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E chegaram à montanha
do meio-dia
Elevaram-lhe o coração
como um ninho
para o mundo
E crucificaram-no ali,
as palmas das mãos
Tingiram-se de sangue sob
os cravos
Os pés enfim
descansariam
E os seus lábios então
silenciosos
Rejeitaram a mirra com
o vinho, viu
Lançarem dados para
dividir os seus vestidos
A sua respiração
rasgava ainda o peito nu
Já na morada dos seus
olhos a luz débil
E viram-no como ovelha
vigilante
Na hora de morrer,
subiu como raiz
Da terra sequiosa, sem
beleza
Rumo a Deus.
27/03/2018
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Papéis com apontamentos de um percurso de cinquenta anos de pensamento evangélico, desde 1964. Este Blog não respeita o Acordo Ortográfico
Friday, March 30, 2018
UMA PAIXÃO SEGUNDO MATEUS
Wednesday, March 07, 2018
MULHER
“Fragile,
opulenta donna, matrice del Paradiso”
Alda
Merini
Não és assim tão frágil como dizem
Aqueles que espreitam ainda através
Das árvores do Paraíso, depois de tudo
O que se passou és um grão de dor
Nos olhos de Deus, o teu sexo fraco
- ainda dizem, É mais forte do que o nosso
A maravilha é que tu sabes chorar
E são as tuas lágrimas que ainda regam a terra.
07/03/2018
©
Sunday, January 07, 2018
LITERATURA DO HOLOCAUSTO: PRIMO LEVI E VIKTOR FRANKL
O homem que é fundido na massa, que num campo de concentração não deveria dar nas vistas dos guardas SS, não sobressair em nada, tornar-se apenas num incógnito para tentar sobreviver algum tempo, é a temática de dois livros coincidentes.
“Se Isto é Um Homem”, de Primo Levi, e, de Viktor Frankl, “Um psicólogo no campo de concentração”.
Não há grandes mudanças nem novidades nas análises psicológicas dos deportados e encarcerados nos campos de concentração nazis de Auschwitz-Birkenau que o psicólogo Victor Frankl e o escritor e poeta Primo Levi fizeram, a partir do mesmo destino nesses campos, porque eram judeus.
O elemento comum que já a filósofa judia Hanna Arendt identificara, é a despersonalização dos indíviduos, o tornar os judeus, sobretudo estes, matéria descartável, abaixo de sub-humanos se cabe aqui o pleonasmo.
Um dos aspectos que Viktor Frankl evidencia no seu livro, no que concerne à despersonalização do indíviduo, é, por exemplo, o facto da nudez. É a primeira realidade dos prisioneiros que chegavam ao campo e antes de entrarem para um suposto duche nas câmaras de gás, o que significava não apenas “o não ter nada no corpo”, mas também o homem e a mulher intuírem ou terem mesmo a consciência de que “possuíamos apenas a nossa existência literalmente nua”.
Vão no mesmo sentido as palavras de Primo Levi, no que diz respeito à consciência de que perante os carrascos já não se tem nem corpo nem alma, podendo dizer-se o mesmo total vazio dos algozes: “Aqui recebemos as primeiras pancadas: e o facto foi tão novo e insensato que não sentimos dor, nem no corpo nem na alma. Só um profundo espanto: como se pode bater num homem sem raiva?”
Na contundente narrativa de Levi, lemos do completo despojamento de personalidade do prisioneiro judeu nos primeiros momentos entre a aglomeração num gueto, a deportação, a chegada ao Campo, o despojamento da individualidade e do pensar: “Soubéramos, com alívio, do nosso destino. Auschwitz: um nome sem qualquer significado, naquela altura e para nós; mas certamente devia corresponder a um lugar desta Terra.”
Do outro lado, da parte dos executores do maléfico plano de Eichmann, a chamada Solução Final que deveria eliminar a judiaria europeia, a própria despersonalização era evidente, já nem seria ideológica, era apenas a prossecução do Mal. Quantos mais “números” de uma raça tido como inferior e sem direito a existir eliminassem, tanto melhor. Nenhum dos guardas dos campos de concentração nazis era um burocrata, era tão só manobrador de uma maquinaria de morte, limitava -se a cumprir ordens, sim, mas tinha com certeza prazer nos sofrimentos que estava a infligir aos prisioneiros judeus e não apenas a estes? Os guardas e os oficiais SS estavam presentes e eram os agentes do Mal, ao contrário da banalidade entrevista na atitude de Adolfo Eichmann, julgado em 1962 e enforcado. Eram apenas monstros.
