Sunday, November 27, 2016

POESIA DE CARLA JÚLIA





Acordei
As portas do rosto
Me traziam o mar
A imensa ausência de ser
Então as portas se fecharam
E o mar se fez em mim
Regurgitando em minhas pálpebras
Como se tivesse perdido a âncora da vida.



NOÉ

Rótulos do tempo
Tomados aos bocados por seus cabelos
Em seus olhos cabia apenas o dilúvio
Que lhe envolvia
Como pescador de lembranças.
Nas entranhas da tenda
Se desfazia dos nós da vida
Entre os cachos de vinho
Que não guardaram a nudez de sua euforia.


NO TEU SILÊNCIO

Como se o vazio se pudesse explicar
Tento eu escrever este poema
Lançando pedras no rio
Da imaginação
Para por um instante crer que estás aqui
Ou ali, estendendo o olhar em um fio de amor
Para que te veja e retorne com um riso...
Mas no final a pedra afunda
E eu continuo aqui
Tentando reescrever o poema
Que no baú da graça deixei.




© Poemas de Carla Júlia, Maputo, Moçambique

Tuesday, November 01, 2016

OUVE-SE UM CHORO EM ALEPO



Um choro se ouve em Alepo
É Raquel chorando os seus filhos
Que não regressarão da escola

O grande pranto triste do fundo dos úteros
Que ficaram órfãos

Ouve-se um choro em Alepo
É Raquel a despedir-se
De si mesma.

01-11-2016
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Sunday, August 28, 2016

ONDE DAVID PÔS OS OLHOS

Micro conto 


Do alto do terraço, que recebe toda a luminosidade com que a tarde se espraia e demora nas varandas, David perguntava com o olhar quem era aquela mulher.
Formosa, num despudor que talvez não fosse inocente mas sem exibicionismos, apesar da sua beleza jovial.  Deixava passar sobre o corpo, na sua leviandade,  o frescor da água do  banho.
David, pastor de povos, tinha um enormíssimo rebanho, mas foi logo apaixonar-se por essa pequena cordeira, e roubá-la ao marido.
A jovem mulher também passava os olhos, despreocupadamente,  pelo próprio corpo, as suas mãos tocavam-no inocentes,  sem ter um rasgo de lucidez  que a levasse a pensar que poderia estar a ser observada. Mas os olhares reais estão acima de qualquer leve suspeita. Um olhar de soberano pode ser uma ordem, como foi o caso.
O vento não soprava com força, era um leve ventar, mas os cabelos compridos de Bate-Seba, molhados, não acompanhavam as voltas e revoltas do vento, eram ornatos negros que se moviam apenas aos movimentos do corpo.
Fazia-se sentir, no entanto, nos ramos das plantas ornamentais,  nas talhas douradas que adornavam o terraço.  E foi esse vento que agitou os véus e fez descobrir como, quase nua, se lavava Bate-Seba.
Ela lavava-se não tão inocentemente quanto possa parecer, como muitos séculos depois Pilatos, pegando numa bacia, lavou as suas mãos diante da multidão.

28-08-2016
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Thursday, August 18, 2016

JESUS–NO NOVO FILME “BEN-HUR”–“É UM INSTRUMENTO” ?



Quem viu há anos, ou nas sucessivas passagens nos canais de cinema do cabo, o filme Ben-Hur, baseado no romance de Lew Wallace do século XIX, interpretado por Charleton Heston, lembrar-se-á de que a figura de Jesus aparecia apenas em silhueta. Embora o enredo do romance se reporte a “A Tale of Christ”.
A nova readaptação de “Ben-Hur”, de 2016, trata a mesma história, como uma aventura desse tempo, sobretudo aventura ética e religiosa, em que os judeus têm uma palavra de supremacia moral a contrapor aos romanos, reforçando no filme o que foi o romance, classificado com algum exagero como “o mais influente livro cristão do século XIX”.
No que concerne à figura de Cristo no filme épico pré-cistão de 1959, Jesus não aparecia directamente, mas apenas em silhueta. 
Neste filme de 2016, a personagem Jesus (o actor Ricardo Santoro) aparece para construir todo o sentido ao protagonista Ben-Hur e à sua transformação espiritual.
O actor principal, Jack Huston, no papel de Ben-Hur, para reforçar a aparição de Jesus no filme, valorizando com legitimidade esta mais valia do "remake" do clássico, declarou à imprensa que a figura divina aparece porque “Jesus é um instrumento”.
Compreende-se, embora desajustado, o que se quis dizer com isso, é que assim o filme reforça a mensagem cristã.
Mas Jesus Cristo não pode nunca ser visto como um “instrumento”. Talvez, sem querer, isso explique muito do que se passa com as “igrejas” neo-pentecostais, as IURD, e outras derivadas, que apresentam Jesus de facto como “um instrumento” para todas as coisas: financeiras, pseudo milagres, manipulação dos fiéis, etc.etc.
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Friday, July 08, 2016

