Friday, September 21, 2007

Também no Teatro Evangélico



«O actor acende a boca»
Herberto Helder


O actor em cima
de uma peça
dos adereços

levanta uma perna
equilibra o bico
do sapato, depois a outra

mostra o caminho
acende os olhos
( entre o público

levanta-se
um ar
de espanto, uma nuvem

uma dúvida)
põe e tira os olhos
que atira à plateia

o actor
faz uma combustão
com a Palavra

que acende
nos silêncios
do público.

Tuesday, September 04, 2007

A Segunda Vinda

Ele levará os nossos medos
como um ladrão a meio da noite
como um rio que porfia
pelas suas águas entre
a rude matéria da vida
A chave é o perfume que destila
dos seus dedos
e a escuridão gota a gota
cairá dos nossos olhos
algures na areia do deserto
a forma de um meteoro
apontará para um céu remoto
e as pedras acordarão do sono
no interior das grutas
as coisas caem ao lado, o centro
já não as atrai
Este mundo já não será para nós.

Thursday, August 09, 2007

O Coração

(Para o Carlos Baptista)

Carlos, os teus olhos saíram de cena
a tua sombra, também
a tua sombra que subiu
contigo para uma das ruas
do Céu, hão-de cair agora folhas
em branco do lugar
em que estavas sentado a procurar
a espiga, o fruto, das palavras
hão-de vir pássaros trazer
sementes invisíveis à tua porta
- mas tu estás noutro Lugar
sentado com os olhos
fixos na alegre passagem
do Cordeiro.

9-8-2007

Sunday, August 05, 2007

Um relato literário do Sacrifício de Isaque

Nos modernos estudos sobre estilística não se rejeitam os contributos da narrativa bíblica, não obstante ser conhecida de todos a frase secular «o estilo é o homem». O estilo dos evangelistas Lucas ou João, ou dos apóstolos Paulo e Pedro, ou do lider do povo hebreu e escritor do Génesis, é dos respectivos autores e tal circunstância de género humano não invalidou o uso das suas mãos e mentes para a escrita sob a direcção do Espírito Santo, a fim de escreverem as Sagradas Escrituras, a Palavra de Deus, sendo esta, como alguém disse, «o conhecimento acerca de Deus que procede de Deus.»
Opiniões sobre a história da literatura dizem que esta « consiste em diferenciar, valorizar, concatenar e seriar os estilos particulares.» O estilo é também arte. E a narrativa do Génesis sobre o sacrifício de Isaque, requerido por Jeová a Abraão, é particular e paradigmática. A autoria do Pentateuco é pacífica em todos os meios do Cristianismo, católicos, ortodoxos, evangélicos, e do judaísmo, estando apenas por razões óbvias em debate a passagem sobre a morte e o sepultamento do autor, Moisés.
Um dos teóricos de referência do pensamento literário do século XX, um crítico exigente e controverso, como Harold Bloom, autor do conhecido O Cânone Ocidental, diz que o maior representante da evidência da marca canónica é o primeiro autor da Bíblia hebraica, a figura chamada Javeísta ou J. pelos estudiosos bíblicos do séc. XIX, digamos como uma espécie de pseudónimo. Quando nesse século, em que se moldaram ideologias e materialismos vários, despontou a crítica mais agressiva e científica da Bíblia, no entanto esses estudiosos não desdisseram o que é tido como verdade imortal acerca da autoria individual dos autores sagrados, isto é, que também o Pentateuco foi escrito por Moisés, sendo assim este o autor Javeísta ou J. dos relatos primeiros e cardiais do Velho Testamento.