Monstros com consciência do Mal, do prazer em praticar o mal com uma razão, talvez por isto Hanna Arendt, judia, foi detestada pelos judeus porque viu em Eichmann, durante o julgamento deste, um homem banal. Um homem- nada.
Em Auschwitz, que é o cenário realíssimo de ambos os livros referidos, o ambiente era niilista. A vida humana estava reduzida ao Nada. Num lugar sustentado e representado pelo Nada.
Mas uma afirmação do filósofo alemão, Heidegger (1889-1976), não inibe esse Nada de responsabilidades: “Nada é sem razão”, escreveu em “Le principe de raizon” (Galimard, 1962).
Tudo tem uma razão para existir, nenhum efeito é espontâneo, tem sempre uma causa. Não foi o destino nem foram os deuses que fecharam para sempre num campo de concentração e extermínio judeus e outro género social de pessoas. O Prometeu, do grego Ésquilo, roubou aos deuses para auxiliar os homens, teve portanto uma causa para a razão do seu sofrimento, acorrentado a um penhasco, sofrendo tempestades e o fogo do sol ardente. Como em Auschwitz, as razões não tiveram sentido. Partiram de uma mentira, no que concerne aos judeus da Europa de Leste e Central até França. Alguém escreveu (o filósofo Wittengstein) que “a consciência de que se está a mentir é um poder ”. Foi isso que os SS exerceram em Auschwitz.
Primo Levi e Viktor Frankl narram não só o Mal, mas também não procuram nenhuma Razão, porque ela ali não tem sentido algum. E não o fazem sequer do ponto de vista filosófico, mas físico e psicológico.
Em ambos os livros há a sem razão de se morrer antes do tempo determinado, segundo o pensar humano, por exemplo no “Se isto é um homem”, Levi, escreve: ” Assim morreu Emília, que tinha três anos (ao desembarcar no Campo); porque aos alemães parecia evidente a necessidade histórica de matar os filhos dos Judeus”.
A imagem sem razão da morte estava sempre presente, até no simples facto “civilizado” do soldado SS perguntar às suas vítimas se não tinham dinheiro ou relógios para lhe dar, dado que elas “já não iriam precisar deles”.
Viktor Frankl tenta explanar este aspecto de um ponto de vista psicológico, usando esse instrumento para ver o que estava dentro da mente dos judeus. O autor propõe que a “ reacção do prisioneiro ao entrar num campo de concentração pressupõe um estado de ânimo anormal “, a propósito das reacções anormais das vítimas do Holocausto. Primeiro um “estado de choque”, que passa depois para ”uma relativa apatia” e, finalmente, “chega a uma espécie de morte interior”
As diferenças que se complementam entre os dois livros, residem em que no de Primo existe a despersonalização do individuo para a Morte, no de Frankl a despersonalização pela experiência do trabalho forçado, sem esperança, e que não livrava da Morte.
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Friday, December 08, 2017
DEPOIS DO NATAL
Depois da Festa e depois
mais tarde
Dos pés adormecerem
No manto frio da noite no deserto, dos anjos
Que vieram depois trazer o pão do céu
E de nas margens do Jordão dar o exemplo
Da ressurreição e o baptismo da angústia
No Getsémani e de saber que um Deus
Pode suar gotículas de sangue, às vezes
Pensou no colo e no ventre da mulher
Que o trouxe ao mundo, depois do Natal
Mais tarde envolveria o seu corpo na mortalha
Outra vez no colo e nas mãos trémulas de Maria.
08/12/2017
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Wednesday, November 01, 2017
Monday, October 30, 2017
O ÚLTIMO SALMO
Por que caminhamos para a morte
Como ovelhas para o matadouro?
Por que fomos desamparados
Pelos pastores, como aqueles de quem
Os homens escondem o rosto?
Por que não fizeram de nossos filhos
Caso algum? Onde estava a assistência
Do mundo, o nosso quinhão dos verdes pastos
Só a lama onde houve ribeiros tranquilos
Quando caminhamos juntos, como ovelhas
Para o mercado da morte?
30/10/2017
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Sunday, August 27, 2017
A PROBABILIDADE DE SER POEMA
«Eν ἀρχῇ ἦν ὁ λόγος, καὶ ὁ λόγος ἦν πρὸς τὸν θεόν, καὶ θεὸς ἦν ὁ λόγος.»
