso estabelecido como tautologia.

« Há temas que são de desconfortável abordagem para um evangélico. Coisas que sempre se ouviram ensinar da mesma forma e que parece quase heresia questionar.» -reconhece o autor de “O Grito da Semente”.

E mesmo sabendo que poderá haver algum desconforto pessoal, pelo modo como alguns sectores religiosos e/ou denominacionais irão passar os olhos por este seu novo livro, o seu Autor não o recusou escrever, juntando peça a peça, reconstruindo assuntos teológicos com os materiais da realidade, ou do simplesmente quotidiano. Sempre sob o dictum literário, e as declarações de opinião ou crença com autoridade pastoral, o que coloca esta obra, “O Grito da Semente” no patamar dos bons livros evangélicos, escritos em dialecto culto mas simples. O que faz do mesmo um livro de cultura. E do seu autor um bom trabalhador da palavra , que maneja bem todos os recursos.

A eclesiologia não foge à sua pena acurada, e um texto como “A idade ontológica da Igreja” é paradigma disso mesmo. Cita Santo Agostinho, com a proposta arquetípica deste a antecipar no século IV uma contrariedade para o filósofo do Ser do século XX, Martin Heidegger, e que diz-nos
"Quem caminha no sentido oposto ao Ser caminha para o nada." E esse texto é um puro ensaio sobre os vários modos como a Igreja se desenvolveu, a partir do que o autor chama “Idade da Conquista”: «Antes de mais, a Igreja terá experimentado uma Idade da Conquista.
Foi uma época de expansão do Evangelho, que começou com a perseguição de Jerusalém e subsequente diáspora dos cristãos pelas terras dos gentios, levando a boa semente do Evangelho.»

O óculo paulino através do qual podemos ver a Igreja, é como um Corpo, e assim é humanamente antropológica, porque formada por homens e mulheres, e cristológica porque centrada e guiada em e por Cristo. Mas a Igreja não é um ente divino. Daí o nosso autor arriscar, a nosso ver muito bem, com o primeiro parágrafo do artigo “A Igreja”:

«O percurso da Igreja, ao longo destes dois milénios de história, nunca foi linear. Ela procurou sempre, como sujeito da História, sobreviver, nuns casos, resistir noutros, dominar, nalgumas circunstâncias, ou ser minimamente relevante noutras.» «A partir do momento em que a Igreja deixou de se comportar como motor da História no mundo ocidental, limitou-se a reagir aos acontecimentos ou a imitar o sistema do mundo sem Deus.»

Finalmente, o estilo do autor de “O Grito da Semente” é eclético, mas conclusivo. Emocional mas de construção contida entre as margens da razão. A transversalidade dos seus textos acaba por se encontrar num acervo comum de informação, que vai da Saúde física à mental, do comentário a uma encíclica papal ao mito do país católico, aos equívocos denominacionais onde perpassa uma desilusão até aos cristãos pós-modernos, e poderíamos prosseguir entre “a alma humana: essa desconhecida” a “E o poeta se fez triste...”

O escritor Brissos Lino, neste seu novo livro, reconstrói realidades, a algumas retira-lhes mesmo o exclusivismo religioso e torna-as assim de abrangência universal, verbalizando através da teologia e de uma boa escrita literária o seu senso comum diante do nosso mundo, o complexo mundo dos nossos dias. O autor de «O Grito da Semente» sabe ser, neste seu livro que apresentamos, nosso contemporâneo, porque sabe ser e estar simultâneo de todo o nosso tempo.

Termino com uma citação do romancista naturalista e do pensamento natural sobre o Bem e o Mal que foi Herman Melville: « a vida é uma travessia rumo a casa” e nesta viagem -escreveu- «não cessaremos de explorar”. É assim que Brissos Lino leva os seus recursos exploratórios até ao cume desta oportuna obra, «O Grito da Semente». Ouviremos, de boa vontade, e agiremos na multiplicação desse grito.

© João Tomaz Parreira



Thursday, December 09, 2010

"Nada onde pousar o Sonho", Antologia Poética


Desafio Miqueias edita primeiro livro de antologia poética sobre a pobreza. Poemas de Fernando Pessoa, J.T.Parreira, Clélia Mendes, Brissos Lino, Lurdes Saramago Chappell, João de Mancelos, Júlia Lemos, Rui Almeida, Rui Miguel Duarte, Florbela Ribeiro, Helena Branco e João Pedro Martins.