O ESTILO DA NARRATIVA DO DRAMA
O capítulo 22 do Génesis deixa evidente, quer ao leitor apenas cultural, aquele que lê apenas por intelectualismo religioso, quer ao leitor crente, o que lê a Bíblia como a Palavra de Deus para obter conhecimento de Deus, que está perante um drama de profunda decisão.
Não trata de uma crise de Fé, porém de uma total entrega à vontade divina que vai sublimar essa mesma Fé.
Expõe mais a profundidade da alma de Abraão do que as circunstâncias exteriores. Um pedido de Deus é sempre à medida de Deus, é sobrenatural, e só começa a ser entendido pela mente humana quando o próprio Deus resolve o dilema do incompreensível.
No lançamento recente de um livro cristão O Duplo Chamamento, o autor escreve em resumo sobre o que foram na realidade todos os chamamentos divinos de homens ou grupos específicos no Velho Testamento: «Atrás de todo o chamamento de Deus registrado na Bíblia há sempre uma vontade de Deus específica. Deus chama para que as pessoas participem de Sua obra. Toda e qualquer vontade de Deus específica é apenas uma fase do plano eterno de Deus para uma pessoa específica [ou um grupo específico ] num tempo e espaço específicos ».
Abraão, com certeza, só estava a entender o profundo pedido de Deus nas áreas da obediência e do agradar à Sua vontade.
A visão do velho patriarca não ia mais longe do que os montes da terra de Moriá, sendo porém certo que num desses montes se encontraria com a expectativa ansiosa, com a angústia de ceder uma parte da sua alma e do seu sangue - o filho único, a quem amava. Embora estivesse ciente de que a vontade divina ia ao ponto de alegrar o seu coração de pai, fazendo tornar à vida o sacrificado.
O estilo da narrativa mosaica ou javéista, ao contrário de obras comparativas como a Odisseia, de Homero, exterioriza quase nada o meio ambiente, o espaço e tempo embora dê ao leitor uma ideia de ambos, os lugares, o trajecto da viagem, etc. Contém antes na revelação do pensamento divino, um estilo interiorista, um estilo que sugere nas entrelinhas, escondendo algo que mais tarde é revelado em apoteose.
No que diz respeito aos elementos que compõem uma narrativa, o sujeito ou a personagem, a nosso ver existe uma ausência, justamente a do principal protagonista, que está escondido: o cordeiro, que é formalmente a intriga do texto.
Nesta passagem bíblica, o grande ausente é também a grande personagem, o cordeiro que falta ou o cordeiro que Deus proverá para si.
Isaque, profeticamente, salienta esse pormenor que faz parte do diálogo entre si e seu pai: Temos o fogo, temos a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto?
O cenário apresenta-se-nos sem nenhuma descrição a não ser a da sua acidentalidade, o autor sagrado transcreve o discurso do próprio Jeová que refere «terra de Moriá» e «montes». Todos sabemos que as montanhas no Velho Testamento foram sempre o lugar intermediário para o encontro de Deus com o homem, desde Moriá ao Sinai.
A forma verbal usada pelo autor sagrado na narrativa traduz a intemporalidade do texto, ainda que esteja no presente do indicativo. É a progressão do argumento que transcorre, pelo menos, durante três dias, e da tensão do próprio último dia, o do holocausto, que lhe dá a dimensão de perpetuidade porque está sempre no domínio do simbólico, protagonizado no entanto por pessoas de carne e osso, historica e biblicamente reais, não apenas personagens.
O desenvolvimento estrutural da narrativa, que se inicia com uma proposição de Fé, e um clima de suspense em que imaginamos a luta interior, a comoção incalculável de um pai a quem se pede o filho, tudo concorre no sentido literário de um drama psicológico, por assim dizer, de tragédia intimista, do idealismo dos protagonistas, especialmente o da vítima Isaque, usando aqui os marcadores triviais da ciência literária.
A forma interior da narrativa, é literária porquanto conduz o leitor num crescendo de ansiedade, de expectativa.
Na totalidade do enredo, descobre-se uma situação epopeica, na qual vamos percebendo o nascimento de uma epopeia histórico-teológica. Não existe contudo pluralidade na acção. Esta é restritiva e confinada a uma mensagem de teor eterno, por isso absoluta.
Contrariamente à teoria do romance que identifica e exprime um mundo fechado, a narrativa do sacríficio de Isaque parte do que parece ser um mundo interdito, de uma acção da comunidade patriarcal na sua relação com o Deus pessoal de Abraão, para a universalidade da mensagem bíblica da necessidade de um substituto para a remissão dos pecados da humanidade.
A temática central da narrativa, sendo a requisição do holocausto anterior à Lei de Moisés e ao povo hebreu, só por si já possui uma força épica e fortemente literária, estando já no domínio do «surrealismo», isto é, da simbologia, e num outro patamar mais elevado, o da Transcendência, porquanto é o próprio Deus, que proíbe sacrifícios humanos, quem pede a Abraão que lhe ofereça o seu filho único Isaque. Porque, como se sabe, está aqui a prefiguração de Deus Pai ofertando o Seu Filho Unigénito, Jesus Cristo, para Salvação dos homens.
Por esta superior razão, não existe pois na epopeia deste episódio de Abraão e Isaque, nenhum sinal característico das formas romanceadas épicas da Literatura Universal, realizadas entre o sublime e a loucura, repletas de maravilhoso idealizado e de obscuridade irracional. E, no entanto, é uma história magistral, com um enredo poderoso, ideal e belamente dramático.