Após séculos de discussão
sobre o chamado problema da autoria do Quarto Evangelho, era moda na Alta
Crítica dizer que o Jesus de João era o produto de um processo teológico
oriundo da própria Igreja Primitiva, querendo negar assim a autenticidade
histórica do autor João e do seu acompanhamento do Mestre, como um dos Doze. A
era da crítica acadêmica foi aberta com os trabalhos de K.G. Bretschneider (
1776-1848) no que concerne a autoria de Evangelho. Bretschneider questionou na
sua obra sobre o Evangelho de João a probabilidade autoral ( in “Probabilia”).
Um paradoxo para chamar a
atenção da própria a autoria apóstólica desse Evangelho, argumentando, pelo
menos, sobre a topografia do autor que ele não poderia ter vindo da Palestina.
Seguindo Hegel, houve também quem no século XVIII considerasse o Quarto
Evangelho como um trabalho de síntese, isto é, do género de tese e antítese. O
Evangelho de João foi chamado de “Evangelho Espiritual”, mas nunca um evangelho
filosófico, ainda que iniciando-se de um modo que agradaria aos gregos.
Tais discussões sobre a
autenticidade autoral estão agora mais serenas. Ainda bem porque podem abrir
outros caminhos mais interessantes, deslocando-se para o que parece ser um
poema inicial o Prólogo joanino.
É dado como historicamente
certo que o Prólogo tenha sido uma necessidade para dar resposta às grandes
questões do espírito no que concerne ao Cristianismo versus Filosofias
gnósticas do Século I.
Estruturalmente, ele surge
como um prefácio, mas as raízes de um certo lirismo, senão na forma pelo menos
na fonética e no ritmo, estão lá.
No início do comentário ao
Evangelho Segundo João, o tradutor de “Biblia - Novo Testamento” e dos “Quatro
Evangelhos”, Frederico Lourenço afirma que “o texto grego (o Prólogo) não é um
poema”.
De facto, a poesia em língua
grega do Século I era, entre outros requisitos da poética, reconhecida pelas
unidades rítmicas, o que não é o caso do 1º verso, mas o nosso ouvido – também
afirma FL- reconhece uma certa musicalidade, um certo ritmo pela combinação de
algumas palavras. Lido o versículo em causa, quer na língua grega, quer na
nossa própria língua, há um ritmo inegável.
No que diz respeito ao texto
grego, aprecie-se o primeiro grupo (Ἐν ἀρχῇ ἦν ὁ λόγος) que é combinatório com
a última expressão (καὶ θεὸς ἦν ὁ λόγος) Esta última linha completa a primeira,
à qual regressa.
“No princípio era o Lógos /
(…) / E era Deus o Lógos”. Expressão nossa para não fugir à melopeia e à quase
poética pelo ritmo. Existe aqui uma unidade rítmica e melódica, uma linha de
poema. No fundo o verso (versu, vertere), na sua concepção milenar, acaba por
ser uma tautologia, algo que começa e retorna ao ponto inicial, porque verso
designa um movimento de regresso.
Contudo, quer este verso
inicial quer todo o conjunto do Prólogo joanino não é, como se chegou a pensar,
um poema para agradar ao Gnosticismo. Nem visto apenas à superfície do texto,
nem atomisticamente.
Uma quantidade imensa de
material riquíssimo é o que encontramos nos primeiros 18 versículos do Prólogo
de João.
A “Encyclopedia Americana
resume, no que concerne ao Prólogo, várias páginas de douta e vasta
bibliografia sobre o tema, e afirma a influência grega que o Evangelista teve,
tornando-se evidente que “os primeiros versos são obviamente um poema à maneira
dos Estóicos”. É, contudo, uma conclusão que, do ponto de vista da Poética seja
ela de Aristóteles ou, posteriormente, de Horácio, não resiste a uma análise,
como vimos, dos constituintes do poema. Mais certo será afirmar que o Prólogo
se apresenta sob a forma de “um hino cantado na comunidade joanina (em Éfeso?),
antes de ter sido colocado como início do Evangelho”. A beleza e a estética dos
primeiros cinco versos (1-5 inclusivé), estão lá, porque abrem as portas da
Eternidade para dar passagem ao Verbo ou Lógos que vem até ao Homem, até a
pungência do Tempo. ©
Monday, July 31, 2017
A MULHER DE LOT
Presa a alguns vestidos, os únicos
Que a pressa arrancou de casa, sonâmbula
Na fuga da destruição, e indecisa
Entre um lugar e outro, um olhar e outro
Para trás onde a casa começa a derruir
Um rio de lava a morrer nos olhos
E a estrada em frente
O que pesa nos seus olhos
Que a levou ao fundo, um olhar para trás
E tornar-se um marco no caminho?