DISCURSO SOBRE A ÁGUA VIVA

(Alonso Cano)


Quero nomear-te e a única coisa que sei
Do teu nome é o meio-dia e o peso
Do sol sobre a ânfora
Do teu corpo, sobre a tua cabeça
Como um lençol de luz, quando procuras
Apenas  a sombra
A única coisa que sei, quando te nomeio
Formosa mulher de Samaria
É a força nas tuas mãos quando levantas a água
É a antiga submissão de fêmea
Que canta o cântico plangente da sua vida.

05-07-2016

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Sunday, May 22, 2016

SALMO PROFANO





(Gueto de Lodz, 1942)



Não, para além do vale da sombra da morte
Vais andar,  da estrela de seis pontas a golpes
De chicote, da auto negação
Do respirar o vácuo em vagões de gado
Até aos pulmões cheios de gás, Sulamita
Não, os teus cabelos não são os loiros
Cabelos de Margarete, nem os teus filhos
Dádivas de Deus,  ao teu corpo nu
 e à cabeça calva voltariam os carrascos
A esmagar a tua face contra o lodo
Não,  estiveste sempre sob o fumo
E as cinzas  que caiam e subiam de Auschwitz.

20-05-2016

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Tuesday, May 10, 2016

TRAVESSIA DO MAR VERMELHO



O  que nos movia para a margem
do mar vermelho, o desejo com asas
tranquilas e os olhos com a doce lágrima
da liberdade,
mesmo sob a febre do deserto?  Movia-nos
uma terra que não conhecíamos, ainda
perto do egipto e com os cascos dos cavalos
egípcios a partirem o silêncio sagrado do chão  
montadas e cavaleiros confiantes
na perseguição. O que movia um povo,
cujo censo estava nas estrelas, multidão escondida
para a margem do mar? A esperança juvenil dos velhos,
o útero das mulheres jovens
para darem à luz no leite e no mel
da terra prometida?

19-04-2016

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Monday, February 08, 2016

PERDÃO



“Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”, as mãos
Que chicotearam,  os punhos
Que bateram por mimese, os cravos
Que perfuraram como dedos até ao meu coração
O meu coração rasgado
onde cabem todos os homens.

08-01-2016

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Friday, January 01, 2016

ORAÇÃO FEITA PARA UM ESPELHO


Lc 18:11-12

Graças te dou, a Ti, que estás desse lado
porque não sou como os outros, A minha ganância
é comedida,  A minha  justiça é de pedra
Não sou adúltero, A não ser comigo mesmo
e com a minha beleza,  Jejuo
para fazer compreender ao pobre que a fome
nos disciplina o corpo, Dou o dízimo de tudo
dos meus dez dedos, um
é teu e serve para apontar o erro alheio, Dos outros
não há ninguém que não seja publicano.

29-12-2015

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Monday, December 07, 2015

CARLA JÚLIA, A POESIA (DITA) EVANGÉLICA EM MAPUTO




3 POEMAS


Calvário

Vamos juntos
Subamos as escadas do vento
E deixemos os pés sobre as águas.
Vamos logo
Sobre a terra passar o teu cheiro
As tuas túnicas
deixemos às almas dos homens.

Tomé

Tive a voz presa
Em grilhões de dúvidas
Da cruz, o silêncio
Entrou em sintonia com a fé
Só me sobram estes olhos
Para crer nos cravos da Palavra.

As bodas

Diz-me oh espelho
Que vêem os teus olhos
Drenarei o meu corpo nestas saias?
Ou me lançarei nos braços
Do meu vestido de neve?


 ©  Carla Júlia, Maputo

Monday, November 23, 2015

MAGNIFICAT



A minha alma é a alma de mãe aflita, Senhor
O meu espírito derrama-se nos meus olhos
Na minha humildade nada posso fazer
Senão contemplar um Filho morto, seus braços
Perderam a força, e ainda assim derrubará
Dos tronos os poderosos, suas mãos presas
Nos cravos, hão-de encher ainda de bens os famintos
Mas todo o meu útero órfão estremece sem Ele
Pudesse eu, sua serva e mãe, a minha vida
Estaria no seu lugar.