Custo do livro: 5 EUROS em oferta exclusiva no FACEBOOK (até 31 de Dezembro)

Portes GRÁTIS! Na promoção de lançamento do livro de poesia Nada Onde Pousar o Sonho e do CD Natal com Significado na loja online do Desafio Miqueias é oferecido o custo de envio da encomenda. A promoção é temporária e para os fãs do Desafio Miqueias.
O livro pode ser adquirido através de pedido para: desafio.miqueias@gmail.com com indicação do nome e morada para envio.

Wednesday, December 08, 2010

De uma Cruz a outra cruz: a palavra do Perdão

A crucificação de Cristo apresenta-se aos olhos da história como um crime da religião, por isso pode ser integrada numa história universal da infâmia.
A infâmia é, para a cultura filosófica e literária, uma relação entre o mal e os homens, desde o filósofo Michel Foucault ao poeta Jorge Luis Borges, que assim o asseveraram e escreveram sobre ela.
Nesta perspectiva , podemos afirmar sob dado ponto de vista, que certos sectores religiosos judeus foram infames, mais do que os romanos, ao levarem Cristo a julgamento irregular, à condenação e à execução na Cruz, no Monte do Golgota.
Contudo, a frase de Jesus Cristo crucificado, uma das chamadas 7 palavras da cruz, “Pai, perdoa-lhes porque eles não sabem o que fazem”, parece redimir os judeus e os romanos da infâmia (a menos que o Senhor a estivesse a usar apenas para os romanos, que parece ser o caso histórica e hermeneuticamente), é que a inocência não pressupõe infâmia.
O referido poeta JLB, numa entrevista sobre a sua História Universal da Infâmia, disse, citando a frase de Jesus: «Eu julgo que Jesus sentiu isso. Sentiu que os seus carrascos, aqueles que o pregavam na cruz, não eram forçosamente uns canalhas. Eram soldados que deviam obedecer às ordens que recebiam.»

A circunstância da frase de Jesus
O quadro diegético (a narrativa) em que esta petição de Jesus se exerce, está registado apenas no Evangelho de Lucas e parece não oferecer discussão aos chamados Pais da Igreja( de Irineu, Clemente a Eusébio) ainda que não se encontre em todos os manuscritos gregos antigos.
As razões, do ponto de vista da elaboração do texto lucano canónico, estarão no próprio objectivo do Evangelho de Lucas e no mundo civilizacional que pretendeu atingir: os gregos, a cultura grega, numa palavra, os gentios, no sentido paulino. Também porque Lucas é a narrativa mais completa da vida de Jesus Cristo.
Assim, a inclusão daquele pronunciamento do Senhor reveste-se de um sentido teológico e da atitude divina e humana de Cristo para com os homens. O relacionamento sempre com base no Amor divino e no Perdão. “Amai os vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem”(Mat.5,44). E, em contexto de sofrimento e morte próxima, “Pai, perdoa-lhes...”.
Lendo a composição dos factos do Evangelista, médico e escritor, vemos que o tempo cronológico e o psicológico, o espaço ( o local) e as personagens, elementos da narrativa, reportam o início da crucificação e os autores materiais da mesma. Admite-se como certo nos meios da hermenêutica fundamentalista e da história da crucificação que a frase de Cristo possa ter sido dita aquando os soldados O cravavam na cruz.
Quem rodeava o Filho de Deus e agia sobre Ele, de forma violenta pelo acto próprio de uma crucificação, foram os soldados romanos; os judeus entregaram-No e, tal como Pilatos, lavaram também desse facto as suas mãos. A narração de Lucas situa-nos nesses momentos precedentes e posteriores à crucificação.
É factual que a proximidade dos romanos e a sua acção “legal” e administrativa efectuada, tenha levado Jesus Cristo a interceder misericordiosa e amavelmente, com Amor que só é divino, rogando para eles e seu acto, Perdão.
A dificuldade poderia estar na causa do pedido desse perdão: que não sabiam o que estavam a fazer. Os romanos não sabiam, cumpriam a execução de uma pena de morte; os judeus, à distância do Monte do Calvário, mas mais perto psicologicamente, religiosamente, familiarmente (conterrâneos) de Jesus, esses sabiam em consciência o peso da sua conta naquela crucificação. Não foram as suas vozes reunidas perante Pilatos, que gritaram bem alto “ O seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos.”?
Sobrepondo-se a quaisquer análises, quer ao que decorre da diegese usada por Lucas, quer à contextualização dos eventos na história da Paixão e Morte do Salvador, há o aspecto profético, do cumprimento profético das palavras de Jesus, palavras tolerantes, compreensivas da natureza humana e repletas de Amor divino.
Com efeito, o proto-Evangelho em Isaías e a narração profética antecipando a história do dia da crucificação, apresentavam esse quadro na parte final do cap. 53, assim: «...foi contado com os transgressores (os dois malfeitores que O ladeavam); mas ele levou sobre si o pecado de muitos ( a função substitutiva do Redentor), e pelos transgressores intercede (aqueles que o estavam a crucificar, naquela circunstância temporal e, soteriologicamente, em sentido mais profundo universal).