Um corpo salgado aonde as aves vão
Debicar o sal e deixar rastos de plumas
No corpo da mulher de Lot nenhuma vida
Agora se repete, é uma língua morta.
30/07/2017
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Wednesday, June 28, 2017
CASA DE ORAÇÃO
“Vês estas
grandiosas construções? Não deve ser aqui deixada
Pedra sobre
pedra que não seja desmoronada”
Marcos, 1, 2
Quando fechares um dia as tuas portas
não será porque a noite
desceu o véu translúcido sobre as coisas
Ou porque te falte o amor
para acolher os
homens e mulheres perdidos
será porque a bagagem estava pronta e Ele veio.
Há sinais que o mundo ignora, o sangue
nas estrelas, a qualquer hora os mares
podem erguer-se do seu profundo leito
e os sismos
que abrem fendas nas nossas arquitraves
Quando fechares as tuas portas
será porque à hora mais inesperada
os relógios deixarão de ter valia
virá Aquele por
quem anseia a nossa alma
A qualquer hora da noite nos levantaremos
a qualquer hora do dia, subiremos de repente
pelo algodão das nuvens
e a casa de oração fechará as suas portas
E quem entrar, porque perdeu a noção da hora
encontrará cadeiras e talvez algumas mãos vazias
quando vier
Aquele que se espera
haverá um silêncio assombrado que passa
nos olhares dos homens
baterão com insistência à tua porta
Mas será o silêncio de Deus que encherá
para sempre os cantos mais recônditos
mesmo os mais iluminados desta casa.
16/6/2017
©
Saturday, April 15, 2017
MARIA MADALENA
Germain Filon, (1537-1590) The Ressurrection, no Louvre
Maria Madalena seguiu o
rasto do perfume
do seu Amor e chega cedo ao
sepulcro
Maria Madalena ouvia
cada sombra do caminho e
esperava do fundo
do sepulcro o silêncio
matinal, onde queria
entrar docilmente com
perfumes
levava nos seus olhos a
tristeza
de flores minúsculas à chuva
o seu coração carregava uma
dúvida
Mas se a morte existe
é porque depois existe a
vida.
15-04-2017
©
Thursday, April 06, 2017
Wednesday, March 22, 2017
NEGAÇÃO
(The Denial of St.Peter, Rembrandt)
Pedro disse um não, depois disse outro
Sílabas pequenas de pronomes
Disse eu não, disse três vezes e a voz
Vinha de longe, do
instinto de preservação
A sua negação se fosse castigada
Como a mulher de Lot
Daria uma estátua de sal
Nessa noite
As sombras dos vultos à volta da fogueira
Faziam ruídos, para dentro do silêncio
Do discípulo, um
galo cantaria.
21-03-2017
©
Monday, March 20, 2017
BATESEBA
(Francesco Hayez)
Vestida de água, lavavam-lhe o corpo
Com dedos cautelosos, deixou de lado
Um vestido azul, estampado com ouro
De flores amarelas
Bateseba lavava no corpo os recantos
Mais puros de ser mulher, alheia aos dardos
De um lampejo nos
olhos de David
Uma pomba
Espreguiçava a sombra e o ócio
Num ramo de
acácia.
20-03-2017
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Thursday, March 09, 2017
A ESCRITA
Que escrita inefável na terra
Ainda hoje intransponível, nenhuma
Teologia a contém, as palavras seriam
Em si mesmas gritos, memórias
Da luz em que se move a eternidade
Formas invisíveis do diálogo com Deus Pai
O chão foi permeável ao segredo. Fechado
O Amor até ao dia em que subiu ao Gólgota.
Caiam as palavras desde o fundo da alma.
09-03-2017
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Thursday, December 15, 2016
AS FAMÍLIAS FELIZES DAQUI E DALI
“As famílias felizes parecem-se todas; as famílias infelizes são-no cada uma à sua maneira.”
Este é o início de “Ana Karenine” (1878) e uma das introduções mais famosas da literatura mundial. É um romance sem materiais plásticos de grande exterioridade, apesar da exuberância do estilo realista “art nouveau” russo.