22-10-2015

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Friday, October 09, 2015

O QUE DISSE UM DOS MALFEITORES






A caminho da morte não falou,  a sua boca
reservava-se ao silêncio divino,  dentro da alma
chorava talvez. Assim vi o melhor espírito de Israel
consumido pela dor
numa cruz, vestido do seu próprio sangue
atravessando  o coração do Pai.
Ao meu lado a arrastar a voz ferida
a deixar no ar palavras de perdão.
Digo
aquela cruz não era para um Deus, eu que sou
um malfeitor a quem  Ele deu uma rua de ouro
no Paraíso.

08-0-2015

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Monday, September 07, 2015

A MÃE




Os filhos não são um eu separado das mães
Com elas ao nosso lado nós tínhamos
Um útero, um cordão
De ouro invisível, com elas ao nosso lado
Sabíamos a origem das coisas, de onde viemos
Do seu ventre encanecido, com rugas brancas
Como os cabelos, com as mães ao nosso lado
Nós tínhamos uma certidão de nascimento.

05-09-2015
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Saturday, August 15, 2015

SALMO 150 PARA HARPA E ORQUESTRA






São os dedos que louvam, procuram entre as cordas
A linha que separa o céu e a terra, um fio
De água pura que sai do sopro das flautas.

Dai-me uma harpa doce e com ela sararei
Os ouvidos nas paredes do templo,
Um dulcimer cristalino

Que na subtileza do som é um castelo forte,
Para afastar os inimigos que minam a alma.
Dai-me o brilho dos olhos dos irmãos

Quando ungem os seus lábios num cântico.
Daí-me címbalos retumbantes
Com eles racharei os muros do silêncio.

29-05-2015
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Sunday, June 21, 2015

"DEUS NÃO É CALVINISTA..."






DEUS não é calvinista, se fosse o Filho teria cometido um erro ao afirmar o que está escrito no Evangelho de João, 3,16.

Deus também não é arminiano, senão havia um erro na pregação de Paulo, no que escreveu aos Romanos, 3,23


Seja como for, o Arminianismo tal como o Calvinismo, Calvino e Armínio são muito tardios.

Deus já cá estava. ©







Friday, June 19, 2015

DEPOIS DA VIAGEM


(Murillo, "O regresso do Pródigo",  Sevilha, 1618-1682)




E, ao recebê-lo em casa, começaram as festas.
Os vestidos  retomaram a alegria das cores, há muito
Tempo tristes, um anel no dedo ilumina
As mãos escurecidas,  brilhantes sandálias
Preparam-se para caminhar
Nas nuvens,  o bezerro que estava a engordar
É a celebração, porque um filho chegou
Pelo caminho do regresso, ah o Pai
É a derradeira solução.

19-06-2015.
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Sunday, May 10, 2015

SHOAH




os faraós não o fizeram
os babilónios também não
queriam apenas que cantássemos canções
dos nossos pais, os judeus

teríamos um papel único na morte ocidental
os judeus iriam deixar de existir, gritavam
nas praças do ódio as multidões
no dorso dos cavalos das Valquírias

ficariam apenas os vestígios
dos nossos óculos cegos, dos cabelos
emaranhados de Medusa

e dos  sapatos como um monte de Sião
o nosso coração já não teria mais espaço
onde repousar  todos os mortos

10-05-2015

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Saturday, May 02, 2015

CRIME AMBIENTAL





 Anjos perdidos nas ruas das grandes cidades
Eles caminham para o fundo
Desembarcados dos barcos da fome
Com seus rostos, seus pés rotos, suas histórias
De uma cor apenas, seus braços
Enrugados com  veias expostas
À tempestade, suas unhas sujas
De procurar comida e alguns
Problemas nas ruas das grandes cidades
As frases que mais conhecem
Em qualquer língua, têm sempre um não.



13-03-2015

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Thursday, April 16, 2015

A MEDIDA





Não existe medida para o desespero...
Não existe maior ou menor,
Mais ou menos denso,
Mais ou menos acutilante.
Simplesmente, desespero...
Exalo o fôlego do último respirar
Que me adormece o corpo finalmente.
E quando inclino a minha cabeça,
Entrego nas Tuas mãos o meu ser.
Vejo toda uma obra consumada,
Todo um desespero esmagado,
O sufoco do pecado que os constrange foi desfeito!
Não doem mais os cravos, nem a coroa de espinhos me perturba.
Os risos de escárnio soam como as melodias do Céu,
Porque sei que esmagada está a víbora que me mordeu o calcanhar.
E o que lhes deixei, o que lhes deixo, o que lhes vou enviar,
Faço por causa do nosso amor por eles.
Não existe medida para o amor...
Não existe maior ou menor,
Mais ou menos denso,
Mais ou menos acutilante.
Simplesmente, ama-mo-los.

14/04/2015
© Ricardo Mendes Rosa