De uma Cruz a outra cruz
As três cruzes erguidas no alto do Golgota têm cada uma um lugar na narração de Lucas, sendo a do meio protagonista material de relevo. Nela estava cravado o Filho de Deus. O próprio Jesus Cristo referiu-se, por duas vezes, a esse acontecimento, usando em ambas o verbo ser “levantado”, donde se infere a morte de cruz, da qual havia de morrer (Jo 3,14 ; 12,32), do mesmo modo que o termo induz também exaltação.
A cruz é um símbolo antiquíssimo, que acompanha o homem desde remotos tempos, desde o simbolismo telúrico ao religioso. No religião cristã tomou o lugar simbólico do sofrimento e o factual e histórico como objecto usado para condenação à morte do Salvador do Mundo. É o principal símbolo do Cristianismo, segundo a Enciclopédia Britânica.
Na poesia cerebral e culta do poeta argentino Jorge Luís Borges, em que o autor procura inúmeras vezes os arquétipos das coisas, das palavras, da sua cultura enciclopédica, encontramos mais do que uma vez a referência à cruz, no contexto bíblico e referencial do perdão.
Ao usar nos versos seguintes, um conceito ético sobre o perdão, o poeta JLB fez da cruz o veículo pelo qual esse perdão se transmitiu, através do sangue de Jesus e da Sua própria voz de candor, como o poeta lhe chamou:
“ Gracias quiero dar(...) // por las palabras que en un crepúsculo se dijeron / de una cruz a outra cruz”. Tais palavras carregaram a sublimidade do perdão, não apenas ao malfeitor, mas a todos os homens que creram e crêem, na humanidade.
E o mesmo poeta, noutro belíssimo poema, escreve assim, sobre Cristo na cruz (título do poema): “Cristo na cruz. Os pés tocam a terra. // Deixou-nos esplêndidas metáforas / e uma doutrina do perdão que pode / anular o passado.”
De uma cruz a outra cruz a transversalidade universal do perdão para o Mundo.

João Tomaz Parreira

Saturday, November 20, 2010

Salmo nº 1 do poeta velho

Feliz é o poeta velho que não
faz sombra onde se assentam os novos
nem anda segundo o conselho dos que piam
tão pouco ele se assenta na roda
dos críticos da forma, que é apenas
o que sabem
nem pára no caminho daqueles
que nunca respiraram o azul
que é o ar que está dentro do poema.

11/2010

Sunday, November 14, 2010

Psaume 23

O Salmo 23 em hebraico

Musique de la Bible Revélee, ou/ver Aqui,

Via A Ovelha Perdida

Wednesday, November 03, 2010

A Dracma


É pequena, a moeda, mas é uma perda
no abismo, perdida no lixo
é preciso retirá-la à sua condição
de pária, salvá-la do chão
Alguém varreu, estendeu no ar
novelos de pó, mesmo contra o azul
é preciso salvar a pequena moeda.

Wednesday, October 27, 2010

Welcome to Sherwood Forest

Portugal é assim como que um género de Floresta de Sherwood, em que o governo, qual assaltante, arma ciladas em caminhos lúgubres, sem fuga, e faz de Robin Hood, mas ao contrário: tira aos pobres para dar aos ricos! Os "nobres" da oposição, esses, congeminam nos palácios, contam as bestas ( já não há dinheiro para espingardas ) e fingem que estão a favor dos pobres, que habitam na floresta, para conquistarem o seu apoio. Os pobres, esses, trabalham, trabalham, lutam, esforçam-se uma e outra vez; mas quando não é o Robin subvertido, há sempre um xerife que lhes tira o que conseguem com o seu denodado esforço. Sim, porque nos palácios a festa tem que continuar. O rei, esse, só tem para dizer que está triste... Mas para isso, claro, não é preciso haver um rei; qualque súbdito que habite nos confins desta nossa Floresta de Sherwood sabe e pode dizê-lo com muito mais propriedade . Assim vai este Portugal "Sherwoodiano" .
Texto de Jacinto Lourenço in Ab-Integro

Monday, October 25, 2010

São Sócrates


Dinheiro sujo ou as mãos "limpas" (a contrariar a peça de Jean-Paul Sartre).
A crónica de Vasco Pulido Valente através de A Ovelha Perdida .