Saturday, July 28, 2007

Friday, July 20, 2007

«Messiah Game», a nova provocação




Tinta e cinco anos depois do musical Jesus Christ Superstar ter chocado a moral e as consciências, vivemos um momento tão intenso no que concerne ao pós-modernismo, e às formas e conteúdos que utiliza, que pouca coisa lhe escapa dentro das áreas da vida contemporânea. Como o ballet, por exemplo, que é por princípio uma forma cultural e artística de natureza romântica.

Com efeito, em toda a Europa fala-se hoje de um espectáculo blasfemo que, após triunfar na Itália ( na Bienal de Dança de Veneza), parece que chegará à Península Ibérica, designadamente a Espanha e à capital Madrid.

Nos passados dias 27 e 28 de Junho, em Veneza, foi a estreia mundial dessa peça balética de conceito e coreografia originais que a crítica considerou ao nível do seu criador, o coreógrafo Félix Ruckert, como radical e iconoclasta.

Como se costuma dizer agora nos meios comunicacionais, esse ballet moderno teve «boa imprensa» - alguns jornais europeus de referência escreveram bem da referida dança e da sua coreografia, sublinhando sempre o seu conteúdo como «subversivo e excitante», «pura sedução dos sentidos», mas também referindo tratar-se de um produto cultural «irritante e ofensivo».

Embora a peça não pretenda questionar os mistérios da fé nem propor uma nova exegese das Sagradas Escrituras, faz uso de dogmas pertencentes ao cerne da Cultura Cristã Ocidental. A peça propõe, de facto, através de uma «mulher-messias», interpretações de cinco cenas centrais do Novo Testamento: o baptismo, a tentação, a Última Ceia, a Crucificação e a Ressurreição de Cristo.

O seu criador e encenador procurou subverter os códigos religiosos da sociedade e ainda dos seus valores, que uns chamam tabus preconceituosos e outros fundamentos do sagrado imanentes ao homem.

(Ler na íntegra no Portal Evangélico da AEP)

Tuesday, July 17, 2007

Eppur, Si Mouve

Acordamos e a Terra é redonda.

Alisamos os olhos e o mundo
no abismo pede respostas.

Já haverá sol nas árvores
nas varandas e nos telhados
o sol varre as sombras
e os homens pedem respostas
cabisbaixas que não vêm
ao encontro nas calçadas.

Arredondamos a Terra
acordamos o Céu com preces
e os anjos dispõem sobre nós
a brisa matinal das asas.


3.2004

Friday, July 13, 2007

Transcrição

In www.tatigi.com.br/labels/liturgia.html

Segunda-feira, 2 de Julho de 2007

Nosso Culto
Ano Litúrgico C
14º Domingo no tempo comum
Celebração do Dia do Diácono (9/7)
Celebração dos 498 anos de nascimento de João Calvino, Reformador. (10/7)
Cor litúrgica: Verde
Lecionário Comum Revisado (Ano C): 2Reis 5.1-14; Salmo 30; Gálatas 6.(1-6) 7-16; São Lucas 10.1-11, 16-20

Vinde adorai!
- Prelúdio
- Saudação (“Sejam bem vindos” – Rev. Giovanni C. A. de Araújo)
Sejam bem vindos. Esta casa é casa de amigo. Amigo, mais chegado que irmão. Casa de louvor e adoração. Casa de amor e gratidão. Casa onde a verdade reina. Sejam bem vindos a esta casa. Casa de Deus!

- Chamada a adoração (O oitavo Salmo – João Tomaz Parreira)
Oficiante: Como o Teu nome é grande bondade sobre a terra
Congregação: É leve a soprar os pássaros a elevar nas ondas a planície
Oficiante: das águas, a tornar os peixes como estrelas
Congregação: O que é o homem para que por dentro Tu o habites
Oficiante: No entanto os anjos vêm desfazer-se em sombras brancas
Congregação: ao redor dos seus caminhos porque é o homem
Oficiante: com a honra e a glória presas nos cabelos
Congregação: Ó Senhor como o Teu nome é garante da bondade sobre a terra.