Obra de arte, realismo literário, o maior romance já escrito, é tudo isso e o mais que a crítica pôde e poderá vir ainda a aduzir. Ana Karenine é, sobretudo, um romance saga onde se começa com um grande amor e uma maior compreensão pela humanidade, evidenciada nas famílias, por parte do autor russo, quiçá por experiência pessoal de um casamento repleto de perturbações e brigas. No entanto, contra-natura do quadro familiar normal, Ana Arkadyevna Karenine, é esposa e amante simultaneamente, esposa de Karenin e amante de Vronsky.
Isto e a hipocrisia determinariam e contaminariam todo o romance, se Leão Tolstoi não alertasse o leitor, desde o incipit do mesmo, para o facto de todas as famílias infelizes, ainda que no meio de uma felicidade aparente, hoje dir-se-á de rede social e revista cor-de-rosa, o serem cada uma à sua maneira. Heidegger disse uma frase que também resume o início de "Ana Karenine":
"Trazer à luz aquilo que na maior parte das vezes se oculta naquilo que se mostra."
Tolstoi disse-o de outro modo, não podendo dourar a pílula. Claro que tudo é aurifulgente neste romance, beleza, riqueza, popularidade, ou mesmo conjugalidade/fidelidade mal resolvida.
Depois deste grande romance, só houve uma antítese na literatura mundial, já no século XX, “As vinhas da Ira”, de John Steinbeck.
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Este é o início de “Ana Karenine” (1878) e uma das introduções mais famosas da literatura mundial. É um romance sem materiais plásticos de grande exterioridade, apesar da exuberância do estilo realista “art nouveau” russo.
Obra de arte, realismo literário, o maior romance já escrito, é tudo isso e o mais que a crítica pôde e poderá vir ainda a aduzir. Ana Karenine é, sobretudo, um romance saga onde se começa com um grande amor e uma maior compreensão pela humanidade, evidenciada nas famílias, por parte do autor russo, quiçá por experiência pessoal de um casamento repleto de perturbações e brigas. No entanto, contra-natura do quadro familiar normal, Ana Arkadyevna Karenine, é esposa e amante simultaneamente, esposa de Karenin e amante de Vronsky.
Isto e a hipocrisia determinariam e contaminariam todo o romance, se Leão Tolstoi não alertasse o leitor, desde o incipit do mesmo, para o facto de todas as famílias infelizes, ainda que no meio de uma felicidade aparente, hoje dir-se-á de rede social e revista cor-de-rosa, o serem cada uma à sua maneira. Heidegger disse uma frase que também resume o início de "Ana Karenine":
"Trazer à luz aquilo que na maior parte das vezes se oculta naquilo que se mostra."
Tolstoi disse-o de outro modo, não podendo dourar a pílula. Claro que tudo é aurifulgente neste romance, beleza, riqueza, popularidade, ou mesmo conjugalidade/fidelidade mal resolvida.
Depois deste grande romance, só houve uma antítese na literatura mundial, já no século XX, “As vinhas da Ira”, de John Steinbeck.
©
Sunday, November 27, 2016
POESIA DE CARLA JÚLIA
FÉ
Acordei
As
portas do rosto
Me
traziam o mar
A
imensa ausência de ser
Então
as portas se fecharam
E
o mar se fez em mim
Regurgitando
em minhas pálpebras
Como
se tivesse perdido a âncora da vida.
NOÉ
Rótulos
do tempo
Tomados
aos bocados por seus cabelos
Em
seus olhos cabia apenas o dilúvio
Que
lhe envolvia
Como
pescador de lembranças.
Nas
entranhas da tenda
Se
desfazia dos nós da vida
Entre
os cachos de vinho
Que
não guardaram a nudez de sua euforia.
NO
TEU SILÊNCIO
Como
se o vazio se pudesse explicar
Tento
eu escrever este poema
Lançando
pedras no rio
Da
imaginação
Para
por um instante crer que estás aqui
Ou
ali, estendendo o olhar em um fio de amor
Para
que te veja e retorne com um riso...
Mas
no final a pedra afunda
E
eu continuo aqui
Tentando
reescrever o poema
Que
no baú da graça deixei.
© Poemas de Carla Júlia, Maputo, Moçambique
Tuesday, November 01, 2016
OUVE-SE UM CHORO EM ALEPO
Um choro se ouve em Alepo
É Raquel chorando os seus filhos
Que não regressarão da escola
O grande pranto triste do fundo dos úteros
Que ficaram órfãos
Ouve-se um choro em Alepo
É Raquel a despedir-se
De si mesma.