Thursday, October 21, 2010

A Morte do Homem


Chegamos ao inicio do séc. XXI e quase uma década passada, chegamos ao patamar de um processo civilizacional que tem culminado no triunfo da indiferença, na perda do gosto pela procura das razões últimas do viver e do morrer.
O triunfo da indiferença não é, porém, novo, e podemos bem seguir-lhe as pegadas num exercício de “analogia entis” até ao Século XIX, e a perda do gosto de razões derradeiras de viver bem podem radicar nesta simples conclusão de Sartre, por estranho que pareça, com origem em Nietzche, : “Se Deus morreu, o homem também morreu”.

Teríamos assim uma alegada conclusão, se Deus tivesse morrido, estariam irremediavelmente atacados os fundamentos da Existência do ser humano. A afirmação temática -a morte de Deus- descontextualizada na frase ”Deus está morto” é, deste modo, uma pretensão mais dos seguidores nitzcheanos que do próprio autor, de um tiro na Teologia, quando na verdade acaba por ser também um tiro na antropologia. Embora para o filósofo fosse um facto consumado e, dizem os seus críticos e biógrafos, uma opção tomada na juventude.

O nietzcheísmo fervente conduziu a alterações no pensamento do filósofo, onde havia apenas contradições entre a coerência e o caos, a declaração de uma coisa e o seu contrário.

Houve nas três primeiras décadas do século XX, após a morte do autor de O Anti-Cristo, em 1900, um reconhecimento internacional tardio e o aproveitamento dos nacionalismos exacerbados, do necessário “fauno louro”, do racismo, e o próprio Hitler a aproveitar-se de Nietzche em 1933 quando visitou o seu Museu-Arquivo, e depois o niilismo anti-religioso, proclamando por todo o lado em contexto e fora dele que “Deus Morreu”.

A razão da afirmação de Nietszche não é preciso ir buscá-la muito longe. Basta fazê-lo nas próprias palavras do filósofo e, já agora, do poeta que escreveu “Aqui sentado à espera, sim- de nada”, sendo aqui o tópos em que lhe surge Zaratustra. Mas leia-mo-lo:

Deus está morto! Deus permanece morto! E quem o matou fomos nós! Como haveremos de nos consolar, nós os algozes dos algozes? O que o mundo possuiu, até agora, de mais sagrado e mais poderoso sucumbiu exangue aos golpes das nossas lâminas. Quem nos limpará desse sangue? NIETZSCHE, Friedrich. A Gaia Ciência, §125.

Descontextualizar a frase inicial, é torná-la um axioma para a vida e para a morte. No fundo, o filósofo visualizava o Homem, acusando-O de ter as mãos sujas do sangue da divindade, sendo neste contexto que a mesma faz sentido, para o próprio, até no conjunto das contradições que o autor adoptou, porque iria assim criar o Super-Homem ou o tal “fauno louro” para civilizar a Europa, para fazer as vezes do Deus que o mesmo homem “matou”, no contexto da religião ou das religiões; se bem que a principal visada seja a Cristã.

Do ponto de vista da ética, sabemos que Deus não está morto, porque o homem também não, porque a existência é precedida da essência, e esta reside no Criador, e depois seria até uma impossibilidade para a legítima prossecução da Moral e do Bem, da Ética e da Justiça, da Liberdade no plano dos Direitos e Deveres da Humanidade, se Deus tivesse morrido.

O romancista da alma humana que foi Dostoievski viu bem essa impossibilidade, que conduziria ao Caos, quando escreveu” se Deus não existe então tudo é permitido”. Mas não.
E por quê? Porque a imago Dei - como o lugar mais recôndito da identidade humana na sua incontornável relação com o divino - desde a Criação do Homem está neste ( não o reflexo de uma entidade fantástica, um ser superior criado a partir do nosso ser, como defendia Engels), e nos impele às acções pautadas pela fraternidade e mesmo Amor ao Próximo, solidariedade e convivência humanas.

A imagem, a centelha vital de Deus no centro do ser humano. “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”, não foi o que escreveu Pessoa ortónimo?