- Chamada à confissão (“Deus pode fazer” – Rev. Giovanni C. A. de Araújo)
Problemas haveremos de ter, tentações, sim teremos. Fraquezas em nosso viver mas todas as lutas, sabemos, venceremos! Quando fraquejarmos, e desistirmos de lutar, ele vem e nos estende a mão, leva-nos em seus braços e nos mostra a solução! Muito mais do que tudo que precisamos, muito além do que possamos imaginar é o que Deus pode por nós fazer!

Sunday, July 08, 2007

The Talmud

The Talmud
by Joao Tomaz Parreira

The Talmud's readers
unroll its long arms
its tired eyes repeat words
closed doors
each silence alludes
to a mystery
The Talmud's readers
stop the Sabbath
they stop the book
its tongue sit down.

Tuesday, June 26, 2007

A Lição de Música



Mas quando David enviava os sons da harpa
para os céus, a harpa seduzida
pelos seus dedos, um sorriso
assomava aos olhos de Saul.
Os olhos baixavam ao coração sanguíneo
via dentro de si o tranquilo
rio que a música fazia, como
água que traz o cheiro dos jardins.
Ao mesmo tempo que as pombas
voavam das cordas
assim velava a harpa de David.

Monday, June 25, 2007

Mário de Andrade e Álvaro de Campos: uma identidade

Por João Tomaz Parreira

No meio do caudal que jorra da torrente sensacionista de Álvaro de Campos, no início de um pequeno verso (o 41º) do poema "A Passagem das Horas", surge a revelação e o estímulo para um entendimento de Fernando Pessoa, o seu retrato psicológico em que se consubstancia a sua heteronímia.

"Multipliquei-me para me sentir ".

Em determinada ocasião, o Poeta afirmou, a propósito do seu refúgio nos filósofos gregos e alemães, no ambiente austeramente cultural britânico e do seu consequente bilinguismo, que se "libertou para dentro". Exceptuadas outras causas psicológicas, do foro da auto-psicografia pessoana, o seu esoterismo, o seu gosto pelas ciências ocultas, esta libertação para o seu interior, também esteve na base da criação dos heterónimos.

Outros poetas de língua portuguesa e igualmente de "Eu atormentado", elaboraram um discurso poético escondido por detrás da multiplicidade de máscaras, ouvindo vozes múltiplas, afinando cores arlequinais, que se resolvem em um processo poético curioso sem que para tanto tenham feito nascer heterónimos, como "teve" que acontecer com o autor de "Mensagem".

Mas a identificação com o Poeta brasileiro Mário de Andrade consiste na leitura de alguns versos do autor de "Pauliceia Desvairada", que decalcam um vocabulário e um estilo sensacionista.

Por exemplo, MA em "Louvação da Tarde", cujo processo poético liga um sentimento do Eu integrado na paisagem, escreve:

"O doce respirar do forde se une / Aos gritos ponteagudos das graúnas".

Por seu lado, da outra banda do Atlântico, acima do Cruzeiro do Sul, Álvaro de Campos ao descrever também uma viagem (hipotética, fingida) a Sintra, com o mesmo sentimento de evasão integrador na paisagem, escreveu:

"Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra / Ao luar e ao sonho, na estrada deserta "

Mas à parte estes poemas modernistas de glorificação da maquinaria emergente na primeira década do Século XX, é, sobretudo, um poema escrito em 1929 por Mário de Andrade que nos confere a ideia da sua personalidade desdobrada. Trata-se do poema "Eu sou trezentos…".

Versos de desdobramento, considerados autobiográficos, em que MA se torna muitos, eles aludem à multiplicação das sensações, relacionam sentimentos perante a paisagem com estados afectivos, marcam pela referência uma época de sensacionismo modernista.

O poema que citamos de Mário de Andrade terá obviamente outras leituras, não deixando de ser porém um paradigma da multiplicação do Eu.

Esses versos expõem, com efeito, o autor do romance "Macunaíma" através de uma linguagem muito pessoal, de uma dicção folclórica, o qual vai falando da dispersão do Eu, utilizando a nosso ver o caminho dos segundos sentidos de que a etnografia pode dispor.