01-11-2016
©
Sunday, August 28, 2016
ONDE DAVID PÔS OS OLHOS
Micro
conto
Do alto do terraço, que
recebe toda a luminosidade com que a tarde se espraia e demora nas varandas, David
perguntava com o olhar quem era aquela mulher.
Formosa, num despudor que
talvez não fosse inocente mas sem exibicionismos, apesar da sua beleza jovial. Deixava passar sobre o corpo, na sua leviandade, o frescor da água do banho.
David, pastor de povos,
tinha um enormíssimo rebanho, mas foi logo apaixonar-se por essa pequena
cordeira, e roubá-la ao marido.
A jovem mulher também
passava os olhos, despreocupadamente, pelo
próprio corpo, as suas mãos tocavam-no inocentes, sem ter um rasgo de lucidez que a levasse a pensar que poderia estar a
ser observada. Mas os olhares reais estão acima de qualquer leve suspeita. Um
olhar de soberano pode ser uma ordem, como foi o caso.
O vento não soprava com
força, era um leve ventar, mas os cabelos compridos de Bate-Seba, molhados, não
acompanhavam as voltas e revoltas do vento, eram ornatos negros que se moviam
apenas aos movimentos do corpo.
Fazia-se sentir, no entanto,
nos ramos das plantas ornamentais, nas
talhas douradas que adornavam o terraço.
E foi esse vento que agitou os véus e fez descobrir como, quase nua, se
lavava Bate-Seba.
Ela lavava-se não tão
inocentemente quanto possa parecer, como muitos séculos depois Pilatos, pegando
numa bacia, lavou as suas mãos diante da multidão.
28-08-2016
©
Thursday, August 18, 2016
JESUS–NO NOVO FILME “BEN-HUR”–“É UM INSTRUMENTO” ?
Quem viu há anos, ou nas sucessivas passagens nos canais de
cinema do cabo, o filme Ben-Hur, baseado no romance de Lew Wallace do século
XIX, interpretado por Charleton Heston, lembrar-se-á de que a figura de Jesus
aparecia apenas em silhueta. Embora o enredo do romance se reporte a “A Tale of
Christ”.
A nova readaptação de “Ben-Hur”, de 2016, trata a mesma história, como uma aventura desse tempo, sobretudo aventura ética e religiosa, em que os judeus têm uma palavra de supremacia moral a contrapor aos romanos, reforçando no filme o que foi o romance, classificado com algum exagero como “o mais influente livro cristão do século XIX”.
A nova readaptação de “Ben-Hur”, de 2016, trata a mesma história, como uma aventura desse tempo, sobretudo aventura ética e religiosa, em que os judeus têm uma palavra de supremacia moral a contrapor aos romanos, reforçando no filme o que foi o romance, classificado com algum exagero como “o mais influente livro cristão do século XIX”.
No que concerne à figura de Cristo no
filme épico pré-cistão de 1959, Jesus não aparecia directamente, mas apenas em
silhueta.
Neste filme de 2016, a personagem Jesus (o actor Ricardo Santoro) aparece para construir todo o sentido ao protagonista Ben-Hur e à sua transformação espiritual.
Neste filme de 2016, a personagem Jesus (o actor Ricardo Santoro) aparece para construir todo o sentido ao protagonista Ben-Hur e à sua transformação espiritual.
O actor principal, Jack
Huston, no papel de Ben-Hur, para reforçar a aparição de Jesus no filme,
valorizando com legitimidade esta mais valia do "remake" do clássico,
declarou à imprensa que a figura divina aparece porque “Jesus é um
instrumento”.
Compreende-se, embora
desajustado, o que se quis dizer com isso, é que assim o filme reforça a
mensagem cristã.
Mas Jesus Cristo não pode
nunca ser visto como um “instrumento”. Talvez, sem querer, isso explique muito
do que se passa com as “igrejas” neo-pentecostais, as IURD, e outras derivadas,
que apresentam Jesus de facto como “um instrumento” para todas as coisas:
financeiras, pseudo milagres, manipulação dos fiéis, etc.etc.
©
Friday, July 08, 2016
DISCURSO SOBRE A ÁGUA VIVA
(Alonso Cano)
Quero nomear-te e a única coisa que sei
Do teu nome é o meio-dia e o peso
Do sol sobre a ânfora
Do teu corpo, sobre a tua cabeça
Como um lençol de luz, quando procuras
Apenas a sombra
A única coisa que sei, quando te nomeio
Formosa mulher de Samaria
É a força nas tuas mãos quando levantas a água
É a antiga submissão de fêmea
Que canta o cântico plangente da sua vida.
05-07-2016
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