Vulgarizado em antologias do autor como poema pertencente à classe da poesia biográfica, "Eu sou trezentos…" traduz a variedade e a multiplicação, e remata uma análise psicológica que foi bem sublinhada pela releitura que fez essa enorme poeta Cecília Meireles, que classificou o poema como a imagem da abundância.

Mas a chave do poema de Mário de Andrade, reside na expressão da promessa do poeta, que apesar da sua dispersão em "trezentos ou trezentos e cinquenta", não obstante este número aleatório que vale pela declaração de variedade, garante que um dia se encontrará consigo mesmo.

"Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cinquenta… Mas um dia, afinal, eu toparei comigo".

in http://www.cronopios.com.br/site/ensaios.asp

Monday, June 18, 2007

Terra Sem Vida

Here is no water but only rock.
T.S.Eliot (n.26-9-1888, m. 1965)


Neste lugar de biliões de habitantes

doentes à beira do espaço

neste lugar o salto

é para dentro da morte

Enquanto metade dorme

na outra há a hora de ponta

para levantar das nuvens

o corpo levado nos sonhos

Neste lugar de biliões de habitantes

no princípio talvez não fosse

preciso ter sono azul

para ninar sofrimentos sujos

Houve tempo em que os habitantes

quase de nada sabiam

e era solução ser puro

como o retrato dos anjos.

Sunday, June 10, 2007

Wednesday, May 30, 2007

Um Clássico

Um dos grandes sonetos (de métrica alexandrina) da Literatura Evangélica,
de Mário Barreto França



SER CRENTE

Ser crente é descansar, num Deus que é caridade,
A esperança que alenta e a fé que nos redime;
É sentir dentro d'alma essa doce vontade
De semear o bem, de combater o crime...

Ser crente é refletir de Jesus a humildade
Para os outros vivendo em renúncia sublime;
É ter sempre um consolo à dor que ao peito invade,
É ter sempre um conforto à tristeza que oprime...

Ser crente é conquistar para Deus que perdoa,
De uma existência má para uma vida boa,
O coração que sofre ao peso de um labéu.

Ser crente é possuir como prêmio fecundo
O encanto de viver e ser feliz no mundo,
A glória de morrer e ser feliz no céu.

Wednesday, May 23, 2007

Passagem para o Céu



O Pr.Carlos Baptista, Director da revista «Novas de Alegria», amigo pessoal há três décadas, morreu. Morreu jovem. Foi chamado por Deus, a Quem serviu, sobretudo, nas áreas da comunicação social, teatro evangélico, poesia, etc. Desde o dia 18 de Maio que as pessoas, os lugares, as coisas literárias, onde colocava os seus olhos, estão hoje vazias.
A minha homenagem radica no espírito deste blog: papéis na gaveta. Com efeito, há 30 anos que guardava nos meus arquivos 17 folhas-autógrafo com poemas manuscritos do Carlos Baptista, enviados por ele. Provavelmente com a possibilidade de datação ecdótica de 1975(?). É uma dessas folhas que deixamos acima, como saudade!

Thursday, May 10, 2007

O Factor Bezerro de Ouro


O FACTOR BEZERRO DE OURO

BlockquoteO episódio do Bezerro de Ouro poderia ter representado, dramaticamente, o fim da história dos hebreus, salvaguardadas as devidas proporções quanto ao uso daquela designação dos finais do século XX.
No que diz respeito àquela expressão-o Fim da História-, que representa o fim dos processos históricos caracterizados como processos de mudança, é óbvio que não se pode aplicar ao incidente do Bezerro de Ouro. Nem as ideologias socialista e comunista, nem Fukuyama, nem o capitalismo, existiam ainda.
Não se daria, portanto, a queda de nenhuma ideologia, aconteceria, sim, uma aniquilação pura e simples de todo um povo, com a sua religião, a sua economia, a sua sociedade, a sua cultura próprias.
Provenientes de um sincretismo pagão, por assim dizer, estavam agora de posse da Ideia do Deus Único, e deveriam pautar sua cultura, sua conduta social, sua economia e, acima de tudo, a sua religião, subordinando-as à Revelação do Deus Único.
Esse momento de ruptura com a Revelação, esse episódio dramático de idolatria, acabou por dar lugar a outra coisa, ao tremendo paradigma do Perdão.
(Artigo em preparação para Portal Evangélico e revista Novas de Alegria)

Sunday, April 29, 2007

Prémio Cervantes 2007

UN ÁNGEL GÓTICO

Inmóvil, claramente
inhumano en la
pura catedral
vive un ángel.
Un ángel no tiene ojos.
Un ángel no tiene sangre.
Él no vive en la vida, él no vive
en la muerte, él está
vivo en la belleza.

(Antonio Gamoneda)

Thursday, April 26, 2007

A pressa do Cântico Negro

José Régio escreveu versos nos quais é evidente o tempo poético.
Vagaroso, no deslizar de alguns dos seus poemas mais conhecidos, triturou o tempo com repetições - «Toada de Portalegre»-, ou foi demasiadamente rápido, como nos primeiros versos de um dos poemas maiores da nossa língua - «Cântico Negro».
Situado entre o presencismo intimista e uma espécie de neo-realismo com preocupações de ordem social, é, do meu ponto de vista, um poema estruturado entre a psicologia e a religião.
Os poemas de Régio distinguem-se por isso mesmo, ficam entre a categoria telúrica e a religiosa.
Com efeito, o poema «Cântico Negro», que marcou a recusa à imposição, ao assédio, pelos vistos insistente, do «Vem por aqui», é, sem dúvida, um desses em que o intimismo e a dúvida do poeta cede psicologicamente à pressão do telúrico, das raízes da terra, deslizando pelo religioso, mas com uma força e violência tais, que nos parece ter afastado Régio de toda a sua religiosidade.
Assim o entendemos na indiferença da apoteose dos versos finais do célebre poema:Não sei por onde vou. / Não sei para onde vou. /Sei que não vou por aí.
Contudo, é no desenvolvimento contextual dos primeiros versos do poema em causa, que se acentua a pressa do poeta de Vila do Conde. Pressa em se afastar do ponto de viragem, no qual o assediam a entrar e em cujo caminho quase o obrigam a seguir, usando olhares doces, segundo a crítica do Poeta:
Quando me dizem «vem por aqui!»Eu olho-os com olhos lassos,(...)E cruzo os braços, E nunca vou por ali.
Não há elipses na linguagem, nem tautologias, regressos ao princípio, nestes seus versos, repetições tais como em «Portalegre cidade do Alto Alentejo».
Eles fogem às pressões que rodeavam o poeta, resistem ao chamamento de quantos pareciam ter moralidade e ciência bastantes para o aconselhar.
Este poema é, sobretudo, um poema de fuga, e fuga em frente. E o rasto que deixa é um claro desafio aos homens e uma espécie de pugna com o Divino, como a luta de Jacob com o Anjo no Vau de Jaboque.
A pressa da fuga, detectamô-la no oitavo verso, por uma categoria gramatical tão simples quanto o comum advérbio de lugar.
Veja-se a distinção e o tempo a fluir, o tempo que não se compadece com indecisões, no momento preciso em que o chamam: Vem por aqui ( por este lado); mas Régio continua a afastar-se da proposta, seguindo o seu próprio caminho, não reconhecendo autoridade àqueles que o assediam, e afirma, já distante: E nunca vou por ali.
Entre o «aqui» e o «ali» existem um universo e um tempo de coisas indizíveis. Ou apenas um minuto de permanente rebeldia poética. (c) J.T.Parreira

Monday, April 23, 2007

O Bom Samaritano

Tive fome de pão e puseste a minha mesa
numa toalha em linho derramada
a sede, tive-a como um dia quente
a ondular entre os lábios e a água
e ungiste meu corpo com um óleo
quando a noite oxidou as minhas chagas
estive ao frio e teus vestidos coloriram
a palidez da minha carne nua
e na tua cama inclinei os meus ouvidos
os teus móveis abriram gavetas
para os meus cristais de chuva.

Sunday, April 22, 2007

Artigo a sair em «Novas de Alegria» e no...

Portal da Aliança Evangélica.


Blockquote OU ISTO...OU AQUILO

Absortas com os desafios da contemporaneidade, tais como o individualismo, o excesso do consumo e o da tecnologia, a ética hedonista e o relativismo religioso, que são poderes no mundo contemporâneo, as pessoas esquecem-se que o sincretismo actual não privilegia a escolha(…)A hiper-modernidade – a expressão do agrado do filósofo judeu-francês Giles Lipovetzy - admite e ensina que com tudo se pode conviver, tudo se pode aceitar, desde que tudo se coloque sob os olhos do relativismo.